O Assassino Inglês

Daniel Silva · Capítulo 45 de 51

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O Assassino Inglês

Capítulo 46

— Que quadros?

— Esses quadros me pertencem. Posso apresentar um documento a declarar que Rolfe os entregou a mim pouco antes de morrer. Sou o legítimo proprietário desses quadros e quero-os de volta.

— Posso ver o documento, por favor?

— Onde estão esses quadros?

— Não sei do que está falando.

Gessler largou o braço de Gabriel.

— Alguém faça o favor de levá-lo daqui.

46

NIDWALDEN, SUÍÇA

 

O efeito das drogas passou, como Gabriel sabia que aconteceria, e as dores regressaram mais fortes do que antes, como se tivessem utilizado o intervalo para ganharem forças para um assalto final. Todos os nervos do seu corpo pareciam estar a transmitir-lhe descargas de dor simultâneas. Que lhe tomaram conta do cérebro e o fizeram começar a tremer — um tremor violento e incontrolável que lhe pôs o corpo a doer ainda mais. Precisava de vomitar mas rezava para que isso não acontecesse. Sabia que as contrações dos vômitos lhe infligiriam uma nova descarga de dor.

Uma vez mais, procurou um lugar tranquilo onde os seus pensamentos pudessem pousar, mas agora as recordações de O o Gessler e da sua coleção não paravam de se intrometer. Gessler, com o seu roupão e os óculos escuros; sala após sala, tudo repleto de arte saqueada pelos nazistas. Perguntou-se se teria acontecido mesmo ou se teria sido apenas um efeito secundário das drogas que o tinham feito tomar. Não, pensou. Aconteceu mesmo. Estava tudo ali, reunido num só lugar, mas fora do alcance dele. E fora do alcance do mundo. A porta abriu e ele ficou com o corpo tenso. Quem seria? Os capangas de Gessler que tinham vindo para o matar? O próprio Gessler, que lhe tinha vindo mostrar mais uma sala pejada de mestres perdidos? Mas, à medida que a sala onde se encontrava se começou a encher de luz, percebeu que não era nem Gessler nem os capangas dele. Era Gerhardt Peterson.

— Consegue levantar-se?

— Não.

Peterson agachou-se diante dele. Acendeu um cigarro e ficou olhando para Gabriel por muito tempo. Pareceu entristecido com o que via. — É importante que se tente levantar.

— Por quê?

— Porque eles vêm matá-lo não tarda nada.

— E estão à espera de quê?

— Da escuridão.

— E por que precisam da escuridão?

— Vão levar seu corpo para uma geleira e jogá-lo numa fenda.

— Isso é reconfortante. Pensei que iam simplesmente me enfiar num cofre e me depositar numa das contas numeradas de Gessler.

— Ponderaram essa hipótese. — Um risinho melancólico. — Eu disse para não vir aqui. Não pode derrotá-lo, eu avisei. Devia ter me ouvido.

— Você tem sempre razão, Gerhardt. Tinha razão em tudo.

— Não, não em tudo.

Enfiou a mão no bolso do casaco e tirou de lá a Bere a de Gabriel. Pôs na palma da mão e estendeu-a a Gabriel, como se fosse uma oferta.

— Para que é isso?

— Pegue. — Sacudiu a arma. — Vamos, pegue.

— Por quê?

— Porque vai precisar dela. Sem ela, não tem como sair vivo deste lugar. Com ela, e tendo em conta seu estado, avalio sua chance como uma em três. Mas vale a pena tentar, não concorda? Pegue a arma, Gabriel.

A arma estava quente da mão de Peterson. A coronha em madeira de nogueira, o gatilho, o cano — era o primeiro objeto reconfortante em que tocava desde que chegara àquele lugar.

— Tenho pena de que o tenham espancado. A decisão não foi minha. Às vezes, ao agir, um agente tem de fazer coisas lamentáveis para provar a sua bona fides às pessoas que está enganando.

— Se a memória não me falha, os primeiros dois socos foram seus.

— Eu nunca tinha batido num homem antes. Provavelmente, doeu mais em mim do que em você. Além disso, precisava de tempo.

— Tempo para quê?

— Para tomar as providências necessárias para conseguir tirá-lo daqui.

Gabriel soltou o carregador para se certificar de que a arma estava carregada e não era apenas mais um logro de Peterson.

— Pelo que sei, Gessler tem uma coleção e tanto — afirmou Peterson. — Nunca a viu?

— Não, nunca fui convidado. E é verdade? Este lugar é mesmo um banco? Ninguém pode entrar aqui?

— Gabriel, este país inteiro é um banco.

Uma vez mais, Peterson enfiou a mão no bolso e, dessa vez, tirou de lá meia dúzia de comprimidos.

— Tome, fique com eles. Uns são para dor e outro é um estimulante. Vai precisar deles.

Gabriel engoliu os comprimidos de uma vez e enfiou o carregador na coronha.

— Que tipo de providências é que tomou?

— Encontrei os seus dois amigos. Estavam escondidos numa pousada na aldeia. Vão estar à sua espera no sopé da montanha, junto à propriedade de Gessler, perto do lugar onde os deixamos ontem.

Ontem? Só tinha passado um dia? Parecia mais um ano. Uma vida inteira.

— Só há um segurança do outro lado desta porta. Vai ter de tratar dele primeiro. Silenciosamente. Consegue dar conta do recado? Sente-se com força suficiente? — Não vou ter problemas.

— Siga pelo corredor à direita. No final, vai encontrar uma escadaria e no alto dela uma porta. Que o vai levar até lá fora, aos jardins. A partir daí, já só tem de descer a encosta da montanha até chegar aos seus amigos.

E passar pelos seguranças e os pastores alemães, pensou Gabriel. — Saiam da Suíça pelo caminho por onde entramos ontem. Vou certificar-me de que não haverá problemas na fronteira.

— E o que lhe vai acontecer a si?

— Vou dizer que vim vê-lo uma última vez para o convencer a dizer-me onde é que os quadros estavam escondidos. Vou dizer que me dominou e fugiu. — E eles vão acreditar em você?

— Pode ser que sim, mas também pode ser que me atirem para a fenda que tinham reservado para si.

— Venha comigo.

— A minha mulher, os meus filhos. E depois acrescentou:

— O meu país.

— Por que está a fazer isto? Por que não os deixa simplesmente matarem-me e acabar com tudo isto?

Foi nessa hora que Peterson lhe contou a história do que tinha acontecido na aldeia dele durante a guerra — a história dos judeus que tinham entrado na Suíça pela França, em busca de refúgio, apenas para serem expulsos para o outro lado da fronteira, diretamente para os braços da Gestapo. — Depois da morte do meu pai, estava a passar em revista alguns dos papéis que ele tinha no escritório, a tentar pôr as coisas dele em ordem. Descobri uma carta. Era da polícia federal. Era um louvor. E sabe qual era o motivo do louvor? Foi o meu pai que deu conhecimento da presença dos judeus na nossa aldeia. Foi por causa do meu pai que eles foram recambiados para os alemães e assassinados. Não quero mais sangue judeu nas mãos desta família. Quero que saia vivo deste lugar.

— Quando a tempestade rebentar, é capaz de vir a ser desagradável para si. — As tempestades têm tendência a extinguir-se de encontro às cadeias de montanhas deste país. Dizem que lá em cima na Jungfrau o vento sopra a mais de trezentos e vinte quilômetros por hora. Mas nunca parece restar muita força às tempestades quando elas chegam a Berna ou a Zurique. Vamos, deixe-me ajudá-lo.

Peterson pô-lo de pé. — Uma em três?

— Se você tiver sorte. Gabriel parou logo à entrada da porta. Peterson bateu nela com o punho duas vezes. Um momento depois, os trincos soltaram-se, a porta abriu e o segurança entrou na sala. Gabriel atravessou-se à frente dele e, servindo-se de toda a força que foi capaz de invocar, bateu com o cano da Bere a na têmpora esquerda do segurança.

Peterson apalpou-lhe o pescoço, à procura da pulsação. — Muito impressionante, Gabriel. Leve o casaco dele.

— Tem sangue.

— Faça como eu digo. Vai fazer com que eles hesitem antes de dispararem contra si e vai precisar dele para se proteger do frio. Leve também esta submetralhadora — só para o caso de vir a precisar de qualquer coisa mais poderosa do que a sua Bere a.