O Assassino Inglês

Daniel Silva · Capítulo 41 de 51

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O Assassino Inglês

Capítulo 42

— Não pode ter a cabeça cheia de confusão quando falar com o grande chefe, Gerhardt. Sente-se melhor? As teias de aranha estão começando a desaparecer?

— Sim, acho que sim.

— Isso é bom. Não pode ter teia de aranha na cabeça quando falar com o grande chefe. Ele quer saber tudo o que você sabe. Precisa estar o mais lúcido possível.

— Tenho sede.

— Não duvido. Esteve muito ocupado nestes últimos dias. E foi muito maroto também. Tenho certeza de que o grande chefe vai lhe dar alguma coisa para beber se colaborar. Se não... — encolheu os ombros e esticou o lábio inferior —, então volta para aqui para baixo e desta vez meu amigo vai usar mais do que um pouquinho de água.

— Sinto frio.

— Imagino.

— Lamento.

— Sim, eu sei que lamenta. Se pedir desculpas ao grande chefe e contar tudo o que sabe, então ele arranja qualquer coisa para beber e umas roupas quentes.

— Quero falar com ele.

— Com quem quer falar?

— Quero falar com o grande chefe.

— Acha que devemos ir lá para cima à procura dele?

— Lamento. Quero falar com o grande chefe.

— Vamos lá, Gerhardt. Vamos, segura a minha mão. Deixe-me ajudar.

42

MALLES VENOSTA, ITÁLIA

 

Gabriel usava calça caqui bem passada e camisa bege que lhe assentava muito bem na cintura e nos ombros. Todo o seu aspecto dava ideia de conforto e satisfação, precisamente a imagem que ele queria transmitir. Eli Lavon conduziu Peterson até a sala e sentou-o com força numa cadeira dura e de costas retas. Peterson ficou sentado como um homem perante um pelotão de fuzilamento, o olhar fixo na parede.

Lavon saiu da sala. Gabriel continuou sentado, olhando para baixo. Nunca tivera o hábito de festejar vitórias. Sabia bem melhor do que a maioria que, no mundo dos serviços secretos, as vitórias eram muitas vezes transitórias. De vez em quando, com o passar do tempo, nem sequer pareciam vitórias. Mesmo assim, aproveitou um momento para saborear a circularidade perfeita da situação. Bem pouco tempo atrás, Gabriel estava detido e Peterson fazia as perguntas — Peterson, com o seu terno cinza feito por medida e a refinada arrogância suíça. Agora, era ele a estar sentado à frente de Gabriel, tremendo em roupas de baixo.

Uma mesa branca de fórmica separava-os. Em cima dela apenas pasta de arquivo e a caneca de café quente de Gabriel. Como a cela de Peterson na cave, a sala tinha chão de barro e paredes de estuque. As venezianas estavam fechadas. A chuva trazida pelo vento batia no vidro da janela com um ritmo perturbador. Gabriel olhou para Peterson com expressão de aversão e deixou-se cair num silêncio especulativo.

— Não vai escapar impune disso.

Foi Peterson quem quebrou o silêncio. Tinha falado em inglês, mas Gabriel passou de imediato para alemão; o alto alemão, cuidadosamente pronunciado e gramaticalmente correto, da mãe. Queria realçar a imprecisão do alemão de Peterson. Salientar a índole suíça de Peterson. Isolá-lo.

— Escapar impune de que, Gerhardt?

— De me sequestrar, seu pulha de merda!

— Mas já escapamos impunes disso.

— Havia câmeras de segurança na garagem do meu prédio. Aquele truque da sua puta ficou gravado em vídeo. A polícia de Zurique provavelmente já deve ter a fita.

Gabriel sorriu tranquilamente. — Cuidamos das câmeras de segurança, assim como Gerhardt Peterson fez na mansão Rolfe, na noite em que o assassinou e roubou seus quadros.

— Do que está falando?

— Dos quadros da coleção secreta de Rolfe. Dos quadros que ele recebeu durante a guerra pelos serviços prestados às SS. Dos quadros que ele queria devolver.

— Não sei do que está falando. Não sei nada de nenhuma coleção secreta e muito menos tive alguma coisa a ver com o assassinato de Rolfe! Ninguém acreditaria que eu tive alguma coisa a ver com a morte dele.

— Você matou Augustus Rolfe. E depois matou Werner Müller em Paris. E, em seguida, Emil Jacobi em Lyon. Tentou me matar em Zurique. E enviou um homem para matar Anna Rolfe em Veneza. Isso me deixou zangado, Gerhardt.

— Você é completamente louco!

Gabriel percebeu que a resistência forjada de Peterson começava a enfraquecer lentamente.

— Já não vai trabalhar há muito tempo. Seus chefes também gostariam de falar com você. E também não conseguem encontrá-lo. Desnecessário dizer que sua mulher também gostaria de saber onde diabos você está. Anda preocupadíssima.

— Meu Deus, o que vocês fizeram? Que diabos vocês fizeram?

Peterson parecia agora incapaz de ficar quieto. Balançava-se de um lado para o outro na cadeira tremendo. Gabriel bebeu um gole do café e fez uma careta, como que reclamando de estar quente demais. Abriu a capa da pasta e começou a tirar de lá fotografias. Ia tirando uma a uma dando-lhes uma olhada rápida antes de empurrá-las na direção de Peterson.

— Ela tira umas fotos ótimas, não acha, Gerhardt? Parece que você está mesmo se divertindo nessa. E olhe só esta. Eu não gostaria nada de ter de explicar à Sra. Peterson. E à imprensa. E ao seu ministro em Berna.

— Você não passa de um chantagista! Ninguém vai acreditar que essas fotos sejam verdadeiras. Vão ver nelas o que elas são: uma calúnia reles de um chantagista reles. Mas a verdade é que a chantagem e os homicídios são o pão-nosso de cada dia nos seus serviços secretos, não são? É nisso que vocês são bons.

Gabriel deixou as fotografias bem à vista em cima da mesa. Peterson esforçou-se corajosamente para não olhar.

— Então é essa a história que vai contar a sua mulher e aos seus chefes? Que é uma vítima inocente de uma chantagem? Que foi sequestrado e drogado pelo serviço secreto israelense? Sabe o que seus chefes vão perguntar? Por que escolheriam você para isso, Gerhardt? O que fez para que agissem assim? E você vai ter de arranjar uma resposta.

— Isso não será problema.

— Tem certeza? Pode não ser assim tão fácil, tendo em vista que agências noticiosas reputadas descobrirão pequenos e interessantes pedaços da história a um ritmo diário. Vai ser como a tortura da água, perdoe-me a comparação. Pode ser que sobreviva a ela, mas sua carreira estará arruinada. Seu sonho de se tornar chefe da Polícia Federal ficará nisso: um sonho. A política lhe será vedada. O mundo empresarial também. Acha que seus amigos dos bancos virão em seu auxílio? Não, duvido muito, já que não terá nada para lhes oferecer. Imagine: nenhum emprego, nenhuma pensão e nenhum apoio financeiro dos amigos.

Gabriel interrompeu o discurso para abrir mais uma vez a pasta e tirar de lá mais meia dúzia de foto de vigilância da mulher e dos filhos de Peterson. Propositadamente, colocou-as ao lado das fotos de Peterson com a garota.

— Quem vai cuidar de sua mulher? Quem vai cuidar de seus filhos? Quem vai pagar o aluguel daquele seu apartamento jeitoso em Zurichsee? Quem é que vai cumprir as prestações daquele Mercedes enorme? Não é um cenário muito agradável, mas não precisa ser assim. Não gosto de assassinos, Gerhardt, especialmente quando matam a serviço de um banco, mas estou oferecendo uma saída. Sugiro que a aceite antes que seja tarde.

— O que quer de mim?

— A partir de agora, vai trabalhar para mim.

— Isso é impossível!

— Vai me ajudar a recuperar os quadros de Rolfe.

Gabriel hesitou, à espera de que Peterson dissesse que não sabia de quadro nenhum, mas dessa vez ele ficou calado.

— Vamos tratar disso discretamente, à maneira suíça. E depois vai me ajudar a recuperar outras coisas. Vai me ajudar a limpar toda a porcaria na história da Suíça. Juntos, Gerhardt, podemos mover montanhas.

— E se eu me recusar?

— Pode voltar lá para baixo com meu amigo e pensar nisso. E depois falamos outra vez.

— Tire essas malditas fotos daqui!

— Dê uma resposta e eu tiro.

— O que você não compreende é que, seja como for, eu vou ser destruído. A única questão é qual o veneno que eu prefiro beber. — Peterson deixou cair o queixo e fechou os olhos. — Estou com sede.

— Responda às perguntas e eu arranjo alguma coisa para beber.

Do lado de fora, no corredor, Eli Lavon estava sentado no chão frio, com as costas encostadas na parede e os olhos fechados. Só a mão direita lhe traía as emoções. Estava apertando o isqueiro. Apesar de viver em Viena, quando ouvia alguém gritar furiosamente em alemão ainda senda a nuca queimar.

As fissuras apareciam, mas Peterson ainda não tinha ido abaixo. Lavon percebeu que ele estava perto disso. As drogas, a água, as fotos com a garota. O medo do que estaria à espera depois da próxima curva na estrada. Era algo que crescia dentro dele. Eli Lavon esperava que isso acontecesse depressa.

Nunca tinha visto Gabriel assim. Nunca o tinha visto furioso. Nunca o tinha visto levantar a voz. Alguma coisa em todo aquele caso tinha aberto todas as feridas antigas. Leah. Tariq. Shamron. Até os pais dele. Gabriel era um homem prestes a perder as estribeiras.

Não resista, Herr Peterson, pensou Lavon. Conte tudo o que ele quer saber. Faça exatamente o que ele diz. Porque se não o fizer, receio que o meu bom amigo Gabriel o leve para as montanhas e comece a disparar. E isso não vai ser bom para ninguém. Não para você. E, em especial, não para Gabriel. Lavon não queria saber de Peterson. Era Gabriel que ele adorava. Não queria mais sangue nas mãos de Gabriel Allon.

Por isso mesmo, ninguém se sentiu mais aliviado do que Lavon quando a gritaria terminou finalmente. A seguir, vieram os murros — Gabriel batia com toda a força com uma das mãos feridas na parede. Ainda sentado no chão, Lavon esticou-se e abriu a porta uns centímetros. Gabriel falou-lhe em hebraico. A língua nunca tinha soado tão doce a Lavon, embora ele estivesse bem certo de que tivera o efeito contrário em Gerhardt Peterson.

— Traga-lhe umas roupas, Eli. E comida. Herr Peterson está frio e fome. Herr Peterson quer contar-nos umas quantas coisas.

A roupa de corrida era uma tragédia em termos de estilo, de forma intencional. A parte de cima era grande demais, as pernas da calça muito curtas. Gerhardt Peterson parecia um homem em crise de meia-idade que desenterra uma roupa velha para arriscar a vida numa corridinha pelo parque. A comida também não era muito melhor: pão de má qualidade, uma tigela de sopa rala. Oded trouxe água gelada. Fez questão de entornar algumas gotas na mão de Peterson, para lhe recordar o que o aguardava se não começasse a falar. Gabriel não comeu nada. Não tinha qualquer intenção de partilhar uma refeição com Gerhardt Peterson. O suíço comeu sem parar mas devagar, como se desejasse adiar o inevitável. Gabriel deixou-o demorar o tempo que queria.

Peterson terminou a sopa e limpou a tigela com o canto do pão. — Onde estamos, aliás?

— No Tibete.

— É a primeira vez que venho ao Tibete.

Peterson conseguiu soltar um sorriso ferido. Quando Gabriel se recusou ao jogo, o sorriso desvaneceu-se rapidamente.

— Gostaria de fumar um cigarro.

— Mas não pode fumar nenhum.

— Por quê?

— Eu não gosto de fumaça.

Peterson empurrou a tigela de sopa vazia para longe.

Se Gabriel Allon não tivesse se tornado num assassino, teria dado um interrogador perfeito. Para ele, ouvir era algo natural: era um homem que só falava quando necessário; um homem que não tinha necessidade de ouvir o som da própria voz. Como um caçador de veados, também tinha sido presenteado com uma capacidade fora do normal para se manter imóvel. Nunca tocava no cabelo ou na cara, nunca gesticulava com as mãos ou se mexia na cadeira. Era essa mesma capacidade, aliada ao silêncio e à imutável paciência, que fazia dele um adversário temível para se ter do outro lado de uma mesa despida. Embora até mesmo Gabriel tivesse ficado surpreso com a disponibilidade súbita de Gerhardt Peterson para falar.

— Como eu sabia da coleção de Rolfe? — perguntou Peterson, repetindo a primeira pergunta de Gabriel. — Há muito pouca coisa que se passe em Zurique que eu não saiba. Zurique é a maior cidade da Suíça, mas continua a ser um lugar pequeno. Temos as nossas unhas bem cravadas: banca, negócios, trabalhadores estrangeiros, mídia.

Gabriel não queria que Peterson começasse a ganhar confiança, deixando-o falar sem parar dos seus feitos profissionais, e por isso interrompeu rapidamente: — Isso é tudo muito interessante, mas como é que soube do Rolfe?

— Rolfe era um velho doente — todo mundo na Bahnhofstrasse e na Paradepla sabia disso. Todo mundo sabia que ele já não tinha muito tempo de vida. E, a seguir, os rumores começaram a circular. Rolfe estava ficando doido. Rolfe quer acertar as coisas antes de ir ter com o grande banqueiro lá no céu. Rolfe quer falar. Augustus Rolfe foi banqueiro em Zurique durante muitíssimo tempo. Quando um homem como ele quer falar, só pode dar mau resultado.

— Então colocou-o sob vigilância?

Peterson acenou com a cabeça. — E desde quando é crime falar na Suíça?

— Não é crime, mas é sem dúvida uma coisa muito censurável, principalmente se põe a nu elementos nada lisonjeiros do nosso passado à vista do resto do mundo. Nós, suíços, não gostamos de discutir assuntos de família desagradáveis na frente de estrangeiros.

— Os seus chefes sabiam que tinha posto Rolfe debaixo de vigilância? O seu ministro em Berna sabia?

— O caso Rolfe não era na realidade um assunto oficial.

E foi nessa hora que Gabriel se lembrou do bilhete de Rolfe: Na Suíça, há pessoas que querem que o passado permaneça exatamente onde está — enterrado nas caixas-fortes dos bancos de Bahnhofstrasse — e não vão olhar meios para atingir esse fim.

— Se não era um assunto oficial, então estava seguindo Rolfe em nome de quem?

Peterson hesitou durante um momento; Gabriel receou que ele pudesse parar de falar. Mas depois disse: — Autointitulam-se Conselho de Rutli.

— Fale-me deles.

— Arranje mais dessa sopa asquerosa e eu falo tudo o que quiser saber.

Gabriel resolveu deixá-lo ter essa pequena vitória. Levantou a mão e bateu três vezes com a palma na parede. Oded espetou a cabeça por entre a porta, como se lhe cheirasse a fumo. Gabriel murmurou-lhe umas quantas palavras em hebraico. A reação de Oded foi uma careta de remorso.

— E pão — disse Peterson enquanto Oded ia embora. — Gostaria de mais um pedaço daquele pão com a sopa.

Oded olhou para Gabriel à espera de ordens. — Traz mais um pouco da merda do pão.

Dessa segunda vez, não fizeram pausa para comer e por isso Peterson foi obrigado a dar a sua palestra sobre o Conselho de Rutli com uma colher numa mão e um bocado de pão na noutra. Falou durante dez minutos sem interrupção, parando apenas para sorver a sopa ou para partir mais uma mão-cheia de pão. A história do Conselho, as suas finalidades e objetivos, o poder dos seus membros — explicou todos estes tópicos com grande pormenor. Quando terminou, Gabriel perguntou-lhe:

— E você é membro?

Esta pergunta pareceu diverti-lo.

— Eu? O filho de um professor primário do Bernese Oberland? Não, eu não sou membro do Conselho, sou só um dos seus fiéis criados. É isso que todos nós somos na Suíça... criados. Criados dos estrangeiros que vêm aqui depositar o dinheiro deles nos nossos bancos. Criados da oligarquia dominante. Criados.

— Que serviços presta?

— Segurança e informação.

— E o que recebe em troca?

— Dinheiro e apoio na carreira.

— Então contou ao Conselho as coisas que tinha ouvido sobre Rolfe?

— Exato. E o Conselho contou sobre as coisas que ele tinha escondidas.

— Uma coleção de quadros que tinha recebido dos nazistas pelos serviços bancários prestados durante a guerra.

Peterson baixou a cabeça um milímetro.

— Herr Rolfe tinha escondidos objetos valiosos e uma história controversa, um conjunto de circunstâncias terríveis do ponto de vista do Conselho.

— E então que ordens é que o Conselho lhe deu?

— Apertar a vigilância à volta dele. Garantir que Herr Rolfe não faz nada de impulsivo nos seus últimos dias. Mas há sinais perturbantes. Uma visita feita ao banco do Rolfe... por um homem de uma agência internacional judia com papel cativo na questão das contas paradas desde o Holocausto.

A naturalidade com que Peterson fez essa referência pôs Gabriel a ranger os dentes.

— A seguir, interceptamos uma série de faxes. Parece que Rolfe anda a tratar de contratar um restaurador de arte. Pergunto a mim mesmo uma simples questão: Por que razão está um moribundo a perder tempo a restaurar os seus quadros? A experiência tem-me dito que quem está a morrer costuma deixar os pormenores desse tipo para aqueles que lhes sobrevivem.

— E então começa a suspeitar que o Rolfe está planejando entregar os quadros?

— Ou pior.

— O que podia ser pior?

— Uma confissão pública dos negócios dele com nazistas e agentes dos serviços secretos alemães de patentes superiores. Consegue imaginar o espetáculo que uma confissão dessas criaria? Varreria o país como uma tempestade. Faria a controvérsia à volta das contas paradas parecer uma questiúncula sem importância.

— E era só disso que o Conselho tinha medo?

— E isso não é suficiente?

Mas Gabriel não estava a ouvir Gerhardt Peterson mas sim Augustus Rolfe: Em tempos, considerei estes homens meus amigos... outro dos meus vários erros. — Eles tinham medo que o Augustus Rolfe fosse revelar a existência do Conselho. Ele sabia do Conselho porque era membro, não era?

— O Rolfe? Ele não era só membro do Conselho. Era membro com privilégios especiais.

— E então foi visitá-lo?

— Digo-lhe que ouvi coisas, nada de específico, atenção, tudo muito subtil. O Rolfe é velho, mas continua a ter uma mente ágil e percebe exatamente o que eu lhe estou a tentar dizer. É um banqueiro suíço, por amor de Deus. Sabe ter duas conversas ao mesmo tempo. Quando me vou embora, estou convencido de que o Conselho está com grandes problemas.

— E então o que faz? — Recorro ao Plano B.

— Que é?

— Roubar a porra dos quadros. Não há quadros, não há história. Peterson recusou-se a prosseguir sem um cigarro e Gabriel concordou com relutância. Uma vez mais, bateu com a palma da mão na parede e, uma vez mais, Oded espetou a cabeça pela porta aberta. Deu um cigarro a Peterson do seu próprio maço. Quando carregou na patilha do isqueiro, Peterson encolheu-se de tal forma que quase caiu da cadeira. Oded foi-se embora a rir sem parar. Peterson chupou o cigarro com cautela, como se receasse que ele pudesse explodir, e, de poucos em poucos segundos, ia levantando o braço para afastar o fumo.

- — Fale-me do Werner Müller — disse Gabriel.

- — Ele era a chave para tudo. Se íamos apanhar a coleção secreta do Rolfe, precisávamos da ajuda do Müller. Tinha sido o Müller a conceber o sistema de segurança. Por isso, ordenei aos meus homens que descobrissem o máximo que pudessem de coisas sujas sobre o Müller. E o Müller também não tinha as mãos limpas. Nenhum de nós as tem realmente, pois não? Como Gabriel não respondeu, Peterson continuou:

— Fui a Paris ter uma conversa com o Müller. Escusado será dizer que ele concordou em trabalhar para a nossa causa.

Peterson fumou o cigarro quase até o filtro e depois, taciturno, apagou-o com força na tigela de sopa vazia.

— O serviço ficou marcado para a noite seguinte. O Rolfe tinha planeado ir para Genebra e passar lá a noite, no apartamento dele.

E estava previsto que o restaurador de arte chegasse na manhã seguinte. A equipe conseguiu entrar na residência e o Müller guiou-os até a sala de vigilância, lá em baixo.

— E você também fazia parte da equipe?

— Não, a minha função era garantir que a polícia de Zurique não aparecia no meio daquilo, nada mais.

— Continue.

— O Müller desativa o sistema de segurança e desliga as câmeras. A seguir, entram na caixa-forte e adivinhe o que encontram lá dentro?

— O Augustus Rolfe?

— Em carne e osso. Três da manhã e o velho está para ali sentado com a porra dos quadros dele. O Müller entra em pânico. O Rolfe não conhece os ladrões mas o velho e o Müller têm negócios um com o outro. Se o velho for à polícia, quem se lixa é o Müller. Ele pega na pistola de um dos homens ao serviço do Conselho, leva-o lá para cima, para a sala de visitas, e enfia-lhe uma bala na cabeça.

— Seis horas mais tarde, chego eu. Peterson acenou com a cabeça. — O corpo de Rolfe deu-nos uma oportunidade de testar a veracidade do restaurador de arte. Se o restaurador de arte descobrir o corpo e telefonar à polícia, o mais provável é que ele seja apenas um restaurador de arte. Se encontrar o corpo e tentar fugir da cidade...

Peterson levantou as mãos, como que a dizer que não era necessária mais nenhuma explicação.

— Então arranja maneira de me prenderem.

— Exato.

— Então e o primeiro policial que me interrogou?

— O Baer? O Baer não sabia de nada. Para o Baer, você era apenas um suspeito do homicídio de um banqueiro suíço.

— Mas porquê darem-se ao trabalho de me prender? Por que não me deixaram simplesmente ir embora?

— Queria pô-lo cagado de medo e fazê-lo pensar duas vezes antes de aqui voltar.

— Mas não acabou aí.

Peterson abanou a cabeça.

— Não, infelizmente, foi só o começo.

Gabriel sabia a maior parte do que faltava, já que o tinha vivido. O relato-relâmpago de Peterson servira apenas para lhe reforçar convicções já existentes ou para preencher lacunas.

Tal como Peterson suspeitava, Anna Rolfe não participou o roubo da coleção secreta do pai. Peterson coloca-a de imediato sob vigilância. Uma missão executada por agentes ligados ao Conselho de Rutli e por membros leais a Peterson na segurança suíça. Peterson sabia que Gabriel tinha ido a Portugal uma semana depois do funeral de Rolfe para falar com Anna Rolfe e sabia que eles tinham viajado juntos para Zurique e visitado a mansão Rolfe.

A partir desse momento, Gabriel passa a estar sob vigilância: Roma, Paris, Londres, Lyon. O Conselho contrata os serviços de um assassino profissional. Que, em Paris, mata Müller e lhe destrói a galeria. Em Lyon, mata Emil Jacobi.

— Quem eram os homens à minha espera naquela noite, na mansão Rolfe? — perguntou Gabriel.

— Trabalhavam para o Conselho. Nós contratamos um profissional para tratar das coisas para lá da fronteira.

Peterson parou.

— Você matou os dois, aliás. Foi um desempenho bem impressionante. E, a seguir, perdemos seu rastro por trinta e seis horas.