O Assassino Inglês

Daniel Silva · Capítulo 47 de 51

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O Assassino Inglês

Quarta Parte

Q UARTA PARTE

 

TRÊS MESES DEPOIS

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PORT NAVAS, CORNUALHA

 

A casa de campo ficava junto a um ribeiro, no topo de uma enseada estreita, baixa e robusta e sólida como um navio, com uma porta dupla de excelente qualidade e janelas com persianas. Gabriel regressou numa segunda-feira. O quadro, um retábulo de altar dos Países Baixos, do século XIV, enviado pela Isherwood Fine Arts, de St. James's, em Londres, chegou na quarta. Vinha enterrado num contentor de pinho reforçado e foi transportado pelas escadas estreitas acima, até o estúdio de Gabriel, por um par de rapazes robustos a cheirar à cerveja da hora de almoço. Gabriel livrou-se do cheiro abrindo uma janela e um frasco de solvente acre. Desencaixotou o quadro com todo o cuidado. Devido à idade e ao seu estado frágil, tinha sido enviado não num mas em dois contentores — um contentor interior para proteger estruturalmente o quadro e um contentor exterior para o embalar num invólucro estável. Por fim, retirou a espuma acondicionadora e a proteção de papel de silicone e colocou a peça em cima do cavalete. Era a peça central de um tríptico, aproximadamente noventa centímetros de comprimento e sessenta de largura, pintada a tinta de óleo em três painéis de carvalho adjacentes e com grão vertical quase com certeza carvalho do Báltico, a madeira preferida dos mestres flamengos. Escreveu algumas notas, em jeito de diagnóstico, num pequeno bloco: empenamento convexo profundo, separação do segundo e terceiro painéis, danos e marcas consideráveis.

E se fosse o corpo dele em cima do cavalete, em vez do retábulo de altar? Maxilar fraturado, osso malar direito quebrado, órbita do olho esquerdo fraturada, vértebras quebradas, rádio esquerdo quebrado devido a dentadas de cão profundas e conducentes a tratamento profiláctico com injeções contra a raiva. Uma centena de costuras para fechar mais de vinte feridas e lacerações profundas no rosto, com inchaço residual e desfiguração.

Desejou poder fazer pelo rosto o mesmo que estava prestes a fazer pelo quadro. Os médicos que o tinham tratado em Telaviv tinham-lhe dito que só o tempo lhe poderia restaurar o aspecto natural. Já tinham passado três meses e continuava sem conseguir praticamente arranjar coragem para se olhar ao espelho. Além disso, sabia que o tempo não era o amigo mais leal de um rosto de cinquenta anos.

Durante a semana e meia seguinte, não fez mais nada senão ler. A sua coleção incluía vários volumes excelentes sobre Rogier e Julian tivera a gentileza de enviar com o quadro dois livros esplêndidos seus, que por sinal eram ambos em alemão. Abriu-os em cima da mesa de trabalho e empoleirou-se num banco alto e resistente, com as costas curvadas como um ciclista e os punhos a comprimirem as têmporas. De vez em quando, erguia os olhos e contemplava a peça colocada no seu cavalete — ou olhava para cima, a observar a chuva a escorrer em regatos pela claraboia. Depois, baixava os olhos e retomava a leitura.

*Rogier van der Weyden ou Rogier de Bruxelles, de nome verdadeiro

Rogier de la Pasture (1400-1464), foi um dos mais notáveis e importantes

pintores góticos flamengos.

Leu Martin Davies e Lorne Campbell. Leu Panofsky e Winkler e Hulin e Dijkstra. E, claro, leu o segundo volume da monstruosa obra de Friedlander sobre os primeiros tempos da pintura dos Países Baixos. Como podia ele restaurar uma obra, ainda que remotamente ligada a Rogier, sem consultar primeiro o erudito Friedlander?

Enquanto trabalhava, iam saindo do seu fax recortes de jornais — um por dia, no mínimo, por vezes dois ou três. De início, tudo aquilo começou a ser conhecido como o caso Rolfe e, mais tarde e inevitavelmente, como Rolfegate. O primeiro artigo apareceu no Neue Ziiricher Zeitung e depois os jornais de Berna e Lucerna começaram também a falar do assunto, seguidos pelos de Genebra. Passado pouco tempo, a história espalhou-se até França e Alemanha. O primeiro relato em inglês surgiu em Londres, seguido, dois dias mais tarde, por outro, num semanário americano proeminente. Os fatos eram tênues, as histórias cheias de especulação; eram uma boa leitura mas não exatamente bom jornalismo. Insinuava-se que Rolfe tinha uma coleção secreta de arte e insinuava-se que tinha sido assassinado devido a ela. Fizeram-se conjecturas sobre ligações ao sigiloso financeiro suíço O o Gessler, embora o porta-voz deste último as tivesse rejeitado, classificando-as como mentiras e mexericos maldosos. Quando os advogados de Gessler começaram a lançar avisos não muito subtis acerca de ações jurídicas iminentes, as notícias desapareceram rapidamente.

A esquerda suíça exigiu um inquérito parlamentar e uma investigação governamental exaustiva. Durante algum tempo, houve a sensação de que Berna poderia ser forçada a escavar mais fundo do que a superfície. Seriam citados nomes! Seriam arruinadas reputações! Mas, em pouco tempo, o escândalo foi-se extinguindo. Branqueamento!, gritou a esquerda suíça. A Suíça devia ter vergonha!, protestaram as organizações judias. Mais outro escândalo varrido para os esgotos de Bahnhofstrasse. Os Alpes tinham absorvido a maior parte da tempestade. Berna e Zurique tinham sido poupadas.

Pouco tempo depois, a história conheceu um estranho pós-escrito. O corpo de Gerhardt Peterson, um alto funcionário dos serviços de segurança federais, foi encontrado numa fenda num glaciar, no Bernese Oberland, vítima de um aparente acidente de montanhismo. Mas Gabriel, sozinho no seu estúdio na Cornualha, sabia que a morte de Peterson não fora acidente nenhum. Gerhard Peterson era apenas mais outro depósito no Banco de Gessler.

Anna Rolfe conseguiu manter-se distante do escândalo que girava à volta do pai falecido. Após a apresentação triunfal de Veneza, embarcara numa extensa tournée europeia, que consistia em recitais a solo e apresentações com orquestras importantes do continente.

Os críticos declararam que os seus desempenhos igualavam a paixão e o brilhantismo de antes do acidente, apesar de alguns jornalistas se queixarem da sua recusa em conceder entrevistas. Confrontada com as novas questões relacionadas com a morte do pai, emitiu um comunicado escrito, remetendo todas elas para um advogado de Zurique. O advogado de Zurique recusou-se terminantemente a discutir o assunto, citando o direito à privacidade e os inquéritos em curso. E assim se foi desenrolando tudo, até que o interesse na história se desvaneceu.

Gabriel levantou a cabeça e espreitou pela claraboia. Ainda não tinha reparado, mas a chuva parara finalmente. Ouviu a previsão meteorológica na Radio Cornwall enquanto arrumava o estúdio: nada de chuva até a noite, períodos de sol e temperaturas razoáveis para a costa da Cornualha em Fevereiro. O braço tinha acabado de sarar recentemente, mas decidiu que umas quantas horas na água lhe fariam bem.

Vestiu um oleado amarelo e, na cozinha, preparou sanduíches e encheu um termo de café. Poucos minutos depois, estava a desamarrar a chalupa, ligando o motor e afastando-se do cais, descendo Port Navas Creek, a caminho do rio Helford. Um vento constante soprava do noroeste e a luz cintilante do sol brilhava nas ondas pequenas e nas encostas verdejantes que se erguiam sobre a Helford Passage. Gabriel prendeu o leme e içou a vela mestra e a bujarrona (vela náutica triangular que permite navegar contra o vento). A seguir, desligou o motor e deixou que o barco fosse levado pelo vento.

Passado pouco tempo, tudo aquilo que acontecera desapareceu. Sabia que era apenas temporário — duraria apenas até o momento em que fechasse os olhos ou permitisse que a cabeça ficasse durante demasiado tempo de pousio — mas, por agora, conseguia concentrar-se no barco a subir e a descer por baixo dos seus pés e não nos espancamentos que tinha sofrido ou nas coisas que tinha visto. Em algumas noites, ao deitar-se sozinho na sua cama descomunal, perguntava-se como seria capaz de viver com aquelas informações — as informações que O o Gessler lhe transmitira tão cruelmente. Nos momentos de maior fraqueza, falava em procurar ele mesmo a imprensa mundial para contar a sua história, ou em escrever um livro, mas sabia que Gessler se esconderia simplesmente atrás de suas leis de sigilo bancário. Gabriel acabaria parecendo mais um refugiado do mundo do serviço secreto tentando impingir uma teoria da conspiração mal-ajambrada.

Ao aproximar-se de August Rock, olhou para oeste e viu uma coisa de que não gostou nas nuvens imponentes que se formavam. Desceu a escada da escotilha e ligou o rádio da chalupa. Estava a aproximar-se uma tempestade: chuvadas fortes e ondas entre dois a dois metros e meio. Voltou para o leme, virou o barco e a seguir içou a vela da popa. A chalupa ganhou de imediato velocidade. Quando chegou à foz do rio Halford, chovia torrencialmente. Gabriel puxou o capuz do oleado para a cabeça e concentrou a sua atenção nas velas, arreando primeiro a vela da popa e depois a bujarrona e a escota da vela grande. Ligou o motor e conduziu o barco pelo rio acima. Um esquadrão de gaivotas reuniu-se por cima da chalupa, a suplicarem comida. Gabriel desfez o segundo sanduíche em vários pedacinhos e jogou-os na água.

Passou pelo banco de ostras, deu a volta ao pontão e dirigiu-se para o sossego da enseada. As árvores terminaram e o telhado da casa surgiu ao longe. À medida que se aproximava, conseguia ver uma figura parada no cais, com as mãos nos bolsos e a gola levantada para se proteger da chuva. Gabriel agachou-se, desceu a escada da escotilha e agarrou num par de binóculos Zeiss pendurado num cabide, junto à cozinha. Levantou os binóculos e focou-os no rosto do homem, baixando-os logo em seguida. Não precisava de autenticar ainda mais a imagem. Ari Shamron sentou-se à mesa pequena da cozinha enquanto Gabriel fazia café. — Estás finalmente a começar a ficar outra vez com o seu aspecto de sempre. — Costumavas ser um bom mentiroso.

— O inchaço vai acabar por diminuir. Lembra do Baruch? A carga horrível de pancada que levou do Hezbollah antes de conseguirmos tirá-lo de lá? Poucos meses depois, quase parecia o mesmo.

— Para começar, Baruch já era feio.

— Isso é verdade. Você já foi lindo, tempos atrás. A mim, umas porradas até ajudariam. Podiam melhorar meu aspecto.

— Posso encontrar vários voluntários ansiosos.

O rosto de Shamron fechou-se numa careta severa. Por um momento, pareceu menos um velho fatigado e mais o guerreiro Sabra que tinha arrancado Gabriel do ventre da Bezalel School of Art trinta anos antes.

— Ficariam com pior aspecto do que o seu depois de eu lhes tratar da saúde.

Gabriel sentou-se e serviu café para os dois.

— Conseguimos que ficasse tudo em segredo?

— Ouviram-se uns rumores pela Avenida Rei Saul — rumores de movimentos não explicados de pessoal e despesas estranhas em Veneza e Zurique. Não sei bem como, mas esses rumores chegaram ao gabinete do primeiro-ministro.

— E ele sabe?

— Suspeita, e está satisfeito. Diz que, se for verdade, não quer saber.

— E os quadros?

— Temos trabalhado discretamente com algumas agências dedicadas à restituição de arte e com o Departamento de Justiça dos EUA. Dos dezesseis quadros que você descobriu no cofre de Rolfe, nove foram devolvidos aos herdeiros dos legítimos proprietários, incluindo um que pertencia ao pai do Julian.

— E o resto?

— Morando no Museu de Israel, como Rolfe queria, até que os proprietários possam ser localizados. Se eles não puderem ser encontrados, os quadros vão ficar ali pendurados para sempre.

— E como vai a Anna?

— Ainda temos uma equipe com ela. Rami está quase perdendo a cabeça. Diz que está disposto a tudo para largar aquele serviço. É até voluntário para fazer patrulha em Gaza.

— Alguma ameaça?

— Ainda nenhuma.

— Por quanto tempo acha que devemos mantê-la sob proteção?

— Pelo tempo que quiser. A operação foi sua. Deixo essa decisão com você.

— Um ano, pelo menos.

— De acordo.

Shamron encheu outra vez a xícara e acendeu um dos seus maléficos cigarros turcos.

— Ela vem à Inglaterra na próxima semana, sabe? Ao Albert Hall. É o último espetáculo da tournée.

— Eu sei, Ari. Também consigo ler os jornais.

— Ela pediu para lhe dar isto.

Fez deslizar um pequeno envelope pela mesa.

— É um ingresso para o espetáculo. Pediu que no fim fosse vê-la nos bastidores, para dizer olá.

— Estou no meio de uma restauração.

— Sua ou de um quadro?

— De um quadro.

— Faça uma pausa.

— Não consigo arranjar tempo para ir a Londres.

— O Príncipe de Gales vai arranjar tempo para ir assistir, mas você está ocupado demais.

— Sim.

— Nunca vou entender por que insiste em deixar mulheres lindas e talentosas escapar por entre os dedos.

— Quem disse que eu vou fazer isso?

— Acha que ela vai esperar para sempre?

— Não, só até o inchaço diminuir.