O Assassino Inglês
Capítulo 14
Shamron pareceu subitamente cansado. Sentou-se na borda de uma fonte.
— Já não viajo tão bem como costumava — confidenciou. Fala-me da Anna Rolfe. — Se tivéssemos escolha, nunca nos envolveríamos com ela. É imprevisível, volátil e fuma mais do que tu. Mas nunca ouvi ninguém tocar violino como ela. — Tu és bom com pessoas desse gênero. Restaura-a. Shamron começou a tossir, uma tosse violenta que lhe sacudiu o corpo todo. Passado um momento, perguntou:
— Ela faz alguma ideia do que terá levado o pai a entrar em contato conosco?
— Diz que não. Não eram propriamente chegados.
Isso pareceu causar a Shamron um instante de dor física. A sua filha mudara-se para a Nova Zelândia. Ele telefonava-lhe uma vez por mês, mas ela nunca lhe retribuía as chamadas. O seu maior medo era que ela não viesse a casa para o funeral dele nem dissesse kaddisti* por ele. Demorou muito tempo para acender o cigarro seguinte.
— Tens alguma coisa por onde possamos pegar?
— Uma pista, sim.
— Que valha a pena seguir?
— Acho que sim.
— Do que precisas?
— De recursos para montar uma operação de vigilância,
— Onde?
— Em Paris.
— E o alvo?
14
ROMA
O microfone miniatura supercardioide que o homem vestido de padre segurava não era maior do que uma caneta de tinta permanente normal. Fabricado por uma empresa de material eletrônico na cidade industrial suíça de Zug, permitia-lhe acompanhar a conversa que estava a ser mantida pelos dois homens que davam a volta à Piazza Navona. Um segundo homem, sentado num café do outro lado da praça, estava apetrechado com um equipamento idêntico. O homem vestido de padre tinha a certeza de que, entre os dois, tinha sido gravada a maior parte do que estava a ser dito.
As suas suposições foram confirmadas vinte minutos mais tarde, quando, de regresso ao quarto de hotel, sincronizou as duas fitas num leitor de áudio e colocou uns receptores. Passados uns minutos, esticou-se de repente, carregou no STOP, depois REWIND e a seguir PLAY. — Onde?
— Em Parts.
— E o alvo?
— Um negociante de arte chamado Werner Müller.
STOP. REWIND. PLAY.
— Um negociante de arte chamado Werner Müller. STOP.
Teclou um número de telefone de Zurique e transmitiu o conteúdo da conversa ao homem do outro lado da linha. Quando terminou, deu-se ao luxo de fumar um cigarro e beber uma garrafa pequena de champanhe do minibar, a recompensa por um trabalho bem feito. Na casa de banho, queimou as páginas da agenda no lavatório, abriu a torneira e empurrou as cinzas pelo cano abaixo.