O Assassino Inglês
Capítulo 34
— Gosto dela.
— Se gosta dela, vai convencê-la a cancelar a apresentação em Veneza.
— Ela não vai cancelar.
— Se é esse o caso, então talvez possamos usar isso em nossa favor.
— Como?
— Sempre achei que o logro e o engano eram táticas úteis numa situação destas. Deixe-a dar o concerto dela. Mas certifique-se que seu amigo Keller não faça do recital uma experiência verdadeiramente inesquecível.
— Bom, esse é o Ari Shamron que eu conheço e adoro. Usar uma das melhores intérpretes musicais do mundo como manobra de diversão.
— Jogamos com as cartas que nos são dadas.
— Vou estar com ela em Veneza. Quero uma pessoa em quem eu confie tratando da parte de Zurique.
— Quem?
— Eli Lavon.
— Meu Deus, uma reunião da Turma de 72! Se eu fosse uns anos mais novo, reunia-me a vocês.
— O melhor é não nos entusiasmarmos. Oded e o Mordecai portaram-se bem em Paris. Também quero os dois.
— Vejo alguma coisa minha no Oded. — Shamron levantou as mãos, curtas e grossas, de pedreiro. — Ele tem mãos muito fortes. Se agarrar esse homem, ele não escapa.
34
ZURIQUE
Eva tinha insistido no apartamento caro com vista para Zurichsee, apesar de ele estar além das possibilidades do ordenado de funcionário público de Gerhardt Peterson. Durante os primeiros dez anos de casamento, tinham compensado esse défice com a herança dela. Mas agora esse dinheiro já tinha acabado e cabia a Gerhardt a responsabilidade de manter a mulher no estilo de vida a que ela achava ter direito.
O apartamento estava às escuras quando ele chegou finalmente a casa. Assim que Peterson entrou pela porta dentro, o amigável ro weiler de Eva lançou-se sobre ele, no meio da escuridão total, e atirou a cabeça, que mais parecia uma rocha, contra a sua rótula.
— Pra baixo, Schultie! Já chega, rapaz. Pra baixo! Raios o partam, Schultie!
Andou às apalpadelas pela parede e acendeu a luz. O cachorro lambia seu sapato de camurça.
— Pronto, Schultie. Vai embora, por favor. Já é mais do que suficiente. O cão afastou-se rapidamente, com as garras a fazerem barulho no chão de mármore. Peterson foi para o quarto a coxear, esfregando o joelho. Eva estava sentada na cama, com um romance de capa dura aberto no colo. Um drama policial americano estava a passar, sem o som, na televisão. Vestia um roupão de chiffon colorido. O cabelo tinha acabado de ser arranjado e ela tinha uma pulseira de ouro, no pulso esquerdo, que Peterson não reconheceu. O dinheiro que Eva gastava à superfície de Bahnhofstrasse rivalizava com os fundos que lá estavam enterrados. — O que tens no joelho? — O seu cão atacou-me.
— Ele não te atacou. Ele adora-te.
— É demasiado afetuoso.
— É um homem, como tu. Quer a sua aprovação. Se te lembrasses só de lhe dar um pouquinho de atenção uma vez por outra, ele não seria tão exuberante quando chegas a casa.
— Foi isso que o terapeuta dele te disse?
— É apenas bom senso, querido.
— Eu nunca quis o raio do cão. É demasiado grande para este apartamento.
— Ele faz com que eu me sinta segura quando estás fora.
— Este lugar é como uma fortaleza. Ninguém consegue entrar aqui. E a única pessoa que o Schultie alguma vez ataca sou eu.
Eva lambeu a ponta do dedo indicador e virou a página do livro, pondo fim à discussão. Na televisão, policiais americanos estavam arrombando a porta de um apartamento de um bairro social. Quando irromperam pela sala dentro, um par de suspeitos abriu fogo contra eles com armas automáticas. Os polícias ripostaram, matando os suspeitos. Tanta violência, pensou Peterson. Ele raramente andava armado e nunca tinha disparado em serviço.
— Como é que foi Berna?
Peterson mentira-lhe para esconder a visita que fizera a O o Gessler.
Sentou-se na borda da cama e tirou os sapatos.
— Berna foi Berna.
— Que bom.
— O que estás a ler?
— Não sei. Uma história sobre um homem e uma mulher. Perguntou a si mesmo por que se daria ela ao trabalho. — Como estão as meninas?
— Estão ótimas.
— E Stefan?
— Fez-me prometer que iria ao quarto dele dar um beijo de boa-noite.
— Não quero acordá-lo.
— Não vai acordar. Entre e beije a cabeça.
— Se eu não o acordar, que diferença vai fazer? De manhã, digo que lhe dei um beijo enquanto ele estava dormindo e ele não vai perceber nada.
Eva fechou o livro e olhou para ele pela primeira vez desde que Peterson entrara no quarto.
— Está com um aspecto horrível, Gerhardt. Deve estar esfomeado. Vai arranjar qualquer coisa para comer.
Ele foi até a cozinha silenciosamente. Vai arranjar qualquer coisa para comeres. Não se conseguia lembrar da última vez em que Eva se tinha oferecido para lhe preparar qualquer coisa para ele comer. Tinha esperado que, uma vez desaparecida a intimidade sexual entre ambos, outras coisas surgissem em seu lugar, como o prazer de partilharem uma refeição caseira. Mas com Eva não. Primeiro, ela tinha fechado à corrente a porta para o seu corpo; depois, para os seus afetos. Peterson era uma ilha na sua própria casa.
Abriu o frigorífico e percorreu o deserto de caixas de comida para levar para casa meio vazias, à procura de qualquer coisa que não se tivesse estragado ou ganho uma camada de bolor. Numa embalagem de papel com manchas de gordura, descobriu ouro: um pequeno monte de racle e de queijo, com massa e bacon. Na prateleira de baixo, escondidos por trás de uma caixa com queijo ricota verde, estavam dois ovos. Preparou-os mexidos e aqueceu a racle e no micro-ondas. A seguir, serviu-se de um copo bem cheio de vinho tinto e regressou ao quarto. Eva estava a tratar das unhas dos pés.
— Dividiu a comida com cuidado, para que cada garfada de ovo fosse acompanhada por um pouco de racle e. Eva achava que isso era um hábito irritante, o que em parte explicava porque ele o fazia. Na televisão, continuava a violência desregrada. Os amigos dos criminosos assassinos tinham vingado agora a morte dos camaradas, matando os policiais. Mais uma prova para a teoria de Herr Gessler acerca da natureza circular da vida.
— O Stefan tem um jogo de futebol amanhã. Ela soprou para os dedos.
— Ele ia gostar que tu fosses.
— Não posso. Surgiu uma coisa no trabalho.
— Ele vai ficar desiludido.
— Lamento, mas não posso fazer nada.
— O que há assim de tão importante no trabalho para não poderes ir ver o jogo de futebol do seu próprio filho? Além disso, nunca acontece nada de importante neste país.
Tenho de tratar do assassinato da Anna Rolfe, pensou ele. Perguntou a si mesmo como reagiria ela se ele o dissesse em voz alta. Pensou em dizê-lo, só para a testar — para ver se ela alguma vez ouvia uma só palavra do que ele dizia.
Eva acabou de tratar das unhas dos pés e regressou ao seu romance. Peterson pousou o prato vazio e os talheres em cima da mesinha-de-cabeceira e apagou a luz. Logo a seguir, Schultie entrou pela porta de rompante e começou a lamber os restos de ovo e gordura da preciosa porcelana, pintada à mão, de Eva. Peterson fechou os olhos. Eva lambeu a ponta do dedo indicador e virou mais uma página.
— Como é que foi Berna? — perguntou.