O Assassino Inglês
Capítulo 4
Tirou os olhos do papel e fixou-os em Gabriel.
— Quais é que acha que são as probabilidades de dois homens terem precisamente o mesmo nome e a mesma data de nascimento?
— Como é que eu hei-de saber?
— Acho que são de fato muito remotas. Acho que só existe um Mario Delvecchio e que o Sr. lhe roubou a identidade de forma a obter um passaporte italiano. Não acho que o seu nome seja Mario Delvecchio. Na verdade, estou bem seguro de que não é. Acho que o seu nome é Gabriel Allon e que o Sr. trabalha para os serviços secretos israelenses.
Peterson sorriu pela primeira vez, não um sorriso agradável, mas sim, mais parecido com um rasgão num pedaço de papel.
— Há vinte e cinco anos atrás, o Sr. assassinou um dramaturgo palestino que vivia em Zurique chamado Ali Abdel Hamidi. Escapuliu-se do país uma hora depois do homicídio e provavelmente já estava em casa, na cama, em Telaviv, antes da meia-noite. Desta vez, receio que não vá a lado nenhum.
4
ZURIQUE
Algum tempo depois da meia-noite, Gabriel foi levado da sala de interrogatórios para uma cela numa ala adjacente do edifício. Era pequena e de um cinzento institucional, com um colchão em cima de uma armação de aço e uma sanita com manchas de ferrugem que nunca parava de deitar água. Em cima, uma única lâmpada zumbia atrás de uma armação de rede. O jantar — uma salsicha de porco gorda, alguns vegetais murchos e uma pilha de batatas gordurosas —, no qual não tinha tocado, estava no chão, ao lado da porta, como um serviço de quarto à espera de ser recolhido. Gabriel calculou que a salsicha de porco tinha sido a ideia que Peterson fazia de uma brincadeira.
Tentou imaginar os acontecimentos que sabia estarem a ter lugar do lado de lá daquelas paredes. Peterson tinha contatado o seu superior, o superior tinha contatado o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Por esta hora, a notícia provavelmente já tinha chegado a Telaviv. O primeiro-ministro ia ficar lívido. Já tinha problemas suficientes: a Margem Ocidental em chamas, o processo de paz em farrapos, a sua frágil coligação a desmoronar-se. A última coisa de que precisava era de um kidon, ainda que um antigo kidon, atrás das grades na Suíça — mais outro escândalo do Executivo à espera de explodir pelas primeiras páginas dos jornais do mundo inteiro.
E por isso, esta noite as luzes estavam com certeza a brilhar com urgência no anônimo quarteirão de escritórios na Avenida Rei Saul em Telaviv. E Shamron? Teria o telefonema chegado à sua fortaleza à beira do lago, em Tiberíades? Atualmente, estaria fora ou dentro? com Shamron, era sempre difícil de perceber. Tinha sido arrancado da sua reforma precária umas três ou quatro vezes, chamado de volta para lidar com esta ou aquela crise, selecionado para fazer parte de algum painel duvidoso de aconselhamento ou dar a sua opinião engelhada no âmbito de um comité de apuramento de fatos supostamente independente. Ainda não há muito tempo, fora nomeado chefe interino dos serviços secretos, o cargo que ocupava da primeira vez que fora enviado para o deserto judaico da reforma. Gabriel pôs-se a pensar se esse mandato já teria ou não terminado. Com Shamron, a palavra interino podia significar cem dias ou cem anos. Era polaco de nascimento, mas tinha o sentido elástico do tempo, próprio de um beduíno. Gabriel era O kidon de Shamron. Shamron trataria daquilo, reformado ou não.
O Velho... Tinha sido sempre o Velho, até mesmo durante o seu curto romance com a meia-idade. Onde é que está o Velho? Alguém viu o Velho? Corram para as colinas!
O Velho vem a caminho! Agora era um velho, mas na cabeça de Gabriel surgia sempre como a pequena figura ameaçadora que o fora ver numa tarde de Setembro, em 1972, entre as aulas em Bezalel. Um homem que era como uma barra de ferro. Quase que se podia ouvi-lo a produzir um som metálico a andar. Sabia tudo sobre Gabriel. Que ele tinha sido criado num kibbut agrícola no Vale de Jezreel e que odiava fervorosamente a agricultura. Que era uma espécie de lobo solitário, ainda que na época já estivesse casado com uma colega da escola de arte chamada Leah Savir. Que a mãe tinha encontrado a força necessária para sobreviver a Auschwi mas que não tivera hipóteses contra o cancro que lhe devastara o corpo; que o pai também tinha sobrevivido a Auschwi mas que não tivera hipóteses contra a granada da artilharia egípcia que o explodira em pequenos pedaços nos Montes do Sinai. Pelo serviço militar de Gabriel, Shamron sabia que ele era quase tão bom com uma arma como com um pincel.
— Vês as notícias?
Pinto.
— Sabes de Munique? Sabes o que aconteceu aos nossos rapazes lá?
— Sim, ouvi dizer.
— Não te sentes incomodado com isso?
— Claro que sim, mas não me sinto mais incomodado por serem atletas ou porque são as Olimpíadas.
— Podes ficar zangado à mesma.
— Com quem?
— Com os palestinos. Com os terroristas do Setembro Negro que andam por aí com o sangue do seu povo nas mãos deles.
— Nunca me zango.
E apesar de Gabriel não se ter apercebido na hora, essas palavras tinham selado o compromisso de Shamron para com ele e a sedução iniciara-se.
— Falas outras línguas, certo?
— Umas quantas.
— Umas quantas?
— Os meus pais não gostavam do hebreu, por isso falavam as línguas da Europa.
— Quais delas?
— Já sabe. Sabe tudo sobre mim. Não faça joguinhos comigo.
Foi então que Shamron resolveu utilizar a sua fala de engate. Golda* ordenara a Shamron que mandasse avançar os rapaces para eliminar os sacanas do Setembro Negro que tinham executado aquele banho de sangue. A operação chamar-se-ia Ira de Deus. Não tinha a ver com justiça, dissera Shamron. Tinha a ver com olho por olho. Tinha a ver com vingança, pura e simples.
* Golda Meir (1898-1978). Primeira-ministra de Israel entre 1969 e
1974.
— Desculpe, não estou interessado.
— Não está interessado? Sabe quantos rapazes neste país não dariam tudo para fazer parte desta equipe?
— Vá perguntar a eles.
— Não os quero. Quero você.
— Por que eu?
— Porque tem dons. Sabe línguas. Sua cabeça funciona bem. Não bebe nem fuma haxixe. Não é nenhum maluco que vá fazer alguma coisa intempestivamente.
E porque tens a frieza emocional de um assassino, pensou Shamron, embora na época não tivesse dito essas palavras a Gabriel. Em vez disso, contou-lhe uma história, a história de um jovem agente dos serviços secretos que tinha sido escolhido para uma missão especial por ter um dom, uma força de pulso invulgarmente poderosa para um homem tão pequeno. A história de uma noite num subúrbio de Buenos Aires, quando esse jovem agente dos serviços secretos vira um homem à espera numa paragem de autocarro. A espera como um homem normal, Gabriel. Um homenzinho patético e normal. E de como esse jovem agente dos serviços secretos saltara de um carro e agarrara o homem pelo pescoço e como se tinha sentado em cima dele enquanto o carro se afastava e como lhe tinha cheirado o fedor a medo no hálito. O mesmo fedor que os judeus tinham emitido quando esse homenzinho patético os enviava para as câmaras de gás. E a história funcionou, como Shamron sabia que iria acontecer. Porque Gabriel era o único filho de dois sobreviventes de Auschwi e as cicatrizes deles eram as suas. De repente, sentiu-se muito cansado. Imagine-se, aqueles anos todos, aquelas mortes todas, e agora estava atrás das grades pela primeira vez, por um assassínio que não cometera. Não deverás ser apanhado! O Décimo Primeiro Mandamento de Shamron. Deverás fazer tudo para evitar ser preso. Deverás derramar o sangue de inocentes se for necessário. Não, pensou Gabriel. Não deverás derramar sangue inocente.
Fechou os olhos com força e tentou dormir, mas era escusado: a luz incessante de Peterson. As luzes estavam com certeza a brilhar também na Avenida Rei Saul. E seria feito um telefonema. Não o acordem, pensou Gabriel, porque eu nunca mais quero voltar a ver a cara mentirosa dele. Deixem-no dormir. Deixem o Velho dormir.
Passavam poucos minutos das oito da manhã quando Peterson entrou na cela de Gabriel. Gabriel soube isso não por Peterson se ter dado ao trabalho de lhe dizer, mas por ter conseguido dar uma olhadela ao mostrador do relógio grande de mergulhador dele, quando Peterson lhe despejou café para a boca.
— Falei com o seu chefe.
Parou para ver se as palavras dele provocavam alguma resposta, mas Gabriel permaneceu em silêncio. A sua posição era a de ser um restaurador de arte, nada mais, e de Herr Peterson estar a sofrer de um caso de insanidade temporária.
— Fez-me a cortesia profissional de não se tentar desenvencilhar desta situação mentindo. Agradeço a maneira como ele tratou das coisas. Mas parece que Berna já não tem vontade de avançar com este assunto.
— E qual assunto é esse?
— O assunto do seu envolvimento no assassínio do Ali Hamidi — respondeu Peterson friamente.
Gabriel teve a impressão de que ele estava a esforçar-se para evitar pensamentos violentos.
— Já que acusá-lo pelo papel que teve na questão Rolfe iria revelar inevitavelmente o seu passado sórdido, não temos alternativa a não ser também deixar cair por terra as acusações contra si no âmbito desse assunto.
Peterson discordava claramente da decisão dos seus patrões em Berna. — O seu governo assegurou-nos que o Sr. já não faz parte de nenhum ramo dos serviços secretos israelenses e que não veio para Zurique em qualquer tipo de função oficial. O meu governo decidiu aceitar estas garantias com base simplesmente no que lhe disseram. Mas não está minimamente inclinado em permitir que a Suíça se transforme num palco para os israelenses e os palestinos reviverem os horrores do passado.
— Quando é que me posso ir embora?
— Um representante do seu governo virá buscá-lo.
— Gostava de mudar de roupa. Podem dar-me a minha mala?
— Não
Peterson levantou-se, endireitou a gravata e alisou o cabelo. Gabriel achou que era uma coisa estranhamente íntima para um homem estar a fazer à frente de outro.
A seguir, dirigiu-se para a porta, bateu uma vez e esperou que o guarda a destrancasse.
— Não gosto de assassinos, Sr. Allon. Especialmente quando matam para um governo. Uma das condições da sua libertação é nunca mais voltar a colocar os pés na Suíça. Se alguma vez voltar cá, trato de fazer com que nunca mais daqui saia.
A porta abriu. Peterson começou a preparar-se para se ir embora, depois voltou-se e olhou de frente para Gabriel.
— É uma pena o que aconteceu à sua mulher e ao seu filho em Viena. Deve ser muito duro viver com uma recordação dessas. Imagino que por vezes deseje ter estado no carro em vez deles. Bom dia, Sr. Allon.
Era já final de tarde quando Peterson achou por bem libertá-lo. O sargento-mor acompanhou Gabriel a partir da cela, desempenhando a sua tarefa em silêncio, como se Gabriel estivesse destinado à forca e não à liberdade. Baer devolveu a mala a Gabriel, como o equipamento de restauro e um envelope grosso cor de mel com os bens pessoais. Gabriel demorou um longo momento a fazer um inventário cuidadoso das suas coisas. Baer olhou para o relógio, como se assuntos mais urgentes o estivessem a apertar. A roupa na mala de Gabriel tinha sido despejada, revistada e enfiada lá outra vez à toa. Alguém tinha entornado um frasco de solvente Arcosolve dentro da mala. Baer inclinou a cabeça — Peço desculpa, meu caro, mas estas coisas acontecem quando chocamos com agentes da polícia.
Lá fora, no pátio enevoado, estava parado um Mercedes preto, rodeado por uma meia dúzia de policiais fardados. Nas janelas dos edifícios em volta, havia policiais e secretárias que tinham vindo ver o assassino israelense ser levado. Quando Gabriel se aproximou do carro, a porta de trás abriu e uma nuvem de fumaça de cigarro avançou numa onda. Um rápido olhar para o banco de trás na sombra esclareceu a origem.
Parou de repente, uma atitude que pareceu pegar Baer completamente de surpresa. A seguir, relutantemente, recomeçou a andar e entrou no banco de trás. Baer fechou a porta e o carro arrancou de imediato, os pneus deslizando no asfalto molhado. Shamron não olhou para ele. Shamron estava olhando fixamente pela janela, os olhos no próximo campo de batalha e os pensamentos na próxima campanha.