O Assassino Inglês

Daniel Silva · Capítulo 18 de 51

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O Assassino Inglês

Capítulo 18

O negociante de arte contorceu-se e soltou-se de Gabriel. Era surpreendentemente forte.

— Tire a mão de cima de mim, seu louco!

Gabriel agarrou de novo no braço de Müller, mas ele voltou a conseguir soltar-se.

— Saia daqui ou eu chamo a polícia.

Gabriel podia ter dominado Müller com facilidade, mas calculou que não houvesse tempo. Deu meia volta e dirigiu-se rapidamente para a porta. Quando lá chegou, Müller já tinha aberto as fechaduras de segurança. Gabriel saiu para a rua e começou a andar na direção do hotel.

E foi então que a bomba explodiu — um estampido ensurdecedor que derrubou Gabriel, fazendo-o cair de gatas. Levantou-se e recomeçou a andar, ao mesmo tempo que o som da explosão ecoava pelas fachadas graciosas das ruas circundantes. A seguir, ouviu-se uma coisa que parecia um temporal, mas eram os vidros caindo aos montes na calçada, provenientes de mil e uma janelas estilhaçadas. Ergueu as mãos para proteger o rosto mas, passados poucos segundos, tinha os dedos vermelhos do próprio sangue.

A chuvarada de vidro terminou e o eco da explosão foi enfraquecendo, cada vez mais distante. Gabriel resistiu ao impulso de olhar por cima do ombro para observar a devastação. Já tinha visto as consequências de uma bomba numa rua e conseguia imaginar o cenário atrás dele. Carros queimando, prédios tingidos de preto, um café destruído, corpos e sangue, as expressões de espanto nos rostos dos sobreviventes. Por isso, tirou as mãos do rosto, escondeu-as nos bolsos do casaco e continuou a andar, com a cabeça baixa e os ouvidos retinindo com o silêncio tenebroso.

18

PARIS

 

Paris já tinha sofrido a sua conta, bem injusta, de atentados terroristas à bomba e a polícia e os serviços de segurança franceses tinham-se tornado bem eficazes a lidar com as consequências. Nos dois minutos que se seguiram à explosão, chegaram as primeiras equipes. Passados cinco minutos, as ruas circundantes estavam cortadas. O carro de Gabriel fora apanhado dentro do cordão e por isso ele tinha sido obrigado a fugir a pé. Já era praticamente de noite quando chegou ao estaleiro de caminhos-de-ferro, que se estendia para lá da vista, na ponta sul da cidade.

Abrigado na zona de cargas de uma fábrica abandonada, fazia naquele momento um inventário mental das coisas que havia dentro da bagageira. Uma mala, algumas peças de roupa, uma máquina fotográfica, um gravador de fitas e o rádio que utilizara para comunicar com a equipe de vigilância. Se não fosse buscar o carro depressa, a polícia confiscaria, arrombaria a bagageira e examinaria o que lá estava dentro. Eles ouviriam a fita de áudio e descobririam que a galeria e os telefones de Werner Müller tinham estado sob escuta. Revelariam os rolos desprotegidos da máquina e descobririam as fotografias do exterior da galeria. Calculariam o ângulo das fotos e chegariam à conclusão de que tinham sido tiradas de uma janela do Hotel Laurens. Interrogariam o pessoal do hotel e descobririam que o quarto em questão fora ocupado por um escritor alemão mal-educado.

A mão direita de Gabriel começou a latejar. A tensão começava a fazer sentir-se. Não parara desde a explosão da bomba, tinha apanhado uma dúzia de metros diferentes, percorrido inúmeros quilômetros a pé pelas avenidas apinhadas. A partir de um telefone público perto dos Jardins de Luxemburgo, entrara em contato com Uzi Navot no canal de emergência.

Gabriel olhou para cima e viu dois carros a seguirem lentamente por uma estrada secundária de serviço, estreita e com uma vedação de rede de arame, já cedendo em volta. Os faróis estavam apagados. Os carros pararam a cerca de cinquenta metros de distância. Gabriel saltou da plataforma de cargas — ao atingir o chão, sentiu nas mãos ondas de dor de grande intensidade — e dirigiu-se a eles. A porta de trás do primeiro carro abriu totalmente. Navot estava afundado no banco de trás.

— Entra — resmungou.

Era óbvio que tinha visto demasiados filmes americanos sobre a Máfia. Navot trouxera um médico, um dos sayanim de Ari Shamron. Estava sentado à frente, no lugar do passageiro. Transformou o descanso para o braço numa mesa de operações, estendendo um pano esterilizado por cima dele e acendendo a luz interior. O médico arrancou o penso, cortando-o, e examinou a ferida. Franziu ligeiramente os lábios — Não está assim tão mau. Trouxe-me aqui para isto?

— Quer alguma coisa para as dores? — perguntou, mas Gabriel abanou a cabeça. Voltou a franzir os lábios, voltou a inclinar a cabeça: Como queira. O médico inundou a ferida com um antisséptico e lançou-se ao trabalho. Gabriel, o restaurador, observou-o atentamente. Insere, puxa, estica, corta. Navot acendeu um cigarro e fingiu que olhava pela janela. Quando o médico acabou de suturar a ferida, colocou-lhe um penso com cuidado e acenou com a cabeça, em sinal de que tinha terminado. Gabriel pousou a mão direita no pano esterilizado. Enquanto cortava o penso sujo, o médico soltou um suspiro de desaprovação muito francês, como se Gabriel tivesse pedido o vinho errado para acompanhar peixe com molho de manteiga e açafrão.

— Isto vai demorar uns minutos, sim? Navot gesticulou impacientemente.

O médico não fez caso da atitude de Navot e demorou o tempo que achou necessário. Desta vez, não se deu ao trabalho de perguntar a Gabriel se queria alguma coisa para as dores. Limitou-se a preparar uma seringa e a dar uma injeção de anestésico na mão de Gabriel. Trabalhou lentamente e sem interrupções durante quase meia hora. A seguir, olhou para cima. — Fiz o melhor que podia, dadas as circunstâncias.

Um olhar hostil na direção de Navot — Faço isto de borla, rapaz. O Shamron vai ouvir falar disto.

— Precisa que alguém lhe opere essa ferida como deve ser. Os músculos, os tendões...

Uma pausa, um abanar da cabeça.

— Isto não está bom. O mais certo é sentir alguma rigidez e a sua amplitude de movimentos nunca mais será exatamente a mesma.

— Deixe-nos a sós — interrompeu Navot. — Vá para o outro carro e espere lá dentro.

Navot disse ao motorista para se ir embora dali também. Quando ficaram os dois sozinhos, olhou para Gabriel e perguntou: — Mas o que raio é que aconteceu?

— Quantos mortos? — retorquiu Gabriel, ignorando a pergunta de Navot.

— Três, até agora. E mais quatro em mau estado.

— Tiveste notícias do resto da equipe?

— Já saíram de Paris. O Shamron está a mandar todo mundo para casa. Isto pode ficar feio.

— E o carro?

— Temos uma pessoa a vigiá-lo. Por enquanto, a polícia não chegou a ele.

— Mas vão acabar por fazê-lo.

— E o que vão encontrar quando isso acontecer?

Gabriel contou. Navot fechou os olhos e vacilou um pouco, como se lhe tivessem contado de uma morte.

— E no apartamento de Müller?

— Há uma escuta no telefone.

— Merda.

— Alguma chance de entrarmos lá para limpar a trapalhada?

Navot abanou a cabeça.

— A polícia já está lá. Se descobrirem seu carro e concluírem que Müller estava sendo de alguma forma vigiado, vão revirar o apartamento de alto a baixo. E não vão demorar muito a encontrar a escuta.

— Algum amigo na polícia que possa nos ajudar?

— Não numa coisa destas.

— Aquela escuta é como um cartão de visita.

— Eu sei, Gabriel, mas não fui eu que a pus lá.

Gabriel sacou do bolso o rolo fotográfico e entregou-o a Navot.

— Tenho uma foto do homem que deixou a bomba na galeria. Faça com que ela chegue hoje à noite à Avenida Rei Saul. Diz aos trogloditas das Pesquisas para a passarem pela base de dados. Talvez consigam juntar um nome ao rosto dele.

O rolo desapareceu na mão enorme de Navot.

— Entra em contato com o Shamron e diz-lhe para enviar de imediato uma equipe de segurança para a casa da Anna Rolfe.

Gabriel abriu a porta do carro e pôs o pé no chão.

— Qual é o meu carro?

— O Shamron quer que volte para casa.

— Não posso encontrar o homem que colocou aquela bomba se estiver sentado em Telaviv.

— E também não se estiver sentado numa cela de prisão francesa.

— Qual é o meu carro, Uzi?

— Pronto! Leva este. Mas está por sua conta.

— Um dia, vou tentar retribuir o favor.

— Divirta-se, Gabriel. Fico para limpar sua porcaria.

— Faça com que o rolo chegue a Telaviv. Como um cachorrinho bonito.

Na Costa de Prata, Anna Rolfe baixou o violino e desligou o metrónomo. A sala de ensaios estava às escuras, a brisa, vinda da janela aberta, fresca e úmida do Atlântico. Um microfone de qualidade profissional estava pendurado de uma estante cor de crômio, por cima do banco dela. Estava ligado a um leitor e gravador de fitas feito na Alemanha. Ela tinha gravado grande parte do ensaio do dia. Pôs a fita a trabalhar enquanto arrumava o Guarneri no estojo e endireitava a pauta.

Como sempre, sentiu-se desconfortável ao ouvir-se tocando, mas fazia-o agora por uma razão muito específica. Ela queria saber exatamente como soava; quais os trechos da composição que estavam já a um nível aceitável e quais precisavam de uma maior atenção. Gostou de grande parte do que ouviu, mas selecionou três ou quatro secções, no segundo e terceiro movimentos, onde os efeitos da sua longa pausa eram aparentes para os seus ouvidos altamente exigentes. À noite, no segundo ensaio, concentrar-se-ia em exclusivo nesses trechos. Para já, precisava de desanuviar a cabeça.

Foi para o quarto, tirou uma camisa amarela-clara de uma das gavetas da cômoda e colocou-a à volta dos ombros. A seguir, desceu as escadas. Um momento depois, já estava a escapulir-se pelo portão da casa a descer o trilho sinuoso em direção à aldeia. A meio do caminho, reparou numa pequena van Fiat a subir o trilho, ao longo das árvores. Lá dentro, estavam quatro homens. Não eram portugueses. Anna encostou-se à beira para deixar a van passar, mas em vez disso ela parou e o homem sentado à frente, no lugar do passageiro, saiu.

— Menina Rol fé?

— Quem é que quer saber?

A Sra. é a menina Anna Rolfe, não é? Ela acenou com a cabeça.

— Somos amigos do Gabriel.

Em Marselha, o Inglês deixou o carro perto da Abadia de St-Victor e atravessou a pé as ruas escuras até o terminal do ferry. Quando este surgiu de mansinho nas águas tranquilas do porto, o Inglês subiu a bordo e desceu para o seu camarote individual. Ficou deitado na cama estreita, a ouvir as notícias na rádio marselhesa. O atentado à bomba na Galeria Müller, em Paris, era o tema principal.

A bomba de Pascal Debré causara vítimas inocentes, um fato que o fazia sentir-se bem mais como um terrorista do que como um profissional. No dia seguinte, iria visitar a velha signadora e ela iria expulsar o occhju com os seus rituais e preces e absolvê-lo dos pecados cometidos, como o fazia sempre.

Desligou a rádio. Apesar do cansaço, queria uma mulher. Era sempre assim depois de terminada uma missão. Fechou os olhos e Elizabeth apareceu-lhe nos pensamentos — Elizabeth Conlin, a garota católica bonita dos empreendimentos residenciais Ballymurphy, na parte ocidental de Belfast, na Irlanda do Norte. Tinha os instintos de uma boa profissional. Quando era seguro encontrarem-se, pendurava um lenço violeta na janela do quarto e o Inglês entrava sorrateiramente pela janela e enfiava-se na cama dela. Faziam amor com uma lentidão extrema, para não acordarem a família dela. O Inglês tapava-lhe a boca com a palma da mão para lhe abafar os gemidos. Uma vez, ela mordeu-lhe o polegar com tanta força que até fez sangue. Manchou-lhe os lençóis da cama. A seguir, ele ficava deitado ao lado dela e deixava-a repetir como gostaria de sair de Belfast — de se afastar das bombas e dos soldados britânicos, dos terroristas do IRA e dos paramilitares protestantes. E quando achava que ele estava a dormir, sussurrava um rosário, a penitência dela por sucumbir às tentações do corpo do Inglês. O Inglês nunca se deixava adormecer na cama de Elizabeth Conlin.

Uma noite, quando ele entrou sorrateiramente pela janela, em vez de Elizabeth Conlin, encontrou o pai dela e dois capangas do IRA. De alguma forma, tinham descoberto a verdade acerca do Inglês. Foi levado para uma casa de uma quinta distante, para o que prometia ser um longo e doloroso interrogatório, ao qual se seguiria a sua execução. Ao contrário da maioria daqueles que se tinham visto a braços com uma situação semelhante, o Inglês conseguiu sair vivo da casa da quinta. Quatro membros do IRA não.

Passado algumas horas, o Inglês já estava a salvo, fora da região. Mas Elizabeth Conlin não se saiu tão bem. Na manhã seguinte, o corpo dela foi encontrado no cemitério municipal de Belfast, com a cabeça rapada e a garganta rasgada, o castigo por ter dormido com um agente britânico.