O Assassino Inglês
Capítulo 50
COSTA DE PRATA, PORTUGAL
Carlos, o responsável pela vinha, foi o primeiro a vê-lo chegar. Desviou os olhos do trabalho ao ouvir o carro a passar pela entrada de cascalho, e ficou a ver o restaurador de arte chamado Gabriel ser cumprimentado pelo homem que se chamava Rami. Trocaram umas quantas palavras; Rami tocou nas cicatrizes que o restaurador de arte tinha no rosto. Isso, Carlos conseguiu ver do seu posto, no início da vinha. Não era um militar, mas Carlos sabia reconhecer uma troca de guarda quando via uma. Rami estava de partida e já não era sem tempo. Tinha-se enchido das tropelias de Nossa Senhora, como Carlos sabia que acabaria por acontecer. Nossa Senhora precisava de um homem que tivesse uma paciência interminável a olhar por ela. Nossa Senhora precisava do restaurador. Ficou a observar Gabriel a atravessar a entrada e a desaparecer no interior da casa. Nossa Senhora estava no andar de cima, na sala dela, a ensaiar. Por certo, o restaurador não fazia tenções de a interromper. Por um instante, Carlos pôs a hipótese de correr até a varanda e intervir, mas depois pensou melhor. O restaurador precisava de aprender uma lição e há lições que se aprendem melhor da maneira mais dura.
Por isso, pousou as tesouras para a poda e encontrou o frasco de bagaço que tinha no bolso. A seguir, agachou-se no meio das latadas e acendeu um cigarro, ficando a observar o Sol a mergulhar em direção ao mar, à espera que o espetáculo começasse.
O som do violino dela enchia a casa enquanto Gabriel subia as escadas até a sala. Entrou sem bater. Ela tocou mais algumas notas e parou subitamente.
Sem se virar, gritou: — Raios o partam, Rami! Porra, quantas vezes eu já disse...
Virou-se e viu-o. Abriu a boca de espanto e, por um instante, soltou o Guarneri. Gabriel jogou-se para a frente e apanhou o violino no ar, antes que pudesse cair ao chão. Anna apertou-o nos braços.
— Nunca pensei que voltaria a vê-lo, Gabriel. O que está fazendo aqui?