O Assassino Inglês

Daniel Silva · Capítulo 3 de 51

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O Assassino Inglês

Capítulo 2

O elétrico levou-o diretamente a Hauptbahnhof. No interior do terminal, numa arcada comercial subterrânea, comprou um par de botas de couro Bally a um preço exorbitante. No piso de cima, no hall principal, verificou o quadro das partidas. Um trem saía para Munique dentro de quinze minutos. De Munique podia apanhar um voo noturno de regresso a Londres, onde iria diretamente a casa de Isherwood, em South Kensington, estrangulá-lo.

Comprou um bilhete de primeira classe e foi até a casa de banho. Numa cabina, descalçou os mocassins e substituiu-os pelas botas novas. À saída, deitou os mocassins num caixote de lixo e tapou-os com papel higiênico.

Quando chegou à plataforma, já tinha começado o embarque. Entrou para a segunda carruagem e foi abrindo caminho pelo corredor até chegar ao seu compartimento. Estava vazio. Um instante depois, ao mesmo tempo que o trem começava a avançar, Gabriel fechou os olhos, mas tudo o que conseguia ver era o morto deitado aos pés do Rafael e as duas palavras rabiscadas num elétrico: JUDEN SCHEISS.

O trem abrandou até parar. Ainda estavam na plataforma. Lá fora, no corredor, Gabriel ouviu passos, A seguir, a porta do compartimento escancarou-se, como se uma bomba a tivesse feito explodir, e dois policiais entraram de rompante.

2

VITORIA, ESPANHA

 

Novecentos e sessenta e cinco quilômetros a oeste dali, na cidade basca de Vitoria, um inglês estava sentado no meio das sombras frescas da Plaza de Espana, a bebericar um café num bar por baixo da elegante arcada. Apesar de não ter conhecimento do que se estava a passar em Zurique, esses acontecimentos não tardariam muito a alterar o curso da sua bem ordenada vida. Por enquanto, a atenção dele estava concentrada na entrada do banco do outro lado da praça Pediu mais um café com leite e acendeu um cigarro. Trazia um chapéu com abas e óculos de sol. O cabelo tinha o brilho prateado e saudável de um homem que ficara prematuramente grisalho. O terno de popeline cor de areia condizia com a arquitetura predominante de Vitoria, permitindo misturar-se, como um camaleão, à paisagem que o rodeava. Dava a impressão de estar fascinado com as edições dessa manhã dos jornais El País e El Mundo. Não estava. Na parede de pedra do edifício, de um amarelo-pálido, um artista de grafito rabiscara um aviso: ATENÇÃO, TURISTA! VOCÊ JÁ NÃO ESTÁ MAIS NA ESPANHA! ISTO É O PAÍS BASCO! O inglês não sentiu qualquer tipo de desconforto. Se, por alguma razão, fosse atacado pelos separatistas, tinha a certeza de ser capaz de tomar conta de si mesmo.

O seu olhar fixou-se na porta do banco. Dentro de poucos minutos, um caixa chamado Felipe Navarra sairia para a hora de almoço. Os colegas achavam que ia para casa almoçar e fazer a sesta com a mulher. A mulher achava que ele se estava a reunir em segredo com os seus companheiros políticos bascos. Na realidade, Felipe Navarra dirigir-se-ia para um apartamento na cidade velha, logo a seguir à Plaza de Ia Virgen Blanca, onde passaria a tarde com a amante, uma bela garota de cabelos pretos chamada Amaia. O inglês sabia isso porque andava a vigiar Navarra há já quase uma semana.

À uma e quinze da tarde, Navarra saiu do banco e dirigiu-se para a cidade velha. O inglês deixou uma mão-cheia de pesetas em cima da mesa, o suficiente para pagar a conta e incluir ainda uma gorjeta generosa para o empregado, e seguiu-o discretamente. Ao entrarem numa rua de mercado apinhada, manteve-se a uma distância segura. Não havia necessidade de se aproximar demasiado. Sabia onde ia a sua presa.

Felipe Navarra não era um caixa comum. Era um agente ao serviço da Euzkadi Ta Askatasuna (Pátria e Liberdade Bascas), mais conhecida por ETA. No vocabulário da ETA, Navarra era um comando adormecido. Vivia uma vida normal com um trabalho normal e recebia ordens de um comandante anônimo. Um ano antes, fora instruído para assassinar um jovem oficial da Guardiã Civil. Infelizmente para Navarra, o pai do oficial era um vinicultor de sucesso, um homem com dinheiro suficiente para financiar uma busca exaustiva do assassino do filho. Algum desse dinheiro residia agora numa conta bancária numerada do inglês, num banco suíço.

Entre os especialistas em terrorismo da Europa, a ETA tinha uma reputação em termos de treino e disciplina operacional que rivalizava com a do Exército Republicano Irlandês, um grupo com o qual o inglês já tinha lidado no passado. Mas com base nas observações do inglês até o momento, Felipe Navarra parecia um agente com muito espírito de iniciativa. Seguiu diretamente para o apartamento da garota, sem tomar precauções de segurança ou medidas de contravigilância. Era um milagre ele ter conseguido matar o oficial da Guardiã Civil e escapar. O inglês pensou que estaria provavelmente a fazer um favor à ETA ao eliminar um agente tão incompetente.

Navarra entrou num prédio de apartamentos. O inglês atravessou a rua em direção a uma padaria, onde consumiu dois bolos com muito açúcar e bebeu mais um café com leite. Não gostava de trabalhar com o estômago vazio. Olhou para o relógio. Navarra estava lá dentro há vinte minutos, o tempo suficiente para os preliminares de um encontro amoroso.

Ao atravessar a rua sossegada, teve uma ideia divertida. Se telefonasse à mulher de Navarra, uma ruiva com um temperamento basco fogoso, ela provavelmente iria fazer o trabalho por ele. Mas, em rigor, isso seria uma quebra de contrato. Além disso, queria fazê-lo ele mesmo. O inglês era feliz no seu trabalho. Entrou no foyer escuro e fresco. Diretamente à frente dele, estava a entrada para um pado com sombra. À direita, havia uma fila de caixas de correio. Subiu rapidamente as escadas até a porta do apartamento da garota no quarto andar. Havia uma televisão ligada, um concurso sem sentido a dar na Antena 3. Ajudou a esconder o som mínimo que o inglês fez ao arrombar a fechadura. Entrou no apartamento, fechou a porta e trancou-a novamente. A seguir, entrou, com passos abafados, no quarto.

Navarra estava sentado na ponta da cama. A mulher estava ajoelhada no chão, a cabeça a mover-se de forma ritmada entre as pernas dele. Os dedos de Navarra estavam entrelaçados no cabelo dela e tinha os olhos fechados, não se apercebendo por isso da nova presença no quarto. O inglês tentou imaginar por que razão estariam eles a fazer amor ao som de um concurso. O seu a seu dono, pensou.

O inglês atravessou rapidamente o quarto com três passadas largas, com os passos encobertos pelo som da televisão. Uma faca deslizou-lhe de uma bainha que tinha no antebraço direito e caiu-lhe na palma da mão. Era a arma de um soldado, com uma lâmina altamente serrilhada e um cabo grosso revestido de couro. Segurou-a como tinha sido treinado no quartel-general do seu regimento, numa charneca varrida pelo vento, nas Midlands da Inglaterra.

Quando se apunhala um homem, a inclinação natural é fazê-lo por trás, de modo a que o assassino e a vítima nunca se encontrem cara a cara, mas o inglês tinha sido treinado para matar com uma faca pela frente. Neste caso, isso significava que o elemento surpresa estava perdido, mas o inglês era uma criatura de hábitos e acreditava em fazer as coisas como mandavam os livros.

Avançou alguns passos, para ficar por trás da garota. Os cabelos caíam-lhe sobre as costas, longas e em forma de V. Os olhos dele seguiram-lhe a linha da coluna vertebral até a cintura fina, às ancas arredondadas e largas e às nádegas curvas.

Navarra abriu os olhos. Em desespero, tentou empurrar a garota para longe. O assassino fez isso por ele, pegando-lhe numa mão-cheia do cabelo e atirando-a pelo quarto fora, fazendo-a deslizar de costas no chão de madeira dura e derrubando um abajur de pé.

Navarra, sem tirar os olhos do intruso, esticou-se de costas pelos lençóis amarrotados e bateu com a palma da mão num monte de roupa emaranhada. Então, ele tinha uma arma. O inglês avançou e agarrou o pescoço do basco com a mão esquerda, apertando-lhe a laringe quase até a partir. A seguir, comprimiu-o contra a cama, colocando-se em cima dele, com um joelho na barriga. Navarra contorceu-se, debatendo-se para conseguir respirar, com uma expressão no rosto que era uma combinação de pânico e resignação completa.

O inglês espetou a faca no tecido macio por baixo da caixa torácica do basco, num movimento angular em direção ao coração. Os olhos do homem saltaram-lhe das órbitas e o corpo ficou rijo, antes de descomprimir. O sangue bombeava por cima da lâmina da faca.

O inglês tirou a faca do peito do morto e levantou-se. A garota pôs-se de pé de forma atabalhoada. Depois avançou e esbofeteou-o com força no rosto.

— Quem pensa que é, diabos?

O inglês não sabia bem o que pensar desta mulher. Tinha acabado de vê-lo esfaqueando o amante até a morte, mas agia como se ele tivesse deixado um rastro de lama no chão limpo.

Bateu-lhe uma segunda vez.

— Eu trabalho para o Aragón, meu idiota! Há um mês que me ando a encontrar com o Navarra. Estávamos quase a prendê-lo e a eliminar o resto da célula dele. Quem é que te enviou para aqui? Não foi o Aragón. Ele ter-me-ia dito. Ficou ali especada, à espera da resposta dele, sem vergonha aparente da sua nudez.

Eu trabalho para o Castillo.

Falou com calma e num espanhol fluente. Não conhecia ninguém chamado Castillo — foi apenas o primeiro nome que lhe veio à cabeça. Onde o teria visto? Na padaria? Sim, era isso. A padaria do outro lado da rua.

Ela perguntou:

— Quem é o Castillo?

— O homem para quem eu trabalho.

— O Castillo trabalha para o Aragón?

— Como é que eu hei-de saber? Por que não ligas ao Aragón? Ele liga ao Castillo e resolvemos esta trapalhada toda.

— Muito bem.

— Liga-lhe daquele telefone ali.

— Vou mesmo, meu idiota de merda!

— Mas faz é isso sem fazer barulho, antes que alertes todos os moradores do prédio de que acabamos de matar um homem.

Cruzou os braços sobre os seios, como se tivesse noção da sua nudez pela primeira vez.

— Como é que te chamas? — Não te vou dizer o meu nome.

— Porque não?

— Como é que eu sei que trabalhas mesmo para o Aragón? Se calhar trabalhas aqui com o pinga-amor. Se calhar faz parte da célula dele. Se calhar vais ligar a alguns dos amigos dele e eles vêm aqui e matam-me.

Ergueu a faca ensanguentada e passou o polegar pela lâmina. A garota franziu o sobrolho.

— Nem sequer penses em tentar! Idiota de merda!

— Põe o Aragón ao telefone. Depois digo-te o meu nome.

— Vais meter-te num grande sarilho.

— Põe mas é o Aragón ao telefone e eu explico tudo.

Ela sentou-se na borda da cama, agarrou no receptor e teclou o número com violência. O inglês deu um passo em frente e pôs o dedo em cima do descanso, cortando a ligação.

— O que pensas que estás a fazer? Como é que te chamas? O assassino rasgou-lhe o pescoço de um lado ao outro, num movimento brutal. Deu um passo atrás para evitar o jorro inicial de sangue, como um géiser; a seguir, ajoelhou-se à frente dela e ficou a ver a vida a esvair-se dos seus olhos. Enquanto ela morria, ele inclinou-se para a frente e sussurrou-lhe o nome ao ouvido.

O inglês passou o resto do dia a conduzir: a via rápida de Vitoria a Barcelona, depois a auto-estrada costeira de Barcelona até Marselha, atravessando a fronteira. Mais tarde, nessa noite, pegou um ferry de trabalhadores para fazer a travessia noturna até a Córsega.

Estava vestido como um típico corso: calças de algodão largas, sandálias de couro empoeiradas, uma camisa grossa para se proteger do frio de Outono. O cabelo castanho-escuro estava cortado à escovinha. O terno de popeline e o chapéu com abas que usara em Vitoria jaziam lixeira de um café na beira da estrada, em Bordéus. A cabeleira prateada tinha sido atirada pela janela do carro, em direção a um desfiladeiro de montanhas. O próprio carro, registrado em nome de um tal David Mandelson, uma das suas muitas identidades falsas, tinha sido devolvido ao agente do serviço de aluguer na cidade. Deixou o convés e foi até o camarote. Era privado, com os seus próprios chuveiro e casa de banho. Deixou a pequena maleta de couro em cima do beliche e subiu ao convés dos passageiros. Ofeny estava praticamente vazio, com algumas pessoas à volta do bar para tomarem uma bebida e comerem alguma coisa. Sentia-se cansado após a longa viagem de carro, mas o sentido rígido de disciplina interna não lhe permitiria dormir sem primeiro passar em revista os rostos dos passageiros.

Deu a volta ao convés, não viu nada de alarmante e a seguir foi até o bar, onde pediu meia garrafa de vinho e pôs-se à conversa com um corso chamado Ma eo. Ma eo vivia na parte noroeste da ilha, como o inglês, mas dois vales para sul, à sombra do Monte d'Oro. Já não ia ao vale do inglês há vinte anos. Era assim o ritmo da vida na ilha.

A conversa passou para o fogo posto que dizimara o vale do inglês na época de seca anterior.

— Chegaram a descobrir quem foi? — perguntou Ma eo, servindo-se de um pouco do vinho do inglês.

Quando o inglês lhe contou que as autoridades suspeitavam dos separatistas da FLNC, o corso acendeu um cigarro e soprou o fumo para o teto.