O Assassino Inglês
Capítulo 37
— É a primeira vez que vem a Veneza?
— Sim, é um fato.
— Isto tem estado sempre assim já desde há uma semana e os turistas continuam a vir à mesma. Precisamos deles... só Deus sabe, eu não faria negócio nenhum sem eles... mas, às vezes, até eu me canso dessa presença constante.
Numa paragem de vapore o, apertaram a mão.
— Devo dizer que acho este assunto extremamente desagradável mas, enfim, há que fazer aquilo para que somos pagos. Uma violinista...
Levantou as mãos, num gesto inteiramente italiano.
—... Uma violinista pode ser substituída. Mas os Tintore os... os Tintore os são insubstituíveis. Por favor, eu nunca me perdoaria a mim mesmo se tivesse contribuído de alguma forma para destruição deles.
— Garanto-lhe, Signore Rosse i, que vou fazer todos os possíveis para não os estragar. O italiano sorriu.
Tenho certeza de que irá. Além disso, já imaginou a maldição que iria recair num homem que deixasse um buraco de bala no Salvador ou na Virgem?
O pequeno joalheiro benzeu-se e depois virou as costas e desapareceu na ruela.
37
VENEZA
Nessa tarde, a equipe de Gabriel reuniu-se na sala de estar da suíte de hotel de Anna Rolfe. Tinham chegado a Veneza por percursos diferentes, com os passaportes de países diferentes e com histórias diferentes a servirem de cobertura. Fiéis à doutrina do Escritório, todos eles se fizeram passar por casais. A operação tinha sido pensada e posta em prática de forma tão apressada que nunca chegara a receber um verdadeiro nome de código. O quarto de hotel de Anna chamava-se Giorgione Suite e, a partir desse momento, a equipe de campo de Gabriel passou a usar esse nome.
Havia Shimon e liana. A fazerem de franceses recém-casados, tinham chegado a Veneza vindos da Cote d'Azur. Tinham olhos escuros e pele morena, iguais em altura e praticamente iguais em beleza física. Tinham treinado juntos na Academia e a sua relação tornou-se tensa quando liana se sobrepôs a Shimon na carreira de tiro e lhe partiu a clavícula durante uma sessão nos tapetes de borracha esponjosa do ginásio.
Havia Yi hak e Moshe. Em adaptação às realidades das relações amorosas no mundo moderno, faziam-se passar por um casal homossexual de No ing Hill, embora qualquer um deles fosse exatamente o contrário, Yi hak de forma bem vigorosa. Havia Deborah, da base de Otava. Gabriel trabalhara com ela na operação Tariq e ficara tão impressionado que tinha insistido que fizesse parte da equipe de Veneza.
De início, Shamron tinha rejeitado a ideia liminarmente mas, quando Gabriel se recusou a desistir, acabou por a pôr no primeiro avião a sair de Otava e engendrou uma mentira convincente para dizer ao chefe de seção dela.
Sentado ao lado dela, com a perna pendurada no braço do sofá de forma sugestiva, estava Jonathan. Taciturno e entediado, tinha o ar de um homem que estava há uma eternidade num consultório médico, à espera de fazer um exame físico de rotina do qual não precisava. Era uma versão mais nova de Gabriel — Gabriel antes de Viena, talvez. Para ele, matar é uma coisa séria, dissera Shamron. Mas não é nenhum pistoleiro. Tem uma consciência, como tu. Quando tudo tiver terminado e toda agente estiver a salvo, ele vai arranjar uma casa de banho simpática e sossegada, para se poder vomitar todo à vontade. Gabriel achou reconfortante este elemento da personalidade de Jonathan, como Shamron sabia que aconteceria.
A sessão demorou uma hora e um quarto, embora Gabriel não soubesse porque razão tinha reparado nesse fato. Decidira que o trabalho a fazer nesse dia seria em Castello, o sestiere que ficava logo a leste da Basílica de San Marco e do Palácio do Doge. Tinha vivido em Castello durante a sua aprendizagem e conhecia bem esse emaranhado de ruas. Utilizando um lápis do hotel como ponteiro, planeou o seu percurso e coreografou os movimentos da equipe. Para encobrir o som das instruções, pôs a tocar uma gravação de danças alemãs de Mozart. Isso pareceu tornar o estado de espírito de Jonathan ainda mais sombrio. Jonathan desprezava tudo o que fosse alemão. Na verdade, o único povo que odiava ainda mais do que o alemão era o suíço. Durante a guerra, o avô tinha tentado manter o seu dinheiro e as heranças de família e confiara tudo a um banqueiro suíço. Cinquenta anos depois, Jonathan tinha tentado aceder a essa conta mas fora-lhe comunicado, por um empregado atencioso, que o banco necessitava primeiro de uma prova de que o avô de Jonathan estava realmente morto. Jonathan explicou que o avô tinha sido assassinado em Treblinka — Com um gás fabricado por uma companhia química suíça, sentira-se tentado a dizer — e que os nazistas, apesar de toda a insistência que manifestavam com a documentação, não tinham tido a atenção de fornecer uma certidão de óbito. O empregado pedira-lhe desculpas mas, sem certidão de óbito, não tem havia dinheiro.
Quando Gabriel terminou de dar as instruções, abriu uma mala grande cor de aço inoxidável e entregou um celular protegido e uma Bere a de nove milímetros a cada membro da equipe. Quando as armas deixaram outra vez de estar à vista, subiu as escadas, foi buscar Anna ao quarto e fê-la descer para conhecer a Equipa Giorgione.
Shimon e liana levantaram-se e aplaudiram discretamente. Entrando nas suas personagens, Yi hak e Moshe teceram comentários ao estilo das suas botas de couro tão na moda. Deborah mirou-a com inveja. Apenas Jonathan parecia não ter qualquer interesse nela, mas Jonathan devia ser desculpado pois, naquela hora, já só tinha olhos para o assassino conhecido como o Inglês.
Passados dez minutos, Gabriel e Anna estavam a atravessar a pé a Calle dell'Ascencione. Os outros membros da equipe tinham saído antes deles e ocupado as suas posições:
Jonathan na paragem de vapore o de San Marco, Shimon e liana a olhar para os sapatos nas montras das lojas de Calle Frezzeria, Yi hak e Moshe numa mesa do Caffé Quadri, na Piazza de San Marco. Deborah, a benjamim do grupo, recebera a missão nada invejável de dar farelo de milho aos pombos, à sombra da torre do campanário. Com um autocontrole admirável, deixou que os bichos lhe subissem para os ombros e ficassem empoleirados no cabelo. E até encontrou um bonito carabiniere que lhe tirou uma fotografia com a máquina fotográfica descartável que ela tinha comprado num quiosque no centro da praça.
Quando Gabriel e Anna entraram na piazza, estava a cair uma chuva miudinha, como neblina a sair de um vaporizador de quarto. A previsão meteorológica dava chuva mais intensa para os dois dias seguintes e havia o medo de que acontecesse uma acqua alta. Equipas de trabalhadores estavam a construir uma rede de passagens elevadas feitas de toros, para que o comércio destinado aos turistas pudesse continuar quando a maré da lagoa transformasse San Marco num lago raso.
Anna trazia um blusão, acolchoado e grosso o suficiente para esconder o colete Kevlar. tinha por baixo. Tinha o capuz posto e estava de óculos escuros, apesar do céu encoberto daquela tarde. Gabriel tinha uma noção imprecisa de Jonathan o ir seguindo de perto, com um guia turístico aberto nas mãos e os olhos a percorrerem a praça sem parar. Olhou de soslaio para a esquerda e viu Shimon e liana a caminharem sob o passeio coberto. Centenas de mesas de cafés iam desaparecendo ao longe, como as fileiras de um exército numa parada militar. A basílica flutuava à frente deles, com as grandes cúpulas a recortarem-se no céu cinzento.
Anna enfiou o braço no de Gabriel. Foi um gesto totalmente espontâneo, nem demasiado íntimo nem demasiado distante. Podiam ser amigos ou colegas de profissão; e podiam ter acabado de fazer amor. Ninguém seria capaz de perceber o que ela sentia pelo modo como tocava nele. Só Gabriel, e isso era apenas por conseguir sentir um ligeiro tremor no corpo dela e os seus dedos poderosos da mão esquerda a cravarem-se nos tendões do braço dele.
Sentaram-se numa mesa do Caffé Florian, sob a proteção da arcada. Um quarteto tocava Vivaldi bem mal, o que levou Anna a distrair-se. Shimon e liana tinham atravessado a praça e fingiam estar a admirar os leões da Piazze a dei Leoncini. Yi hak e Moshe deixaram-se ficar sentados na sua mesa, do outro lado da piaga, enquanto Deborah continuava a ser massacrada pelos pombos. Jonathan sentou-se a poucos metros de Gabriel.
Anna pediu os cafés. Gabriel sacou do celular e contatou cada um dos elementos da equipe, começando por Yi hak e terminando numa desesperada Deborah. A seguir, enfiou o celular novamente no bolso, trocou um olhar rápido com Jonathan e abanou a cabeça uma vez.
Continuaram sentados enquanto Anna acabava de beber o café. A seguir, Gabriel pediu a conta, um sinal para o resto da equipe de que o segundo cato estava prestes a começar. Jonathan fez o mesmo. Embora estivesse a coberto da conta de despesas de Shamron, o seu rosto deixava ver a repugnância que sentia pelo valor escandaloso que estavam a pedir por um cappuccino e uma garrafa de água mineral.
Cinco minutos mais tarde, a Equipa Giorgione estava a atravessar por ordem a Ponte delia Paglia e a entrar no sestiere de Castello — primeiro, Shimon e liana, depois, Yi hak e Moshe e, finalmente Gabriel e Anna. Jonathan continuava a seguir poucos metros atrás de Gabriel, embora a esta altura já tivesse guardado o guia turístico e tivesse os dedos bem agarrados à coronha da Bere a.
E, cerca de quarenta metros atrás de todos eles, seguia o Inglês. Tinha duas perguntas a passarem-lhe pela cabeça. Porque razão iria agora a garota que estivera a dar de comer aos pombos em San Marco cinco passos atrás de Gabriel Allon? E porque razão iria o homem que estivera sentado perto de Allon, no Caffé Florian, cinco passos à frente dela?
O Inglês era bem versado na arte da contravigilância. Anna Rolfe estava sob a proteção de uma equipe de talento e profissional. Mas a verdade é que seria sempre assim que Allon agiria. O Inglês estudara às ordens dele; sabia como ele pensava. O Gabriel Allon que o Inglês conhecera em Telaviv nunca sairia para dar um passeio sem ter um propósito e o deste era levar o Inglês a mostrar-se.
Em Riva degli Schiavoni, o Inglês comprou um postal num quiosque para turistas e ficou a observar Allon e Anna Rolfe a desaparecerem nas ruas de Castello. A seguir, deu meia volta e passou as duas horas seguintes a fazer lentamente o caminho de regresso ao hotel.
Veneza é uma cidade onde as regras normais de vigilância e contravigilância de rua não se aplicam. É uma composição de grande virtuosismo que exige a mão segura de um virtuoso. Não há automóveis, nem autocarros, nem elétricos. Há poucos lugares em que valha a pena instalar um posto fixo de vigilância. Há ruas que não vão dar a lado nenhum — a um canal ou a um pátio fechado, sem possibilidades de fuga. É uma cidade em que o homem que está a ser perseguido detém todas as vantagens.
Era muito boa a Equipe Giorgione. Tinha sido treinada pelos artistas da vigilância do Escritório e aperfeiçoado os seus conhecimentos nas ruas da Europa e do Médio Oriente. Comunicava entre si em silêncio, saindo e entrando dentro da órbita de Gabriel, aparecendo e reaparecendo a partir de várias direções. Só Jonathan permanecia constantemente na mesma posição, cinco passos atrás de Gabriel, como um satélite em órbita estacionária.
A equipe avançou para norte, atravessando uma série de praças de igreja, até se instalar por fim num pequeno café, no passeio do amplo Campo Santa Maria delia Formosa. Gabriel e Anna sentaram-se numa mesa, enquanto Jonathan se deixou ficar ao balcão, junto a um grupo de homens. Pelas janelas, Gabriel foi vislumbrando a equipe aqui e acolá: Shimon e Liana comprando sorvete no centro da praça. Yi hak e Moshe admirando o exterior simples da igreja de Santa Maria Formosa. E Deborah, num regresso momentâneo a seu velho espírito, jogando futebol com um grupo de meninos de escola italianos. Dessa vez, foi Jonathan a contatar os membros da equipe por um celular protegido. Depois, voltou-se para Gabriel e articulou três palavras: Ela está limpa.
Mais tarde, nessa noite, depois de a Equipa Giorgione ter terminado o relatório e os seus membros se terem retirado para os respectivos quartos de hotel, Gabriel deixou-se ficar na sala de estar, à meia-luz, olhando fixamente para as fotografias de Christopher Keller. No andar de cima, o violino de Anna calou-se. Gabriel ouviu-a a guardá-lo outra vez no estojo e a fechar os trincos. Passado um momento, desceu as escadas. Gabriel recolheu as fotografias e enfiou-as dentro de uma pasta de arquivo. Anna sentou-se e acendeu um cigarro.
Gabriel perguntou:
— Vai tentá-lo?
— O Trilo do Diabo?
— Sim.
— Ainda não decidi.
— E vai fazer o quê se achar que não é capaz de o tocar?
— Substituo-o por uma série de sonatas de Bach sem acompanhamento musical. São bem bonitas, mas não são o Trilo. Os críticos vão ficar a perguntar-se por que eu decidi não o tocar. Vão pôr-se a especular que eu regressei demasiado depressa. Vai ser muito divertido.