O Assassino Inglês
Capítulo 20
LONDRES
Em Jermyn Street, logo ao virar da esquina, a seguir à Isherwood Fine Arts, um homem de cabelos loiros estava sentado ao volante de um Rover, a ouvir rádio. Há já cinco dias que andava a vigiar o negociante de arte. Tinha-o seguido até os almoços bem regados. À noite, tinha-o seguido até casa, em South Kensington. Até se tinha feito passar por um potencial comprador, de modo a poder esconder um par de transmissores minúsculos no escritório do negociante. Os transmissores emitiam um sinal analógico fraco numa frequência FM normal. O homem estava a utilizar o rádio do Rover para acompanhar o que lhe ia chegando. Passados dez minutos, quando a conversa no interior da galeria terminou, pegou o celular e marcou um número de Zurique.
— O nosso amigo vai a caminho de Lyon para se encontrar com o professor.
21
LYON
O professor Emil Jacobi autoproclamara-se a consciência pesada da Suíça. Acreditava que para salvar o seu país, tinha primeiro de o deitar abaixo, e por isso dedicara a vida a desenterrar e expor os elementos mais desagradáveis da história suíça. O seu livro explosivo, O Mito, tinha desencadeado uma tempestade, ao pormenorizar as extensas ligações econômicas e comerciais existentes entre a Alemanha nazista e a Suíça durante a Segunda Guerra Mundial. Jacobi traçou o processo pelo qual os bancos suíços aceitavam ouro pilhado e ouro arrancado dos dentes de judeus a caminho das câmaras de gás — e o convertiam na moeda forte que Hitler utilizava para comprar a matéria-prima necessária para manter a sua máquina de guerra a funcionar. A conclusão do professor Jacobi chocou o país e transformou-o num pária nacional: a Suíça e a Alemanha nazista eram aliadas em tudo menos no nome, escreveu ele. Hitler não teria conseguido fazer a guerra sem a ajuda dos banqueiros e fabricantes de armas suíços. Se não fosse a Suíça, a Wehrmacht teria parado abruptamente no Outono de 1944. Milhões de vidas teriam sido poupadas se não fosse a ganância dos banqueiros suíços.
Pouco tempo depois da publicação de O Mito, a vida na Suíça começou a tornar-se cada vez mais desconfortável para o professor Jacobi. Recebia ameaças de morte, tinha os telefones sob escuta e os agentes dos serviços de segurança suíços seguiam-lhe todos os movimentos. Temendo pela sua segurança, demitiu-se do cargo de professor em Lausanne e aceitou um lugar no departamento de História da Universidade de Lyon.
Gabriel levou grande parte do dia seguinte a tentar encontrá-lo. Deixou duas mensagens no atendedor de chamadas de Jacobi e mais duas com a secretária dele, nada prestável, na universidade. À uma e meia da tarde, Jacobi ligou para o celular de Gabriel e aceitou encontrar-se com ele. — Vá ao meu apartamento às seis. Falamos nessa hora.
A seguir, deu o endereço e desligou de repente. Gabriel ficou com algumas horas para queimar. Numa livraria perto da universidade, descobriu um exemplar em língua francesa de O Mito e passou o resto da tarde a ler, no meio dos estudantes, num café logo à saída de Place dês Terreaux.
As seis horas da tarde, o professor estava à espera no hall do seu prédio de apartamentos na Rue Lanterne. Trazia um casaco de tweed gasto e tinha os óculos sem aros tão puxados para cima que estavam quase enfiados no ninho de pássaros que era o seu cabelo grisalho desgrenhado. Tinha molas nas pernas da calça para impedir que as bainhas ficassem presas na correia da bicicleta. — Bem-vindo ao exílio — disse, subindo à frente de Gabriel pelas escadas até o apartamento no quarto andar. — Nós, os suíços, veneramos o direito à liberdade de expressão, mas só se ela se coibir de criticar a Suíça. Cometi o pecado mortal de um bom suíço e por isso encontro-me aqui, na gaiola dourada de Lyon.
Chegado ao patamar em frente à porta de casa, o professor demorou algum tempo a revolver a sacola, remexendo em papéis soltos e agendas amachucadas, à procura das chaves do apartamento. Quando as descobriu, por fim, entraram num pequeno apartamento, esparsamente mobilado. Todas as superfícies lisas tinham pilhas com livros, documentos e jornais amontoados. Gabriel sorriu. Tinha vindo ao lugar certo.
Jacobi fechou a porta e pendurou a sacola no trinco.
— Então quer conversar sobre o assassinato do Augustus Rolfe? A verdade é que tenho andado a seguir esse caso com muita atenção.
— Calculei que isso fosse possível. Estava a pensar se haveria hipótese de compararmos notas.
— O Sr. também é um historiador, Sr. Allon?
— Na realidade, sou um restaurador de arte, mas neste assunto estou a trabalhar para o governo de Israel.
— bom, isto promete ser uma noite interessante. Tire as coisas que estão em cima dessa cadeira e sente-se. Vou tratar do café.
O professor Jacobi passou vários minutos a remexer nas suas pilhas imponentes de papéis, à procura do arquivo sobre Augustus Rolfe. Era muito fino. — Herr Rolfe era um banqueiro privado na verdadeira acepção da palavra, Sr. Allon. Receio que grande parte do que lhe vou dizer se baseie em conjecturas e rumores.
— Já cheguei várias vezes à conclusão de que podemos aprender muito sobre um homem com os rumores que o rodeiam.
— Quando estamos a lidar com um banqueiro suíço, especialmente com um banqueiro privado como o Augustus Rolfe, às vezes os rumores são o melhor que podemos esperar.
O professor colocou os óculos e abriu o arquivo.
— Em Zurique, há bancos privados muito pequenos e há outros extremamente grandes. Os gigantes como o Union Bank of Swi erland e o Credit Suisse têm todos as suas próprias divisões de operações bancárias privadas, embora lidem apenas com clientes muito ricos.
— Ricos até que ponto?
— Por norma, o depósito mínimo é de aproximadamente cinco milhões de dólares. Tem sido dito que os serviços secretos do seu país utilizavam as divisões de operações bancárias privadas do Credit Suisse.
O professor olhou de relance para Gabriel, desviando os olhos do arquivo que mantinha aberto.
— Mas, claro, tenho certeza de que o senhor não sabe nada disso.
Gabriel deixou passar o comentário.
— Pelo que sei de Augustus Rolfe, ele estava na primeira categoria.
— É verdade. O banco do Rolfe era um pequeno empreendimento — era o Rolfe e uma meia dúzia de empregados, se tanto. Se queríamos uma pessoa para nos esconder o dinheiro ou haveres na Suíça, o Augustus Rolfe era o nosso melhor amigo. Era um dos banqueiros mais discretos e influentes de Zurique. Tinha amigos muito poderosos. É isso que torna o assassinato dele tão desconcertante para mim.
— Que mais é que sabe sobre ele?
— Recebeu do pai o controle do negócio da família no início dos anos trinta — um período nada bom para os bancos da Suíça. Havia a depressão mundial, o pânico alemão, uma crise monetária na Áustria com repercussões que se faziam sentir em Zurique com grande intensidade. Os bancos suíços estavam a cair como dominós. Muitos bancos privados foram forçados a entrar em fusão com concorrentes de maior poderio para poderem sobreviver. Rolfe conseguiu aguentar-se por um fio.
Jacobi lambeu a ponta do dedo e passou para outra página.
— E a essa altura Hitler chega ao poder na Alemanha e começa a arranjar problemas para os judeus. O dinheiro e os objetos de valor judeus começam a entrar nos bancos privados de Zurique, incluindo o de Rolfe.
— E isso é um fato comprovado?
— Absolutamente. O Augustus Rolfe abriu mais de duzentas contas bancárias numeradas para judeus alemães.
Jacobi virou umas quantas páginas do arquivo.
— É aqui que terminam os fatos e começam os rumores. No final dos anos trinta, os agentes da Gestapo começam a chegar a Zurique. Andam à procura de todo o dinheiro judeu que foi levado para fora da Alemanha em segredo e depositado nos bancos suíços. Diz-se que Rolfe colaborou com os agentes da Gestapo, violando as leis bancárias suíças, e revelou que, no banco dele, existiam contas bancárias numeradas nas mãos de judeus. — E por que razão é que ele teria feito isso?
— Quer ouvir a minha teoria?
— Claro.
— Por saber que o dinheiro depositado por uns quantos judeus não era nada comparado com a riqueza abundante que esperava por ele se colaborasse com a Alemanha nazista.
— Há alguma prova que leve a crer que ele o tenha feito?
— Certamente — respondeu Jacobi, com as sobrancelhas a aparecerem de repente por cima dos aros dos óculos. — É um fato comprovado que Augustus Rolfe fazia viagens frequentes à Alemanha nazista durante a guerra.
— E quem é que ele ia lá ver?
— Não se sabe, mas as viagens dele levantaram tantas suspeitas que Rolfe foi investigado a seguir à guerra.
— E o que saiu daí?
— Absolutamente nada. Rolfe regressou ao mundo dos banqueiros de Zurique, desapareceu e nunca mais se ouviu falar dele — até há uma semana atrás, claro, quando alguém lhe entrou na residência e enfiou uma bala na cabeça.
Jacobi fechou o arquivo e olhou para Gabriel.
— Importa-se de continuar a história, Sr. Allon?
Depois de Gabriel terminar, o professor Jacobi passou muito tempo limpando os óculos na ponta mais larga da gravata. Depois enfiou-os novamente na testa e serviu-se de mais uma xícara de café.
— Parece que lhe calhou enfrentar a grande conspiração do silêncio.
— O que quer dizer com isso?
— Quando se está a lidar com a Suíça, Sr. Allon, é melhor ter sempre presente uma coisa: a Suíça não é um verdadeiro país. É um negócio e é gerida como um negócio.
É um negócio que assume constantemente uma postura defensiva. Tem sido assim desde há setecentos anos.
— E o que isso tem a ver com o assassinato de Rolfe?
— Na Suíça, há pessoas que se arriscam a perder muito se os pecados do passado forem expostos e os esgotos de Bahnhofstrasse levarem a lavagem profunda de que tão desesperadamente precisam.
Estas pessoas são um governo invisível e não devem ser encaradas de ânimo leve, e é por isso que eu vivo aqui e não em Lausanne. Se Decidir ir para a frente com este assunto, sugiro-lhe que tenha muito cuidado.
Dez minutos mais tarde, Gabriel estava a descer as escadas, com o seu exemplar de O Mito enfiado debaixo do braço. Parou por um instante no hall, para abrir a capa e ler as palavras que o professor escrevinhara na primeira página.
Cuidado com os gnomos de Zurique — Emil Jacobi.
Essa imagem de Gabriel foi capturada pelo homem, com uma máquina fotográfica digital de longo alcance, parado em frente à janela do apartamento do outro lado da rua. Uma hora antes, também tinha tirado uma fotografia da chegada de Gabriel. As fotos não eram necessárias, apenas um toque profissional. Toda a conversa de Allon com Emil Jacobi tinha sido captada por um par de transmissores que o homem instalara no apartamento do professor seis meses antes. À medida que Allon se afastava, o artista da vigilância disparou mais uma série de fotografias. A seguir, sentou-se à frente do leitor-gravador e pôs-se a ouvir as fitas. Após trinta minutos de trabalho contínuo, tinha efetuado uma transcrição completa do encontro. Gastou mais dez minutos a verificar se a transcrição não tinha falhas e depois encristou o relatório e enviou-o, através de um e-mail protegido, para Zurique, juntamente com as fotografias de Allon.