O Assassino Inglês

Daniel Silva · Capítulo 15 de 51

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O Assassino Inglês

Capítulo 15

PARIS

 

A Galeria Müller ficava na curva de uma pequena rua entre a Rue Faubourg St. Honoré e a Avenue L'Opéra. De um lado, havia um vendedor de telemóveis, do outro, uma boutique que vendia roupa masculina elegante que nenhum homem vestiria. Na porta, havia um letreiro, escrito à mão numa caligrafia cuidada e a azul: só POR MARCAÇÃO.

Por trás do vidro espesso de segurança da janela estavam duas pequenas obras do século XVIII, de pintores menores de flores, franceses, a servir de decoração. Gabriel não gostava dos pintores de flores franceses. Por três vezes, concordara restaurar um quadro desse período. Cada uma delas tinha sido um exercício de tédio perfeito.

Para posto de observação, Gabriel escolheu o Hotel Laurens, um pequeno hotel a uns quarenta e cinco metros, da galeria, em direção a norte, do outro lado da rua. Fez o check-in utilizando o nome de Heinrich Kiever e foi-lhe dado um pequeno sótão que cheirava a conhaque e fumaça de cigarro barato. Disse ao recepcionista que era um argumentista alemão. Que tinha vindo para Paris para reformular o argumento de um filme passado na França durante a guerra. Que iria trabalhar muitas horas seguidas no quarto e que não queria ser incomodado. Bebia no bar do hotel e atirava-se de forma grosseira à empregada. Gritava com os empregados de quarto quando eles tentavam fazer a limpeza. Berrava com os rapazes do serviço de quartos quando não lhe traziam o café suficientemente depressa. Passado pouco tempo, o pessoal inteiro e a maior parte dos hóspedes sabiam do argumentista Boche louco instalado no sótão. A caminho de Paris, parara no aeroporto de Nice, entregara o Mercedes alugado e recolhera um Renault. O empregado do rent-a-car era um homem chamado Henri, um judeu da Provença cuja família sobrevivera ao Holocausto francês. No léxico do Escritório, Henri era um sayan, um ajudante voluntário. Havia milhares de sayanim espalhados à volta do globo — banqueiros que podiam fornecer dinheiro aos agentes de campo do Escritório, empregados de hotel que lhes podiam dar alojamento, médicos que os podiam tratar discretamente se ficassem feridos ou doentes. No caso de Henri, tinha dispensado a papelada habitual e atribuído o Renault a Gabriel de maneira a que ele nunca pudesse ser localizado.

Pouco tempo depois de chegar a Paris, Gabriel tinha entrado em contato, com relutância, com o chefe da base local, um homem chamado Uzi Navot. Navot tinha cabelos aloirados, com reflexos cor de morango, e o físico corpulento de um lutador. Era um dos dedicados acólitos de Shamron e tinha ciúmes do afeto que o Velho sentia por Gabriel. Por consequência, detestava Gabriel, da mesma maneira que um segundo filho detesta um irmão mais velho, e tinha-lhe espetado uma faca nas costas a cada oportunidade. O encontro deles, num banco junto à fonte dos Jardins des Tuileries, teve a formalidade fria própria de dois generais adversários a negociarem um cessar-fogo.

Navot deixou bem claro que achava que a base de Paris era capaz de dar conta de uma simples operação de segurança sem a ajuda do grande Gabriel Allon. Também não estava muito satisfeito por Shamron não lhe ter revelado por que razão um negociante de arte de Paris havia de merecer a vigilância do Escritório. Gabriel tinha-se mantido estoicamente calmo perante a tirada discreta de Navot, atirando pedaços de baquete aos pombos e acenando de tempos a tempos com a cabeça, em sinal de compreensão. Quando, vinte minutos depois, Navot saiu disparado por um caminho de cascalho, Gabriel já tinha conseguido tudo aquilo de que precisava: vigias, rádios com frequências protegidas, carros, equipamento de escuta e uma pistola, Bere a, de calibre 22.

Durante dois dias, vigiaram-no. Não era um trabalho particularmente difícil; Müller, se era um criminoso, não se portava muito como tal. Chegava sempre à galeria às nove e quarenta e cinco da manhã e, às dez, já estava pronto para receber os clientes. À uma e meia, fechava a galeria e ia a pé até o mesmo restaurante na Rue de Rivoli, parando uma vez pelo caminho para comprar os jornais no mesmo quiosque.

No primeiro dia, um vigia de cabeça achatada chamado Oded seguiu-o. No segundo, foi um rapaz esguio chamado Mordecai, que se sentou, todo encolhido, numa mesa gelada de esplanada montada no passeio. Depois do almoço, seguiu Müller enquanto ele voltava para a galeria e a seguir subiu até o quarto de hotel de Gabriel para fazer um relatório.

— Diz-me uma coisa, Mordecai — perguntou Gabriel. — O que ele comeu hoje ao almoço.

O vigia fez uma cara feia, contorcendo o rosto magro numa expressão de censura.

— Marisco. Uma travessa enorme. Foi um massacre.

— E o que comeu, Mordecai?

— Ovos e pommes frites.

— E como estavam?

— Não estavam maus.

Ao final da tarde, mais uma rotina previsível. Müller ficava na galeria até as seis e meia. Antes de se ir embora, deixava um saco do lixo de plástico verde-escuro no passeio, para a recolha noturna, e a seguir caminhava ao longo dos Campos Elísios, por entre as multidões, até o restaurante Fouquet's. Na primeira noite, tinha sido Oded a recolher o lixo e a trazê-lo para o quarto de Gabriel e Mordecai a seguir o negociante de arte até o Fouquet's. Na segunda noite, os dois vigias trocaram de funções. Enquanto Müller bebericava champanhe com as gentes do cinema e da literatura no Fouquet's, Gabriel executava a tarefa nada invejável de vasculhar o lixo. Era tão normal como o dia-a-dia de Müller: faxes deitados fora, em meia dúzia de línguas diferentes, correio sem importância, beatas de cigarros, guardanapos sujos e grãos de café.

A seguir ao Fouquet's, Müller passeava pelas ruas secundárias do oitavo arrondissement, comia uma refeição ligeira num bistrô e depois seguia para o seu apartamento. Após duas noites do mesmo, Oded começou a insurgir-se. — Se calhar, ele é só um negociante de arte suíço que não negocia lá muita arte. Se calhar, estão a perder o seu tempo... e o nosso.

Mas Gabriel não se deixou dissuadir pelos protestos de Oded e do resto da sua pequena equipe. Pouco depois da meia-noite, observou da janela do seu quarto no Hotel Laurens uma van sem qualquer identificação a encostar ao passeio em frente à galeria. A sequência de acontecimentos seguintes desenrolou-se com a fluidez de uma dança coreografada. Dois homens saíram da van. Vinte segundos depois, já tinham arrombado a galeria e descativado o sistema de alarme. O trabalho que fizeram lá dentro demorou menos de um minuto. A seguir, escapuliram-se da galeria e voltaram a entrar na van. Os faróis piscaram duas vezes e ela arrancou.

Gabriel afastou-se da janela, pegou o telefone e teclou o número da galeria. Depois de tocar cinco vezes, ouviu-se um atendedor de chamadas. Gabriel pousou o receptor em cima da mesa, ao lado do telefone, e aumentou o volume de um pequeno rádio de mão. Passados uns segundos, ouviu a gravação do atendedor de chamadas, com a voz de Werner Müller a explicar que a galeria voltaria a abrir ao público às dez horas da manhã seguinte. Por favor, telefone para fazer marcação.

No léxico do Escritório, a escuta que tinha sido colocada na Galeria Müller era conhecida como vidro. Escondida no interior dos componentes eletrônicos do telefone, fornecia cobertura dos telefonemas de Müller e também das conversas que iam ocorrendo dentro da sala. Como retirava a energia do telefone, não necessitava de bateria e por isso podia continuar a funcionar indefinidamente.

Na manhã seguinte, Müller não recebeu nenhum potencial comprador nem nenhum telefonema. Fez ele mesmo dois telefonemas, um para a Lyons, para averiguar da disponibilidade de um quadro, e outro para o senhorio, para se queixar da canalização no apartamento.

Ao meio-dia, ouviu as notícias na rádio. Almoçou no mesmo restaurante, à mesma hora, e regressou à galeria ao final da tarde. Às cinco horas, um telefonema: uma mulher, num inglês de sotaque escandinavo, à procura de desenhos de Picasso. Delicadamente, Müller explicou-lhe que a sua coleção não incluía nenhum desenho de Picasso — ou qualquer tipo de obras de Picasso — e teve a gentileza de lhe dar nomes e endereços de dois concorrentes onde poderia ter mais sorte.

Às seis, Gabriel resolveu fazer ele um telefonema. Ligou para a galeria e, num francês rápido e barulhento, perguntou a Herr Müller se tinha algumas naturezas-mortas com flores de Cézanne. Müller tossiu, desentupindo a garganta.

— Infelizmente, monsieur, não tenho nenhum quadro de Cézanne.

— Que estranho. Uma fonte de confiança disse-me que o Sr. tinha uma série de obras de Cézanne.

— A sua fonte de confiança estava enganada. Bonsoir, monsieur. A ligação foi cortada. Gabriel desligou o telefone e juntou-se a Oded à janela. Um momento depois, quando a noite já começava a cair, o negociante de arte apareceu à porta da galeria, a espreitar para um lado e para o outro da pequena rua.

— Viste aquilo, Oded?

— Ele está mesmo com um caso sério de nervos.

— Continuas a achar que ele é só um negociante de arte que não vende muitos quadros?

— Não parece muito honesto, mas porquê sobressaltá-lo com um telefonema daqueles?

Gabriel sorriu e não respondeu nada. Shamron chamava a isso enfiar uma pedra no sapato de um homem. De início, causa apenas uma irritação, mas passado pouco tempo deixa uma ferida aberta. Se a pedra lá ficar tempo suficiente, o homem tem um sapato cheio de sangue.

Cinco minutos depois, Werner Müller fechou a galeria e deu o dia por terminado. Em vez de deixar o saco do lixo no lugar habitual, largou-o na porta do lado, em frente à boutique das roupas. Ao dar início à caminhada até o Fouquet's, olhou várias vezes por cima do ombro. Não reparou na figura esquelética de Mordecai, que o seguia do outro lado da rua. Werner Mtiller tinha uma ferida a ganhar pus, pensou Gabriel. Não tardaria muito a ter um sapato cheio de sangue.

— Traz-me o lixo dele, Oded.

O fim-de-semana de Müller foi tão previsível como a semana de trabalho. Tinha um cão que não parava de ladrar. Oded, que ia controlando a escuta a partir de uma van estacionada na esquina, tinha uma dor de cabeça crônica. Perguntou a Gabriel se podia pedir emprestada uma Bere a para dar um tiro no cão e acabar com aquilo. E quando Müller levou o cão a passear junto ao rio, Oded implorou autorização para atirar o animal do cais abaixo. A monotonia foi quebrada ao final da tarde de sábado, com a chegada de uma prostituta cara chamada Veronique. Ela esbofeteou-o. Ele chorou e tratou-a por Mamãe. Os latidos do cão atingiram um ritmo frenético. Passadas duas horas, Oded, que se considerava uma espécie de homem do mundo, teve de sair da van de vigilância para apanhar um pouco de ar fresco e tomar uma bebida numa brasserie do outro lado da rua.

— Uma foda para ficar nos anais — contou mais tarde a Gabriel. — Uma clínica de depravação. Vai passar a ser de audição obrigatória para os rapazes das Operações Psiquiátricas na Avenida Rei Saul.

Ninguém ficou mais satisfeito do que Oded com o nascer de uma segunda-feira cinzenta e molhada em Paris. Müller zangou-se uma última vez com o cão antes de bater com a porta do apartamento e de se dirigir para a rua. Oded observou-o através dos vidros fumados da van de vigilância, com uma expressão de pura repugnância no rosto. A seguir, levou o intercomunicador aos lábios para fazer o ponto da situação a Gabriel, que continuava no Hotel Laurens.