O Assassino Inglês

Daniel Silva · Capítulo 24 de 51

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O Assassino Inglês

Capítulo 25

ZURIQUE

 

Gabriel jogou a lanterna no outro lado do escritório, sacou a Bere a e lançou-se ao chão. O homem que estava à entrada disparou. Tinha a pistola com silenciador, mas o brilho da boca da arma era visível na escuridão. O tiro rasgou o ar por cima da cabeça de Gabriel e estilhaçou a janela por trás da mesa de Rolfe. Antes que o homem pudesse voltar a dar um tiro, Gabriel tirou um joelho do chão e disparou na direção do brilho da boca. Os tiros atingiram o alvo — Gabriel percebeu isso porque conseguiu ouvir as balas a rasgarem tecido e a estilhaçarem ossos. Levantou-se e começou a correr, disparando à medida que avançava, como lhe tinham ensinado na Academia.

Tal como tinha feito tantas vezes antes. Quando já estava parado, por cima do homem, debruçou-se, encostou-lhe o cano da arma ao ouvido e disparou uma última vez.

O corpo entrou em convulsão e depois ficou imóvel.

Gabriel ajoelhou-se e revistou os bolsos do morto: nem carteira, nem chaves, nem dinheiro. Uma pistola Glock de nove milímetros estava caída no chão, a poucos metros do corpo. Gabriel enfiou-a dentro do bolso e entrou no corredor.

Ao lado da escadaria central, havia uma alcova com um conjunto de janelas altas com vista para a rua. Gabriel olhou para baixo e viu dois homens a subirem os degraus da entrada em grande velocidade. Atravessou o corredor a correr, até as janelas com vista para o jardim das traseiras. Lá fora, estava outro homem, de arma em riste e pernas afastadas, a comunicar por um rádio de mão.

Ao descer a escadaria curva, Gabriel tirou da Bere a o cartucho já utilizado e introduziu o de substituição. Seguiu o mesmo percurso que Anna tinha feito na noite em que lhe mostrara a caixa-forte secreta: passando pela grande sala de jantar, pela cozinha, descendo pelas escadas dos fundos, e pela adega, até entrar na sala de montagem das gravações de vigilância.

Chegou a uma entrada com uma janela envidraçada que dava para o jardim. Gabriel empurrou a porta, abrindo-a uns quantos centímetros, e espreitou lá para fora. O homem do rádio e da arma andava a rondar a varanda coberta de neve. A outra equipe tinha entrado na casa — Gabriel conseguia ouvir o barulho dos pés que percorriam o primeiro piso, por cima dele.

Saiu da casa e avançou pelo jardim em passo rápido, direito ao homem da arma.

Num alemão veloz, disse:

— Tu aí! Viste para que lado é que aquele anormal foi?

O homem olhou para ele com uma expressão de total confusão. Gabriel continuou a avançar.

— Qual é o seu problema, homem? És surdo? Responde-me!

Quando o homem levou o rádio à boca, Gabriel levantou o braço e começou a disparar. Cinco tiros, o último no peito e a um metro de distância. Gabriel olhou para cima, em direção à casa. Conseguia ver feixes de lanterna a deslocarem-se por trás das cortinas corridas. Foi então que elas se abriram e um rosto surgiu. Um grito. Marteladas nos vidros.

Gabriel virou-se e fez um sprint pelo jardim, até chegar a um muro — Com uns dois metros de altura, calculou, e uma fileira de espigões de ferro forjado no topo. Olhando rapidamente por cima do ombro, viu os dois homens que tinham entrado na casa. Um estava ajoelhado junto ao morto, o outro andava a inspecionar o jardim com a ajuda do feixe de uma lanterna potente.

Gabriel saltou e agarrou-se aos espigões metálicos no alto do muro. O feixe de luz incidiu nele e alguém gritou em alemão. Conseguiu subir, agitando as pernas contra o muro. Um tiro acertou no estuque, e depois outro. Gabriel sentia as suturas a rasgarem-se nas mãos.

Passou a perna por cima do muro e tentou saltar para o lado de lá, mas o casaco tinha-lhe ficado emaranhado num espigão e ele ficou ali, a baloiçar desamparado, com a cabeça à vista e cego pela luz da lanterna. Contorceu o corpo com violência, até o espigão o soltar, e caiu no jardim do lado de lá. O envelope fugiu-lhe do casaco e caiu na neve. Gabriel apanhou-o, enfiou-o outra vez dentro da calça e começou a correr.

A luz de halogêneo de um poste irrompeu e a noite ganhou os tons de um branco elétrico. Ao longe, um alarme soou desenfreadamente. Gabriel correu encostado a um dos lados da casa, até chegar a outro muro, desta feita protegendo a casa em relação à rua. Trepou-o rapidamente e saltou para o lado de lá.

Deu por si numa rua estreita. As luzes estavam a acender-se nas residências à volta — os suíços e a sua vigilância lendária. Enquanto corria pela rua abaixo, o Décimo Primeiro Mandamento de Ari Shamron fazia ouvir-se na cabeça dele: Não deverás ser apanhado!

Chegou a Krahbühlstrasse, a avenida espaçosa onde tinha estacionado. Fez um sprint pela rua ligeiramente inclinada, até descobrir o carro. Parou de repente, escorregou e foi cair no passeio. Havia dois homens a espreitar para dentro do carro com lanternas.

Ao mesmo tempo que se punha de pé, os homens apontaram-lhe as lanternas. Virou-se na direção contrária e começou a subir a encosta novamente. Deverás fazer tudo para evitar ser preso!

Sacou da Glock que tinha tirado ao homem no escritório e continuou a correr. Começava a ficar cansado. O ar frio queimava-lhe os pulmões e a boca tinha gosto de ferrugem e sangue. Depois de dar mais umas passadas, viu faróis a descerem pela colina: um Audi grande, com as rodas a derrapar na neve recente. Olhou rapidamente por cima do ombro. Os dois homens vinham a persegui-lo a pé. Nada de ruas secundárias, nenhuma viela — estava encurralado. Deverás derramar sangue inocente, se necessário! O Audi vinha a avançar em direção a ele, a toda a velocidade. Gabriel parou de correr, esticou as mãos e fez pontaria com a Glock. Quando o carro derrapou e começou a deslizar até parar uns quantos metros à frente, ele apontou a arma na direção da silhueta ao volante. Antes de poder disparar, a porta do passageiro abriu com toda a força.

— Entre, Gabriel! — gritou Anna Rolfe. — Depressa.

Ela dirigia com a mesma intensidade com que tocava violino uma mão no volante, a outra a apertar a caixa das mudanças. Descendo Zúrichberg, atravessando Limmat e indo dar às ruas sossegadas do centro da cidade. Gabriel olhou longamente por cima do ombro. — Agora já pode abrandar. Ela levantou o pé do acelerador.

— Onde aprendeu a mexer assim num carro?

— Eu era uma menina de Zurique com muito dinheiro. Quando não estava ensaiando com o violino atravessava o Zurichsee a toda a velocidade, num dos carros do meu pai. Por volta dos meus vinte e um anos, já tinha enviado três para a sucata.

— Parabéns.

— O sarcasmo não lhe fica bem, Gabriel. Meus cigarros estão no console. Faça-me um favor e acenda-me um.

Gabriel abriu a consola e pegou o maço de Gitanes. Acendeu um com o isqueiro do painel. O fumo ficou-lhe preso no fundo da garganta e quase sufocou.

Anna riu dele.

— Imagine-se só, um israelense que não fuma.

— Que raio é que está a fazer aqui?

— É só isso que tem a dizer? Se eu não tivesse aparecido, agora estava preso. — Não, se a Anna não tivesse aparecido, eu agora estava morto. Mas continuo a querer saber que raio é que está a fazer aqui. O Rami deu-lhe autorização para sair de casa?

— Suspeito que a esta altura já deve ter descoberto que eu não estou lá.

— Como escapou?

— Fui para o segundo andar, para a sala de ensaios. Pus para tocar uma fita com uma composição bem comprida. Calculo que consiga imaginar o resto.

— Como é que conseguiu sair da casa?

— O Carlos disse ao Rami que ia fazer umas compras à alceia. Eu ia no banco de trás, sob um cobertor.

— Então podemos dizer com toda segurança que, neste momento, vários membros da minha equipe andam à sua procura, numa busca desenfreada e sem sentido. Isso que fez foi uma coisa muito estúpida. Como é que veio ter a Zurique?

— Apanhei um avião para aqui, claro.

— Diretamente de Lisboa?

— Sim.

— Há quanto tempo é que chegou?

— Há cerca de duas horas.

— Entrou na casa do seu pai?

— Ela abanou a cabeça.

Quando lá cheguei, vi dois homens à espera, num carro estacionado à porta. Primeiro, pensei que pudessem ser seguranças privados. Mas depois percebi que havia alguma coisa errada.

— E o que fez?

— Não me sentia segura se ficasse à espera dentro do carro e por isso dei uma volta ao quarteirão, na esperança de o encontrar a si, antes de o Gabriel tentar lá entrar. Não o apanhei, claro. A seguir, ouvi os alarmes a dispararem.

— Disse a alguém que vinha para cá?

— Não.

— Tem certeza?

— Claro que tenho. Por quê?

— Porque isso explica uma série de coisas. Significa que a residência está sob vigilância constante. Significa que eles sabem que voltamos para aqui.

Significa que me seguiram até Roma. Têm-me seguido desde então.

— O que aconteceu dentro da casa do meu pai?

Depois de Gabriel terminar, Anna perguntou:

— Pelo menos, conseguiu as proveniências?

— Tinham desaparecido.

— Isso não é possível.

— Alguém lhes deve ter posto as mãos em cima primeiro. Encontrou mais alguma coisa?

Encontrei uma fotografia de seu pai com o Adolf Hitler e o Heinrich Himmler, a admirarem a vista ao Hotel Berghof, em Verchtesgaden.

— Não — respondeu Gabriel — , não encontrei mais nada.

— Tem certeza disso? Não aproveitou a oportunidade para folhear alguns documentos pessoais do meu pai?

Gabriel ignorou-a. — O seu pai fumava?

Por que isso agora interessa?

— Responda-me apenas à pergunta, por favor. O seu pai fumava? Sim, o meu pai fumava!

Que marca de cigarros? — Benson & Hedges.

E alguma vez fumou Silk Cuts? Ele tinha hábitos muito certos.

— Então e outra pessoa, algum dos empregados? — Que eu saiba, não. Por que pergunta?

— Porque andou alguém a fumar Silk Cuts no escritório do seu pai ainda não há muito tempo.

Foram dar ao lago. Anna encostou o carro ao passeio.

Para onde é que vamos?