O Assassino Inglês

Daniel Silva · Capítulo 48 de 51

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O Assassino Inglês

Capítulo 49

Shamron abanou a mão grossa, em sinal de desdém. — Está usando seu rosto como desculpa conveniente para não vê-la. Mas eu sei qual é a verdadeira razão. A vida é para os vivos, Gabriel, e esta prisãozinha agradável que construiu para si mesmo não é vida. Está na hora de deixar de se culpar pelo que aconteceu em Viena. Se tem de culpar alguém, culpe a mim.

— Eu não vou a Londres com essa cara.

— Se não vai a Londres, permita que faça outra sugestão?

Gabriel soltou um longo suspiro de exasperação. Tinha perdido a vontade de resistir por mais tempo. — Estou ouvindo — respondeu.

49

CÓRSEGA

 

Nessa mesma tarde, o Inglês convidou Anton Orsati para almoçar na sua casa. Fazia vento e frio — demasiado frio para se estar lá fora, na varanda — e por isso comeram na mesa da cozinha e discutiram alguns assuntos ligeiramente urgentes relacionados com a empresa. Dou Orsati tinha acabado de ganhar um contrato de fornecimento de azeite a uma cadeia com duas dúzias de bistrôs, que se estendiam de Nice à Noruega. Agora, uma empresa de importação e exportação queria introduzir o azeite em lojas da especialidade nos Estados Unidos. A procura estava a começar a ultrapassar a oferta. Orsati precisava de mais terra e de mais árvores. Mas iria o fruto revelar-se à altura dos seus padrões exigentes? Iria a qualidade sofrer com a expansão? Tinha sido essa a questão que tinham debatido durante a refeição.

Depois do almoço, instalaram-se junto à lareira da sala de estar e beberam vinho tinto saído de um jarro de barro. Foi nessa hora que o Inglês confessou que tinha agido de forma desonrosa durante o caso Rolfe.

Orsati serviu-se de um pouco mais do vinho e sorriu.

— Quando a signadora me contou que tinhas voltado de Veneza sem o seu talismã, eu percebi que se tinha passado alguma coisa fora do normal. O que aconteceu ao colar, aliás?

— Dei-o à Anna Rolfe.

— Como?

O Inglês contou-lhe.

Orsati ficou impressionado.

— Eu diria que ganhaste esse confronto aos pontos. Como é que arranjaste o blazer?

— Pedi-o emprestado a um segurança da scuola.

— E o que lhe aconteceu?

O Inglês olhou para a lareira. Orsati murmurou:

— Pobre diabo.

— Pedi-lhe uma vez com bons modos.

— A questão é: Por quê? Porque me traíste, Christopher? Não te tenho tratado bem?

O Inglês pôs a tocar a fita que tirara a Emil Jacobi, em Lyon. Depois, deu a Orsati o dossiê que tinha preparado, com base na sua própria investigação, e foi para a cozinha lavar os pratos do almoço. Era certo e sabido por todo mundo que o corso era lento ao ler.

Quando regressou, Orsati estava a acabar de ler o dossiê. Fechou o arquivo e os seus olhos escuros fixaram-se no Inglês.

— O professor Jacobi era muito bom homem, mas nós somos pagos para matar pessoas. Se passássemos todo o nosso tempo a debatermo-nos com o que está certo e errado, nunca conseguiríamos fazer nenhum trabalho.

— Era assim que o seu pai conduzia o negócio? E o pai dele? E o deste?

Orsati apontou o dedo indicador grosso, como se fosse uma arma, na cara do Inglês.

— A minha família não é da sua conta, Christopher. Tu trabalhas para mim. Nunca te esqueças disso.

Era a primeira vez que Orsati lhe falava zangado.

— Não quis desrespeitá-lo, Don Orsati.

O corso baixou o dedo.

— E não o fez.

— Sabe a história da signora e do que aconteceu ao marido dela?

— Você sabe muita coisa sobre a história deste lugar, mas não tudo. Como é que pensas que a signadora consegue ter um teto por cima da cabeça? Pensas que ela sobrevive à custa do dinheiro que ganha a afugentar os espíritos malignos com o azeite mágico dela e a água-benta?

— És tu que a sustentas?

Orsati acenou com a cabeça devagar.

— Ela disse-me que, às vezes, um taddunaghiu pode administrar a justiça tanto quanto a vingança.

— Isso é verdade. Don Tomasi merecia, sem dúvida, morrer.

— Eu sei de um homem que merece morrer.

— O homem do seu dossiê?

— Sim.

— Ele está muito bem protegido.

— Sou melhor do que todos esses caras.

Orsati levantou o copo e segurou-o junto à lareira, ficando a observar a luz dançando no vinho vermelho-rubi.

— Você é muito bom, mas matar um homem desses não vai ser fácil. Vai precisar da minha ajuda.

— Sua?

Orsati engoliu o que sobrava do vinho.

— Quem você acha que escalou a montanha de Don Orsati e lhe cortou o pescoço maléfico?