O Assassino Inglês
Capítulo 17
Dez minutos mais tarde, estacionou o carro de Debré numa área de reboque perto de uma parada do metrô e saiu. Pegou a mala e largou as chaves numa lixeira. Depois desceu até a estação e pegou um metrô. Pensou na velha signadora de sua aldeia na Córsega — no aviso dela em relação ao homem misterioso que ele devia evitar. Interrogou-se se Pascal Debré teria sido esse homem.
Saiu na estação de Luxembourg e atravessou as ruas molhadas do quinto arrondissement, a caminho do hotel na Rue St-Jacques. Lá em cima, no quarto, ocorreu-lhe que não tinha visto um único policial durante a viagem de regresso. Debré tinha mesmo mentido em relação aos pontos de controle.
17
PARIS
Gabriel decidiu que era hora de falar com Werner Müller. Na manhã seguinte, ligou para a galeria. — Müller. Bonjour. — Fala alemão? — Já.
Gabriel passou de francês para alemão.
— No fim-de-semana, vi um quadro na montra da sua galeria que me interessa.
— E qual foi?
— O arranjo floral de Jean-Georges Hirn.
— Sim, é maravilhoso, não é?
— De fato, é mesmo. Estava a pensar se seria possível vê-lo durante o dia de hoje.
— Lamento mas hoje estou bem ocupado.
— Oh, a sério?
Gabriel tinha estado a controlar todas as chamadas para a galeria nas últimas setenta e duas horas e tinha a certeza absoluta de que Müller podia arranjar tempo para receber um cliente.
— Deixe-me só ir buscar a agenda para dar uma vista de olhos ao meu programa. Pode aguardar um momento?
— Claro.
— Sim, aqui está. Afinal, tive um cancelamento inesperado para esta tarde.
— Que sorte.
— Daqui a quanto tempo é que conseguiria estar cá?
— Por acaso, estou neste preciso momento nas redondezas. Consigo estar aí daqui a dez ou quinze minutos. — Esplêndido. E o seu nome?
— Ulbricht.
— Terei todo o prazer em recebê-lo, Herr Ulbricht.
Gabriel cortou a ligação. Arrumou tudo rapidamente, enfiou a Bere a na cintura da calça e a seguir deu uma última vista de olhos ao quarto para se certificar de que não deixava ficar nenhum vestígio da sua passagem por ali. Antes de se ir embora, foi até a janela e espreitou para a galeria. Havia um homem a tocar à campainha: estatura média, cabelo escuro, pasta de diplomata na mão direita. Afinal de contas, talvez o cliente de Müller não tivesse cancelado. Gabriel sacou rapidamente da máquina fotográfica e gastou o rolo a tirar fotografias ao visitante inesperado. A seguir, tirou-o da máquina, enfiou-o no bolso e guardou a câmera dentro da mala.
Na recepção, o gerente lamentou, com grande elaboração, que Herr Kiever se fosse embora tão depressa. Perguntou-lhe se o trabalho tinha corrido bem e Gabriel respondeu que não tardaria muito a descobrir.
Lá fora, a chuva caiu-lhe suavemente no rosto. O Renault estava estacionado na rua que fazia esquina com o hotel, com duas multas presas ao para-brisas pela escova. Gabriel enfiou-as no bolso e atirou a mala para dentro da bagageira.
Olhou de relance para o relógio. Tinham passado doze minutos desde que falara ao telefone com Müller. Devia chegar uns minutos atrasado — o alemão estaria à espera disso. Deu a volta ao quarteirão duas vezes para verificar se estaria ou não a ser seguido, depois dirigiu-se para a galeria e tocou à campainha.
Müller abriu-lhe a porta.
— bom dia, Herr Ulbricht. Estava a começar a ficar preocupado com você.
— Na verdade, tive um bocado de dificuldade para voltar a dar com o lugar.
— Não vive em Paris?
— Não, só estou aqui de férias. Vivo em Dusseldorf.
— Compreendo.
Müller bateu palmas de uma forma teatral.
— Então, gostaria de ver melhor o Hirn. Não o posso censurar. É um quadro absolutamente lindo. Um ótimo acrescento a qualquer coleção. Deixe-me tirá-lo da montra. É só um momento.
Enquanto Müller se ocupava do Hirn, Gabriel deu uma vista de olhos rápida à sala. Uma galeria normal, quadros muito normais. A mesa de Müller ficava no final da sala, um móvel antigo pintado à mão, e ao lado dela, no chão, estava uma mala de diplomata.
Müller pegou o quadro e tirou-o do expositor na montra. Era uma obra de pequenas dimensões, cerca de quarenta e cinco centímetros por trinta, e Müller não teve qualquer dificuldade em manusear a moldura. Colocou-a num pedestal coberto de feltro, no centro da sala, e ligou mais umas quantas luzes. Ao chegar-se para a frente para ver a tela, Gabriel olhou de relance pela montra da galeria. Houve qualquer coisa que lhe chamou a atenção no café do outro lado da rua. Qualquer coisa familiar, um vislumbre, nada mais do que isso. Voltou a atenção para a tela e murmurou algumas palavras simpáticas acerca da qualidade da pintura e do desenho.
— Parece ter alguns conhecimentos de arte, Herr Ulbricht disse Müller. — Apenas os suficientes para me fazerem gastar todo o meu dinheiro a comprar quadros que na verdade não me posso dar ao luxo de ter — respondeu Gabriel, e os dois homens riram afavelmente.
Gabriel desviou os olhos do Hirn e voltou a olhar de relance pela montra, em direção ao café. Ali estava ela outra vez, a sensação de que tinha visto alguma coisa, ou alguém, antes. Passou em revista as mesas por baixo do toldo e foi então que o viu. O homem, a dobrar o jornal, a levantar-se e a ir-se embora com grande rapidez. Um homem cheio de pressa, um homem atrasado para uma reunião importante. Gabriel já tinha visto o homem antes. O homem que tinha acabado de sair da galeria...
Gabriel virou-se e olhou de relance para a mala de diplomata. A seguir, olhou outra vez pela montra, mas o homem dobrara uma esquina e desaparecera.
— Passa-se alguma coisa, Herr Ulbricht? Gabriel agarrou no antebraço de Müller.
— Tem de sair da galeria! Já!