O Assassino Inglês
Capítulo 6
— Da última vez que entraste na minha vida, quase que acabei morto.
— É verdade, mas pelo menos não foi aborrecido.
— O Peterson diz que eu não posso regressar à Suíça. Como é que eu hei-de falar com a Arma Rolfe?
— Segundo parece, ela recusa-se a viver na Suíça. Shamron entregou-lhe uma tira de papel.
— Esta é a empresa de Londres que gere a carreira dela. Dá-lhe uns quantos dias para enterrar o pai. Então vais fazê-lo?
— Não por ti. Quero saber quem é que me tentou culpar do assassinato do Rolfe. Quem é que eu devo ser quando falar com a Anna Rolfe?
— Prefiro sempre a abordagem mais subtil, mas deixo-o ao seu critério. Faz o jogo que achares melhor.
Gabriel enfiou a morada no bolso. Um sorriso passou rapidamente pelo rosto de Shamron. Tinha aprendido há muito tempo que as vitórias profissionais, até mesmo as mais pequenas, eram para ser saboreadas.
O carro encostou junto à beira do passeio, por baixo de um letreiro da British Airways. Gabriel saiu, tirou as suas coisas da mala e depois olhou para dentro da janela de Shamron.
Shamron disse: — Não discutimos seus honorários.
— Não se preocupe. Serão substanciais.
— A partir deste momento, você tem uma conta de despesas a seu dispor, mas lembre-se, esbanjar dinheiro nunca resolveu nenhum caso.
— Vou refletir sobre essa pérola de sabedoria quando estiver voltando a Londres hoje à noite, num voo de primeira classe.
Shamron fez uma careta.
— Vai dando notícias. Pelos canais e métodos habituais. Lembra?
— Como é poderia jamais esquecer?
— Foi um feito e tanto, não acha?
— O quê?
— Descobrir um homem trinta minutos depois de ele abandonar a cena de um crime. Pergunto como Herr Peterson foi capaz de fazer isso. Deve ser muito bom.
6
NIDWALDEN, SUÍÇA
Dentro da divisão de Análise e Proteção, Gerhardt Peterson era considerado um homem em ascensão. Os superiores lidavam com ele com cuidado. Os subalternos mirravam perante o seu olhar frio. Os colegas olhavam para ele com admiração e inveja. Como tinha o filho do professor de Erstfeld chegado tão alto? Olhem para ele! Nunca tem um cabelo fora do lugar! Nunca tem uma gravata desapertada! Usa o poder e o êxito como o seu aftershave caro. Peterson nunca dava um passo que não fosse calculado para avançar na sua carreira. A vida familiar era tão organizada e ordenada como o escritório. As ligações amorosas eram discretas e apropriadas. Qualquer pessoa tola o suficiente para se colocar no seu caminho rapidamente descobria que Gerhardt Peterson era um homem com amigos poderosos. Amigos em Berna. Amigos nos bancos. Seria chefe dentro de pouco tempo todo mundo concordava. A seguir, um cargo superior no Departamento Federal da Polícia. E um dia, talvez, o controle de todo o Ministério da Justiça e Polícia. Peterson tinha de fato amigos nos bancos. E eles faziam-lhe de fato favores. A oligarquia financeira suíça fora como uma mão invisível nas suas costas, ajudando-o a subir cada um dos degraus da escada do poder. Mas não era uma via de sentido único. Peterson também lhes fazia favores e era por isso que ia ao volante do seu Mercedes, a atravessar velozmente a floresta sombria de Kernwald.
Na base das montanhas, foi dar a uma estrada assinalada como PRIVADA. Seguiu-a até chegar a um portão de ferro preto e imponente.
Peterson já conhecia a rotina. Quando parou o Mercedes e baixou a janela, um guarda saiu de um pequeno abrigo. Tinha o andar calmo e preciso de um homem com um passado militar. Peterson conseguia ver-lhe a saliência de uma arma por baixo do casaco de esquiar azul.
Peterson espetou a cabeça para fora da janela.
— O meu nome é Herr Köhler.
— Veio para a conferência, Herr Köhler?
— Na verdade, sou o entretenimento.
— Siga a estrada até a casa. Um outro homem irá lá ter com você.
Era um chalé suíço tradicional, em termos de concepção, mas grotesco na sua escala enorme. Fixado à margem da montanha, encarava o vale em baixo com um olhar de profunda satisfação. Peterson foi o último a chegar. Os outros já lá estavam. Tinham vindo de Zurique e Zug, de Lucerna e Berna e de Genebra e Basileia. Como tinham por hábito, viajaram em separado e foram chegando com intervalos de tempo desiguais para não atraírem a atenção. Eram todos suíços. Não eram permitidos estrangeiros. Era por causa dos estrangeiros que o grupo existia.
Como era habitual, a reunião iria decorrer na sala de estar espaçosa e com paredes em vidro no segundo piso da casa. Se algum deles se tivesse dado ao trabalho de ficar parado em frente das janelas, teria sido agraciado com uma vista verdadeiramente formidável: um tapete de luzes molhadas no chão do vale, coberto por um monte de neve, como um véu de noiva. Em vez disso, juntaram-se em pequenos grupos, a fumar, a conversar calmamente e a beber café ou chá. Nunca eram servidas bebidas alcoólicas na casa. O anfitrião, Herr Gessler, bebia apenas chá e água mineral e era vegetariano. Atribuía a sua admirável longevidade aos méritos de uma dieta rigorosa.
Apesar do ambiente informal, Herr Gessler fazia questão de abordar os encontros como se estivessem numa sala de reuniões. Os convidados não se sentavam nos sofás e poltronas confortáveis mas sim numa comprida mesa de conferências. Às seis da tarde em ponto, cada um dos homens dirigiu-se para a cadeira que lhe estava designada e colocou-se atrás dela.
Um momento depois, uma porta abriu e surgiu um homem. Magro e débil, com óculos escuros e uma camada fina de cabelos grisalhos, vinha apoiado no braço de um jovem segurança. Quando se sentou à cabeceira da mesa, os outros sentaram-se também.
Havia uma cadeira a mais, um descuido infeliz. Após um momento de desconfortável silêncio, o segurança levantou-a pelas costas e levou-a para fora da sala.
Na sala ao lado, Gerhardt Peterson olhava fixamente para a lente, de uma câmera de vídeo, como um convidado de um talkshow à espera de aparecer fora de estúdio num programa. Era sempre assim. Sempre que Peterson tinha de se apresentar ao Conselho, falava-lhes à distância e por via eletrônica. Nunca tinha visto Herr
Gessler nem nenhum dos outros homens na outra sala — pelo menos, não em ligação com o Conselho. Herr Gessler dizia que a combinação peculiar era para a proteção deles — e, talvez mais importante, dele próprio.
— Gerhardt, está pronto?
Era a voz aguda de Herr Gessler, tornada ainda mais fina pelo receptor minúsculo.
— Sim, estou pronto.
— Espero que não o tenhamos afastado de nenhum assunto de estado urgente, Gerhardt.
— De maneira nenhuma, Herr Gessler. Só uma reunião interdepartamental sobre o tráfico de drogas.
— Uma perda de tempo tão grande, esta guerra tola contra os estupefacientes.
As divagações repentinas de Gessler tinham ganho má fama. Peterson cruzou as mãos e esperou pelo momento adequado.
— Pessoalmente, nunca percebi a atração das drogas mas, por outro lado, também nunca percebi qual era o problema. Não tenho nada a ver com o que uma pessoa introduz no corpo dela. Se querem destruir a vida e a saúde com esses químicos, por que eu me hei-de importar? Por que os governos se hão-de importar? Por que os governos hão-de gastar recursos incontáveis a combater um problema que já é tão velho como a própria natureza humana? Afinal de contas, podemos defender que Adão foi o primeiro a consumir drogas. Deus proibiu o fruto ao jovem Adão e ele consumiu-o na primeira oportunidade que teve.
— É um argumento interessante, Herr Gessler.
— Os nossos detratores dizem que o tráfico de drogas tem sido muito bom para a Suíça. Receio que tenha de concordar. Tenho certeza de que o meu próprio banco contém contas dos chamados barões da droga. Mas qual é o mal? Pelo menos, se o dinheiro é depositado na Suíça, é-lhe dado bom uso. É emprestado a empresas legais que produzem bens, serviços e empregos para milhões de pessoas.
— Para elas depois poderem ir comprar mais drogas?
— Se é isso que querem. Sabe, é que a vida na terra tem um caráter circular. A natureza está em harmonia. E o sistema financeiro global também. Mas como a natureza pode perder o seu equilíbrio por causa de uma ocorrência aparentemente pequena, o mesmo acontecendo com a economia. Imagine as consequências destrutivas se os lucros do tráfico de drogas não fossem colocados a circular novamente na economia mundial. Os banqueiros da Suíça estão a prestar um serviço valioso.