O Assassino Inglês
Capítulo 7
Gessler deu um gole no chá. Peterson não o pôde ver, mas pôde ouvi-lo através do microfone sensível utilizado para amplificar a voz fraca do velho.
— Mas estou a divagar — prosseguiu Gessler, ao mesmo tempo que a xícara de chá regressava, a chocalhar, ao pires. — Voltemos ao assunto em questão. Parece que temos mais uma complicação relacionada com a questão Rolfe.
— Este sujeito parece-lhe o tipo de homem capaz de deixar cair o assunto? — perguntou Gessler quando Peterson terminou o relatório.
— Não, Herr Gessler. — Então o que sugere?
— Que limpemos a confusão o mais depressa possível e nos certifiquemos de que não haja nada para ele descobrir.
Gessler soltou um suspiro.
— O propósito desta organização nunca foi entrar em violência, apenas combater a violência que está a ser perpetrada contrários.
— Na guerra há baixas.
— A vigilância e a intimidação são uma coisa... matar é outra bem diferente. É vital que utilizemos alguém que não possa ser ligado de nenhuma forma ao Conselho.
Certamente, na sua outra profissão, já tem encontrado pessoas desse gênero.
— Já.
O velho suspirou...
Gerhardt Peterson tirou o receptor e voltou para Zurique.
7
CÓRSEGA
Havia uma velha piada na Córsega que dizia que as estradas traiçoeiras e de má fama tinham sido concebidas em conjunto por Maquiavel e o Marquês de Sade. No entanto, o Inglês nunca se importara de conduzir ali. Na verdade, avançava a alta velocidade à volta da ilha, com um certo abandono fatalista que o fizera ganhar a reputação de ser um pouco louco. Naquele momento, atravessava velozmente uma auto-estrada varrida pelo vento, na ponta ocidental da ilha, por entre um manto denso de nevoeiro marítimo. Oito quilômetros depois, virou para o interior. Ao subir em direção às colinas, o nevoeiro deu lugar a um céu de tarde limpo e azul. A luz do sol de Outono realçava os tons de verde contrastantes nas oliveiras e no pinheiro larício. À sombra das árvores, encontravam-se tufos densos de tojo, urze branca e esteva, o lendário matagal da Córsega conhecido como macchia e que escondera bandidos e assassinos durante séculos. O Inglês baixou a janela. O cheiro quente a alecrim bafejou-lhe o rosto.
À sua frente, encontrava-se uma cidadezinha na colina, uma aglomeração de casas de cor arenosa, com telhados de telhas vermelhas, à volta de um campanário, metade à sombra e metade sob uma luz do sol brilhante. Em pano de fundo, erguiam-se as montanhas, com neve de um azul muito claro nos cumes mais elevados. Há dez anos, quando tinha se instalado ali, as crianças apontavam para ele com os dedos indicadores e os mindinhos, a maneira própria da Córsega de afastar o mau-olhado de um estranho. Agora, sorriam e acenavam enquanto ele atravessava a cidadezinha em velocidade e avançava para o vale sem saída, em direção a sua casa.
Durante o caminho, passou por um paesanu que lavrava um pequeno terreno com vegetais, junto à beira da estrada. O homem espreitou para o Inglês, os olhos pretos a arder com sentimentos reprimidos sob a aba do seu chapéu largo, e deixou perceber que o tinha reconhecido movendo, de forma quase imperceptível, os seus dois primeiros dedos. O velho paesanu era um dos membros do clã adoptado pelo Inglês. Mais adiante, um rapaz chamado Giacomo atravessou— , -se na estrada, à frente dele, e agitou os braços para o Inglês parar.
— Bem-vindo a casa. A viagem foi boa?
— Muito boa.
— O que me trouxeste?
— Depende.
— Do quê?
— De me teres vigiado ou não a casa enquanto estive fora.
— Claro que sim, como tinha prometido.
— Apareceu alguém? — Não, não vi ninguém. — Tens mesmo a certeza?
O rapaz acenou com a cabeça. O Inglês tirou da mala uma linda pasta da escola, feita à mão com couro espanhol de grande qualidade, e entregou-a ao rapaz. — Para os teus livros — para não os perderes mais quando voltas para casa da escola.
O rapaz encostou a pasta ao nariz e cheirou o couro novo. Depois perguntou:
— Tens cigarros?
— Não vais dizer à sua mãe?
— Claro que não!
Os homens fingiam que dominavam a Córsega, mas o verdadeiro poder estava nas mãos das mães. O Inglês deu um maço meio vazio ao rapaz.
Enfiou os cigarros na pasta.
— Só mais uma coisa.
— O que é?
— O Don Orsati quer falar com você.
— Quando é que o viste?
— Hoje de manhã.
— Onde?
— No café da aldeia.
— E onde é que ele está agora?
— No café da aldeia.
O Orsati leva uma vida cheia de estresse, pensou o Inglês.
— Convida o Don para almoçar na minha casa. Mas diz-lhe que se está à espera de comer, o melhor é trazer comida.
O rapaz sorriu e foi-se embora a correr, a pasta da escola a abanar de um lado para o outro como uma bandeira. O Inglês pôs o jipe em primeira e continuou pela estrada acima. A uns oitocentos metros de casa, pisou a fundo nos travões e o jipe derrapou até parar, por entre uma nuvem de poeira vermelha. Um bode grande estava parado no centro do caminho estreito. Tinha as cores de um palomino e uma barbicha vermelha. Tal como o Inglês, estava cheio de cicatrizes de batalhas antigas. O bode detestava o Inglês e bloqueava-lhe a estrada para casa sempre que lhe apetecia. O Inglês já tinha sonhado várias vezes em acabar com o conflito de uma vez por todas com a pistola Glock que guardava no porta-luvas. Mas o bicho era de Don Casablanca e se alguma vez lhe fizessem mal, haveria uma rixa.
O Inglês buzinou. O bode de Don Casablanca lançou a cabeça para trás e olhou para ele ferozmente e em desafio. O Inglês tinha duas escolhas, ambas desagradáveis. Podia ficar à espera que o bode se fosse embora ou tentar afastá-lo.
Olhou para trás do ombro demoradamente, para ter certeza de que não havia ninguém a ver. A seguir, abriu a porta de rompante e avançou para o bode, a abanar as mãos e a gritar como um louco, até que o bicho se sentiu forçado a ceder e refugiou-se rapidamente na macchia. Um lugar apropriado para ele, pensou o Inglês — a macchia, o local onde todos os ladrões e bandidos acabam por habitar. Voltou para o jipe e avançou pela estrada até casa, a pensar na vergonha terrível de tudo aquilo. Um assassino altamente talentoso e no entanto não conseguia chegar à própria casa sem sofrer primeiro uma humilhação às mãos do desgraçado do bode de Don Casabianca.
Nunca fora preciso muito para dar origem a uma rixa na Córsega. Um insulto. Uma acusação de vigarice no mercado. A dissolução de um noivado. A gravidez de uma mulher solteira. Uma vez, na aldeia do Inglês, tinha havido uma rixa de quarenta anos por causa das chaves da igreja. Após a faísca inicial, seguia-se rapidamente a agitação. Um boi seria morto. O dono do boi retaliaria matando uma mula ou um rebanho de ovelhas. Uma oliveira estimada seria deitada abaixo. Uma vedação derrubada. Uma casa seria incendiada. A seguir, começariam os homicídios. E lá iria prosseguindo tudo, por vezes durante uma ou mais gerações, até as partes em disputa terem resolvido as suas diferenças ou desistido de lutar, exaustas.
Na Córsega, a maior parte dos homens estava mais do que disposta a ser ela própria a matar. Mas havia sempre aqueles que precisavam dos outros para fazer o trabalho sujo por eles: os notáveis que eram demasiado melindrosos para sujar as mãos ou que não estavam dispostos a arriscar a prisão ou o exílio; as mulheres que não eram capazes de matar elas próprias ou que não tinham nenhum homem na família para o fazer em nome delas. As pessoas assim dependiam de profissionais: os taddunaghiu. Por norma, viravam-se para o clã Orsati. Os Orsati tinham terrenos de grande qualidade, com muitas oliveiras, e o seu azeite era considerado o mais doce de toda a Córsega. Mas faziam mais do que produzir azeite de oliveira de ótima qualidade. Ninguém sabia quantos corsos tinham morrido ao longo dos tempos às mãos dos assassinos a soldo dos Orsati — muito menos os próprios Orsati — mas, segundo o que se dizia na região, o número já ia nos milhares. E poderia ainda ser significativamente maior se não fosse o rigoroso processo de escrutínio do clã. Nos velhos tempos, os Orsati acuavam de acordo com um código severo. Recusavam-se a levar a cabo um assassinato sem estarem convencidos de que a pessoa que viera ter com eles tinha sido de fato lesada e que era necessária uma vingança com derramamento de sangue.
Anton Orsati assumira o controle dos negócios da família em tempos conturbados. As autoridades francesas tinham conseguido erradicar as rixas e a vende a em praticamente toda a ilha, a não ser nas áreas mais isoladas. Já poucos corsos precisavam dos serviços dos taddunaghiu. Mas Anton Orsati era um homem de negócios astuto. Sabia que tanto podia desistir e tornar-se um mero produtor de excelente azeite de oliveira como expandir a sua base de operações e procurar oportunidades noutros locais. Decidiu-se pela segunda opção e levou o negócio para lá da ilha. Agora, o seu bando de assassinos era considerado o mais fiável e profissional da Europa. Deambulavam pelo continente, matando em nome de homens endinheirados, criminosos, vigaristas de seguros e por vezes até de governos. A maior parte dos homens que matava merecia morrer, mas a concorrência e as exigências dos tempos modernos tinham obrigado Anton Orsati a abandonar o velho código dos antepassados. Todas as ofertas de trabalho que lhe passavam pela mesa eram aceites, mesmo as mais repugnantes, desde que não colocassem a vida dos seus assassinos sob um perigo despropositado. Orsati achara sempre ligeiramente divertido o fato de o seu empregado mais talentoso não ser corso mas sim um inglês de Highgate, no norte de Londres. Só Orsati sabia a verdade acerca dele. Que tinha servido nos famosos Serviços Especiais Aéreos. Que tinha matado homens na Irlanda do Norte e no Iraque. Que os seus antigos empregadores o julgavam morto. Em tempos, o Inglês tinha mostrado a Orsati um recorte de um jornal londrino. O obituário dele. Uma coisa muito útil neste ramo, pensou Orsati. As pessoas não costumam procurar um morto.
Ele podia ter nascido inglês, mas Orsati achou sempre que lhe tinham dado a alma irrequieta de um corso. Falava o dialeto tão bem como Orsati, não confiava nos forasteiros e desprezava toda e qualquer autoridade. À noite, sentava-se na praça da aldeia com os velhos, a franzir o sobrolho para os rapazes a andar de skate e a resmungar que os mais novos não tinham respeito nenhum pelos velhos costumes. Era um homem de honra — por vezes, de demasiada honra para o gosto de Orsati. Ainda assim, era um assassino soberbo, o melhor que Orsati já conhecera. Tinha sido treinado pelos assassinos mais eficazes do planeta e Orsati aprendera muito com ele. Também se adequava na perfeição a certas missões no continente e foi por isso que nessa tarde Anton Orsati apareceu à procura do Inglês na casa dele, carregado de mercearias.
Orsati era descendente de uma família de notáveis, mas no guarda-roupa e no apetite não era muito diferente dos paesanu que trabalhavam no terreno dele mais à frente na estrada do vale. Entroncado, trazia uma camisa branca descolorida, desabotoada até meio do peito, e sandálias de couro empoeiradas. O almoço que levara consistia de pão comum, uma garrafa de azeite, um pedaço de presunto aromático da Córsega e um queijo de sabor forte. O Inglês tratou do vinho. A tarde estava quente e por isso comeram lá fora, na varanda com vista para o vale em forma de beco, à sombra matizada de dois imponentes pinheiros da Córsega.
Orsati entregou ao Inglês um cheque com o carimbo da Orsati Olive OU.
Oficialmente, todos os assassinos de Orsati eram empregados da empresa. O Inglês era o vice-presidente de marketing, o que quer que isso significasse.
— A sua parte dos honorários da missão espanhola.
Orsati molhou um bocado de pão no azeite e enfiou-o na boca.
— Algum problema?
— A garota trabalhava para os serviços de segurança espanhóis.
— Qual garota?
— A garota com quem o Navarra andava.
— Oh, merda. O que fizeste?
— Ela viu meu rosto.
Orsati pôs-se a meditar na notícia ao mesmo tempo que cortava uma fatia do presunto e a punha no prato do Inglês. Nenhum deles gostava de baixas colaterais. Normalmente, eram más para o negócio.
— Como é que te sentes?
— Estou cansado.
— Continuas sem dormir bem?
— Enquanto estou no estrangeiro a matar um homem.
— E aqui?