O Assassino Inglês
Capítulo 33
Só me interessa se as autoridades fazem ou não perguntas. E é para isso que lhe pagamos, Gerhardt — para termos a certeza de que elas não fazem perguntas. — Também o devo avisar de que os serviços secretos israelenses não atuam segundo as regras habituais. Se mandarmos assassinar um dos agentes deles, virão atrás de nós.
— Não tenho medo dos judeus, Gerhardt, e você também não devia ter. Contate o Anton Orsati imediatamente. Vou transferir mais alguns fundos para a sua conta de operações, bem como um pequeno extra para a sua conta pessoal. Considere-o um incentivo para garantir que este caso seja resolvido depressa e discretamente.
— Isso não é necessário, Herr Gessler.
— Eu sei que não é necessário, mas merece-o.
Peterson mudou de assunto apressadamente. Não gostava de pensar demasiado no dinheiro. Fazia-o sentir-se como uma prostituta.
— Tenho mesmo de começar a pensar em voltar para Zurique, Herr Gessler. O tempo lá fora.
— Está à vontade para passar aqui a noite.
— Não, tenho mesmo de começar a pensar em voltar.
— Como queira, Gerhardt.
— Posso fazer-lhe uma pergunta, Herr Gessler?
— Com certeza.
— Conhecia Herr Rolfe?
— Sim, conhecia-o bem. Em tempos, eu e ele até fomos bem chegados. Aliás, eu estava lá na manhã em que a mulher dele se suicidou. Cavou a sua própria sepultura, enfiou uma espingarda na boca e disparou. Foi a pequena Anna que descobriu o corpo. Uma coisa horrível. A morte de Herr Rolfe foi lamentável mas necessária. Não foi pessoal, foi uma questão de negócios. Compreende realmente a diferença, não compreende, Gerhardt?
33
LONDRES
Julian Isherwood estava sentado à mesa, a folhear uma pilha de documentos, quando ouviu o som de uma van de distribuição a ribombar pelos tijolos de Mason's Yard. Foi até a janela e espreitou. Um homem de macacão azul estava saindo do lado do passageiro da frente e avançando para a porta. Um momento depois, ouviu-se o som do apito elétrico.
— Irina? Marcou alguma entrega para hoje?
— Não, Sr. Isherwood.
Oh, Jesus, pensou Isherwood. Outra vez não.
— Irina?
— Sim, Sr. Isherwood?
— Estou a ficar com um pouquinho de fome, minha pétala. Não quer ser uma querida e trazer-me um panini daquela loja maravilhosa em Piccadilly?
— Teria todo o gosto, Sr. Isherwood. Posso desempenhar mais alguma tarefa insignificante e humilhante para si?
— Não é preciso ser impertinente, Irina. E um chá também. E não se apresse. O homem de macacão azul tinha qualquer coisa que fazia Isherwood lembrar-se do tipo que tinha andado à procura de térmitas em casa dele. Tinha sapatos de sola de borracha e trabalhava com a eficiência silenciosa de uma enfermeira noturna. Numa mão, trazia um aparelho mais ou menos do tamanho de uma cigarreira, com medidores e mostradores; na outra, trazia uma varinha comprida, parecida com um mata-moscas. Começou pelas arrecadações da cave a seguir passou para o gabinete de Irina, depois para o de Isherwood e a seguir para a sala de exposições. Por fim, desmontou por completo os telefones, os computadores e o fax. Passados quarenta e cinco minutos, voltou a entrar no gabinete de Isherwood e pôs dois objetos minúsculos na mesa.
— Tinha estes bichinhos à escuta — disse. — Agora estão mortos.
— Mas quem é que os colocou aqui, em nome de Deus?
— Isso não é da minha competência. Sou só o exterminador. Sorriu. — Está uma pessoa lá em baixo que lhe queria dar uma palavrinha. Isherwood foi à frente, atravessando as arrecadações a abarrotar, a caminho da zona de cargas. Abriu a porta exterior e a van de distribuição estacionou lá dentro.
— Feche a porta — ordenou o homem de macacão azul. Isherwood fez o que lhe mandaram. O homem abriu a porta de trás da van e uma nuvem de fumo denso irrompeu em ondas. Agachado no fundo da van, a imagem perfeita da infelicidade, estava Ari Shamron. O homem que ia no Rover deslocara-se de Jermyn Street para King Street, que se encontrava ainda bem dentro do limite de alcance de um quilômetro e meio dos transmissores que colocara na galeria, mas há já algum tempo que não ouvia qualquer som. Na verdade, a última coisa que monitorizara tinha sido o negociante de arte pedindo à secretária para buscar o almoço.
Parecera-lhe estranho, já que ele tinha almoçado fora todos os dias desde que o estava vigiando. Tão estranho, aliás, que até tinha apontado a hora na agenda. Quarenta e cinco minutos depois disso, o rádio do carro disparou uma rajada de estática. Alguém tinha acabado de descobrir os transmissores dele. Praguejou em voz baixa e ligou o carro rapidamente. Enquanto se afastava, pegou o celular e ligou para Zurique.
O ferry de Hoek van Holland para Harwich atrasou-se várias horas devido ao mau tempo no mar do Norte e, por isso, a tarde já ia no final quando Gabriel e Anna Rolfe atracaram em Mason's Yard. Gabriel buzinou rapidamente, duas vezes, e a porta da zona de cargas abriu lentamente. Depois de entrar, desligou o motor e esperou até que a porta se voltasse a fechar, antes de sair do carro. Tirou o cofre maior do banco de trás e levou Anna até o elevador, passando pela arrecadação. Isherwood estava lá à espera.
— A Sra. deve ser Anna Rolfe! É uma verdadeira honra conhecê-la. Tive o distinto privilégio de a ver uma vez a interpretar uma noite de Mendelssohn.
Foi uma experiência profundamente comovente.
— O Sr. é muito amável.
— Não quer fazer o favor de entrar?
— Obrigado.
— Ele já chegou? — perguntou Gabriel.
— Está lá em cima, na sala de exposições.
— Vamos.
— O que está no cofre?
— Já vai, Julian.
Shamron estava parado no centro da sala, a fumar os seus repugnantes cigarros turcos, sem prestar qualquer atenção às telas dos Velhos Mestres que o rodeavam. Gabriel percebeu que o Velho se estava a tentar recordar de alguma coisa. Um ano antes, nessa mesma sala, tinham dado início à fase final de uma operação que resultara na morte de Tariq al-Hourani. Quando viu Anna Rolfe a entrar, o seu rosto iluminou-se e ele apertou-lhe a mão calorosamente. Gabriel colocou o cofre no chão e levantou a tampa. A seguir, tirou a primeira pintura, desembrulhou-a e pousou-a no chão.
— Meu Deus — sussurrou Isherwood. — Uma paisagem de Monet.
Anna sorriu.
— Espere, ainda vai melhorar.
Gabriel tirou a pintura seguinte, um auto-retrato de Van Gogh, e pousou-a ao lado do Monet.
— Oh, Deus do Céu — murmurou Isherwood.
A seguir veio o Degas, depois o Bonnard, depois o Cézanne e o Renoir, e assim foi continuando até as dezesseis telas cobrirem todo o chão da galeria.
Isherwood sentou-se no divã, apertou a cabeça com a palma das mãos e chorou.
Shamron disse:
— bom, isto é uma entrada e tanto. Tens a palavra, Gabriel.
Anna já tinha ouvido tudo durante a viagem de carro de Zurique até a fronteira com a Alemanha e, por isso, afastou-se e consolou Isherwood, enquanto ele olhava embasbacado para as pinturas. Gabriel falou de tudo o que tinha descoberto sobre Augustus Rolfe e a sua coleção, terminando no bilhete que Rolfe lhe deixara no cofre, em Zurique. A seguir, revelou a Shamron o seu plano para recuperar o resto da coleção de Rolfe: as vinte obras que tinham sido roubadas da caixa-forte da sua residência de Zurique. Quando Gabriel terminou, Shamron apagou o cigarro, esmagando-o, e abanou a cabeça lentamente. — É uma ideia interessante, Gabriel, mas tem uma falha fatal. O primeiro-ministro nunca a irá aprovar. Caso não tenhas reparado, estamos neste momento numa guerra virtual com os palestinos. O primeiro-ministro nunca irá aprovar uma operação dessas só para recuperar uns quantos quadros. — Não são só uns quantos quadros. O Rolfe deu a entender que existe uma organização de banqueiros e homens de negócios suíços capaz de fazer tudo para proteger a velha ordem. E a verdade é que temos provas suficientes para sugerir que ela existe mesmo, incluindo três cadáveres: o do Rolfe, o do Müller e o do Emil Jacobi. E tentaram matar-me.
— A situação está demasiado explosiva. Nesta hora, os nossos amigos volúveis aqui da Europa já andam suficientemente zangados conosco. Não precisamos jogar mais gasolina no fogo com uma operação desse gênero. Desculpe, Gabriel, mas não vou aprovar isso e não vou perguntar ao primeiro-ministro para não fazê-lo perder tempo.
Anna afastara-se de Isherwood para poder ouvir a discussão entre Gabriel e Shamron.
— Acho que há uma solução bem simples para o problema, Sr. Shamron — disse ela.
Shamron virou a careca e olhou para Anna, divertido com a ideia de a violinista suíça se atrever a arriscar uma opinião em relação ao procedimento a adoptar numa operação dos serviços secretos israelenses.
— E qual é?
— Não digam ao primeiro-ministro.
Shamron atirou a cabeça para trás e riu, com Gabriel a acompanhá-lo. Quando as risadas terminaram, houve um momento de silêncio, interrompido por Julian Isherwood.
— Deus do Céu, não acredito!
Tinha o Renoir nas mãos, um retrato de uma jovem com um ramo de flores. Estava a virá-lo, a observar primeiro a pintura e depois as costas do quadro.
Gabriel perguntou:
— O que é, Julian?
Isherwood levantou o Renoir para Gabriel e os outros poderem ver a imagem. — Os alemães registravam tudo meticulosamente. Cada quadro com que ficavam era registrado, catalogado e marcado — suástica, número de série, iniciais do colecionador ou do negociante a quem tinha sido confiscado. Virou o quadro ao contrário para lhes mostrar a parte de trás. — Alguém tentou tirar o que foi escrito neste, mas não fizeram lá grande trabalho. Olhem com atenção para o canto inferior esquerdo. Estão lá os resquícios da suástica, está lá o número de série e estão lá as iniciais do proprietário original: SI. — Quem é o SI? — perguntou Anna.
— SI é o Samuel Isakowi , o meu pai.
A voz de Isherwood ficou sufocada em lágrimas.
— Este quadro foi levado da galeria do meu pai, na Rue de la Boétie, em Paris, pelos nazistas, em Junho de 1940. — Tem certeza? — perguntou Anna. — Apostava a minha vida nisso.
— Então, por favor, fique com ele, juntamente com as mais sinceras desculpas da parte da família Rolfe.
A seguir, beijou-o no rosto e disse: — Lamento muito, Sr. Isherwood.
Shamron olhou para Gabriel.
— E se me contasses o seu plano todo mais uma vez?
Desceram até o escritório de Isherwood. Gabriel sentou-se à mesa de Isherwood, mas Shamron foi deambulando pelo escritório enquanto ouvia o plano de Gabriel novamente.
— E o que eu devo dizer ao primeiro-ministro?
— Ouve a Anna. Não lhe digas nada.
— E se eu acabar lixado por causa disto tudo?
— Não acabas.
— Eu acabo sempre por me lixar com este tipo de coisas, Gabriel, e
tenho as cicatrizes que o provam. E tu também. Diz-me uma coisa.
É só imaginação minha ou hoje estás mais animado do que o
habitual?
— Queres perguntar-me alguma coisa? — Não quero parecer
indelicado.
— Isso nunca te impediu antes.
— Tu e aquela mulher são mais do que simples cúmplices em busca do assassino do pai dela?
Quando a pergunta foi recebida com silêncio, Shamron sorriu e abanou a cabeça. — Lembras-te do que me disseste sobre a Anna Rolfe, na Piazza Navona? — Disse-te que, se tivéssemos escolha, nunca utilizaríamos uma mulher como ela.
— E agora queres envolvê-la ainda mais?
— Ela aguenta.
— Não tenho dúvida sobre ela, mas pode aguentar, Gabriel?
— Não o sugeriria se achasse o contrário.
— Há duas semanas, tive de implorar que investigasse a morte de Rolfe. Agora, quer entrar em guerra com a Suíça.
— Rolfe queria que aquelas pinturas viessem para nós. Alguém ficou com elas e agora quero-as de volta.
— Mas sua motivação vai além das pinturas, Gabriel. Eu o transformei num assassino, mas, bem lá no fundo do coração você é O Restaurador. Acho que está fazendo isso porque quer restaurar Anna Rolfe. Se é esse o caso, então a pergunta lógica é esta: por que quer restaurar Anna Rolfe? E só há uma resposta lógica. Sente algo por essa mulher. Shamron hesitou. — E isso é a melhor notícia que ouço há muito, muito tempo.