O Assassino Inglês
Capítulo 3
— Miúdos estouvados! — rosnou, com o inglês a acenar lentamente com a cabeça, em sinal de concordância.
Uma hora mais tarde, deu as boas-noites a Ma eo e regressou ao camarote. Na maleta, havia um pequeno rádio. Ouviu o noticiário da meia-noite numa estação de Marselha. Após uns minutos de notícias do país, fizeram uma síntese de notícias do estrangeiro. Na Margem Ocidental, tinha havido mais um dia de combates entre as forças palestinas e israelenses. Em Espanha, dois membros do grupo terrorista basco ETA tinham sido assassinados na cidade de Vitoria. E na Suíça, um banqueiro proeminente chamado Augustus Rolfe tinha sido encontrado assassinado em casa, num bairro de luxo de Zurique. Um homem não identificado fora detido. O inglês desligou o rádio, fechou os olhos e adormeceu de imediato.
3
ZURIQUE
A sede da Stadtpolizei Zurich estava situada a apenas algumas centenas de metros da estação de trem em Zeughausstrasse, enfiada entre o rio Sihl, de cor de fumo, e um estaleiro de caminhos-de-ferro que se estendia para lá da vista. Tinham levado Gabriel ao longo de um pátio central de pedra, em direção a um anexo de alumínio e vidro onde estava instalada a brigada de homicídios. Lá dentro, deixaram-no numa sala de interrogatórios sem janelas, tendo como mobília uma mesa de madeira clara e um trio de cadeiras que não combinavam entre si. A bagagem tinha-lhe sido apreendida, como as tintas, os pincéis e os químicos. E também a carteira, o passaporte e o celular. Até lhe tinham ficado com o relógio de pulso. Supôs que estivessem à espera que ele ficasse desorientado e confundido. Tinha a certeza de que sabia mais sobre as técnicas de interrogatório do que a polícia de Zurique. Tinha sido interrogado três vezes por três agentes diferentes: uma vez, brevemente, na estação de trem, antes de ser detido, e mais duas vezes nesta sala. A julgar pela roupa e a idade, a importância dos seus interrogadores ia aumentando progressivamente.
A porta abriu e um só agente entrou na sala. Vestia um casaco de tweed e não tinha gravata. Disse que era o sargento-mor Baer. Sentou-se à frente de Gabriel, pôs um arquivo em cima da mesa e olhou fixamente para ele, como se fosse um tabuleiro de xadrez e estivesse a matutar na sua próxima jogada. — Diga-me o seu nome — disse bruscamente em inglês.
Não mudou desde a última vez que me perguntaram.
Diga-me o seu nome.
O meu nome é Mario Delvecchio. Onde é que mora?
— Em Port Navas, na Cornualha.
— Em Inglaterra? — Sim.
— É italiano, mas vive na Inglaterra?
— Da última vez que verifiquei, isso não é nenhum crime.
— Não disse que era, mas é interessante, no entanto. O que faz em Port Navas, na Inglaterra?
— Já disse aos primeiros três agentes que me interrogaram.
— Sim, eu sei.
— Sou restaurador de arte. — Por que está em Zurique?
— Fui contratado para limpar um quadro.
— Na residência em Zúrichberg? — Sim.
— E quem é que o contratou para limpar esse quadro? Limpar? Foi essa a palavra que utilizou? Uma palavra peculiar: limpar. Uma pessoa pensa em limpar chãos, limpar carros ou roupa. Mas não quadros. Isso é uma expressão comum na sua linha de trabalho?
— É — respondeu Gabriel, com o inspetor a parecer desapontado por ele não ter desenvolvido mais. — E quem é que o contratou?
— Não sei.
— O que quer dizer?
— Quero dizer que isso nunca me foi esclarecido. As combinações foram feitas por um advogado em Zurique e um negociante de arte em Londres.
— À, sim: Julius Isherwood.
— Julian.
Com uma reverência germânica por papelada, o detetive fez tudo por dar nas vistas ao expurgar a palavra ofensiva e escrever cuidadosamente à mão a correção. Quando terminou, olhou para Gabriel com um ar triunfante, como se esperasse aplausos.
— Continue.
— Disseram-me simplesmente para ir ter a essa residência. Encontrar-se-iam comigo e levar-me-iam para dentro.
— Quem se encontraria com você?
— Isso nunca me foi esclarecido.
O número de fax de Isherwood estava no arquivo. O detetive pôs uns óculos de meia-lua e pegou a folha com o fax, voltando-a para a luz. Os lábios moveram-se enquanto lia. — Quando é que chegou a Zurique?
— Têm o canhoto do meu bilhete de trem. Sabem que eu cheguei hoje de manhã. O detetive franziu o sobrolho, deixando perceber que não gostava que os suspeitos lhe dissessem o que sabia e não sabia.
— Para onde foi depois de chegar?
— Direto ao endereço.
— Não fez o check-in no hotel primeiro?
— Não, ainda não sabia onde ficar.
— E onde estava pensando ficar?
— Como podem ver pelo bilhete, tinham feito preparativos para eu ficar no Dolder Grand Hotel.
Baer não prestou atenção a este engano aparente e prosseguiu.
— Como é que foi de Hauptbahnhof para esse endereço?
— De táxi.
— Quanto pagou pela corrida?
— Cerca de quinze francos.
— A que horas chegou lá?
— Passavam dois minutos das nove.
— Como pode ter tanta certeza da hora?
— Veja o fax de Julian Isherwood. Disseram-me para chegar às nove em ponto. Não tenho por hábito chegar atrasado a encontros, sargento-mor Baer.
O detetive sorriu, em sinal de admiração. Era um homem expedito e dava valor à pontualidade e à atenção aos pormenores nos outros, mesmo que suspeitasse que tivessem cometido um homicídio.
— E quando chegou à casa?
— Usei o telefone seguro, mas ninguém atendeu. Por isso, liguei para o Sr. Isherwood, em Londres. Disse-me que a pessoa que deveria ter encontrado comigo tivera de sair de repente da cidade.
— Foi isso que ele disse? Sair da cidade?
— Qualquer coisa assim.
— E esse Sr. Isherwood deu-lhe os códigos?
— Sim.
— E quem deu os códigos ao Sr. Isherwood?
— Não sei. O advogado do homem, suponho.
— Anotou os códigos?
— Não.
— Por que não?
— Não era necessário.
— Por que não?
— Porque memorizei.
— Sério? Deve ter uma memória muito boa, Signore Delvecchio.
O detetive saiu da sala durante quinze minutos. Quando regressou, trazia um café para si mesmo e nada para Gabriel. Sentou-se e retomou o interrogatório de onde tinha ficado.
— Estas combinações parecem peculiares, Signore Delvecchio. E costume não ter conhecimento do artista antes de chegar e começar a trabalhar num restauro?
— Não, não é costume. Na verdade, é bem fora do comum.
— De fato.
Recostou-se na cadeira e cruzou os braços, como se esta admissão fosse equivalente a uma confissão assinada.
— E também é costume não lhe darem o nome do proprietário de um quadro que vai restaurar?
— Não é fora do comum.
— Rolfe.
Olhou para Gabriel, para ver se o nome produzia alguma reação, o que não aconteceu.
— A pessoa que é dona do quadro chama-se Augustus Rolfe. Também é o homem que assassinou na residência.
— Eu não assassinei ninguém e o sargento-mor sabe disso. Estava morto muito antes de eu chegar a Zurique. Ainda estava no trem quando ele foi assassinado. Umas cem pessoas podem confirmar que eu estava naquele trem.
O detetive pareceu indiferente à tese de Gabriel. Deu um gole no café.
— Diga-me o que aconteceu depois de ter entrado na casa.
Gabriel relatou a sequência dos acontecimentos num tom lento e monocórdico: o hall de entrada escuro, o tatear à procura do interruptor, o bilhete não assinado na taça em cima da mesa, o cheiro estranho no ar ao entrar na sala de visitas, a descoberta do corpo.
— Viu o quadro?
— Sim.
— Antes de ter visto o corpo ou depois?
— Depois.
— E durante quanto tempo olhou para ele?
— Não sei. Um minuto ou coisa assim.
— Tinha acabado de descobrir um cadáver, mas parou para olhar um quadro.
O detetive não pareceu saber bem o que pensar desta informação. — Fale-me desse pintor — olhou para as notas —, Rafael. Receio saber pouco de arte.
Gabriel conseguiu perceber que ele estava mentindo, mas resolveu ir ao jogo. Durante os quinze minutos seguintes, deu uma preleção pormenorizada sobre a vida e a obra de Rafael: o seu treino e as influências, as inovações da sua técnica, a relevância duradoura das suas principais obras. Quando terminou, o policial olhava fixamente para os restos do café, um homem derrotado.
— Quer que eu continue?
— Não, obrigado. Isso foi muito útil. Se não matou Augustus Rolfe, por que foi embora sem telefonar para a polícia? Por que tentou fugir de Zurique?
— Sabia que as circunstâncias iam parecer suspeitas, por isso entrei em pânico.
O detetive olhou-o de alto a baixo com ceticismo, como se não conseguisse acreditar que Mario Delvecchio fosse de fato um homem dado a ataques de pânico.
— Como foi de Zürichberg para Hauptbahnhof?
— Peguei um trólei.
Baer examinou atentamente os bens apreendidos de Gabriel.
— Não vejo nenhum bilhete de trólei no meio de suas coisas, tem certeza de que comprou um bilhete?
Gabriel abanou a cabeça: culpado, sem sombra de dúvida. As sobrancelhas de Baer ergueram-se. A ideia de que Gabriel usara um trólei sem pagar parecia mais horrorosa do que a possibilidade de ele ter dado um tiro na cabeça de um velho.
— Isso é uma infração muito grave, Signore Delvecchio! Receio que vá ser multado em cinquenta francos!
— Peço imensas desculpas.
— Já tinha estado em Zurique?
— Não, nunca.
— Então como sabia qual era o trólei que o levaria para Hauptbahnhof?
— Foi um palpite de sorte, suponho. Ia na direção certa e por isso peguei-o.
— Diga-me mais uma coisa, Signore Delvecchio. Fez compras enquanto esteve em Zurique?
— Compras?
— Comprou alguma coisa? Fez compras?
— Comprei um par de sapatos.
— Por quê?
— Porque enquanto estava à espera para entrar na casa, meus sapatos ficaram encharcados com a chuva.
— Entrou em pânico. Estava com medo de ir à polícia, desesperado para sair de Zurique, mas deu-se ao trabalho de arranjar sapatos novos porque tinha os pés molhados?
— Sim.
Recostou-se na cadeira e bateu na porta. Ela abriu e surgiu um braço, a segurar um saco de provas com os sapatos de Gabriel.
— Encontramos isto numa casa de banho em Hauptbahnhof, enterrado num caixote de lixo. Suspeito que sejam seus. Também suspeito que vão corresponder ao conjunto de pegadas ensanguentadas no hall de entrada e no passeio da residência.
— Já disse que estive lá. As pegadas, se corresponderem de fato a esses sapatos, não provam nada.
— Sapatos bem bons para serem simplesmente deixados no banheiro de uma estação de trem. E não me parecem assim tão molhados.
Olhou para Gabriel e deu um pequeno sorriso.
— Mas também já ouvi dizer que as pessoas que entram em pânico com facilidade têm muitas vezes pés sensíveis.
Passaram três horas até Baer voltar a entrar na sala. Pela primeira vez, não estava sozinho. Para Gabriel, era óbvio que este novo homem representava uma autoridade superior. E também era óbvio que não era um simples detetive da brigada de homicídios de Zurique. Gabriel foi capaz de o perceber pelas pequenas maneiras como, em termos físicos, Baer mostrava uma atitude de deferência para com ele, pela maneira como os seus calcanhares bateram um no outro quando, como um chefe de mesa, sentou o novo homem à mesa de interrogatório e se afastou discretamente para segundo plano. O homem disse que se chamava Peterson. Não forneceu um nome próprio nem informações profissionais. Usava um terno cinza-carvão imaculadamente passado e gravata de banqueiro. O cabelo era quase branco e muito bem aparado. As mãos, cruzadas em cima da mesa, à frente dele, eram as mãos de um pianista. No pulso esquerdo, tinha um relógio de prata grosso, feito na Suíça, claro, com um mostrador azul-escuro, um aparelho capaz de aguentar a pressão das grandes profundidades. Estudou Gabriel por um momento, com olhos sérios e lentos. Tinha a arrogância natural de um homem que sabe segredos e mantém arquivos.
— Os códigos de segurança.
Como Baer, falou com Gabriel em inglês, só que quase sem vestígios de sotaque. — Onde é que os apontou?
— Não os apontei. Como eu disse ao sargento-mor Baer...
— Eu sei o que disse ao sargento-mor Baer. Os olhos dele deram repentinamente sinal de vida.
— Estou a pedir-lhe que me responda a mim. Onde é que os apontou? — Recebi os códigos através do Sr. Isherwood, ao telefone, de Londres, e usei-os para abrir o portão de segurança e a porta da frente da residência. — Memorizou os números?
— Sim.
— Dê agora.
Gabriel recitou calmamente os números. Peterson olhou para Baer, que acenou com a cabeça uma vez.
— Tem uma memória muito boa, Signore Delvecchio.
Tinha passado de inglês para alemão. Gabriel fitou-o sem expressão, como se não tivesse compreendido. O interrogador prosseguiu em inglês.
— Não fala alemão, Signore Delvecchio?
— Não.
— De acordo com o taxista, o que o levou de Bahnhofstrasse à residência em Zúrichberg, o Sr. fala alemão muito bem.
— Dizer umas quantas palavras em alemão e falar mesmo alemão são duas coisas muito distintas.
— O taxista contou-nos que lhe indicou a morada num alemão rápido e seguro, com o sotaque bem vincado de um berlinês. Explique-me uma coisa, Signore Delvecchio: como é que fala alemão com um sotaque berlinês?
— Já lhe disse: não falo alemão. Sei dizer umas quantas palavras em alemão. Passei algumas semanas em Berlim a restaurar um quadro. Suponho que tenha adquirido o sotaque enquanto lá estive.
— Há quanto tempo é que foi isso?
— Há cerca de quatro anos atrás?
— Há cerca de quatro anos?
— Sim.
— Que quadro?
— Desculpe?
— O quadro que restaurou em Berlim. Quem era o artista? Como é que se chamava?
— Receio que isso seja confidencial.
— Nesta hora, nada é confidencial, Signore Delvecchio. Gostaria que me desse o nome do quadro e o proprietário.
— Era um Caravaggio que pertencia a um particular. Lamento, mas não posso divulgar o nome do proprietário.
Peterson esticou a mão na direção de Baer sem olhar para ele. Baer enfiou a mão na pasta com os arquivos e passou-lhe uma única folha de papel. Analisou-a com uma expressão de tristeza, como se o doente já não tivesse muito tempo de vida.
— Inserimos o seu nome na nossa base de dados computorizada para ver se por acaso teria algum mandado de captura pendente contra si na Suíça. Tenho o prazer de anunciar que não havia nada nem sequer uma multa de trânsito. Pedimos aos nossos amigos do outro lado da fronteira, em Itália, para fazerem a mesma coisa. Mais uma vez, não havia registro de nada contra si. Mas os nossos amigos italianos contaram-nos uma coisa mais interessante. Parece que um Mario Delvecchio, nascido a 23 de Setembro de 1951, morreu em Turim há vinte e três anos com um cancro linfático.