O Assassino Inglês

Daniel Silva · Capítulo 10 de 51

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O Assassino Inglês

Capítulo 9

Mas em quem podia ela confiar?

Um Sr. muito simpático da embaixada de Israel passou pelo escritório há dois dias. Disse que queria entrar em contato com você.

Olhou para o número de telefone que Fiona lhe deixara. Disse que tinha informações sobre a morte do seu pai.

Porque razão iria um israelense afirmar saber alguma coisa em relação ao homicídio do pai? E quereria mesmo ela ouvir o que ele tinha para dizer? Talvez fosse melhor deixar as coisas como estavam. Podia concentrar-se no seu desempenho musical e preparar-se para Veneza. Olhou uma última vez para o número, decorou-o e deitou o papel na lareira a arder.

A seguir, olhou para as cicatrizes na mão. Não há nenhuma maldição da família Rolfe, pensou. As coisas acontecem por uma razão. A mãe matou-se. Vinte e cinco anos depois, o pai foi assassinado. Por quê? Em quem podia ela confiar? Parecia completamente inofensivo. Talvez te interesse ouvir o que ele tem para dizer.

Ficou ali deitada durante alguns minutos, a ponderar tudo aquilo. A seguir, foi até a cozinha, pegou o receptor do telefone e teclou o número.

9

COSTA DE PRATA, PORTUGAL

 

A estrada até a casa de Anna Rolfe serpenteava ao longo da beira, numa colina com vista para o Oceano Atlântico. Por vezes, a vista ficava tapada: ora por uma fileira de abetos, ora por afloramentos de rochas cor de fumo. Era um final de tarde, o Sol estava praticamente a tocar no horizonte, a água tinha cor de alperce e folha de ouro. Ondas gigantescas batiam com toda a força numa praia de areia exígua. Quando Gabriel baixou a janela, o carro encheu-se de ar frio, carregado com o perfume do mar.

Virou na direção da aldeia, seguindo as instruções que ela lhe tinha dado. A esquerda a seguir às ruínas mouras, descendo a colina e passando pela adega velha, siga o trilho ao longo da vinha, em direção à mata. A estrada passava a ser de cascalho e depois de terra batida e agulhas de pinheiro de cor baça. O trilho terminava num portão de madeira. Gabriel saiu do carro, abriu o portão o suficiente para o automóvel poder passar e depois entrou no recinto. A casa erguia-se diante dele, em forma de L, com um telhado de terracota e paredes de pedra claras. Quando Gabriel desligou o motor, pôde ouvir o som de Anna Rolfe a ensaiar. Ficou a ouvir durante um momento, a tentar identificar a composição, mas não conseguiu.

Ao sair do carro, surgiu um homem a subir a encosta vagarosamente: chapéu de aba larga, luvas de trabalho de couro, a ponta de um cigarro de enrolar pendurada no canto da boca. Sacudiu a sujidade das luvas com pequenas palmadas e a seguir tirou-as, enquanto inspecionava o visitante.

— É o homem de Israel, não é?

Gabriel acenou com a cabeça, de forma ligeira e relutante. O responsável pela vinha sorriu.

— Venha comigo.

A vista da varanda era formidável: a encosta e a vinha, e o mar mais além. De uma janela aberta por cima da cabeça de Gabriel, veio o som de Anna Rolfe a tocar. Uma governanta materializou-se; deixou-lhe café e uma pilha de jornais de língua alemã já com uma semana e a seguir desapareceu silenciosamente para o interior da casa. No Nené Ziiricher Zeitung descobriu um artigo acerca da investigação do homicídio de Rolfe. Logo ao lado estava um longo texto principal sobre a carreira de Anna Rolfe. Leu-o rapidamente e depois pô-lo de lado. Não lhe disse nada que ele não soubesse já.

Antes de Gabriel tocar num quadro, lia primeiro tudo aquilo que podia acerca do artista. Tinha utilizado a mesma abordagem com Anna Rolfe. Ela tinha começado a tocar violino aos quatro anos de idade e mostrou de imediato um potencial fora do comum. O mestre suíço Karl Wehrli concordou em aceitá-la como aluna e os dois deram início a um relacionamento que permaneceu intacto até a morte dele. Quando Anna tinha dez anos, Wehrli pediu para que ela saísse da escola, de maneira a poder ter mais tempo para se dedicar à música. O pai de Anna concordou com relutância. Um tutor ia à residência de Zurique duas horas por dia e no resto do tempo Anna tocava violino.

Aos quinze, teve uma apresentação no Festival Internacional de Música de Lucerna que eletrizou a cena musical europeia, tendo sido em seguida convidada para dar uma série de recitais na Alemanha e na Holanda. No ano seguinte, venceu a prestigiosa Competição de Violino Jean Sibelius, em Helsínquia. Recebeu um prêmio monetário de grande valor, além de um violino Guarneri, um conjunto de apresentações em concertos e um contrato discográfico.

Pouco depois da competição Sibelius, a carreira de Anna Rolfe disparou. Deu início a um calendário esgotante de datas de concertos e sessões de gravação. A beleza física transformou-a num fenômeno que atravessava todas as culturas. A sua fotografia apareceu nas capas de revistas de moda europeias. Na América, tocou numa emissão especial de feriado na televisão. Foi então que, passados vinte anos de tournées e gravações incessantes, Anna Rolfe sofreu o acidente que quase lhe destruiu a mão. Gabriel tentou imaginar como se sentiria se o seu talento para restaurar quadros lhe fosse subitamente retirado. Não esperava encontrá-la bem-disposta.

Uma hora depois da chegada de Gabriel, ela parou de tocar. Tudo o que permaneceu foi a batida constante de um metrónomo. A seguir, também ele se silenciou. Cinco minutos mais tarde, Anna apareceu na varanda, com uma calça de ganga de um azul desbotado e um pulôver de algodão cinzento-azulado. Tinha o cabelo úmido.

Esticou a mão.

— Sou a Anna Rolfe.

— É uma honra conhecê-la, miss Rolfe.

— Sente-se, por favor.

Se Gabriel fosse um pintor de retratos, talvez tivesse apreciado um modelo como Anna Rolfe. O rosto dela tinha magnificência técnica: as maçãs do rosto largas e uniformes, os olhos verdes de gato, a boca ampla e o queixo em forma de lágrima. Mas era também um rosto de muitas camadas. Sensual e vulnerável, insolente e de uma vontade de ferro. Em algum ponto, um traço de tristeza. Mas era a energia dela — a energia irrequieta e temerária dela — que mais o intrigava e que teria sido o mais difícil de captar numa tela. Os olhos não paravam de se mover em redor dele. Mesmo após o longo ensaio, as mãos não eram capazes de ficar quietas. Partiam em viagens privadas: brincavam com um isqueiro, martelavam no tampo de mesa de vidro, viajavam repetidamente até o rosto para afastar a madeixa solta. Não usava joias; nem pulseiras no pulso, anéis nos dedos e nada no pescoço. — Espero que não tenha tido de esperar muito tempo. Lamento, mas dei ordens precisas a Carlos e Maria para não me interromperem meus ensaios.

— Foi um prazer. Tocou de forma extraordinária.

— Por acaso não toquei, mas é muito gentil em dizê-lo.

— Vi-a tocar uma vez. Foi em Bruxelas, não há muitos anos. Uma noite de Tchaikovsky, se não me engano. Nessa noite, foi maravilhosa.

Agora não era capaz de tocar essas composições. Coçou as cicatrizes na mão esquerda. Parecia um gesto involuntário. Pôs a mão no colo e olhou para o jornal.

— Vejo que andou lendo sobre meu pai. A polícia de Zurique não parece saber muito do homicídio, não?

— Isso é difícil dizer.

— Sabe de alguma coisa que a polícia de Zurique não saiba?

— Isso também é difícil dizer.

— Antes de me dizer o que realmente sabe, espero que não se importe que eu lhe faça uma pergunta.

— Não, claro que não.

— Afinal de contas, quem é o Sr. ao certo?

— Nesta questão, sou um representante do governo de Israel.

— E que questão é essa?

— A morte de seu pai.

— E por que a morte do meu pai interessa ao governo de Israel?

— Porque eu é que descobri o corpo dele.

— Os detetives de Zurique disseram que o corpo do meu pai tinha sido descoberto por um restaurador de arte que tinha vindo limpar um Rafael.

— Isso é verdade.

— O Sr. é o restaurador de arte?

— Sim.

— E trabalha para o governo de Israel.

— Nesta questão.

Conseguia ver a mente dela tentando a todo o custo ligar tudo aquilo.

— Peço que me perdoe, Sr. Allon, mas acabei de sair de um ensaio de oito horas. Talvez a minha cabeça não esteja como devia. Talvez seja melhor começar pelo princípio.

Gabriel contou-lhe a história que Shamron lhe tinha transmitido em Zurique. Que o pai dela contatara o governo israelense e pedira um encontro secreto. Que não fornecera quaisquer pormenores acerca do motivo para esse encontro. Que ele, Gabriel, tinha sido enviado a Zurique para se encontrar com ele e que o pai já estava morto quando ele chegara. Anna Rolfe ouviu todo esse relato com total impassibilidade, as mãos a brincarem com o cabelo.

— E o que quer de mim, Sr. Allon? — perguntou depois de Gabriel terminar. — Quero saber se tem alguma ideia do que poderia ter levado o seu pai a querer encontrar-se conosco.

O meu pai era banqueiro, Sr. Allon. Um banqueiro suíço. Havia muitas coisas da vida dele, pessoal e profissional, que não me contava. Se já leu esse relato que vem no jornal, então já sabe que não éramos especialmente chegados e que ele nunca falava comigo do trabalho.

— Nada de nada?

Ela ignorou aquilo e perguntou:

— Quem é o conosco?

— O que quer dizer com isso?

— Disse que o meu pai se queria encontrar conosco. Quem é o conosco? Para quem é que o Sr. trabalha?

— Trabalho para uma pequena agência ligada ao Ministério da Defesa.

— Ao Ministério da Defesa?

— Sim.

— Então é um espião?

— Não, não sou um espião. — Assassinou o meu pai?

— Por favor, miss Rolfe. Vim aqui à procura da sua ajuda, não para fazer joguinhos.

— Que fique registrado nos autos que o réu não foi capaz de responder à pergunta. — Não assassinei o seu pai, mas gostava de saber quem foi. E se eu soubesse por que ele se quis encontrar conosco logo para começar, talvez isso me pudesse dar algumas respostas.

Ela virou o rosto para o mar.

— Então acham que ele foi morto pelo que contou?

— O caso parece ser esse.

Gabriel deixou que um silêncio se instalasse entre eles. A seguir, perguntou: — Sabe por que seu pai queria falar conosco?

— Acho que consigo calcular.

— E vai dizer?

— Depende.

— Do quê?

— De eu me decidir ou não a envolvê-lo e ao governo de Israel nos assuntos privados da minha família.

— Posso assegurar-lhe que vamos tratar do assunto com a máxima discrição.

— Parece muito um banqueiro suíço falando, Sr. Allon, mas, pensando bem, suponho que não seja assim tão diferente.

Os seus olhos verdes centraram-se nele mas não deixaram entrever as intenções.

— Preciso de algum tempo para pensar na sua proposta.

— Compreendo.

— Há um café na praça da aldeia. O dono é um homem chamado Manuel. Tem um quarto de hóspedes no andar de cima. Não é grande coisa, mas ficará confortável por uma noite. Informo-o da minha decisão de manhã.