O Assassino Inglês
Capítulo 45
NIDWALDEN, SUÍÇA
À frente deles, havia um corredor cavernoso com estátuas e um teto em abóbada reminiscente do Musée d'Orsay. A luz que entrava pela janela no alto era artificial. De cada lado do corredor, havia uma dúzia de passagens que dava para salas com inúmeros quadros. Não tinham etiquetas a identificá-los mas os olhos experimentados de Gabriel discerniram que cada um tinha a sua missão: italianos, do século XV; holandeses e flamengos, do século XVII; franceses, do século XIX. E assim continuava, galeria após galeria, um museu privado cheio dos mestres perdidos da Europa. O efeito era avassalador, embora não para Gessler, obviamente — Gessler não podia ver nada daquilo.
— Lamento o tratamento que teve de suportar às mãos dos homens, mas a verdade é que só tem de se culpar a si mesmo. Ter vindo aqui foi uma coisa muito estúpida.
Tinha uma voz aguda, seca e fina como um pergaminho. A mão pousada no antebraço de Gabriel não tinha peso, era como uma lufada de ar quente.
— Agora já percebo por que estava tão preocupado em silenciar o Augustus Rolfe? Quantos é que tem?
— Honestamente, já nem eu próprio sei.
Atravessaram a porta e entraram noutra sala: espanhóis, do século XV. Um segurança de casaco azul andava vagarosamente de um lado para o outro, para trás e para a frente, como um guarda de museu.
— E não consegue ver nada disto?
— Não, lamento dizê-lo, mas não. — Então para que é que os tem?
— Penso em mim mesmo como um homem impotente. Só porque não sou capaz de ter relações com a minha mulher não quer dizer que esteja disposto a dar o corpo dela a outros. — Então é casado?
— Uma tentativa admirável, Sr. Allon, mas na Suíça o direito à privacidade é muito sagrado. Poderá dizer-se que eu o levei de certo modo ao extremo, mas foi assim que decidi viver a minha vida.
— E foi sempre cego?
— Você faz demasiadas perguntas.
— Vim apresentar-lhe uma proposta para terminarmos com este caso, mas agora vejo que nunca a teria aceitado. Você é o Hermann Göring do século XXI. A sua ganância não conhece limites.
— Sim, mas, ao contrário de Herr Göring, que eu conhecia bem, não sou culpado de nenhum saque.
— Então o que chama a isto?
— Sou um colecionador. É uma coleção muito especial, uma coleção muito privada, mas não deixa de ser uma coleção.
— Eu não sou o único a saber disto. A Anna Rolfe sabe e a minha agência também. Pode matar-me, mas alguém vai acabar por descobrir o que tem para aqui escondido.
Gessler soltou um riso, um riso seco e sem humor.
— Senhor Allon, ninguém vai alguma vez descobrir o que há nestas salas. Nós, suíços, levamos os nossos direitos de privacidade muito a sério. Ninguém vai alguma vez ser capaz de abrir estas portas sem o meu consentimento. Mas só para ter certeza disso mesmo, tomei uma medida adicional. Tirei partido de uma lacuna na lei suíça, pouco conhecida, e declarei toda esta propriedade como um banco privado. Estas salas fazem parte desse banco... caixas-fortes, se preferir. Os bens que lá estão dentro estão, por isso mesmo, abrangidos pelas leis suíças do segredo bancário e, em nenhuma circunstância, eu posso ser obrigado a abrir estas salas ou a revelar o que lá têm dentro.
— E isso o deixa satisfeito?
— Com efeito — respondeu sem reservas. — E mesmo que eu fosse obrigado a abrir estas salas, não podia ser acusado de nenhuma ilegalidade. É que, sabe, todos estes objetos foram adquiridos legalmente, à luz do direito suíço, e também moralmente, à luz da lei divina e da lei natural. E mesmo que alguém conseguisse provar, sem sombra de dúvida, que uma das obras da minha coleção tinha sido roubada ao seu antepassado pelos alemães, eu teria de ser reembolsado segundo o valor justo do mercado. Obviamente, o custo da repatriação seria formidável. Você e os seus amigos podem guinchar à vontade, mas eu nunca irei ser obrigado a abrir as portas de aço que dão para estas salas.
— Você é um filho da puta, Gessler.
— Ah, agora recorre a insultos e a linguagem obscena. Culpa os suíços por esta situação, mas a culpa não é nossa. Os alemães é que começaram a guerra. Nós tivemos o bom senso de ficar de fora e por isso querem nos castigar.
— Vocês não ficaram de fora. Vocês colaboraram com Adolf Hitler! Deram-lhe armas e dinheiro. Foram criados dele. Vocês são todos apenas criados.
— Sim, é verdade que colhemos uma recompensa financeira pela nossa neutralidade, mas por que levanta essa questão agora? Depois da guerra, chegamos a acordo com os Aliados e foi tudo perdoado, já que o Ocidente precisava do nosso dinheiro para reconstruir a Europa. A seguir, veio a Guerra Fria e o Ocidente precisou outra vez de nós. Agora, com o fim da Guerra Fria, todo mundo de ambos os lados da Cortina de Ferro bate à porta da Suíça com o boné na mão. Todo mundo quer um pedido de desculpas. Todo mundo quer dinheiro. Um dia desses vão precisar outra vez de nós. Tem sido sempre assim. Os príncipes alemães e os reis franceses, os xeques árabes e os sonegadores americanos, os barões da droga e os traficantes de armas. Meu Deus, até a sua agência secreta usa os nossos serviços quando necessário. Aliás, você tem sido um cliente habitual do Crédit Suisse ao longo dos anos. Por isso, por favor, Sr. Allon, faça-me o favor de se deixar de superioridades morais por um momento e seja razoável.
— Você é um ladrão, Gessler. Um criminoso comum.
— Um ladrão? Não, Sr. Allon, eu não roubei nada. Adquiri, através de táticas comerciais inteligentes, uma magnífica coleção privada de arte, juntamente com uma formidável riqueza pessoal. Mas não sou um ladrão. Então, e você e o seu povo? Ficam se lamuriando pelos supostos crimes dos suíços, mas fundaram o seu Estado em terra roubada de outros. Quadros, mobília, joias — isso são apenas objetos, que são facilmente substituíveis. A terra, pelo contrário, é uma questão completamente diferente. A terra é para sempre. Não, Sr. Allon, eu não sou um ladrão. Sou um vencedor, como você e o seu povo.
— Vá para o inferno, Gessler.
— Sou calvinista, Sr. Allon. E os calvinistas acreditam que a riqueza terrena é atribuída ao que serão admitidos no Reino dos Céus. E se a riqueza dentro destas salas servir de algum indício, estou na direção contrária à do inferno. Já a natureza da sua próxima vida, lamento dizê-lo, é um pouco menos segura. Mas pode tornar menos desagradável o tempo que ainda lhe resta na terra se me responder a uma simples pergunta. Onde estão os quadros que tirou do cofre de Augustus Rolfe?