O Assassino Inglês
Capítulo 36
Ela esticou-se por cima da mesa e pousou a palma da mão nas costas da dele. — Às vezes, Christopher, um taddunaghiu pode fazer coisas boas. Às vezes, pode corrigir um mal terrível. Às vezes, pode administrar a justiça tanto quanto a vingança. Lembra-te das coisas que eu te disse.
— Prometo — respondeu ele.
Entregou-lhe um maço grosso de notas. Sem olhar para ele, ela disse:
— É demasiado. É sempre demasiado.
— Dás-me paz. A paz não tem preço.
Levantou-se para se ir embora, mas ela agarrou-lhe o pulso com uma força surpreendente.
— Deixa-te estar sentado aqui ao meu lado enquanto eu bebo o meu vinho. Ainda sinto falta do meu marido, sabes? Mesmo passados estes anos todos. E, assim, ficou ali sentado, a observar a luz da vela a tremeluzir nas rugas do rosto dela, enquanto ela bebia o resto do vinho. A seguir, os olhos dela se fecharam e o queixo caiu no peito.
O Inglês pegou nela, levou-a para o andar de cima e deitou-a suavemente na cama. Acordou por breves instantes. Esticou a mão e tocou com o dedo no talismã que ele tinha ao pescoço: o coral vermelho, com o feitio de uma mão. Depois, acariciou-lhe o rosto e voltou a adormecer.
Ele desceu, saiu da casa e entrou no jipe, partindo em seguida para Calvi, onde embarcou no primeiro ferry para Marselha. Quando lá chegou, foi buscar um carro que Orsati lhe deixara junto ao cais e pôs-se a caminho de Veneza.
36
VENEZA
A imprensa italiana ganhou vida. Houve uma avalanche de especulações em relação às composições que Anna Rolfe iria tocar. Iria ela tentar aquela que era a sua marca, a demoníaca sonata de Giuseppe Tartini, O Trilo do Diabo? Seguramente, especularam os jornalistas musicais, miss Rolfe não iria tentar uma composição tão difícil após ter estado tanto tempo afastada dos palcos.
Houve pedidos no sentido de transferir o recital para uma sala de espetáculos maior. Estava marcado para a sala de cima da Scuola Grande di San Rocco, que possuía apenas seiscentos lugares sentados, e a procura de bilhetes complicara-se ao ponto de se assemelhar a qualquer coisa como uma luta sem tréguas entre os venezianos mais abastados. Zaccaria Cordoni, não quis sequer contemplar a hipótese de transferir o recital, embora, numa tentativa de preservar o estatuto que vigorava em Veneza, tenha culpado habilmente Anna Rolfe. Ela tinha pedido uma sala pequena, disse, e ele era um mero prisioneiro das exigências da artista. Uma revista de inclinação socialista publicou um editorial hilariante em que se argumentava que, uma vez mais, a música tinha sido sequestrada pelas classes endinheiradas.
Exigiam-se manifestações à porta de San Rocco, na noite do concerto. Fiona Richardson, a agente e empresária de Anna Rolfe, emitiu um comunicado, em Londres, prometendo que os consideráveis honorários da apresentação de Anna Rolfe seriam doados para a preservação da scuola e das suas magníficas obras de arte. Veneza inteira suspirou de alívio perante tal gesto e a controvérsia foi baixando como a maré no fim da tarde.
Também se especulou sobre o local onde Anna Rolfe iria ficar. Gazze ino anunciou que o Hotel Monaco, o Grand Canal e o Gri i Palace estavam engalfinhados numa luta titânica para atrai-la, enquanto o Nuova Venezia deu a entender que miss Rolfe evitaria as distrações de um hotel, aceitando antes um convite para ficar num palácio privado. Como se veio a revelar, nenhum dos dois jornais tinha acertado, já que, ao meio-dia de uma sexta-feira chuvosa, na véspera do recital, Anna e Gabriel chegaram, de táxi-aquático, a uma doca privada do Luna Hotel Baglioni, estabelecimento sossegado na Calle dell'Ascencione, não muito longe da confusão de turistas da Piazza de San Marco. Anna passou pela recepção durante breves momentos e foi recebida pelo pessoal mais importante, todo aperaltado, do hotel. Apresentou Gabriel como monsieur Michel
Dumont, seu amigo e assistente. Como que para reforçar essa imagem, Gabriel fez questão de aparecer com dois violinos no hall de entrada. Num inglês com sotaque francês, reiterou que miss Rolfe desejava privacidade total. O gerente, um homem de aspecto impecável chamado Signore Brune i, assegurou-lhe que a presença de miss Rolfe no hotel seria o segredo mais bem guardado de Veneza. Gabriel agradeceu-lhe vigorosamente e assinou o livro de registro. — Miss Rolfe vai ficar na suíte Giorgione, no quinto andar. É um dos nossos melhores quartos. O seu quarto fica logo ao lado. Esperamos que estas decisões sejam do seu agrado.
— São, obrigado.
— Permita-me que eu os acompanhe até suas suítes.
— Isso não será necessário.
— Precisa de ajuda com a bagagem, monsieur Dumont?
— Não, obrigado, consigo levá-las sozinho.
— Como queira — respondeu Signore Brune i, que entregou as chaves com uma expressão de tristeza.
Num recanto escondido no sestiere de San Marco, fica o minúsculo estabelecimento comercial Rosse i & Rosse i Fine Jewelry, especializado em peças antigas e únicas. Como a maior parte dos lojistas de Veneza, todos os dias, Signore Rosse i fecha a loja para almoço à uma da tarde e reabre às quatro, a tempo do comércio de final de tarde. Ciente disso mesmo, às cinco para a uma, o Inglês tocou à campainha da porta de segurança e ficou à espera que Rosse i a abrisse.
Era uma loja pequena, não muito maior do que a cozinha da casa do Inglês na Córsega. Ao passar pela entrada, deu de cara com um mostruário de vidro, que servia de balcão, em forma de ferradura. Quando a porta se fechou atrás de si e ele ouviu o barulho da fechadura a girar, o Inglês teve a sensação de estar preso dentro de uma caixa-forte de cristal. Desabotoou o impermeável e pousou a pasta no chão de madeira já gasto.
Signore Aldo Rosse i ficou parado atrás do balcão, sem se mexer, como um lacaio, com o seu terno acinturado e sua gravata pardacenta de banqueiro. Tinha uns óculos de ler, com aros de ouro, enfiados na ponta do majestoso nariz. Atrás dele, estava um armário alto de madeira muito encerada, com gavetas rasas e pequenas maçanetas de bronze. A julgar pela postura inflexível de Rosse i, o armário bem poderia conter documentos secretos que ele tivesse jurado proteger a todo o custo. O silêncio profundo da sala era apenas interrompido pelo tique-taque de um relógio antigo. Rosse i apertou a mão ao Inglês fazendo um ar triste, como se o visitante tivesse vindo confessar pecados imperdoáveis. — Estava quase a sair para almoçar — afirmou Rosse i, e nesse preciso momento, como que para acentuar isso mesmo, o relógio antigo que estava na parede atrás dele indicou ser uma hora da tarde.
— Isto não vai demorar muito. Vim buscar o anel de sinete para o Signore Bull.
— O sinete?
— Sim, isso mesmo. — Para o Signore Bull?
Uma das seis subdivisões da cidade de Veneza.
— Penso que ele lhe deve ter dito que eu vinha a caminho. Rosse i inclinou a cabeça para trás e mirou o Inglês como se ele fosse um artigo de valor e proveniência duvidosos. Convencido, baixou a cabeça e deu a volta para sair de trás do balcão e passar o letreiro na montra de ABERTO para FECHADO.
No andar de cima, havia um pequeno escritório. Rosse i instalou-se à mesa e convidou o Inglês a sentar-se na poltroninha encostada à janela.
— Recebi ainda há pouco um telefonema de um carregador do Luna Hotel Baglioni — revelou Rosse i. — A violinista e um amigo acabaram de se registrar lá. Conhece o Baglioni?
O Inglês abanou a cabeça.
Como a maior parte dos venezianos, Rosse i tinha sempre um mapa da cidade à mão de semear, nem que fosse para ajudar um turista estrangeiro irremediavelmente perdido nas suas ruelas labirínticas. O de Rosse i tinha aspecto de ter sido comprado durante o governo do último Doge — uma coisa esfarrapada e com os cantos das páginas dobrados, com fita-cola ao longo dos vincos que se abriam, tão velho que perdera toda a cor. Abriu-o em cima da mesa, alisando-o com ambas as mãos, como se ele mostrasse a localização de um tesouro enterrado.
— O Luna Hotel Baglioni fica aqui — disse, tocando no mapa com a ponta do seu delicado dedo indicador — , na Calle dell'Ascencione, a uns passos da parada de vapore o de San Marco. A Calle del Fascencione é muito estreita, mais ou menos do mesmo tamanho do que esta rua. Há uma doca privada no Rio delia Zecca. Vai ser impossível conseguir vigiar sozinho a parte da frente e as traseiras do hotel.
O Inglês inclinou-se por cima do mapa para poder ver melhor.
— Tem alguma sugestão?
— Talvez eu consiga utilizar os meus recursos para manter a violinista sob vigilância. Se ela der um passo, posso alertá-lo.
— Tem alguém a trabalhar dentro do hotel?
Rosse i ergueu uma sobrancelha e inclinou a cabeça, um gesto neutro, que tanto podia ser afirmativo como negativo e que significava que ele não queria falar mais sobre essa questão.
— Presumo que esse serviço implique honorários extra. — Para o Don Orsati? Terei todo o prazer em fazê-lo.
— Explique-me como é que isso funcionaria.
— À volta do hotel, há vários lugares onde se pode ficar à espera sem se se chamar a atenção. A Piazza de San Marco, claro. Os cafés ao longo da Calle Marzo. O Fontamenta delle Farine, com vista para o canal.
Rosse i indicou a localização de cada um desses lugares com um toquinho suave no mapa.
— Presumo que tem um celular.
O Inglês deu uma palmadinha no bolso do casaco.
Dê-me o número e não se afaste muito do hotel. Quando eles derem algum passo, alguém lhe vai telefonar.
Sentia-se relutante em entrar numa parceria com Rosse i, mas infelizmente o italiano tinha razão. Não havia maneira nenhuma de ele conseguir vigiar sozinho o hotel. Ditou o número do celular e Rosse i apontou-o.
— É claro que há sempre a hipótese de a violinista ficar no hotel até a atuação em San Rocco — realçou Rosse i. — Se for esse o caso, não terá outra hipótese a não ser executar a missão nessa hora.
— Tem algum bilhete?
Rosse i tirou o bilhete da gaveta de cima e pousou-o com cuidado em cima do tampo da mesa. A seguir, utilizando o polegar e o indicador de ambas as mãos, arrastou-o suavemente. O Inglês pegou o bilhete e virou-o ao contrário. Rosse i olhou pela janela enquanto o seu cliente inspecionava a mercadoria, confiante de que ele a consideraria do seu agrado.
— É verdadeiro? Não é falso?
— Sim, sim, é mesmo verdadeiro, asseguro-lhe. É bem difícil de arranjar. Aliás, eu estava tentado a guardá-lo para mim. É que, sabe, sempre fui um fã dmiss. Tanta paixão. É mesmo uma pena que ela tenha de...
Rosse i interrompeu-se. — Conhece a San Rocco?
O Inglês enfiou o bilhete dentro do bolso e abanou a cabeça. Rosse i virou-se novamente para o mapa.
— A Scuola Grande di San Rocco fica aqui, do outro lado do Canal Grande, nos sestieri de San Polo e Santa Croce, ao sul da igreja Frari. San Rocco era o santo padroeiro das doenças contagiosas e a scuola foi construída inicialmente para ser uma instituição de caridade para aqueles que estavam doentes. A construção foi financiada através de doações de venezianos ricos, que acreditavam poderem evitar a Peste Negra se dessem dinheiro para a scuola. Se o assassino achou esse pedaço da história de Veneza minimamente interessante, não deu qualquer sinal disso. Sem se deixar desanimar, o pequeno joalheiro italiano juntou os dedos e prosseguiu a palestra.
— A scuola tem dois pisos principais, a sala do rés-do-chão e a sala de cima. Em 1564, encomendaram a Tintore o que pintasse as paredes e os tetos dos edifícios. Demorou vinte e três anos até terminar essa tarefa.
Parou por um momento, para refletir sobre isso mesmo, e a seguir acrescentou: — Consegue imaginar um homem com uma paciência dessas? Não gostaria nada de ter de medir forças com um homem assim.
— Onde é que vai ser o concerto? Na sala do rés-do-chão ou na sala de cima? — Na sala de cima, claro. O acesso é feito através de uma escadaria de mármore desenhada e construída por Scarpagnino. Lá dentro, as paredes estão decoradas com pinturas da Peste Negra. É bem comovente.
— E se eu for obrigado a executar a missão dentro da sala de cima? Rosse i levou até a boca os dedos unidos e sussurrou uma súplica quase silenciosa. — Se não tiver outra hipótese, então não vai encontrar dificuldades em descer pela escadaria e sair pela entrada da frente. Daí, pode sumir-se no meio das ruelas de San Polo e ninguém o vai encontrar.
Parou por uns segundos e a seguir acrescentou:
— Mas, enquanto veneziano, rogo-lhe que arranje outra maneira Seria uma tragédia se danificasse um dos Tintore o.
— Fale-me da zona em redor de San Rocco.
— A igreja e a scuola partilham a mesma praça. Por trás delas, fica um canal, o Rio della Frescada, que dá acesso às duas estruturas. Miss Rolfe só tem duas formas de chegar a San Rocco na noite do concerto, a pé ou de táxi-aquático. Se for a pé, vai estar exposta durante um grande período de tempo. E, a certa hora, também vai ter de atravessar o Grande Canal, ou por vapore o ou por traghe o.
— E ela não pode atravessar por uma ponte? Rosse i pensou bem antes de responder.
— Suponho que seja possível ela atravessar a Ponte Rialto ou a Ponte Academia, mas isso significaria estar a aumentar imenso o percurso a fazer. Se eu fosse um homem dado ao jogo, apostaria que miss Rolfe vai apanhar um táxi-aquático diretamente da doca do hotel para a San Rocco.
— E se ela fizer isso?
— O Rio delia Frescada é um canal muito estreito. Há quatro pontes entre a entrada no Grande Canal e o desembarque na San Rocco. Não lhe vão faltar oportunidades. Como se costuma dizer, será canja.
O Inglês lançou um olhar de desdém ao italiano, como que a querer dizer que nenhum trabalho podia ser descrito de forma tão básica, sobretudo quando o alvo estava sob a proteção de um profissional.
— O Don Orsati disse que você ia precisar de armas. Uma pistola e talvez qualquer coisa com um pouquinho mais de poder de fogo, para o caso de as coisas não correrem conforme planeado.
Rosse i levantou-se e arrastou os pés pelo chão, em direção a um cofre-forte antigo. Abriu o fecho e depois as portas pesadas. Tirou de lá de dentro uma mala de diplomata, pousou-a em cima da mesa e sentou-se novamente. Abriu a mala, tirou dela duas armas, cada uma embrulhada numa proteção de feltro, e colocou-as em cima da mesa. Desenrolou a primeira e passou-a ao Inglês: uma Tanfolglio Modelo S de nove milímetros, com um cano todo preto e uma coronha em madeira de nogueira. Cheirava a óleo de arma limpo. O assassino puxou a culatra, sentiu o peso e o equilíbrio da pistola e observou o cano pela mira.
— Tem um carregador com quinze balas e o cano mais comprido faz com que ela seja muito certeira — explicou Rosse i. O seu bilhete para o concerto é para a penúltima fila. Lamento, mas foi o melhor que pude arranjar. Mas mesmo a uma distância dessas, um homem com o seu treino não deverá ter qualquer dificuldade em acertar no alvo com a Tanfolglio.
— Fico com ela. E com mais um carregador.
— Claro.
— E a segunda arma?
Rosse i desembrulhou-a e entregou-a ao assassino. Era uma pequena pistola-metralhadora fabricada na Áustria. O Inglês pegou nela e examinou-a atentamente.
— Eu pedi especificamente uma MP5 Heckler and Koch — afirmou.
— Sim, eu sei, mas não consegui arranjar uma tão em cima da hora. Tenho certeza de que vai ficar satisfeito com a Steyr-Mannlicher. É leve e fácil de esconder.
Além disso, é sempre um último recurso.
— Suponho que terá de servir.
— Tem algum carinho especial pela Heckler and Koch?
Por acaso, o Inglês até tinha. Tinha sido a arma que utilizara enquanto estivera na SAS, mas isso era uma informação que não iria partilhar com Rosse i. Enrolou as duas armas nas suas proteções de feltro e guardou-as com cuidado, juntamente com os carregadores e as caixas de munição extra, na pasta que segurava.
— Vai precisar de mais alguma coisa?
Quando o assassino abanou a cabeça, Rosse i pousou o lápis num pequeno bloco de apontamentos e começou a fazer a conta: armas, bilhete para o concerto, serviços prestados. Após chegar a um total em liras, pôs na mesa para que o assassino pudesse ver. Este olhou para a conta e depois para Rosse i — Importa-se que pague em dólares?
Rosse i sorriu e converteu a soma em dólares, utilizando a taxa de câmbio daquele dia. O Inglês contou as notas de cinquenta dólares, novinhas em folha, até chegar ao valor e acrescentou outros quinhentos, em jeito de gorjeta. Signore Rosse i encolheu os ombros como que a querer dizer que não era necessária qualquer gorjeta, mas o assassino insistiu e Rosse i enfiou o dinheiro no bolso discretamente. Depois de descerem as escadas, Rosse i e o Inglês saíram da loja e o primeiro trancou a porta. Foram recebidos por uma torrente de chuva, grandes cortinas de água que massacravam a pequena ruela e escorriam para os esgotos, como um riacho de montanha a transportar. O italiano tinha calçado umas botas de borracha que lhe chegavam até os joelhos; ao Inglês, com os seus sapatos de camurça, não restava outra hipótese a não ser andar aos saltos, a pular por cima das poças. E isso divertiu o joalheiro veneziano.