O Assassino Inglês
Capítulo 24
O item que chegou por fax era uma fotografia. Tinha sido tirada após o almoço formal em celebração do espírito de cooperação entre os guerreiros secretos dos dois países. Gabriel, eternamente avesso a máquinas fotográficas, pusera óculos escuros e um chapéu para o sol, de modo a esconder a sua identidade. O homem ao lado dele olhava fixa e diretamente para a objetiva da máquina.
Gabriel estudou-lhe o rosto atentamente.
Era Christopher Keller.
24
MUNIQUE, ZURIQUE
O correio estava à espera de Gabriel no aeroporto de Munique. Tinha cabelos cor de caramelo e trazia um letreiro que dizia AIR KRAMER—HELLER ENTERPRISES. Gabriel seguiu-o ao longo do terminal e do parque de estacionamento, através da neve soprada pelo vento, até chegarem a um Mercedes azul-escuro.
— Tem uma Bere a no porta-luvas e um peito de boi no banco de trás.
— Vocês, os bodlin*, pensam em tudo.
— Vivemos para servir. Entregou as chaves a Gabriel.
— Bon voyage.
Gabriel instalou-se ao volante e ligou o motor. Dez minutos depois, estava a avançar a toda a velocidade pela autoestrada E54, a caminho de Zurique novamente.
Os suíços são um povo insular e tribal, possuidor de um instinto quase animal para identificar os forasteiros. Qualquer coisa fora do comum é comunicada à polícia, por mais insignificante que seja. Na verdade, os cidadãos suíços são tão vigilantes que as agências de serviços secretos estrangeiras que operam no interior do país os veem como uns segundos serviços de segurança. Tendo este fato bem presente, Gabriel teve o cuidado de projetar uma imagem de familiaridade ao sair do carro em direção à residência de Augustus Rolfe.
* Jovens israelenses, normalmente estudantes, tarefeiros do Mossad.
Lembrou-se de uma operação que o Escritório executara havia alguns anos. Uma equipe de agentes tinha sido enviada para a Suíça para pôr escutas num apartamento de um homem suspeito de ser um terrorista árabe e que vivia numa cidadezinha à saída de Berna. Uma velhota reparou na equipe quando ela estava à porta do apartamento do árabe e telefonou para a polícia a informar que havia um grupo de homens suspeitos no bairro dela. Passados poucos minutos, a equipe tinha sido detida e o fiasco relatado pelo mundo inteiro.
Subiu a encosta de Rosenbuhlweg. A silhueta familiar da residência Rolfe, com os seus torreões e o pórtico imponente, erguia-se por cima dele. Um carro passou por ali, deixando duas faixas de preto na neve recente.
Marcou o código para o sistema de entrada, que não era de chaves. O apito elétrico soou bem alto e o trinco veio para trás. Empurrou o portão, que se abriu, e subiu os degraus. Dois minutos depois, estava no interior da residência de Rolfe, a atravessar o hall de entrada escuro em silêncio, com uma pequena lanterna numa mão e uma Bere a na outra.
No corredor do segundo piso, a escuridão era absoluta. Gabriel foi avançando com a ajuda do fino feixe de luz que saía da lanterna. O escritório seria à esquerda, dissera Anna — Com vista para a rua, na primeira porta a seguir ao busto. Gabriel rodou a maçaneta. Trancada. Mas é claro. Tirou do bolso do casaco um par de pequenas ferramentas metálicas. Meu Deus, já tinha passado quanto tempo? A Academia, há uma centena de anos atrás. Tinha sido um recruta inexperiente, com Shamron sempre em cima dele, a berrar-lhe insultos ao ouvido. — Tens quinze segundos! Os teus colegas vão morrer a não ser que consigas abrir essa porta, Gabriel!
Pôs um joelho no chão, enfiou as ferramentas na fechadura e pôs-se ao trabalho, com a lanterna entre os dentes. Passado um momento, sofrendo o assalto diligente de Gabriel, a velha fechadura desistiu de dar luta. Ele levantou-se, entrou e fechou a porta atrás de si. A sala cheirava a fumo de lenha e a cão e, ligeiramente, a tabaco. Levantou a lanterna e mexeu-a de um lado para o outro. O feixe de luz minúsculo dela significava que ele só podia ir desbravando a sala uns quantos metros quadrados de cada vez. Uma área para as pessoas se sentarem, mobilada com cadeirões do século XVIII. Uma escrivaninha flamenga Renascença em madeira de carvalho. Estantes de livros que iam do chão de madeira polido até o teto trabalhado.
A mesa de Augustus Rolfe.
Era estranho, mas não parecia a mesa de um homem poderoso. Tinha um ar de desordem intelectual: um monte de arquivos, um mata-borrão descolorido de couro, uma xícara de chá cheia de clipes para papéis, uma pilha de livros muito antigos. Gabriel abriu com o indicador a capa do que estava no topo e foi saudado com o cheiro a papel antigo e a pó. Virou a luz para a primeira página. Goethe. Ao fechar o volume, a luz foi incidir sobre um cinzeiro grande de vidro lapidado. Uma dúzia de beatas estava espalhada lá dentro, como cartuchos gastos, num fundo de cinza. Examinou as beatas com mais atenção. De duas marcas diferentes. A maior parte era Benson & Hedges, mas três eram Silk Cuts.
Provavelmente, o velho tinha fumado os Benson & Hedges, mas quem teria fumado os Silk Cuts? Anna? Não, Anna fumava sempre Gitanes.
Voltou a concentrar-se nas proveniências. Anna dissera que Rolfe as guardava na gaveta de baixo e da direita da mesa, dentro de um arquivo marcado como CORRESPONDÊNCIA PESSOAL. A gaveta, como a entrada para o escritório de Rolfe, estava trancada. Desta vez, ele tinha uma chave. Abriu-a e começou a folhear os documentos pessoais de Augustus Rolfe.
Deparou-se com uma pasta de arquivo identificada como MAXIMILIAN. Segurou-a entre o polegar e o indicador, e depois hesitou. Tinha algum direito de estar a fazer aquilo? Era demasiado parecido com voyeurismo. Como espreitar por uma janela iluminada durante um passeio noturno por uma cidade e ver um casal a discutir. Ou um velho sentado sozinho à frente de uma televisão. Mas o que poderia o arquivo revelar? Que tipo de coisas teria este homem guardado acerca do filho? O que poderia Gabriel ficar a saber, graças a ele, sobre este homem, Augustus Rolfe?
Tirou a pasta para fora, pousou-a em cima da gaveta aberta e levantou a capa. Fotografias, recortes de notícias arrancados das páginas desportivas de jornais europeus, tributos por parte de colegas de equipe, uma longa peça de um jornal de Zurique acerca do acidente de bicicleta nos Alpes: Ele era um homem bom e eu tenho orgulho de lhe poder chamar meu filho — dissera Augustus Rolfe, um proeminente banqueiro de Zurique, numa declaração dada a conhecer pelo seu advogado. — Vou sentir a falta dele mais do que quaisquer palavras possam expressar. Bem dobrada e meticulosamente datada e marcada. Augustus Rolfe podia não ter concordado com a profissão escolhida pelo filho, mas era um pai orgulhoso, concluiu Gabriel.
Gabriel fechou a pasta, voltou a colocá-la no lugar dela e começou a procurar a da CORRESPONDÊNCIA PESSOAL. Uma outra pasta chamou-lhe a atenção: ANNA. Uma vez mais, hesitou, e a seguir puxou-a para fora. Lá dentro, havia fotografias de infância de Anna a tocar violino, convites para recitais e concertos, recortes de jornais, críticas às atuações e gravações dela. Olhou para as fotografias com mais atenção. Havia, sem sombra de dúvida, duas Annas: antes do suicídio da mãe e depois. A diferença no aspecto dela era impressionante. Gabriel fechou a pasta e guardou-a outra vez na gaveta. Era hora de voltar ao assunto que o tinha trazido até ali. Foi folheando as pastas de arquivo até encontrar a que estava marcada com CORRESPONDÊNCIA PESSOAL. Tirou-a da gaveta, pousou-a em cima da mesa de Rolfe e levantou a capa. Cartas, algumas escritas à mão, outras datilografadas em papel timbrado. Em alemão, francês, italiano e inglês — a manta de retalhos linguística que é a Suíça. Gabriel folheou-as rapidamente até chegar ao fim do monte. A seguir, voltou ao início e repetiu o processo, mas mais devagar. O resultado foi o mesmo.
As proveniências tinham desaparecido.
Enquanto Gabriel ia fazendo o feixe de luz da lanterna deslocar-se pelo escritório, pensou num dos exercícios de treino a que estivera sujeito na Academia. Um instrutor levara-o para uma sala decorada como uma suíte de hotel, entregara-lhe um documento e dera-lhe um minuto para descobrir cinco lugares apropriados para o esconder. Se lhe tivessem feito o teste no escritório de Rolfe e não num suposto quarto de hotel, ele teria sido capaz de arranjar uma centena de lugares para esconder um documento. Uma tábua de soalho falsa, um livro grande, por baixo de um tapete ou de uma tábua de soalho, dentro de uma peça de mobília, ou guardado num cofre secreto na parede. E isso era apenas no escritório. Naquela residência desordenada e imensa, havia milhares de lugares onde Rolfe podia ter escondido um molho de documentos. Afinal de contas, tratava-se de um homem que construíra um bunker subterrâneo para a sua coleção secreta de arte. Se Rolfe quisesse ter escondido alguma coisa, as probabilidades de Gabriel a descobrir eram diminutas.
A ideia de sair de Zurique de mãos a abanar, depois de uma travessia tão difícil e traiçoeira, deixava-o exasperado. Havia duas explicações possíveis para o desaparecimento dos documentos. Número um: tinham sido tirados dali, por Rolfe ou por alguém como Werner Müller. Número dois: por qualquer razão, Rolfe tinha-os perdido. Era, sem dúvida, possível. Era um velho. Os velhos enganam-se. As recordações vão-se esfumando. As etiquetas de identificação dos arquivos tornam-se mais difíceis de ler.
Gabriel decidiu revistar a mesa de uma ponta à outra.
Havia quatro gavetas com pastas de arquivos, duas de cada lado, e Gabriel começou pela de cima, no lado esquerdo. Acabou por entrar numa rotina monótona: tirar uma pasta específica, examinar o seu conteúdo atentamente, voltar a pô-la no lugar e passar para a seguinte.
Gabriel demorou trinta minutos a revistar as quatro gavetas por completo.
Nada.
Abriu a gaveta do meio: canetas, lápis, pedaços de papéis de rascunho, um tubo de cola, um corretor. Um minigravador. Gabriel examinou-o com ajuda da lanterna.
Não havia fita lá dentro. Revistou a gaveta atentamente. Um gravador de fitas e nenhuma fita. Estranho.
Fechou a gaveta, sentou-se na cadeira de Rolfe e pôs-se a olhar fixamente para a mesa. A gaveta do meio... havia qualquer coisa que não batia certo. Abriu-a outra vez, espreitou lá para dentro e voltou a fechá-la. Abrir, fechar. Abrir, fechar...
A gaveta em si tinha cerca de dez centímetros de profundidade, mas o espaço para guardar coisas não chegava a tanto. Cinco centímetros, calculou Gabriel, se calhar ainda menos. Tentou tirar a gaveta da mesa por completo, mas havia qualquer coisa que a prendia, impedindo-a de sair. Puxou com mais força.
O mesmo resultado.
Olhou para o relógio. Estava há quarenta e cinco minutos lá em casa, provavelmente mais tempo do que era sensato. Naquele momento, tinha duas hipóteses: ir-se embora ou confiar nos seus instintos.
Levantou-se, agarrou na gaveta com as duas mãos e puxou com o máximo de força possível. O mecanismo que a prendia cedeu e a gaveta caiu no chão aos trambolhões, fazendo com que o que havia lá dentro se espalhasse por todo o lado.
Gabriel levantou a gaveta, agora vazia, segurou-a e virou-a ao contrário.
Resistente, bem feita, anormalmente pesada. Olhou para o fundo atentamente.
Era bem grosso — talvez dois centímetros e meio.
Vais-te embora ou confias nos teus instintos?
Não havia nenhuma maneira mais delicada de fazer aquilo se quisesse ter a sua resposta rapidamente. Encostou a gaveta à borda da mesa e ajustou o ângulo. A seguir, levantou o pé e bateu nela com toda a força. Uma, duas, três vezes, até que a madeira começou a lascar.
O fundo da gaveta era composto não por uma mas sim por duas tábuas de madeira, de dimensões idênticas e colocadas uma em cima da outra. Entre elas, estava um envelope grande e retangular, amarelecido com o tempo, a dobra presa por um barbante esfiapado. As proveniências? Parecia um estratagema demasiado elaborado para se estarem a esconder proveniências. Gabriel afastou os pedaços quebrados de madeira e segurou no envelope. Sentiu uma tremura nos dedos, enquanto desatava o barbante e abria a dobra, para espreitar lá para dentro.
Tirou o que lá estava, uma pilha de papéis antigos, e colocou-a na mesa. Foi pegando neles um a um, com cuidado, como se temesse que se pudessem desfazer com o toque. Coroas... pesetas... escudos... libras. Os documentos eram cópias de transações em moedas diversas e de transferências bancárias efetuadas durante a guerra. Olhou para as datas. A primeira das transações, uma transferência de vários milhares de francos suíços para o Union Bank de Estocolmo, ocorrera em Fevereiro de 1942. A última, uma transferência de fundos para o Banco de Lisboa, acontecera em Junho de 1944. Pousou as cópias. O item seguinte era uma folha individual de papel branco liso, sem cabeçalho. No lado esquerdo da página, havia uma lista de nomes, todos alemães. No lado direito, havia uma lista correspondente, com números de doze dígitos. Gabriel leu umas quantas linhas:
Karl Meyer 551 829 651 318
Manfred König 948 628 468 948
Josef Fritsch 268 349 874 625
Juntou as cópias e levantou a dobra do envelope. Estava prestei a enfiar os papéis lá dentro quando sentiu alguma coisa presa nó canto inferior. Enfiou a mão e tirou os objetos.
Um par de fotografias.
Olhou para a primeira: Augustus Rolfe, novo, bonito, rico, sentado num restaurante. Atendendo ao estado da mesa, tinha sido consumida uma grande quantidade de vinho. Sentado ao lado dele, estava um homem corpulento e de ar decadente, vestido à civil e com duas cicatrizes, em sentido contrário uma da outra, nas faces. Gabriel não o reconheceu.
Voltou a atenção para a segunda fotografia. O cenário era a varanda de uma casa nos Alpes — Rolfe, de pé na balaustrada, a admirar a vista magnífica e acompanhado por dois homens de uniforme. Gabriel reconheceu ambos. Um era Henrich Himmler. O outro era Adolf Hitler.
Gabriel voltou a enfiar as fotografias e os documentos dentro do envelope. Tinha o tamanho-padrão, demasiado grande para caber num bolso, por isso empurrou-o pela parte da frente da calça abaixo e prendeu-o puxando o fecho do casaco de couro. Olhou para a mesa. Não havia nada a fazer em relação à gaveta; estava completamente quebrada. Com o pé, empurrou os pedaços para debaixo do espaço aberto entre as gavetas e tapou-os com a cadeira de Rolfe. A Bere a estava pousada em cima do mata-borrão de couro. Largou-a dentro do bolso e virou-se para se ir embora.
Ia-se orientando pelo feixe de luz fraca que saía da lanterna, que mais parecia uma caneta de tinta permanente. Uma vez mais, teve a sensação de ir desbravando o escritório, um fragmento de cada vez, desta feita em sentido contrário. A cada movimento da luz, um dado novo: a escrivaninha em madeira de carvalho, os cadeirões do século XVIII, um sofá em couro...
Um homem parado à entrada, com uma pistola apontada ao coração de Gabriel.