O Assassino Inglês

Daniel Silva · Capítulo 12 de 51

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O Assassino Inglês

Capítulo 11

Gabriel apontou para a última entrada que aparecia na tela.

— Deixe-me ver essa.

Um instante depois, as imagens surgiram a piscar no monitor. Os ângulos das câmeras não deixavam ver os quadros todos, mas Gabriel conseguiu ver o suficiente para perceber que era uma coleção formidável. Manet, Bonnard, Toulouse-Lautrec, Cézanne, Pissarro, Degas, um nu de Renoir, uma paisagem de um canal de van Gogh, duas cenas de rua de Monet, um retrato grande de uma mulher pintado por Picasso durante o seu período azul. E, sentado no centro da sala, numa poltrona de orelhas de costas direitas, estava um velho, a contemplar a sua coleção uma última vez antes da morte.

11

ZURIQUE

 

Quatro meses depois, Gerhardt Peterson estava sentado sozinho no seu gabinete, uma gruta de madeira clara escandinava, com vista para o pátio interior de tijolo escuro. O ecrã do computador estava em branco, a correspondência da manhã por abrir, o café da manhã por provar, a porta exterior anormalmente trancada. Um cigarro foi-se apagando no cinzeiro, até só restar cinza. Peterson não reparou. O seu olhar estava virado para baixo, em direção às três fotografias que estavam dispostas lado a lado no seu mata-borrão de couro. Allon e Anna Rolfe, a saírem da casa. Allon e Anna Rolfe, a entrarem num Mercedes. Allon e Anna Rolfe, a irem-se embora no carro. Por fim, moveu-se, como que a acordar de um sonho desagradável, e enfiou as fotografias, uma a uma, na máquina de destruir papéis, observando-as, com especial satisfação, a transformarem-se em confe i. A seguir, pegou o telefone, marcou um número que sabia de cor e ficou à espera que atendessem. Vinte minutos depois, com as reuniões para o resto do dia canceladas, entrou no seu Mercedes e seguiu a toda a velocidade pela costa do lago Zurichsee, a caminho do chalé na montanha de Herr Gessler.

12

CÓRSEGA

A velha signadora, espécie de rezadeira, morava numa casa inclinada na aldeia, perto da igreja. Cumprimentou o Inglês como de costume, com um sorriso de preocupação e uma mão no rosto dele. Trazia um vestido preto grosso, com uma gola bordada. A pele era da cor da farinha, os cabelos brancos estavam puxados para trás, com ganchos de metal a segurá-los. Era curioso o modo como as marcas da etnia e da origem nacional iam diminuindo com o tempo, pensou o Inglês. Se não fosse pelo dialeto corso e os modos católicos místicos, ela bem poderia ser a sua tia Beatrice, de Ipswich.

— O mal regressou, meu filho — sussurrou ela, acariciando-lhe o rosto. — Consigo vê-lo nos teus olhos. Sente-se. Deixe-me ajudar.

A velha acendeu uma vela, enquanto o Inglês se sentava a uma pequena mesa de madeira. À frente dele, colocou-lhe um prato de porcelana cheio de água e uma pequena taça de azeite.

— Três gotas — disse. — Depois vamos ver se os meus medos têm razão de ser. O Inglês molhou o indicador no azeite; a seguir, esticou-o por cima do prato e deixou que caíssem três gotas na água. Segundo as leis da física, o azeite deveria ter-se acumulado num único glóbulo mas, em vez disso, despedaçou-se num sem-número de gotículas e, passado pouco tempo, já não havia vestígio dele.

A velha soltou um suspiro profundo e fez o sinal da cruz. Ali estava ela, a prova inegável de que o occhju, o Mau-Olhado, tinha invadido a alma do Inglês. Pegou a mão do Inglês e rezou. Passado um momento, começou a chorar, um sinal de que o occhju tinha passado do corpo dele para o dela. A seguir, fechou os olhos e pareceu estar a dormir. Abriu-os no instante seguinte e ordenou-lhe que repetisse o teste do azeite e da água. Dessa feita, o azeite juntou-se numa única gota. O mal tinha sido exorcizado.

— Obrigado — disse ele, pegando na mão da velha. Ela apertou-lhe por uns instantes e depois largou-a, como se ele tivesse febre. O Inglês perguntou:

— O que se passa?

— Vais ficar no vale durante algum tempo ou vais de novo embora?

— Lamento mas tenho de ir embora. — Ao serviço do Dou Orsati?

O Inglês acenou com a cabeça. Não tinha segredos para a velha signadora.

— Tens o seu amuleto?

Ele abriu a camisa. Tinha um pedaço de coral, com o feitio de uma mão, pendurado ao pescoço, num fio de couro. Ela pegou o coral e acariciou-o, como que para verificar se ainda se mantinha o poder místico para afastar o occhju.

Parecia satisfeita mas mesmo assim preocupada.

O Inglês perguntou: Vês alguma coisa?

Vejo um homem.

— E como é que é esse homem?

— É como tu, só que um herege. Deves evitá-lo. Vais seguir as minhas instruções?

— Sigo sempre.

O Inglês beijou-lhe a mão, na qual enfiou um maço de francos.

— É demais — afirmou ela.

— Diz sempre isso.

— Porque sempre me dá demais.