O Assassino Inglês
Capítulo 47
Peterson ajudou Gabriel a tirar o casaco ao morto. Gabriel limpou o sangue em excesso, fazendo-o escorrer para o chão, e vestiu-o. Pendurou a submetralhadora ao ombro. A Bere a, manteve-a na mão direita.
— E agora eu — disse Peterson. — Uma coisa convincente, mas não tão irrevogável. Antes que Peterson tivesse oportunidade de se preparar para a dor, Gabriel acertou-lhe com a coronha da Bere a na maçã do rosto com grande força, abrindo-lhe uma ferida. Peterson perdeu o equilíbrio momentaneamente mas manteve-se de pé.
Tocou na ferida com as pontas dos dedos e a seguir olhou para o sangue.
— O sangue da expiação, não é?
— Qualquer coisa do gênero.
— Vá.
47
NIDWALDEN, SUÍÇA
O frio com que Gabriel foi recebido ao atravessar a porta no alto da escadaria pareceu outro soco na cara. Era o fim da tarde, o cair da noite aproximava-se rapidamente e o vento silvava nos pinheiros. As mãos começaram a tremer-lhe com o frio. Devia ter ficado com as luvas do morto.
Olhou para cima e distinguiu o pico da Jungfrau. Umas quantas pinceladas de luz pálida rosada incidiam sobre a encosta mas o resto do maciço era azul e cinzento e tinha um aspecto muitíssimo ameaçador. Dizem que lá em cima, na Jungfrau, o vento sopra a mais de trezentos e vinte quilômetros por hora. A porta era de concreto e aço, como a entrada para um bunker militar secreto. Gabriel perguntou a si mesmo quantas estariam espalhadas pela propriedade de Gessler e que outras maravilhas poderiam ser descobertas por alguém que tivesse acesso a elas. Afastou esses pensamentos da cabeça por uns momentos e concentrou-se em orientar-se. Não estava a mais de cinquenta metros das traseiras da piscina e a poucos metros das árvores.
... descer a encosta da montanha...
Atravessou o jardim, com a neve a dar-lhe pelo joelho, e embrenhou-se nas árvores. Algures, um cão começou a ladrar. Os sabujos de Gessler. Perguntou a si mesmo quanto tempo passaria até que outro segurança fosse ter à cela e descobrisse o corpo. E por quanto tempo conseguiria Peterson aguentar o estratagema de ter sido atacado por um homem que estava meio morto de tanta pancada.
No meio das árvores, estava escuro e, enquanto ia avançando aos apalpões, pensou na noite em que se infiltrara sorrateiramente na residência de Rolfe, em Zurique, e descobrira as fotografias escondidas na gaveta falsa da mesa.
Herr Hitler, gostaria de lhe apresentar Herr Rolfe. O Herr Rolfe aceitou fazer-nos alguns favores. O Herr Rolfe é um colecionador, como o Sr., mein Führer.
O frio tinha uma vantagem: passados uns quantos momentos, ele já não conseguia sentir o rosto. Ali, a neve tinha menos alguns centímetros de altura, mas cada passo era uma nova aventura: um afloramento de rochas; um tronco de árvore caído; um buraco deixado por um animal que escava tocas. Por quatro vezes, desequilibrou-se e caiu, e a cada vez foi mais difícil levantar-se do que na anterior. Mas lá acabava por se levantar e continuar a descer pela encosta, em direção ao ponto onde Oded e Eli o esperavam.
Gabriel chegou a uma pequena clareira onde havia um segurança de vigia. Estava uns vinte metros mais à frente, com as costas ligeiramente voltadas para Gabriel, que por isso via-o mais ou menos de perfil. Não tinha a certeza de conseguir acertar no alvo àquela distância — não com as contusões e os olhos inchados e as mãos geladas — e por isso continuou a avançar, na esperança de que a escuridão lhe escondesse o aspecto esfarrapado durante o tempo suficiente.
Conseguiu dar alguns passos antes de fazer estalar um galho. O segurança deu meia volta e olhou para Gabriel, sem saber o que fazer a seguir. Gabriel continuou a avançar, calmamente e sem parar, como se fosse o responsável pelo turno seguinte, a apresentar-se ao serviço. Quando já estava a menos de um metro de distância, sacou a Bere a do bolso e apontou-a ao peito do segurança. O cartucho saiu pelas costas do homem, numa nuvem de sangue, tecido e fio fino de poliéster.
O tiro ecoou pela encosta. Imediatamente, um cão começou a ladrar; a seguir, outro; e depois um terceiro. As luzes da residência acenderam-se. Para lá da clareira, havia um trilho estreito, que dava apenas para um veículo pequeno passar. Gabriel tentou correr mas não foi capaz. Os músculos não tinham nem a força nem a coordenação necessárias para descer a correr uma encosta de montanha coberta de neve. Por isso, foi a andar e mal o conseguia fazer.
À sua frente, sentiu que a topografia do terreno começava a aplanar, como se a montanha de Gessler estivesse a dar lugar ao chão do vale. E, a seguir, viu os faróis de um Volkswagen e duas figuras meras sombras, Lavon e Oded, a baterem com os pés no chão para lutar contra o frio.
Não pares! Anda!
Atrás de si, ouviu um cão a ladrar e, em seguida, a voz de um homem:
— Alto, aí à frente! Alto ou eu disparo!
A julgar pela intensidade do som, estavam bem próximos; trinta metros, no máximo. Olhou pela montanha abaixo. Oded e Lavon também tinham ouvido aquilo, pois já estavam a subir apressadamente a estrada para irem ter com ele.
Gabriel continuou a andar.
— Alto, já disse! Alto, já, ou eu disparo!
Ouviu um rosnar e virou-se a tempo de ver o pastor alemão, já solto da coleira, avançando sobre ele como uma avalanche. Atrás do cão vinha o segurança, com uma submetralhadora nas mãos.
Gabriel hesitou uma fração de segundo. Primeiro quem? Cão ou homem? O homem tinha uma arma, o cão tinha mandíbulas que podiam rasgar suas costas. No momento em que o cão saltou no ar em sua direção, ergueu a Bere a, segurando-a com uma mão, e disparou, a bala passando ao lado do bicho e tendo o dono como destinatário. O tiro acertou o no meio do peito e ele caiu desamparado no chão.
A cabeça do cachorro bateu com toda a força no peito de Gabriel, derrubando-o. Ao cair no piso gelado, a mão direita bateu no chão e ele largou a Bere a.
O cão atirou-se de imediato ao pescoço de Gabriel. Ele levantou o braço à frente do rosto e o animal acabou por abocanhar isso mesmo. Gabriel gritou quando os dentes lhe rasgaram a proteção do casaco e se cravaram na pele do antebraço. O cão rosnava, sacudindo violentamente a cabeça gigante de um lado para o outro, tentando tirar o braço do caminho para chegar à recompensa da pele macia do pescoço. Freneticamente, Gabriel tateou com a mão direita no chão coberto de neve, à procura da Bere a perdida.
O cão mordeu com mais força, atingindo e partindo um osso. Gabriel soltou um berro, em completa agonia. A dor era mais intensa do que qualquer coisa que os capangas de Gessler lhe tinham feito. Por uma última vez, varreu o chão com a mão. E encontrou a coronha da Bere a.
Com um puxão violento do enorme pescoço, o cão conseguiu afastar o braço de Gabriel e lançou-se ao pescoço dele. Gabriel enfiou o cano da arma nas costelas do animal e disparou três tiros no coração.
Gabriel afastou o cachorro e pôs-se em pé. Ouviam-se gritos vindos da residência e os cães de Gessler latiam. Começou a andar. Tinha a manga esquerda do casaco em farrapos e sangue escorrendo copiosamente da mão. Passado um momento, viu Eli Lavon subi a trilha correndo, até ele, e deixou-se cair em seus braços.
— Continue a andar, Gabriel. Consegue andar?
— Consigo andar.
— Oded, segure-o. Meu Deus, o que te fizeram, Gabriel? O que eles fizeram?
— Consigo andar, Eli. Deixe eu andar.