O Assassino Inglês

Daniel Silva · Capítulo 42 de 51

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O Assassino Inglês

Capítulo 43

Viena, pensou Gabriel. O encontro com Lavon. O confronto com Anna acerca do passado do pai. Tal como Gabriel suspeitara, Peterson recupera-lhes o rasto no dia seguinte, em Bahnhofstrasse. Depois da descoberta do carro abandonado de Anna Rolfe junto à fronteira com a Alemanha, o Conselho carrega no botão de pânico. Gabriel Allon e Anna Rolfe têm de ser perseguidos e assassinados por um profissional à primeira oportunidade. Supostamente, deveria ter acontecido em Veneza...

A cabeça de Peterson foi-se afundando e aproximando do tampo da mesa, à medida que os efeitos dos estimulantes iam diminuindo.

Peterson precisava dormir — um sono natural, não daquele que saía de uma seringa. Gabriel já só tinha mais uma pergunta e precisava de uma resposta antes de levarem Peterson e o algemarem a uma cama. Quando acabou por fazê-la, Peterson já tinha feito uma almofada com as mãos e descansava, cara virada para baixo, em cima da mesa.

— Os quadros — repetiu Gabriel suavemente. — Onde estão os quadros?

Peterson apenas conseguiu soltar duas palavras antes de perder a consciência.

O o Gessler.

43

 

MALLES VENOSTA, ITÁLIA

 

Nessa noite, só Gerhardt Peterson dormiu. Eli Lavon acordou a secretária em Viena e mandou-a ir, às duas da manhã, ao seu escritório no Bairro Judeu para vasculhar os arquivos cheios de pó. Uma hora mais tarde, os resultados da busca dela começaram a sair do fax, tão escassos que poderiam ter sido escritos nas costas de um postal de Viena. A Seção de Pesquisa, em Telaviv, contribuiu com o seu próprio volume, também ele magro e completamente inútil, ao passo que Oded ia deambulando pelos recantos duvidosos da Internet, à procura de mexericos online.

O o Gessler era um fantasma. Um rumor. Descobrir a verdade acerca dele, disse Lavon, era como tentar enfiar o nevoeiro dentro de uma garrafa. Ninguém fazia ideia da idade dele. A data de nascimento era desconhecida, como o local. Não havia fotografias. Vivia em lado nenhum e em todo o lado, não tinha pais nem filhos.

— Provavelmente, nunca vai morrer — afirmou Lavon, esfregando os olhos em sinal de desorientação. — Um dia, quando chegar a hora dele, vai apenas desaparecer.

Dos negócios de Gessler, pouco se sabia e muito se suspeitava. Dizia-se que tinha uma participação maioritária numa série de bancos privados, empresas fiduciárias e empresas industriais. Que bancos privados, que empresas fiduciárias e que empresas industriais, ninguém sabia, pois O o Gessler atuava apenas através de empresas de fachada e de intermediários. Quando O o Gessler fazia um negócio, não deixava quaisquer marcas físicas — nem impressões digitais, nem pegadas, nem DNA — e os seus livros de registros estavam mais bem fechados do que um sarcófago.

Ao longo dos anos, o nome dele aparecera ligado a uma série de escândalos comerciais e de lavagens de dinheiro. Dizia-se que tinha monopolizado mercados de matérias-primas, vendido armas e manteiga a ditadores, violando regras internacionais, e transformado lucros do tráfico de droga em respeitáveis participações imobiliárias. Mas a mão pesada da lei nunca tocara em O o Gessler. Graças a uma legião de advogados, espalhados de Nova a Iorque a Londres e passando por Zurique, O o Gessler não tinha pago um único cêntimo em multas nem passado um único dia na cadeia.

Mas Oded acabou por descobrir uma história interessante, escondida no meio de um perfil altamente especulativo realizado por uma revista americana. Vários anos depois da guerra, Gessler adquiriu uma empresa que fabricara armas para a Wehrmacht. Num armazém à saída de Lucerna, descobriu cinco mil armas de artilharia que tinham sido abandonadas na Suíça, após o colapso do Terceiro Reich. Nada disposto a deixar que o inventário não vendido continuasse a aparecer nos seus livros de registros, Gessler foi à procura de um comprador. E encontrou um num recanto rebelde da Ásia. As armas de artilharia nazistas ajudaram a derrubar um governante colonial e Gessler teve o dobro do lucro que as armas lhe teriam dado em Berlim.

Enquanto o Sol, acabado de nascer, se elevava sobre a fileira de ciprestes que delimitava o jardim, Lavon conseguiu descobrir, depois de vasculhar a fundo, uma característica positiva de O o Gessler. Suspeitava-se de que, todos os anos, Gessler dava milhões de dólares para financiar pesquisas médicas.

— De qual doença? — perguntou Gabriel.

— Ganância? — sugeriu Oded.

Lavon abanou a cabeça, espantado.

— Não diz aqui. O sacana do velho dá milhões de dólares todos os anos e até isso esconde. O o Gessler é um segredo. O o Gessler é a Suíça em carne e osso.

Gerhardt Peterson dormiu até as dez horas. Gabriel deixou-o tomar banho, arranjar-se ao seu ritmo e vestir a roupa, já lavada e engomada por Eli Lavon, que trazia aquando do seu desaparecimento. Gabriel achou que o ar frio da montanha faria bem a Peterson e por isso, depois do pequeno-almoço, deram uma volta pelo terreno. O suíço era bem maior e estava mais bem vestido do que os seus companheiros, o que dava a ideia de ele ser um proprietário rural a dar instruções a um grupo de trabalhadores.

Peterson tentou preencher um pouco dos espaços em branco no retrato que tinham conseguido fazer de O o Gessler, mas depressa se tornou evidente que sabia pouco mais do que eles. Forneceu-lhes a localização exata do seu chalé de montanha, os pormenores acerca da segurança e as circunstâncias das conversas entre eles.

— Então quer dizer que nunca chegou a ver realmente a cara dele? — perguntou Oded.

Peterson abanou a cabeça e desviou o olhar. Nunca perdoara a Oded os banhos de água gelada na cave e agora recusava-se a olhar para ele.

— Vai levar-me até ele — afirmou Gabriel. — Vai ajudar-me a recuperar os quadros.

Peterson soltou um sorriso; o sorriso frio e sem vida que Gabriel tinha visto na cela em Zurique, depois de ter sido preso.

O chalé O o Gessler é como uma fortaleza. Não pode lá entrar e ameaçá-lo.

— Não faço tenções de o ameaçar. — Então está a pensar em quê?

— Quero propor-lhe um negócio. É a única linguagem que ele fala. O Gessler devolve os quadros em troca de uma quantia substancial e da garantia, dada por mim, de que a participação dele neste caso nunca virá a lume. — O O o Gessler tem por hábito negociar apenas quando está numa posição de vantagem. Não pode ser intimidado e a última coisa de que ele precisa é de mais dinheiro. Se tentar isso, você vai sair de lá de mãos a abanar, se é que chega a sair.

— Em qualquer dos casos, vou sair.

— Eu não teria tanta certeza disso.

— Vou sair porque a responsabilidade de garantir que nada me aconteça é sua. Sabemos onde mora, sabemos onde os seus filhos estudam e sabemos sempre onde o podemos encontrar.

Uma vez mais, o sorriso arrogante de Peterson brilhou-lhe nos lábios. — Nunca pensei que um homem com o seu passado fosse ameaçar a família de outra pessoa. Mas suponho que os tempos de desespero exijam medidas desesperadas. Não é assim o ditado? Vamos lá a acabar com isto, sim? Quero ir-me embora desta porra de lugar.

Peterson virou-se e começou a subir a colina, em direção à residência, com Oded bem perto e em silêncio. Lavon pousou a pequena mão no ombro de Gabriel.

— Vai ver que ele tem razão. Vai ver que você não devia ir.

— Ele vai me ajudar. Além disso, a esta altura, Gessler já não ganha nada em me matar.

— Como o homem disse: os tempos de desespero exigem medidas desesperadas. Vamos para casa.

— Não quero que eles ganhem, Eli.

— As pessoas como o O o Gessler ganham sempre. Além disso, onde raio estás a pensar arranjar o dinheiro para lhe conseguires comprar os quadros?

— Com o Shamron? Mal posso esperar para ver a cara do velho quando lhe apresentar seu relatório de despesas!

— Não é Shamron quem me vai arranjar o dinheiro. É o homem que roubou os quadros logo para começar.

— Augustus Rolfe?

— Claro.

— Expiação, não é?

— Às vezes, Eli, o perdão vem com um preço alto.

Quando partiram, já passava do meio-dia. Peterson pareceu aborrecido por encontrar o seu Mercedes parado no estacionamento de cascalho, ao lado da van Volkswagen para onde o tinham atirado depois de o raptarem. Sentou-se à frente, no lugar do passageiro, e deixou, com relutância, que Oded lhe algemasse o pulso ao apoio de braço. Gabriel sentou-se ao volante e acelerou com um pouco de agressividade a mais para o gosto de Peterson. Oded esticou-se no banco de trás, os pés no couro castanho-claro e uma Bere a no colo.

A fronteira com a Suíça ficava apenas a vinte e cinco quilômetros da residência. Gabriel foi à frente no Mercedes, seguido por Eli Lavon na van. Foi uma travessia tranquila; cansado, o guarda fronteiriço fez-lhes sinal para seguirem após um controle rápido dos passaportes. Gabriel tinha tirado as algemas a Peterson momentaneamente mas, um quilômetro e meio depois da fronteira, encostou à beira da estrada e voltou a algemá-lo à porta.

A partir dali, seguiram para noroeste, até Davos; depois, subiram até Reichenau; depois, para oeste, em direção ao coração do interior da Suíça. Quando chegaram ao desfiladeiro Grimselpass, começou a nevar. Gabriel abrandou, para que Lavon não ficasse muito para trás, na sua velha Volkswagen.

Peterson foi ficando cada vez mais agitado, à medida que se afastavam mais para norte. Foi indicando o caminho a Gabriel, como se o estivesse a levar até a um corpo enterrado. Quando pediu para lhe retirarem as algemas, Gabriel recusou-se.

— Vocês são namorados? — perguntou Peterson.

— Oded? É bonito, mas a verdade é que ele não é meu tipo.

— Estava falando de Anna Rolfe.

— Eu sei do que estava falando. Achei que uma pitada de humor podia ajudar a tornar a situação menos tensa. De outra forma, podia sentir-me tentado a dar-lhe um grande murro na cara.

— É claro que são namorados. Que outra razão haveria para estar envolvido neste caso? Ela já teve muitos namorados. Tenho certeza de que você não será o último. Se quiser ver o arquivo dela, terei todo o gosto em mostrá-lo — Como cortesia profissional, claro.

— Faz alguma coisa por princípio, Gerhardt, ou só por dinheiro? Por exemplo, por que é que trabalha para o Conselho de Rutli? Faz isso apenas pelo dinheiro, ou porque acredita no que eles estão a fazer?

— As duas coisas.

— Oh, não me diga. E que princípio é que o compele a trabalhar para o O o Gessler?

— Eu trabalho para o O o Gessler porque estou farto de ver o meu país ser arrastado na lama, por um bando de estrangeiros malditos, por causa de uma coisa que aconteceu antes de eu ter nascido.

— O seu país transformou o ouro pilhado pelos nazistas em moeda forte. Transformou o ouro dos dentes e as alianças de casamento do povo judeu em moeda forte. Milhares de judeus aterrorizados depositaram as poupanças nos seus bancos, a caminho das câmaras da morte de Auschwi e Sobibor, e a seguir esses mesmos bancos ficaram com o dinheiro em vez de o entregarem aos seus legítimos herdeiros.

— E o que isso tem a ver comigo? Sessenta anos! Isso aconteceu há sessenta anos! Por que não podemos seguir em frente? Por que precisam transformar o meu país num pária internacional por causa das ações de uns quantos banqueiros gananciosos seis décadas atrás?

— Porque têm de admitir seus atos ilegais. E depois têm de retificá-los.

— Dinheiro? É isso? Querem dinheiro? Vocês criticam os suíços por nossa suposta ganância, mas tudo o que querem de nós é dinheiro, como se uns quantos dólares fossem ajudar a corrigir todas as injustiças do passado.

— O dinheiro não é seu. Ajudou a transformar este país, que mais parece um parquinho de diversões cercado por terra, num dos mais ricos do mundo, mas o dinheiro não é seu.

No calor da discussão, Gabriel dirigia depressa demais e Lavon ficara várias centenas de metros para trás. Gabriel reduziu para deixar Lavon recuperar terreno. Sentia-se zangado consigo próprio. A última coisa que queria naquela altura era debater os princípios morais da história da Suíça com Gerhardt Peterson.

— Há mais uma coisa que eu preciso saber antes de falarmos com o Gessler.

— Quer saber como é que eu soube da sua ligação ao assassinato do Hamidi.

— Sim.

— Há uns anos — oito ou nove, não consigo lembrar ao certo — , um palestino de passado duvidoso quis adquirir um visto de residência que lhe permitisse viver temporariamente em Genebra. Em troca do visto, e da garantia, da nossa parte, de que a presença dele na Suíça não seria revelada ao Estado de Israel, esse palestino propôs dizer-nos o nome do israelense que matou o Hamidi. — Qual era o nome do palestino? — perguntou Gabriel, embora não precisasse de esperar pela resposta de Peterson.

Ele sabia. Calculou que o soubesse desde o início.

— O nome dele era Tariq al-Hourani. Foi ele que colocou a bomba debaixo do carro da sua mulher em Viena, não foi? Foi ele que destruiu a sua família.

A oito quilômetros da casa de O o Gessler, na borda de uma floresta de pinheiros densa, Gabriel encostou e saiu do carro. Era o final da tarde, a luz estava a desaparecer depressa e a temperatura rondava os seis graus. O pico de uma montanha surgia por cima deles, com uma penugem de nuvens em volta. Qual delas era? Eiger? A Jungfrau? A Mönch? A verdade é que tanto fazia. Queria despachar simplesmente o assunto, sair daquele país e nunca mais pôr os pés nele outra vez. Enquanto andava em volta do carro, através da neve molhada com mais de quinze centímetros de altura, uma imagem lhe veio à cabeça: Tariq contando a Peterson do atentado em Viena. Foi o suficiente para quase arrancar Peterson do carro e o espancar sem contemplações. Naquele momento, não sabia quem odiava mais — Tariq ou Peterson.

Gabriel tirou-lhe as algemas e obrigou Peterson a passar por cima da caixa de marchas e sentar-se ao volante. Oded saiu do carro e foi juntar-se a Eli Lavon na van. Gabriel ficou na frente, no lugar do passageiro antes ocupado por Peterson, e, espetando-lhe a Bere a nas costelas, forçou-o a pôr o carro em marcha.

A escuridão caía sobre o vale. Peterson guiava com as duas mãos no volante e Gabriel manteve a Bere a bem à vista. A três quilômetros da casa de Gessler, Lavon reduziu e encostou na beira da estrada. Gabriel virou o pescoço e viu, pela janela de trás, os faróis se apagando. Agora, estavam sozinhos.

— Repita tudo mais uma vez — ordenou Gabriel, quebrando o silêncio.

— Já revimos isso uma dúzia de vezes — protestou Peterson.

— Não me interessa. Quero ouvi-lo repetir tudo mais uma vez.

— Você é Herr Meyer.

— E o que eu faço?

— Trabalha comigo... na Divisão de Análise e Proteção.

— E por que está me levando à casa?

— Porque tem informações importantes sobre as atividades do judeu intrometido chamado Gabriel Allon. E eu queria que Herr Gessler ouvisse essas notícias diretamente da fonte.

— E o que eu vou fazer se você se desviar, de que forma for, do roteiro?

— Não vou repetir isso.

— Repita!

— Vá se foder.

Gabriel sacudiu a Bere a na frente dele e a seguir guardou-a na cintura da calça.

— Enfio-lhe uma bala na cabeça. E na do guarda. É isso que eu vou fazer.

— Tenho certeza que sim — respondeu Peterson. — É a única coisa em que eu sei que você é bom.

Um quilômetro e meio depois, chegaram a uma estrada particular não assinalada. Peterson reduziu a marcha e fez com habilidade a curva em grande velocidade, com a força centrífuga a empurrar Gabriel contra a porta. Por um instante, pensou que Peterson pudesse estar a planejar qualquer coisa mas, a seguir, abrandaram e foram avançando suavemente pela estrada estreita, com as árvores a sucederem-se umas às outras do lado da janela de Gabriel. No final da estrada, havia um portão de ferro e de pedra que parecia poder resistir a um ataque de um carro blindado. Ao aproximarem-se, um segurança apareceu-lhes à frente e fez sinal com os braços para que parassem. Trazia um casaco azul grosso que não chegava para esconder que ele estava bem armado. Tinha neve no gorro.

Peterson baixou o vidro da janela.

— Meu nome é Gerhardt Peterson. Vim ver Herr Gessler. Receio que seja uma emergência.

— Gerhardt Peterson?

— Sim, isso mesmo.

— E quem é esse homem?

— É um colega meu. Chama-se Herr Meyer. Eu respondo por ele sem problemas.

O segurança murmurou ao intercomunicador umas quantas palavras inaudíveis. Passado um momento, o portão abriu, ele saiu do caminho e fez sinal para que entrassem.

Peterson foi conduzindo devagar. Gabriel olhou pela janela: lâmpadas nas árvores e mais um guarda de casaco azul, a ser puxado pela floresta dentro por um pastor alemão preso por uma trela. Meu Deus, pensou. Este lugar parece o bunker do Führer. Se lhe acrescentassem uns arames farpados e um campo de minas, o cenário ficaria perfeito.

À frente deles, as árvores terminavam e surgiam as luzes da residência, suavizadas pelo véu nupcial da neve que caía. Apareceu-lhes ao caminho outro segurança. Que não fez qualquer tentativa para esconder a submetralhadora compacta que trazia ao ombro. Uma vez mais, Peterson baixou o vidro da janela e o segurança enfiou a cara grande dentro do carro.

— Boa noite, Herr Peterson. O Herr Gessler está a dirigir-se neste momento para a piscina. Vai encontrar com você lá.

— Muito bem.

— Está armado, Herr Peterson?

Peterson abanou a cabeça. O segurança olhou para Gabriel.

— E o senhor, Herr Meyer? Tem alguma arma com você esta noite?

— Nein.

— Venham comigo.

Uma série de postes minúsculos, montados em postes que não ultrapassavam a altura de um joelho, assinalavam o trajeto do caminho para a piscina. Ali, a neve era mais funda do que no vale tinha caído pelo menos meio metro — e, mais ou menos de quatro em quatro postes, havia um enterrado debaixo de um pequeno monte. Peterson seguiu lado a lado com Gabriel. O segurança que fora ter com eles ao alto da entrada seguia agora à frente. A dada hora, tinha aparecido outro atrás deles. Gabriel conseguia sentir o bafo quente de um pastor alemão na parte de trás do joelho. Quando o cão lhe esfregou de leve o focinho na mão, o segurança deu um puxão na trela. Em resposta, o animal rosnou; um rosnar baixo, que parecia vir do fundo da garganta, e que fez vibrar o ar à sua volta. Cãozinho lindo, pensou Gabriel. O melhor é não fazermos nada que chateie o diabo do cão.

A piscina surgiu-lhes à frente, comprida e funda, com luzes redondas decoradas brilhando entre o vapor que se adensava. Havia seguranças lá dentro; Gabriel conseguia distingui-los através das janelas embaciadas. Um deles parecia estar a conduzir uma figura minúscula de roupão. E foi então que Gabriel sentiu uma dor lancinante no rim direito. Curvou as costas, inclinou a face para cima e, por um instante, viu as pontas em forma de punhal dos pinheiros a estenderem-se em direção aos céus e, na sua agonia, os céus eram uma profusão de Van Gogh de cor, movimento e luz. A seguir, veio o segundo golpe, dessa feita na nuca. Os céus tornaram-se pretos e ele caiu, o rosto para baixo, na neve.