O Assassino Inglês
Capítulo 29
— Absolutamente nenhum. O problema é esse. Pegou o telefone e marcou um número. A garota chamada Hannah Landau chegou ao quarto de hotel às dez horas da noite. Usava braceletes nos pulsos e cheirava a jasmim. O estojo que trazia pendurado no braço não era muito diferente daquele que Gabriel utilizava para os seus pincéis e pigmentos. Falou com Gabriel por uns momentos e depois pegou a mão de Anna, puxou-a para a casa de banho e a seguir fechou a porta. Passada uma hora, Anna saiu lá de dentro. O cabelo louro que lhe ficava pelos ombros tinha sido cortado bem curto e pintado de preto; os olhos verdes tinham passado a azuis, graças a lentes de cosmética. A transformação era verdadeiramente notável. Era como se ela fosse outra mulher.
— Está aprovada? — perguntou Hannah Landau.
— Tira a fotografia.
A garota israelense tirou uma meia dúzia de fotografias a Anna com uma máquina polaroide e pousou-as em cima da cama para que Gabriel as visse. Terminada a revelação, Gabriel afirmou:
— Essa.
Hannah abanou a cabeça. — Não, prefiro aquela.
Pegou a foto sem esperar pela aprovação de Gabriel e voltou para a casa de banho. Anna sentou-se à mesa de maquilhagem e passou um longo período de tempo a examinar ao espelho o seu aspecto.
Passados vinte minutos, Hannah saiu da casa de banho. Mostrou o seu trabalho a Gabriel e a seguir atravessou o quarto e largou-o em cima da mesa de maquilhagem, à frente de Anna.
— Parabéns, miss Rolfe. Agora é uma cidadã austríaca.
29
ZURIQUE
O epicentro da banca suíça, Paradepla , fica a meio caminho entre Hauptbahnhof e Zurichsee. As sedes gémeas do Credit Suisse e do Union Bank of Swi erland fitam-se olhos nos olhos como pugilistas profissionais, sobre a vasta extensão de tijolo cinzento. São os dois gigantes da banca suíça e estão entre os mais poderosos do mundo. À sua sombra, de um lado ao outro de Bahnhofstrasse, estão outros bancos grandes e instituições financeiras influentes, com a respectiva localização claramente assinalada por letreiros luminosos e portas de vidro brilhantes. Mas, espalhados pelas sossegadas ruas e vielas secundárias, entre Bahnhofstrasse e o rio Sihl, encontram-se os bancos nos quais poucas pessoas reparam. São as capelas privadas da banca suíça, locais onde se pode prestar culto ou confessar os pecados em absoluto segredo. A lei suíça proíbe esses bancos de angariarem depósitos. Se o quiserem, são livres de se chamarem bancos, mas não são obrigados a fazê-lo. Difíceis de encontrar, fáceis de passar despercebidos, estão enfiados em modernos prédios de escritórios ou em salas de casas com centenas de anos. Alguns têm ao seu serviço várias dúzias de trabalhadores; outros apenas uma mão-cheia. São bancos privados na verdadeira acepção da palavra. Foi aí que, na manhã seguinte, Gabriel e Anna Rolfe iniciaram a sua busca.
Ela enfiou o braço no de Gabriel e puxou-o ao longo de Bahnhofstrasse. Esta era a cidade dela; era ela que agora estava ao comando. Gabriel observou os rostos que iam passando, à procura de sinais de reconhecimento. Se iriam reparar em Anna em algum lugar do mundo, seria aqui. Ninguém olhou para ela duas vezes. A rápida mudança de visual da autoria de Hannah Landau parecia estar a funcionar. — Por onde é que começamos? — perguntou Gabriel.
— Tal como a maioria dos banqueiros suíços, o meu pai tinha contas profissionais noutros bancos suíços. — Contas recíprocas?
— Exatamente. Vamos começar por aqueles com quem eu sei que ele fez negócios no passado.
— E se a conta não estiver em Zurique? E se estiver em Genebra?
— O meu pai era um homem de Zurique a cem por cento. Nunca iria pôr sequer a hipótese de entregar o dinheiro ou os bens dele a um francês que estivesse em Genebra.
— Mesmo que encontremos a conta, não há garantia de que vamos ter acesso a ela.
— É verdade. Os banqueiros só tornam as contas secretas até o ponto em que o titular o queira. Podemos até ter acesso só com um número. Podemos precisar de uma palavra-passe. Podem mandar-nos embora. Mas vale a pena tentar, não é? Vamos começar por aqui.
Sem aviso, mudou de direção e começou a correr por Bahnhofstrasse, passando à frente de um elétrico que vinha em grande velocidade e puxando Gabriel pela mão. A seguir, levou-o por uma rua mais pequena, a Bärengasse, e parou em frente a uma entrada discreta. Por cima dela, havia uma câmera de segurança, e, na parede de pedra ao lado, uma placa de latão, tão pequena que quase não se dava por ela: HOFFMAN & WECK, BÄRENGASSE 43.
Ela tocou à campainha e ficou à espera que os deixassem entrar. Cinco minutos depois, estavam outra vez na rua, a caminho do banco seguinte da lista de Anna. Aí, a representação demorou mais um pouco — sete minutos, segundo os cálculos de Gabriel — , mas o resultado foi o mesmo: outra vez na rua, de mãos a abanar. E assim foram continuando. Cada representação correspondia a uma variação ligeira do mesmo tema. Após passarem o escrutínio da câmera de segurança, era-lhes dado acesso um hall, onde um funcionário do banco os recebia com prudência. Era sempre Anna a falar, conduzindo cada encontro num vigoroso mas educado Zuri Dutsch. Por fim, eram escoltados até a sacristia, o gabinete interno sagrado, onde os registros secretos estavam guardados, e sentavam-se diante da mesa do banqueiro. Depois de uns gracejos sem importância, vinha um discreto pigarro e uma referência educada ao fato de se estar perdendo tempo, e em Bahnhofstrasse, tempo era claramente dinheiro. E, a seguir, Anna dizia: — Gostaria de ter acesso à conta de Herr Alois Ri er.
Uma pausa, uma ou outra tecla pressionada no computador, um olhar demorado para um monitor.
— Lamento, mas pelo que podemos ver não temos conta alguma em nome de Alois Ri er.
— Tem certeza?
— Sim, absoluta.
— Obrigado. Peço desculpa por o termos feito perder o seu tempo valioso. — De maneira nenhuma. Fiquem com o nosso cartão. Talvez possam vir a necessitar dos nossos serviços no futuro.
— É muito simpático da sua parte.
Depois de visitarem onze bancos, foram tomar café num pequeno restaurante chamado Café Brioche. Gabriel estava a ficar nervoso. Já andavam a deambular por Bahnhofstrasse há quase duas horas. Não podiam continuar a passar despercebidos por muito mais tempo.
A paragem seguinte foi o Becker & Puhl, onde foram recebidos pelo próprio Herr Becker. Era um homem engomado, aperaltado e muito careca. O seu gabinete era pardacento e tão asséptico como uma sala de operações. Enquanto ele fixava os olhos na tela do computador, Gabriel conseguiu ver os reflexos fantasmagóricos de nomes e números a passarem nas lentes polidas dos seus óculos sem aros. Dialeto de Zurique.
Após um momento de contemplação silenciosa, ele olhou para cima e disse: — Número de conta, por favor. Anna recitou-o de memória: 251 233 126. Becker teclou o número. — Senha?
Gabriel sentiu o peito a apertar. Olhou para cima e reparou que Becker o mirava por cima do terminal do computador. Anna aclarou ligeiramente a voz e respondeu:
— Adágio.
— Venham comigo, por favor.
O pequeno banqueiro levou-os do seu gabinete para uma sala de conferências de teto alto, com paredes revestidas de painéis de madeira e uma mesa retangular de vidro fumado.
— A sua privacidade ficará melhor garantida assim — disse.
— Sentem-se, por favor. Trago-vos já em seguida o conteúdo da conta.
Quando Becker regressou, trazia um cofre metálico.
— De acordo com o que ficou contratado em relação à conta, qualquer pessoa que forneça o número de conta e a palavra-passe corretos tem acesso autorizado aos cofres — explicou Becker, ao mesmo tempo que colocava o cofre em cima do tampo da mesa. — Sou eu que tenho todas as chaves.
— Compreendo — respondeu Anna.
Becker assobiou desafinadamente, enquanto tirava um molho de chaves pesado e escolhia a certa. Quando a encontrou, segurou-a no ar, para confirmar o que lá estava gravado, e a seguir enfiou-a na fechadura e levantou a tampa do cofre.
De imediato, o ar encheu-se do cheiro a papel a deteriorar-se. Becker recuou e colocou-se a uma distância respeitosa.
— Há um segundo cofre. Receio que seja bem grande. Também o querem ver? Sentados à mesa, Gabriel e Anna olharam um para o outro e responderam ao mesmo tempo: — Sim.
Gabriel esperou que Becker saísse da sala antes de levantar a tampa. Ao todo, eram dezesseis, enroladas com cuidado e embrulhadas em capas protetoras: Monet, Picasso, Degas, Van Gogh, Manet, Toulouse-Lautrec, Renoir, Bonnard, Cézanne, um espantoso nu em repouso de Vuillard. Até mesmo Gabriel, um homem habituado a trabalhar com arte de valor incalculável, se sentia fascinado pela magnitude de tudo aquilo. Quantas pessoas não tinham já procurado aquelas obras? E desde há quantos anos? Quantas lágrimas não tinham sido já derramadas pela perda delas? E aqui estavam elas, fechadas num cofre, numa caixa-forte por baixo de Bahnhofstrasse. Tão apropriado. Tão perfeitamente lógico. Anna recomeçou a revistar o cofre mais pequeno. Levantou a tampa e começou a tirar o que lá estava dentro. Primeiro, veio o dinheiro — francos suíços, francos franceses, dólares, libras, marcos — , que manuseou com o à-vontade próprio de uma pessoa habituada a dinheiro. A seguir, saiu uma pasta de arquivo com foles, cheia de documentos, e, por fim, um molho de cartas, atado com um elástico largo azul-claro.
Ela tirou o elástico, pousou-o em cima da mesa e começou a folhear o molho de envelopes com os seus dedos compridos e ágeis. Dedo indicador, dedo do meio, dedo indicador, dedo do meio, pausa... Dedo indicador, dedo do meio, dedo indicador, dedo do meio, pausa... Tirou um envelope do molho, virou-o ao contrário, experimentou a dobra para ver se ele ainda estava selado e depois levantou-o para Gabriel o poder ver.
— Isto é capaz de lhe interessar.
— O que é?
— Não sei — respondeu ela — , mas vem em seu nome.
Era o papel de carta pessoal de um homem de outro tempo: cor cinzenta-clara, tamanho A4, AUGUSTUS ROLFE centrado na parte de cima e mais nenhuma informação supérflua, como um número de fax ou um endereço eletrônico. Apenas uma data: a véspera da chegada de Gabriel a Zurique. O bilhete era em inglês, escrito à mão por um homem que já não era capaz de fazer uma letra legível. O resultado era como se pudesse ter sido escrito em praticamente qualquer língua, utilizando qualquer alfabeto. Com Anna a olhar por cima do ombro dele, Gabriel conseguiu decifrar o texto:
Caro Gabriel,
Espero que não ache presunçoso eu ter escolhido tratá-lo pelo seu nome verdadeiro, mas conheço a sua verdadeira identidade há algum tempo e sou um admirador do seu trabalho, tanto como restaurador de arte como guardião do seu povo. Quando se é um banqueiro suíço, ouvem-se coisas.
Se estiver a ler este bilhete, significa certamente que estou morto. E significa também que provavelmente descobriu uma grande quantidade de informações sobre a minha vida — informações que eu esperava poder transmitir-lhe em pessoa. Vou tentar fazer isso agora, postumamente.
Como já sabe, não foi enviado para a minha residência de Zurique para limpar o meu Rafael. Entrei em contato com os seus serviços secretos por uma razão: queria que ficasse com a minha segunda coleção — a coleção secreta da sala subterrânea da minha residência, da qual, seguramente, já tem conhecimento — e devolvesse as obras aos seus legítimos proprietários. Se os legítimos proprietários não pudessem ser localizados, era meu desejo que as pinturas ficassem nas paredes de museus, em Israel. Escolhi os seus serviços secretos porque preferi que o assunto fossa tratado discretamente, de modo a não envergonhar ainda mais a minha família ou o meu país.
As pinturas foram adquiridas sob uma aparência de legalidade, mas de forma injusta. Quando as "comprei", tinha consciência de que tinham sido confiscadas na França às coleções de negociantes e colecionadores judeus. Contemplá-las deu-me incontáveis horas de prazer ao longo dos anos, mas, como um homem que se deita com uma mulher que não é a sua, a dor da culpa ficou comigo. Era meu desejo devolver essas pinturas antes da minha morte - para expiar as minhas ações culposas ainda nesta vida, antes de passar para aproxima. Por ironia, fui encontrar inspiração na sua religião. No Yom Kippur, sentirmo-nos arrependidos das más ações que praticamos não é suficiente. Para conseguirmos o perdão, temos de ir ter com as partes lesadas e retificar a situação. Encontrei particular relevância no Livro de Isaías. Um pecador pergunta a Deus: "Por que razão, quando jejuamos, não o viste? Quando matamos os nossos corpos de fome, não prestaste atenção?" e Deus responde: "Porque no seu dia de jejum, tratam dos seus negócios e oprimem todos os seus trabalhadores! Porque jejuam enquanto entram em disputa e conflito, e atuam com malvadeza!"
Durante a guerra, a minha ganância não conhecia limites, como a minha culpa hoje. Há dezesseis pinturas neste banco. Representam o resto da minha coleção secreta. Por favor, não parta sem elas. Na Suíça, há pessoas que querem que o passado permaneça exatamente onde está — enterrado nas caixas-fortes dos bancos de Bahnhofstrasse e não vão olhar a meios para atingir esse fim. Veem-se como patriotas, como guardiães do ideal suíço de neutralidade e independência fero. São intensamente hostis com os forasteiros, em especial com aqueles que consideram uma ameaça à sua sobrevivência. Em tempos, considerei estes homens meus amigos — outro dos meus vários erros. Infelizmente, tomaram conhecimento dos meus planos no sentido de abrir mão da coleção. Enviaram um homem dos serviços de segurança para me amedrontar.
É por causa da visita dele que estou a escrever este bilhete. É por causa dos chefes dele que agora estou morto.
Uma última coisa. Se estiver em contato com a minha filha, Anna, por favor, assegure-se de que nada de mau lhe aconteça. Já sofreu o suficiente devido à minha insensatez.
Atenciosamente, Augustus Rolfe
O pequeno banqueiro estava à espera na antecâmara. Do outro lado da porta de vidro, Gabriel fez-lhe sinal e ele entrou na sala de observação.
— Posso ajudá-los?
— Quando é que esta conta foi acedida pela última vez?
— Peço desculpa, Sr., mas essa informação é confidencial. Anna disse:
— Precisamos levar alguns artigos. Por acaso não tem um saco?
— Lamentavelmente, não temos. Somos um banco, não uma loja.
— Podemos ficar com o cofre?
— Receio que isso implique uma quantia a pagar.
— Não há problema.
— Uma quantia bem substancial.
Anna apontou para a pilha de dinheiro em cima do tampo da mesa.
— Tem alguma preferência quanto à moeda?