O Assunto é Vinho

Carlos Alberto Sardenberg e Renato Machado · Capítulo 1 de 53

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O Assunto é Vinho

Contra Capa

“Difícil afirmar se Renato Machado é o mais radical dos

classicistas ou o mais clássico dos radicais. Sua profunda cultura que, afortunadamente, se estende muito além do vinho e do ceticismo, e cultivada ao longo de 30 anos como jornalista político e correspondente estrangeiro, dá a ele uma base invejada pelos mais notáveis comentaristas europeus de vinhos. Todavia, a irrepreensível busca de Renato pelo romance e pelo prazer e, acima de tudo, sua irreverente ironia carioca (e auto-ironia) colocam-no em categoria inteiramente própria. O certo é que ele não apenas é o mais civilizado como também o mais independente dos críticos de vinhos no Brasil.”

Jonathan Nossiter

Diretor de Mondovino, um dos mais comentados

documentários sobre a globalização do vinho

 

ORELHA DO LIVRO

Carlos Alberto Sardenberg é âncora do programa CBN Brasil e colunista da revista Exame e do jornal O Estado de S. Paulo. Teve uma passagem pelo governo, como assessor do então ministro do Planejamento João Sayad, no mandato Sarney, durante a elaboração e

implementação do Plano Cruzado.

Renato Machado integra a equipe da TV Globo desde 1982. Começou no rádio, em 1970. Apreciador de gastronomia, foi reconhecido como crítico de vinhos a partir da publicação de artigos sobre o tema no jornal O Globo e, mais tarde, na CBN. Atualmente, apresenta, ao

lado do chef Claude Troisgros, o programa Menu Confiança, na GNT. Apresentação

 

Jonathan Nossiter

Difícil afirmar se Renato Machado é o mais radical dos

classicistas ou o mais clássico dos radicais. Sua profunda cultura que, afortunadamente, se estende muito além do vinho e seu ceticismo cultivado ao longo de 30 anos como jornalista político e correspondente estrangeiro, dão a ele uma base invejada pelos mais notáveis comentaristas europeus de vinhos. Todavia, a irrepreensível busca de Renato por romance e por prazer e, acima de tudo, sua irreverente ironia carioca (e auto-ironia) colocam-no numa categoria própria. O certo é que ele não apenas é o mais civilizado mas também o mais independente dos críticos de vinhos no Brasil.

Vivemos numa era em que o vinho é discutido por chamados

profissionais, de São Paulo a Nova York e Paris, como se fosse um veículo de ascensão social ou, pior ainda, um objeto inanimado que pudesse ser cientificamente avaliado e matematicamente determinado. Muitas vezes essas opiniões são proferidas por “críticos” totalmente comprometidos por suas ligações com a indústria que deveriam estar observando de forma crítica. Renato Machado é o contrário. Mesmo num comentário informal, ele é capaz de passar o contexto cultural e histórico sobre a bebida mais venerada da historia ocidental e em seguida explicar por que esse lendário agente do prazer e da sedução (refiro-me ao vinho, e não a Renato) consegue reviver, num só gole, um jantar a dois à luz de vela ameaçado de fracasso.

O que é particularmente charmoso e cativante sobre esta

coletânea de conversas é o fato de o ponto de partida de cada assunto ser você, caro leitor... ou seja, aquele ouvinte alerta e curioso das transmissões radiofônicas semanais do Renato e do Sardenberg.

O resultado é uma cartilha despretensiosa e descontraída

para os novos e os confirmados amantes do vinho. Livre do sufocante autoritarismo que está na moda, este livro proporciona ao leitor inúmeras opções para encontrar o prazer. Você pode ler do começo ao fim e terminar com uma boa idéia sobre algumas importantes questões para escolher seus vinhos de preferência. Ou pode folheá-lo ao acaso, encontrando o sempre afável Renato como numa conversa com um velho amigo num barzinho e escolher um assunto tão querido para ele quanto é para outros o último Fla-Flu. Ou melhor, ele tem o dom de encontrar méritos em temas que nem sempre são o objeto principal de sua paixão, como a discussão sobre a revolução dos vinhos artesanais no Brasil, liderada por vinícolas como a Vallontano e a Angheben.

O que fica claro é que a vivacidade, inteligência e bom

humor de Renato Machado são uma tônica bem-vinda aos murmúrios indiferentes de outros profissionais que acabam, na verdade, impedindo que tantas outras pessoas apreciem ou mesmo se aproximem da beleza e do prazer visceral do vinho. Meu único conselho, enquanto você aprecia este agradável volume é: seja tão cético com ele quanto ele é com os outros. Especialmente quanto aos comentários dele, por exemplo, sobre o filme chamado Mondovino. Ele não aceitaria que fosse de outra forma.

Cineasta, autor do filme Mondovino Sumário

 

Vinho português à vista

Vida fácil

Pizza com vinho

A ditadura do gosto

Queijo e vinho branco, o par ideal

Paris nem sempre é uma festa

Rolha estragada

No frio, vale tudo

Espumante made in Brasil

No caminho certo

Xi! A rolha partiu-se ao meio na hora de abrir a garrafa Vinhos do Novo Mundo

O presidente francês que tomava refrigerante Robert Parker não fala para quem gosta de vinho Qual é o teor alcoólico de um bom vinho?

Tinto ou branco?

A socialite e o decantador

O bacalhau em boa companhia

A vez dos espumantes brasileiros

O sucesso dos vinhos verdes

Vinho de uma uva só ou misturado?

Vinho fantasia

Como montar uma adega

O Vinho e o mar

Vinho desacompanhado

Vai bem com feijoada

Beba até o fim

Para abrir daqui a 18 anos

A Taça das Belas

Vinho bom e barato em Paris?

A temperatura ideal do vinho branco

Leitura obrigatória

Grand crux premier cru

Vinho tinto com frutos do mar

O turismo do vinho

Vinhos da África do Sul

Vinho inflacionado

Baco e a felicidade

As videiras de Santorini

O segredo das velhas famílias

Para iniciantes

O que falta à indústria brasileira de vinhos? Que vinho se deve beber primeiro?

Beaujolais nouveau com gosto de banana Os vinhos mais importados no Brasil

A bebida do Czar

O limite entre o prazer e o excesso

Para os sem-adega

Copos coloridos, nem pensar

A longevidade dos vinhos

Vinhos para um jantar eclético

Vinhos para combinar com sopa

Os lucros do vinho

Dor de cabeça para viagem

Uva difícil

Chablis fora da França, nem pensar A felicidade é o limite!

Vinhos canadenses

Os românticos alemães

Comida japonesa com vinho branco?

Californianos em crise

Consumo aumenta nos EUA e diminui na França O que não combina com vinho

Vinho com moqueca

A qualidade internacional do Sauvignon Blanc Santa Rita Um chileno mais caro que um francês?

Almoço regado a champanhe

Quanto menos álcool, melhor

Casamentos múltiplos

Vinho português à vista

 

SARDENBERG: Vamos falar sobre os vinhos da região do Alentejo?

RENATO MACHADO: Olha, os vinhos do Alentejo já foram muito bem-

falados, depois passaram a ser mal-falados porque eram

caros. Continuavam bons, mas eram caros. Hoje o preço

continua mais ou menos salgado, porém os vinhos têm

melhorado muito de qualidade. Realmente são vinhos que

encontraram um caminho. O que houve no Alentejo, e em

Portugal, foi aquela moda de fazer as uvas internacionais, de

fazer os vinhos internacionais, de competir com o Novo

Mundo. Agora está havendo um refluxo, os portugueses

felizmente redescobriram ou se voltaram para suas uvas

nativas. Abandonaram um pouco essa globalização uniforme,

essa coisa massificante que existe no mundo do vinho — que

é fazer tudo com muita madeira, muito açucarado, com muita

baunilha —, e resolveram voltar às suas raízes. E têm tido

resultados excelentes, Sardenberg. Hoje no almoço eu provei

um vinho do Alentejo da uva touriga nacional. É preciso que o

consumidor brasileiro conheça a touriga nacional, uma uva

surpreendente, que pode dar vinhos esplêndidos.

SARDENBERG: Agora há outras uvas portuguesas, não é?

RENATO MACHADO: Sim, há outras uvas portuguesas, como a tinta

roriz, uma uva branca muito perfumada chamada arinto, há a

alvarinho, do norte de Portugal, que dá brancos ácidos mais

perfumados. E também uma uva nativa do Alentejo chamada

trincadeira, que se mistura muito bem com a touriga nacional,

dando vinhos muito interessantes. Acho que o mercado

internacional ainda vai descobrir os vinhos alentejanos, aliás,

portugueses, porque são uvas que dão vinhos esplêndidos

desde que sejam vinificadas como devem ser.

SARDENBERG: Quando você fala em internacionalização são aquelas

uvas tradicionais...

RENATO MACHADO: Sim, porque se plantaram em Portugal uvas do

tipo Cabernet Sauvignon, chardonnay, planta-se ainda

sauvignon blanc, esta, aliás, com bons resultados. Não estou

dizendo que esses vinhos sejam maus, mas está se perdendo

a capacidade, o potencial que essas duas uvas nativas têm. É

o mesmo que está acontecendo na Itália. Não se trata de uma

revolta contra a globalização, nada disso, trata-se de poder

somar, e não uniformizar.

SARDENBERG: Globalizar a uva local.

RENATO MACHADO: Exatamente. Ou seja, descobrir o que a uva

local pode dar de bom, porque é só adotar as técnicas

modernas. A globalização tem um bom efeito, que é a

modernização da viticultura e da vinicultura.

SARDENBERG: Sem contar que os nomes são melhores, né?

Trincadeira é um nome ótimo.

RENATO MACHADO: Trincadeira é uma maravilha! Touriga nacional

também, e tem ainda a tinta roriz.

Vida fácil

 

SARDENBERG: Renato Machado, produtores brasileiros de vinhos

estão incomodados com o crescimento da importação da

bebida da Argentina. Eles dizem que os vinhos argentinos

levam muita vantagem sobre os brasileiros. O que você sabe

sobre isso?

RENATO MACHADO: Na verdade, essa invasão é do vinho argentino

de garrafão, esse que nem vem engarrafado, mas em

contêiner. Esse vinho é, digamos, o da faixa de mercado

barata, e vem em grandes quantidades. Ele se beneficia de

favorecimento fiscal dos acordos do Mercosul. Realmente, isso

gera uma competição muito desleal em relação ao vinho de

garrafão gaúcho, que significa 70% da produção da região do

Rio Grande do Sul. São vinhos produzidos em grande volume,

que não são caros, e esses argentinos que entram aqui com

benefícios tarifários fazem um estrago na produção nacional.

O sistema fiscal brasileiro é injusto porque castiga o vinho de

qualidade, que representa muito pouco em termos de

consumo e arrecadação para o governo. Esse sistema

tributário poderia mudar se o governo, se o Ministério da

Agricultura e da Fazenda tivessem vontade política para fazer

um sistema mais justo, que punisse o vinho de má qualidade

que entra sem pagar quase nada, o chamado vinho de um

dólar, sobre o qual o imposto é muito pequeno. Agora, pune-

se o vinho acima de 18 dólares a caixa, que já é de um

segmento de qualidade, mas representa muito pouco em

consumo e arrecadação e não tem competição nacional. Esse Pizza com vinho

movimento dos produtores é mais do que justificado, existe

um acordo com os importadores e com associações de

hotelaria em defesa da qualidade e de um sistema fiscal mais

justo.