O Assassino Inglês
Capítulo 23
Pegou-lhe no braço e conduziu-o até a proteção de um pinheiro imponente.
— Precisamos manter o curativo seco — disse, com uma nota de preocupação a insinuar-se na voz.
Pegou um anorak de nylon amarrotado do bolso da mochila, segurou-o por cima das suas cabeças e ficaram ali agachados durante vinte minutos, como um par de refugiados e com os vigias de Rami parados, em silêncio e como cães de chaminé, um de cada lado. Enquanto esperavam que o tempo abrisse, Anna disse a Gabriel os códigos de segurança da casa e onde se encontravam as proveniências nos arquivos do pai. Quando a chuva parou finalmente, Anna enrolou o anoraque nas mãos de Gabriel e os dois desceram com cuidado o trilho molhado até casa. No portão da frente, Gabriel deixou-a sob a proteção de Rami e entrou no carro. Enquanto se afastava nele, olhou uma última vez por cima do ombro e viu Anna a perseguir Rami ao longo da entrada e a gritar: — Pum, pum, Rami! Estás morto!
23
LISBOA
Mo kin gostava de estar em Lisboa. Já tinha estado colocado em lugares repletos de glamour. Tinha estado em Londres. Tinha estado em Paris e em Bruxelas. Tinha passado um ano de tensão extrema no Cairo fazendo passar-se por repórter de um jornal de Otava. Naquela época, as coisas andavam calmas em Lisboa, e isso estava muito bem para Mo kin. A ocasional missão de vigilância, um pouco de trabalho a servir de elo de ligação. Apenas o suficiente para o impedir de dar em louco. Tinha tempo para os seus livros e selos e para longas sestas com a sua garota em Alfama. Tinha acabado de voltar do apartamento dela quando o telefone lhe começou a vibrar suavemente em cima da mesa. Mo kin pegou o receptor e encostou-o ao ouvido com cautela. Era esta a hora que Ari Shamron escolhia para pôr a cabeça fora da toca de raposa e estragar a vida de seus katsa*? Mas, felizmente não era Shamron — apenas o guarda que estava lá em baixo no hall de entrada. Parecia que havia uma visita, um homem que sabia o nome de Mo kin. Mo kin desligou o telefone e baixou a câmera de vigilância do hall de entrada no monitor do computador. O posto transmitia regularmente entradas não anunciadas de pessoas de todos os tipos e feitios. Normalmente, uma olhadela rápida bastava para decidir se a pessoa devia ser recebida ou levada à força até a saída.
*Agentes de campo do Mossad, serviço secreto israelense.
Ao mesmo tempo que a imagem lhe aparecia na tela, Mo kin murmurou:
Raios me partam.
Imagine-se, a lenda viva, a entrar na embaixada como se fosse uma coisa trazida pelo gato do ditado. Da última vez que Mo kin ouvira falar dele, estava enfiado numa casa de campo qualquer na Inglaterra, com os seus quadros e os seus demônios.
— Raios me partam — repetiu, ao mesmo tempo que descia as escadas atabalhoadamente. — És mesmo tu?
Na sala das comunicações, Mo kin estabeleceu uma ligação segura com o gabinete de Shamron na Avenida Rei Saul, em Telaviv. A seguir, fechou a porta à prova de som e observou Gabriel através do vidro. Era uma conversa desagradável; Mo kin conseguiu perceber pelo menos isso. Mas a verdade é que também havia poucas pessoas no Escritório que não tivessem enfrentado o velho em alguma época, e os combates entre Shamron e o grande Gabriel Allon já faziam parte das lendas do Escritório. Vinte minutos mais tarde, quando Gabriel desligou o telefone com toda a força e saiu da sala, estava pálido. — O Velho vai enviar um relatório daqui a trinta minutos. Preciso de umas quantas coisas.
Mo kin levou Gabriel até o posto e deixou-o tomar um duche e a trocar de roupa. Depois arranjou-lhe bilhetes de avião e um carro e deu-lhe dois mil dólares da caixa do fundo de maneio.
Quando regressaram à sala das comunicações, o relatório estava a sair do fax em linha segura. Tinha sido compilado pela Seção de Pesquisas da Avenida Rei Saul, e baseava-se em informações partilhadas através de acordos em vigor com os serviços secretos britânicos e franceses. O assunto era um homem chamado Christopher Keller.
Gabriel apanhou as páginas que tinham caído no tabuleiro, sentou-se à mesa e começou a ler.
Nascido em Londres e filho único de dois médicos bem-sucedidos de Harley
Street, Christopher Keller deixou bem claro desde muito cedo que não tinha qualquer intenção de seguir as pisadas dos pais. Obcecado com História, especialmente com a história militar, quis ser soldado. Os pais proibiram-no de entrar para o exército e ele acedeu à vontade deles, pelo menos durante um tempo. Entrou para Cambridge e começou a ler história e línguas orientais. Era um aluno brilhante, mas no segundo ano foi ficando cada vez mais impaciente e uma noite desapareceu sem deixar rasto. Poucos dias depois, apareceu em casa do pai, em Kensington, com o cabelo rapado à máquina zero e num uniforme verde-azeitona. Keller tinha-se alistado no Exército britânico.
Depois do recrutamento, juntou-se ao regimento de infantaria, mas o intelecto, a capacidade física e a atitude de lobo solitário diferenciaram-no rapidamente dos companheiros.
Pouco tempo depois, surgiu-lhe à porta um recrutador do SAS, os comandos especiais do exército britânico. Tinha visto a ficha de Keller e conversado com seus superiores. Keller foi convidado a instalar-se no quartel-general do Regimento, em Hereford, para realizar o curso de treino inicial.
Seu desempenho foi extraordinário. Os instrutores do curso de combate escreveram que nunca tinham visto um homem com tamanha aptidão instintiva para tirar a vida humana. Na casa da morte — uma instalação de má fama, onde os recrutas treinam o corpo a corpo, o resgate de reféns e exercícios antiterrorismo de limpeza de casa —, Keller conseguiu as pontuações mais elevadas possíveis. No último dia do curso, carregou uma mochila com vinte e cinco quilos e uma metralhadora de quatro quilos e meio durante uma marcha de sessenta e cinco quilômetros ao longo da charneca varrida pelo vento chamada Brecon Beacons, um teste de resistência que tinha deixado homens mortos. Keller completou o percurso trinta minutos mais depressa do que qualquer homem antes dele. Entrou para o Regimento e foi colocado num esquadrão Sabre especializado em táticas de guerra móvel no deserto.
Depois disso, sua carreira conheceu uma mudança de rumo inesperada. Um outro homem apareceu em cena, desta vez dos serviços secretos militares. Andava à procura de um tipo de soldado único, capaz de observações minuciosas e outras operações especiais na Irlanda do Norte. Confessou estar impressionado com o talento linguístico de Keller e a capacidade que revelava para improvisar e pensar sob pressão. Estaria Keller interessado? Naquela noite, ele arrumou o equipamento e mudou-se de Hereford para uma base secreta nas Highlands escocesas.
Durante o seu treino, Keller deu mostras de um talento formidável. Há anos que as forças de segurança e o serviço secreto se debatiam com a miríade de sotaques da Irlanda do Norte. No Ulster, as comunidades adversárias eram capazes de se identificarem umas às outras pelo som de uma voz. O sotaque da Belfast Ocidental católica é diferente do de Belfast Ocidental protestante; o sotaque de Upper Falls Road é diferente do de Lower Falls. A maneira como um homem pronunciava umas quantas frases simplesmente podia significar a diferença entre a vida e uma morte terrível. Keller desenvolveu uma capacidade para imitar as inflexões de forma perfeita. Era até capaz de mudar de sotaque de um momento para o outro — num minuto, um católico de Armagh, no outro, um protestante de Shankill Road, em Belfast, e, logo a seguir, um católico dos bairros residenciais de Ballymurphy. Operou em Belfast durante mais de um ano, seguindo membros do IRA e recolhendo pequenas bisbilhotices da comunidade em volta. Trabalhava sozinho, quase sem supervisão do seu agente controlador.
A missão na Irlanda do Norte sofreu um final abrupto, numa dada noite, quando ele foi capturado em Belfast Ocidental e levado de carro para uma casa de uma quinta distante, no condado de Armagh. Quando lá chegou, foi acusado de ser um espião britânico. Keller sabia que a situação era desesperada e por isso decidiu escapar lutando. Quando saiu da casa da quinta, quatro terroristas empedernidos do Exército Republicano Irlandês Provisional estavam mortos.
Dois tinham sido praticamente cortados aos pouquinhos.
Keller voltou para Hereford, onde passou por um longo repouso. Efetuou caminhadas duras por Brecon Beacons e treinou novos recrutas na arte de matar silenciosamente. Mas era evidente para os comandantes e psicólogos do Regimento que Belfast mudara Keller.
Foi então que, em Agosto de 1990, Saddam Hussein invadiu o Kuwait. Cinco meses mais tarde, Keller e a sua unidade percorriam o deserto ocidental do Iraque à caça dos lança-mísseis Scud que causavam pânico em Telaviv. Na noite de 28 de janeiro, Keller e a equipe localizaram um lança-mísseis no deserto, a cento e sessenta quilômetros a noroeste de Bagdá. Transmitiu as coordenadas aos comandantes na Arábia Saudita. Noventa minutos depois, uma formação de caças-bombardeiros da coligação liderada pelos Estados Unidos sobrevoou a baixa altitude o deserto mas, num desastroso caso de fogo amigo, atacou o esquadrão da SAS em vez do local onde estava o lança-mísseis. Os oficiais britânicos chegaram à conclusão de que a unidade inteira tinha sido perdida, embora nunca tivessem encontrado restos mortais conclusivos.
O que se seguiu foi essencialmente uma teoria — uma vez mais, com base em relatórios dos serviços secretos. Alguns meses após o desastre no deserto iraquiano, chegaram informações de que havia um assassino novo e altamente profissional na Europa. Os informantes da polícia falavam de um homem conhecido apenas como o Inglês. Ninguém era capaz de fornecer nada além de vagas descrições dele. Até à data, o misterioso assassino era suspeito de pelo menos vinte homicídios não resolvidos. Os serviços secretos britânicos suspeitavam que Christopher Keller e o Inglês fossem o mesmo homem. O arquivo terminava com duas fotografias. A primeira era a que Gabriel tinha tirado do homem entrando na galeria em Paris. A segunda mostrava um grupo de homens numa charneca deserta. Um dos rostos tinha um círculo em volta. Gabriel passou um tempo comparando imagens. Pegou o telefone e ligou para Shamron, que estava em Telaviv.
— Tenho a sensação estranhíssima de ter conhecido este homem — contou-lhe Gabriel.
Esperava que Shamron ficasse surpreso com a observação. Em vez disso, o Velho disse para ficar perto do fax e desligou.
Em 1988, Gabriel Allon levou a cabo uma das operações mais celebradas da história do serviço secreto israelense: o assassinato do número dois da OLP, Abu Jihad. Conduzira uma longa e perigosa operação de vigilância à casa de Túnis do palestino e treinara a equipe de assalto numa réplica em tamanho real, no deserto do Nlegueve. A seguir, numa noite quente de Abril, liderou uma equipe de comandos Sayaret no ataque à casa e matou Abu Jihad a tiro, à frente da mulher e dos filhos. Ao pensar agora nessa noite, ainda era capaz de ver a expressão de puro ódio nos olhos escuros deles. Passados dezoito meses do assassinato, uma equipe de agentes dos serviços secretos britânicos e da SAS, envolvidos no combate ao terrorismo do IRA, vieram a Telaviv estudar as táticas dos israelenses. Ari Shamron chamou Gabriel à Academia e forçou-o, durante um almoço formal, a dar uma palestra acerca da operação de Túnis. Um dos homens que assistiu à palestra era um tenente da SAS.