O Assassino Inglês
Capítulo 40
ZURIQUE
O gabinete de Gerhardt Peterson estava às escuras, à exceção do pequeno abajur que lançava um disco de luz sobre a mesa. Tinha ficado acordado até tarde porque estivera à espera de um telefonema. Não tinha a certeza de quem faria a chamada — talvez a polícia municipal de Veneza; talvez os carabinieri —, mas estava certo de que ela chegaria. Peço desculpa por incomodá-lo tão tarde, Herr Peterson, mas lamento informá-lo de que ocorreu esta noite uma terrível tragédia que envolve a violinista Anna Rolfe... Peterson tirou os olhos de cima dos arquivos. Do outro lado do gabinete, uma televisão brilhava em silêncio. O último noticiário nacional estava praticamente a terminar. As notícias importantes de Berna e Zurique já tinham sido dadas e o programa entrara em baixa com as reportagens absurdas e os temas mais leves que Peterson normalmente ignorava. Mas, nessa noite, pôs o som mais alto. Como era de esperar, havia uma notícia sobre o regresso triunfal de Anna Rolfe aos palcos, nessa noite, em Veneza.
Quando acabou, Peterson desligou a televisão e guardou os arquivos no seu cofre. Talvez o assassino de Anton Orsati não tivesse sido capaz de levar a sua missão a cabo por Anna Rolfe estar demasiado protegida. Talvez tivesse ficado com medo. Ou talvez eles estivessem mortos mas os corpos ainda não tivessem sido simplesmente descobertos. Os instintos dele diziam-lhe que não era esse o caso; que alguma coisa correra mal em Veneza. De manhã, contataria Orsati pelos canais habituais para saber o que acontecera.
Enfiou alguns documentos dentro da pasta, desligou o abajur da mesa e saiu. A sua posição e estatuto dentro da divisão permitiam-lhe estacionar o seu Mercedes no pátio de pedra e não no longínquo parque para o pessoal, junto ao estaleiro dos caminhos-de-ferro. Tinha dado ordens aos seguranças para vigiarem o carro com especial atenção. Não lhes tinha dito porquê. Entrou no carro e seguiu para sul, ao longo do rio Sihl. As ruas estavam praticamente desertas: ali, um táxi solitário; acolá, um trio de trabalhadores temporários estrangeiros à espera de um elétrico que os levasse para os seus apartamentos apinhados em Aussersihl ou no Industrie-Quartier. O pessoal de Peterson era responsável por assegurar que eles não arranjavam problemas ali. Nada de conspirações contra o déspota do seu país natal. Nada de protestos contra o governo suíço. Basicamente, era fazer o trabalho, depositar o cheque e manter a boca fechada. Peterson considerava os trabalhadores temporários estrangeiros um mal necessário. A economia não conseguiria sobreviver sem eles, mas por vezes parecia que, em Zurique, os suíços estavam em menor número do que os malditos portugueses e paquistaneses.
Voltou a olhar de soslaio para o retrovisor. Parecia não estar a ser seguido, mas não podia ter certeza. Sabia como se seguia um homem, mas a formação que recebera em detecção e evasão de vigilância tinha sido rudimentar. Percorreu as ruas de Wiedikon durante vinte minutos e depois seguiu para
Zurichsee, com destino à garagem do seu apartamento. Após passar pelo portão metálico de segurança, ficou à espera logo a seguir, para ter certeza de que ninguém entrava a pé depois dele. Seguiu pela passagem em ziguezague, em direção ao seu lugar de estacionamento. O número do seu apartamento, 6C, estava marcado na parede. Estacionou, desligou os faróis e depois o motor. E ficou ali sentado durante um longo momento, as mãos a apertar o volante, o coração a bater um tudo ou nada depressa de mais para um homem da idade dele. Estava a precisar de uma bebida bem grande.
Atravessou a garagem devagar, sentindo-se extremamente cansado de repente.
Passou por uma porta e entrou no hall, onde um elevador o levaria até o apartamento. Em frente às portas de aço inoxidável fechadas, com a cabeça a acompanhar o progresso dos números dos andares a piscar, estava parada uma mulher.
Ela carregou várias vezes no botão para chamar o elevador e praguejou em voz alta. Depois, ao aperceber-se da presença de Peterson, virou-se e sorriu, em sinal de arrependimento.
— Peço desculpa, mas estou há cinco minutos à espera do maldito elevador. Acho que deve haver algum problema com esta porra.
Um Zuri Deutsch perfeito, pensou Peterson. Não era nenhuma estrangeira. Rapidamente, Peterson examinou-a de alto a baixo com o seu olho treinado. Tinha cabelos escuros e pele clara, uma combinação que ele sempre achara terrivelmente atraente. Tinha uma calça de ganga azuis que lhe realçavam as pernas compridas. Por baixo do casaco de couro, tinha uma blusa preta, suficientemente aberta para deixar ver a renda do sutiã. Atraente, elegante, mas não o tipo de beleza que fizesse virar cabeças em Bahnhofstrasse. Nova mas não de forma inapropriada. Trinta e poucos anos. Trinta e cinco, no máximo. Pareceu aperceber-se da avaliação cuidadosa de Peterson, pois fitou-o com uns maliciosos olhos cinzentos. Já tinham passado seis meses desde o último caso dele e estava na hora de ter outro. A sua última amante tinha sido a mulher de um colega não muito próximo, um homem da divisão de fraude. Peterson gerira bem a situação. Tinha sido compensadora e agradável durante um tempo e, quando chegou a hora de lhe pôr fim, dissolveu-se sem rancores nem remorsos.
Conseguiu fazer um sorriso, apesar do cansaço.
— Tenho certeza de que ele não tarda a aparecer.
— Não me parece. Acho que vamos ficar a noite toda aqui presos. A natureza insinuante do reparo dela não passou despercebida. Peterson resolveu alinhar no jogo e ver até onde é que ele iria. — Vive aqui no prédio? — O meu namorado.
— Com certeza que o seu namorado vai acabar por pedir ajuda, não acha? — Ele esta noite está em Genebra. Vou apenas ficar no apartamento dele.
Ficou a pensar em quem seria o namorado e em que apartamento ficaria ela. Permitiu-se imaginar um encontro sexual curto e apressado. Depois, a fadiga apoderou-se sorrateiramente dele e afastou todos e quaisquer pensamentos de conquista. Dessa vez, foi Peterson quem carregou no botão para chamar o elevador e foi Peterson quem resmungou um palavrão.
— Está visto que não vem e pronto.
Ela tirou um maço de tabaco do bolso do casaco. Puxou de um cigarro, pô-lo entre os lábios e tentou acender o isqueiro. Quando não deu lume, tentou mais uma série de vezes e a seguir disse:
— Merda. Estou a ver que hoje não é a minha noite.
— Com licença, deixe-me tentar com o meu.
O isqueiro de Peterson soltou uma longa chama azul e amarela. Manteve-o aceso e deixou que a mulher se servisse dele como achasse melhor. Ao encostar a ponta do cigarro à chama, os dedos dela acariciaram-lhe suavemente as costas da mão. Foi um gesto deliberadamente íntimo e enviou uma descarga elétrica pelo braço dele acima.