O Assassino Inglês

Daniel Silva · Capítulo 30 de 51

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O Assassino Inglês

Capítulo 31

Anna arrancou a ponta do Dinkelbrot.

— Quem é que são eles? — repetiu.

Gabriel pôs-se a pensar quanto tempo teria estado ele sem falar, quantos quilômetros teria guiado.

— Não tenho certeza — respondeu — , mas talvez tenha sido qualquer coisa como isto.

— Acha mesmo que isso é possível, Gabriel?

— Na verdade, é a única explicação lógica.

— Meus Deus, acho que vou vomitar. Quero sair deste país.

— Também eu.

— Então, se a sua teoria estiver certa, ainda falta responder a mais uma questão.

— E qual é ela?

— Onde é que as pinturas estão agora?

— No mesmo lugar onde sempre estiveram.

— Onde, Gabriel? — Aqui, na Suíça.

 

31

 

BARGEN, SUÍÇA

 

A cinco quilômetros da fronteira com a Alemanha, no final de um vale estreito salpicado de aldeias de lenhadores, fica a pequena e pardacenta Bargen, famosa na Suíça apenas pelo fato de ser a cidade mais a norte do país. Logo à saída da autoestrada, há uma estação de serviço e um supermercado com um parque de estacionamento de cascalho. Gabriel desligou o motor do carro e ficaram ali à espera, na luz metalizada da tarde.

— Quanto tempo é que temos antes de eles chegarem aqui?

— Não sei.

— Tenho de ir fazer xixi. — Vai ter de aguentar.

— Sempre me perguntei como reagiria numa situação destas, e agora tenho a minha resposta. Confrontada com o perigo, uma situação de vida ou morte, sou assaltada por uma vontade incontrolável de urinar.

— A Arma tem uma capacidade de concentração incrível. Utilize-a.

— Era isso que faria no meu lugar?

— Eu nunca urino.

Ela bateu-lhe no braço, gentilmente, de maneira a não lhe magoar a mão ferida. — Eu ouvi-o na casa de banho, em Veneza. Eu ouvi-o a vomitar. Age como se nada o incomodasse. Mas, afinal de contas, é humano, Gabriel Allon.

Por que não fuma um cigarro? Talvez isso a ajude a pensar noutra coisa.

— Como é que se sentiu ao matar aqueles homens em casa do meu pai?

Gabriel pensou em Eli Lavon.

— Não tive muito tempo para refletir sobre a moralidade ou as consequências das minhas ações. Se não os tivesse matado, tinham-me matado eles a mim.

— Suponho que seja possível que tenham sido eles a matar o meu pai.

— Sim, é possível.

— Então fico contente por os ter matado. É errado eu pensar dessa maneira?

— Não, é perfeitamente natural.

Ela seguiu o conselho dele e acendeu um cigarro.

— Por isso, agora já sabe os segredos sórdidos todos da minha família. Mas hoje apercebi-me do fato de, na verdade, eu não saber nada sobre si.

— Sabe mais sobre mim do que a maior parte das pessoas. — Sei um pouco do que faz... mas nada sobre si.

— E é assim que deve ser.

— Oh, vá lá, Gabriel. É mesmo assim tão frio e distante como quer fazer parecer?

— Já me têm dito que tenho um problema com a preocupação.

— Ah! Isso já é um começo. Diga-me mais qualquer coisa.

— O que quer saber?

— Tem uma aliança. É casado?

— Sim.

— Vivem em Israel? — Vivo na Inglaterra.

— Têm filhos?

— Tínhamos um filho, mas ele foi morto por uma bomba de um terrorista.

Olhou para ela com frieza.

— Há mais alguma coisa que queira saber sobre mim, Anna?

Ele calculou que lhe devesse realmente qualquer coisa, após tudo o que ela tinha revelado acerca de si mesma e do pai. Mas havia outra coisa. Descobriu de repente que queria de fato que ela soubesse. E, por isso, falou-lhe de uma noite em Viena, dez anos antes, quando o seu inimigo, um terrorista palestino chamado Tariq al-Hourani, lhe colocou uma bomba debaixo do carro — uma bomba destinada a destruir-lhe a família, pois o palestino sabia que isso iria ferir Gabriel muito mais do que se o matasse.

Tinha acontecido a seguir ao jantar. Leah tinha estado nervosa durante toda a refeição, pois a televisão do bar mostrava imagens de mísseis Scud caindo sobre Telaviv. Leah era uma boa garota israelense; não conseguia suportar a ideia de comer pasta num agradável restaurantezinho italiano em Viena, enquanto a mãe estava sentada no apartamento dela em Telaviv, com fita isolante nas janelas e uma máscara de gás do rosto. Depois do jantar, caminharam através da neve que se amontoava, até chegarem ao carro de Gabriel. Prendeu Dani com o cinto de segurança, depois beijou a mulher e disse-lhe que iria ficar a trabalhar até tarde. Era um trabalho para Shamron: um agente dos serviços secretos iraquianos que andava a planejar matar judeus. Mas isso ele não contou a Anna Rolfe.

Quando se virou e se começou a afastar, o motor do carro tentou pegar e hesitou, pois a bomba que Tariq lá colocara estava a extrair energia da bateria. Ele virou-se e gritou a Leah que parasse, mas ela não o deve ter ouvido, já que rodou uma segunda vez a chave.

Algum instinto primordial de proteção dos mais novos fê-lo correr primeiro até Dani, mas ele já estava morto, o corpo desfeito em pedaços. Por isso, foi ter com Leah e retirou-a dos destroços em chamas. Ela acabaria por sobreviver, embora talvez tivesse sido melhor se isso não tivesse acontecido. Agora, vivia num hospital psiquiátrico no Sul da Inglaterra, sofrendo de uma combinação de síndroma de estresse pós-traumático com depressão psicótica. Nunca mais voltara a dizer nada a Gabriel desde aquela noite em Viena.

Mas isso ele não contou a Anna Rolfe.

— Deve ter sido difícil para si — estar outra vez em Viena.

— Foi a primeira vez. .— Onde é que a conheceu?

— Na escola.

— Também era artista?

— Era muito melhor do que eu sou.

— Era bonita?

— Era muito bonita. Agora, tem cicatrizes.

— Todos nós temos cicatrizes, Gabriel.

— Não como a Leah.

— Por que o palestino pôs a bomba debaixo do carro? — Porque eu matei o irmão dele.

Antes de ela poder perguntar mais alguma coisa, um camião Volvo entrou no parque de estacionamento e fez sinais de luzes. Gabriel ligou o carro e seguiu-o até o fim de um pinhal, à saída da cidade. O condutor pulou da cabina e abriu rapidamente a porta de trás. Gabriel e Anna saíram do carro, com Anna a segurar o cofre pequeno e Gabriel o que tinha as pinturas. Parou, por breves instantes, para atirar as chaves do carro para bem dentro das árvores.

O contentor do camião estava cheio de mobília de escritório: mesas, cadeiras, estantes, armários de arquivo. O condutor disse:

— Vão para a parte da frente da cabina, dei tem-se no chão e tapem-se com os cobertores para a carga que há lá a mais.

Gabriel foi primeiro, trepando pela mobília, com o cofre nos braços. Anna seguiu-o. Na parte da frente da cabina, mal havia espaço para se sentarem com os joelhos por baixo do queixo. Depois de Anna se instalar, Gabriel tapou-os aos dois com o cobertor. A escuridão era total.

O camião foi balançando ao longo da estrada e, durante vários minutos, avançaram em grande velocidade pela auto-estrada. Gabriel conseguia sentir no chassis o que os pneus iam levantando. Anna começou a cantarolar em voz baixa.

— O que está a fazer?

— Ponho-me a cantarolar sempre que estou assustada. — Eu não vou deixar que lhe aconteça nada de mau.

— Promete?

— Prometo — respondeu ele. — Então e o que estava a cantarolar?

— O Cisne, de O Carnaval dos Animais de Camille Saint-Saëns.

— Pode tocá-la para mim um dia?

— Não — respondeu ela.

— E porque não?

— Porque nunca toco para os meus amigos.

Dez minutos depois: a fronteira. O camião juntou-se a uma fila de veículos à espera para poderem atravessar para a Alemanha. Ia avançando lentamente, uns quantos centímetros de cada vez: acelerar, travar, acelerar, travar. As cabeças deles rebolavam para trás e para a frente, como um par de brinquedos. Cada toque no travão causava um guincho de protesto; cada pé a fundo na embraiagem, mais fumos tóxicos de gasóleo que se soltavam. Anna encostou o queixo ao ombro dele e sussurrou:

— Agora, acho que sou eu que vou vomitar. Gabriel apertou-lhe a mão com força. Do outro lado da fronteira, estava outro carro à espera, um Ford Fiesta azul-escuro com matrícula de Munique. O condutor de camião de Ari Shamron deixou-os ali e prosseguiu a sua viagem fictícia a caminho de lado nenhum. Gabriel guardou os dois cofres na bagageira e começou a conduzir — pela E41 até Stu gart, pela E52 até Karlsruhe, pela E35 até Frankfurt. Parou uma vez, durante a noite, para telefonar para Telaviv através de uma linha de emergência, falando brevemente com Shamron.

Às duas da manhã, chegaram à cidade holandesa de Delft, com as suas feiras, a alguns quilômetros de distância da costa. Gabriel não conseguia guiar mais. Os olhos ardiam e os ouvidos zumbiam devido ao cansaço. Dali a oito horas, sairia um ferry de Hoek van Holland para o porto inglês de Harwich e Gabriel e Anna estariam a bordo dele, mas, por agora, ele precisava de uma cama e de algumas horas de sono, e, por isso, foram avançando pelas ruas da cidade antiga, à procura de um hotel.

Ele acabou por encontrar um, em Vondelstraat, de onde se avistava o pináculo de Nieuwe Kerk. Anna encarregou-se das formalidades na recepção, enquanto Gabriel esperava na minúscula sala de entrada, com os dois cofres na mão. Passado um momento, e depois de subirem uma escada estreita, foram acompanhados até um quarto demasiado aquecido, com um teto pontiagudo e uma janela triangular, que Gabriel abriu imediatamente.

Guardou os cofres no armário; a seguir, tirou os sapatos e esticou-se em cima da cama. Anna entrou discretamente na casa de banho e, um momento depois, Gabriel ouviu o som reconfortante da água a bater em esmalte. O ar frio da noite entrou de rompante pela janela aberta. Com o perfume do mar do Norte, acariciou-lhe o rosto. Permitiu sentir o luxo de fechar os olhos.

Passados alguns minutos, Anna saiu da casa de banho. Uma rajada de luz anunciou a chegada dela; a seguir, esticou o braço, desligou o interruptor na parede e o quarto ficou novamente às escuras, excetuando o brilho fraco dos postes de rua que entrava pela janela.

— Está acordado?

— Não.

— Não vai dormir no chão, como fez em Viena?

— Não consigo me mexer.

Ela levantou o cobertor e enfiou-se na cama, lentamente e ao lado dele.

Gabriel perguntou:

— Como é que sabia que a palavra-passe era adágio? — O Adágio de Albinoni foi uma das primeiras composições que aprendi a tocar. Por alguma razão, foi sempre a preferida do meu pai.

O isqueiro dela flamejou na escuridão.

— O meu pai queria perdão pelos pecados dele. Queria absolvição. Esteve disposto a virar-se para si para isso mas não para mim. Por que o meu pai não me pediu perdão?

— Provavelmente, achou que não lhe daria.

— Dá a ideia de estar a falar por experiência própria. A sua mulher chegou a perdoar-lhe?

— Não, não me parece que o tenha feito.

— E já se perdoou?

— Não chamaria perdão.

— Então como?

— Acomodação. Cheguei à acomodação comigo mesmo.

— O meu pai morreu sem absolvição. Provavelmente, era o que merecia. Mas eu quero terminar o que ele quis fazer. Quero recuperar aquelas pinturas e enviá-las para Israel.

— Também eu.

— Como?

— Durma, Anna. Que foi o que ela fez. Gabriel ficou acordado, à espera da madrugada, a ouvir as gaivotas no canal e o ritmo regular da respiração de Anna. Nessa noite, nada de demônios, nem de pesadelos — o sono inocente de uma criança. Mas Gabriel não a acompanhou. Ainda não estava preparado para dormir. Quando as pinturas estivessem bem guardadas na caixa-forte de Julian Isherwood — então dormiria.