O Assassino Inglês

Daniel Silva · Capítulo 38 de 51

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O Assassino Inglês

Capítulo 39

Anna tocava de olhos fechados, o corpo a balançar-se ligeiramente, como se estivesse a extrair sons do instrumento fisicamente. Ela não estava a mais de dez metros de distância mas Gabriel sabia que, enquanto durasse o concerto, estaria completamente alheada dele. Nesta altura, ela pertencia à música e qualquer laço que existisse entre ambos era rompido.

Observava-a agora como um admirador — e, vagamente, pensou, como um restaurador. Tinha-a ajudado a descobrir a verdade acerca do pai e a aceitar o passado da família. Os danos ainda lá estavam, pensou, mas escondidos, invisíveis a olho nu, como num restauro perfeito.

Ela executou o padrão descendente, composto por uma série de semitons e traiçoeiro, no final do primeiro movimento. Após parar por um momento, iniciou o segundo movimento. Malicioso e de ritmo mais rápido, estava cheio de exigentes cruzamentos de cordas que exigiam que a mão dela passasse rapidamente da primeira para a quinta posição e da corda da nota Mi para a da nota Sol. Dezoito minutos mais tarde, quando o terceiro movimento se diluiu num último acorde quebrado em Sol menor, a assistência explodiu em aplausos. Anna baixou o violino e respirou fundo várias vezes. Foi só então que abriu os olhos. Agradeceu os aplausos com uma ligeira vênia. Se chegou a olhar alguma vez para Gabriel, ele não o soube porque a essa altura já estava de costas para ela e a inspecionar a sala, à procura de um homem.

 

39

 

VENEZA

 

Uma chuva constante caía sobre o Campo San Rocco. Mas o tempo desgraçado não diminuía em nada o entusiasmo da grande multidão que ali se mantinha após o recital, à espera de poder vislumbrar Anna Rolfe uma última vez. A atmosfera era de uma eletricidade imensa. Depois de Anna executar O Trilo do Diabo, Nadine Rosenberg, a sua acompanhante de longa data, subira ao palco e juntara-se a ela para a Sonata N. 1 para Violino e Piano em Ré menor de Brahms e a Zigeunenveisen de Pablo Sarasate. A última composição da noite, o demoníaco solo Caprice Nº. 24 de Paganini, fez os espectadores aplaudirem de pé.

Anna Rolfe não sabia que havia uma multidão reunida lá fora. Nesse momento, encontrava-se na galeria por trás do palco, com Zaccaria Cordoni e Fiona Richardson.

Fiona estava a ter uma animada conversa em alemão ao celular. Anna estava a fumar um Gitane bem merecido, a tentar acalmar depois de toda a adrenalina da atuação. Ainda tinha o violino na mão. O velho Guarneri tinha-se portado bem com ela nessa noite.

Queria tê-lo perto de si durante mais algum tempo.

A uma pequena distância, estava Gabriel, a vigiá-la atentamente. Os seus olhares cruzaram-se e Anna sorriu. Soletrou com a boca a palavra obrigado e atirou-lhe um beijo discretamente. Fiona terminou a conversa e guardou o celular dentro da mala.

— As notícias viajam depressa, minha querida. Vais ter um Inverno preenchido.

Paris, Bruxelas, Estocolmo e Berlim. E isso é só a primeira semana. — Não tenho certeza de estar mesmo preparada para me voltar a enfiar no carrossel, Fiona.

Zaccaria Cordoni pôs-lhe a mão em cima do ombro.

— Se me permitir o atrevimento, está sem dúvida preparada. A sua atuação esta noite foi de grande inspiração. Tocou como uma mulher possuída.

— Talvez eu esteja mesmo possuída — respondeu ela com uma expressão de gozo.

Fiona sorriu e olhou de relance para Gabriel.

— Quer falar do seu misterioso francês... o belo monsieur Dumont?

— Por acaso, o que eu queria era passar uns minutos sozinha.

Atravessou a sala e pegou a mão de Gabriel. Fiona e Cordoni ficaram a vê-los a seguir pelo corredor, em direção ao camarim. Fiona franziu o sobrolho.

— Quem quer que seja o monsieur Dumont, espero que ele não lhe parta o coração como os outros. Ela é como um cristal delicado: linda mas fácil de partir. E se aquele sacana partir, eu o mato.

Anna fechou a porta do camarim e deixou-se cair nos braços de Gabriel.

— Foi maravilhosa esta noite.

— Não o teria conseguido se você.

— Eu me limitei a vigiá-la para ter certeza de que não aconteceria nada. Você é que fez a magia.

— Quem me dera que pudéssemos celebrar.

— Vai entrar num avião. E eu tenho um trabalho para fazer.

— Ele esteve aqui hoje à noite?

— O assassino?

Anna acenou com a cabeça, que encostou ao peito dele.

— Não sei, Anna.

Ela sentou-se, subitamente exausta. Na mesa de café à sua frente, estava o estojo do Guarneri. Abriu os trincos e levantou a tampa.

Lá dentro, estava uma única folha de papel, dobrada ao meio e com Anna escrita nela.

Olhou para Gabriel.

— Deixou isto aqui dentro para mim?

— Deixei o quê?

— Este bilhete no meu estojo de violino. Não estava aqui quando saí do camarim para entrar em palco.

Ela enfiou a mão no estojo e pegou o bilhete. Ao fazê-lo, saiu de lá um objeto. Era uma pequena tira de couro e tinha um pedaço de coral vermelho, com o feitio de uma mão, pendurado na ponta.

Gabriel enfiou a mão dentro do estojo e tirou o pingente, o coração a ribombar-lhe nas costelas. — O que diz o bilhete?

— Precisa disto mais do que eu. Diga ao Gabriel que ele me fica a dever uma. Cumprimentos.

Sacando da Bere a, Gabriel abriu a porta do camarim e olhou lá para fora. Zaccaria reparou nele e atravessou o corredor rapidamente para saber o que se passava.

Gabriel enfiou outra vez a Bere a no bolso.

— Onde está o homem que estava aqui à porta antes do recital?

— Qual homem?

— O segurança do blazer vermelho-borgonha. Onde é que ele está agora?

— Não faço ideia. Por quê?

— Porque alguém entrou no camarim enquanto a Anna estava no palco.

— E fizeram algum mal?

— Deixaram um bilhete.

Gabriel ergueu o berloque com o coral.

— E isto.

— Posso ver isso?

Gabriel passou o colar a Cordoni, que o virou ao contrário e sorriu. — Sabe o que é isso?

— Sim, acho que sei. É inofensivo.

— E é o quê?

— Há muito tempo atrás, os Cordoni eram corsos. O meu bisavô veio para a Itália e deu início ao ramo veneziano da família, mas ainda tenho parentes afastados que vivem num vale na ponta sul da ilha.

— O que isso tem a ver com o pingente?

— É um talismã, um amuleto de boa sorte da Córsega. Os homens usam-no lá.

Acreditam que afasta o mau-olhado — o occhju, como os corsos se referem a ele. Cordoni devolveu-o a Gabriel.

— Como eu disse, é inofensivo. Foi apenas alguém que quis dar um presente a miss Rolfe.

— Quem me dera que isso fosse assim tão simples.

Gabriel enfiou o talismã no bolso, ao lado da Bere a, e depois olhou para Cordoni.

— Onde está o homem que estava aqui à porta?

O Inglês vislumbrou o táxi-aquático a baloiçar no Rio di San Polo, escondido por baixo de uma ponte para trabalhadores. O homem de Rosse i estava ao volante e trazia um anoraque com capuz. O Inglês subiu a bordo do táxi e agachou-se para entrar na cabina.

O homem de Rosse i carregou no acelerador. O barco chiou e estremeceu e a seguir começou a andar. Passado um instante, estavam a atravessar o Grande Canal a toda a velocidade. O Inglês desembaciou um bocado da janela da cabina, esfregando-a, e ficou a olhar por uns momentos para a paisagem que lhe ia passando à frente. Depois fechou as cortinas.

Despiu o blusão preto acolchoado e a seguir tirou o blazer vermelho-borgonha e enrolou-o como se fosse uma bola. Dez minutos depois, abriu a janela e atirou o blazer para dentro da água preta da lagoa.

Sentou-se no banco e esticou-se, a pensar na história que iria inventar para contar a Anton Orsati. Levou a mão ao pescoço para tocar no talismã. Sentia-se nu sem ele. De manhã, quando já tivesse regressado à Córsega, iria visitar a velha signadora para ela lhe dar um novo.