O Assunto é Vinho
Contra Capa
“Difícil afirmar se Renato Machado é o mais radical dos
classicistas ou o mais clássico dos radicais. Sua profunda cultura que, afortunadamente, se estende muito além do vinho e do ceticismo, e cultivada ao longo de 30 anos como jornalista político e correspondente estrangeiro, dá a ele uma base invejada pelos mais notáveis comentaristas europeus de vinhos. Todavia, a irrepreensível busca de Renato pelo romance e pelo prazer e, acima de tudo, sua irreverente ironia carioca (e auto-ironia) colocam-no em categoria inteiramente própria. O certo é que ele não apenas é o mais civilizado como também o mais independente dos críticos de vinhos no Brasil.”
Jonathan Nossiter
Diretor de Mondovino, um dos mais comentados
documentários sobre a globalização do vinho
ORELHA DO LIVRO
Carlos Alberto Sardenberg é âncora do programa CBN Brasil e colunista da revista Exame e do jornal O Estado de S. Paulo. Teve uma passagem pelo governo, como assessor do então ministro do Planejamento João Sayad, no mandato Sarney, durante a elaboração e
implementação do Plano Cruzado.
Renato Machado integra a equipe da TV Globo desde 1982. Começou no rádio, em 1970. Apreciador de gastronomia, foi reconhecido como crítico de vinhos a partir da publicação de artigos sobre o tema no jornal O Globo e, mais tarde, na CBN. Atualmente, apresenta, ao
lado do chef Claude Troisgros, o programa Menu Confiança, na GNT. Apresentação
Jonathan Nossiter
Difícil afirmar se Renato Machado é o mais radical dos
classicistas ou o mais clássico dos radicais. Sua profunda cultura que, afortunadamente, se estende muito além do vinho e seu ceticismo cultivado ao longo de 30 anos como jornalista político e correspondente estrangeiro, dão a ele uma base invejada pelos mais notáveis comentaristas europeus de vinhos. Todavia, a irrepreensível busca de Renato por romance e por prazer e, acima de tudo, sua irreverente ironia carioca (e auto-ironia) colocam-no numa categoria própria. O certo é que ele não apenas é o mais civilizado mas também o mais independente dos críticos de vinhos no Brasil.
Vivemos numa era em que o vinho é discutido por chamados
profissionais, de São Paulo a Nova York e Paris, como se fosse um veículo de ascensão social ou, pior ainda, um objeto inanimado que pudesse ser cientificamente avaliado e matematicamente determinado. Muitas vezes essas opiniões são proferidas por “críticos” totalmente comprometidos por suas ligações com a indústria que deveriam estar observando de forma crítica. Renato Machado é o contrário. Mesmo num comentário informal, ele é capaz de passar o contexto cultural e histórico sobre a bebida mais venerada da historia ocidental e em seguida explicar por que esse lendário agente do prazer e da sedução (refiro-me ao vinho, e não a Renato) consegue reviver, num só gole, um jantar a dois à luz de vela ameaçado de fracasso.
O que é particularmente charmoso e cativante sobre esta
coletânea de conversas é o fato de o ponto de partida de cada assunto ser você, caro leitor... ou seja, aquele ouvinte alerta e curioso das transmissões radiofônicas semanais do Renato e do Sardenberg.
O resultado é uma cartilha despretensiosa e descontraída
para os novos e os confirmados amantes do vinho. Livre do sufocante autoritarismo que está na moda, este livro proporciona ao leitor inúmeras opções para encontrar o prazer. Você pode ler do começo ao fim e terminar com uma boa idéia sobre algumas importantes questões para escolher seus vinhos de preferência. Ou pode folheá-lo ao acaso, encontrando o sempre afável Renato como numa conversa com um velho amigo num barzinho e escolher um assunto tão querido para ele quanto é para outros o último Fla-Flu. Ou melhor, ele tem o dom de encontrar méritos em temas que nem sempre são o objeto principal de sua paixão, como a discussão sobre a revolução dos vinhos artesanais no Brasil, liderada por vinícolas como a Vallontano e a Angheben.
O que fica claro é que a vivacidade, inteligência e bom
humor de Renato Machado são uma tônica bem-vinda aos murmúrios indiferentes de outros profissionais que acabam, na verdade, impedindo que tantas outras pessoas apreciem ou mesmo se aproximem da beleza e do prazer visceral do vinho. Meu único conselho, enquanto você aprecia este agradável volume é: seja tão cético com ele quanto ele é com os outros. Especialmente quanto aos comentários dele, por exemplo, sobre o filme chamado Mondovino. Ele não aceitaria que fosse de outra forma.
Cineasta, autor do filme Mondovino Sumário
Vinho português à vista
Vida fácil
Pizza com vinho
A ditadura do gosto
Queijo e vinho branco, o par ideal
Paris nem sempre é uma festa
Rolha estragada
No frio, vale tudo
Espumante made in Brasil
No caminho certo
Xi! A rolha partiu-se ao meio na hora de abrir a garrafa Vinhos do Novo Mundo
O presidente francês que tomava refrigerante Robert Parker não fala para quem gosta de vinho Qual é o teor alcoólico de um bom vinho?
Tinto ou branco?
A socialite e o decantador
O bacalhau em boa companhia
A vez dos espumantes brasileiros
O sucesso dos vinhos verdes
Vinho de uma uva só ou misturado?
Vinho fantasia
Como montar uma adega
O Vinho e o mar
Vinho desacompanhado
Vai bem com feijoada
Beba até o fim
Para abrir daqui a 18 anos
A Taça das Belas
Vinho bom e barato em Paris?
A temperatura ideal do vinho branco
Leitura obrigatória
Grand crux premier cru
Vinho tinto com frutos do mar
O turismo do vinho
Vinhos da África do Sul
Vinho inflacionado
Baco e a felicidade
As videiras de Santorini
O segredo das velhas famílias
Para iniciantes
O que falta à indústria brasileira de vinhos? Que vinho se deve beber primeiro?
Beaujolais nouveau com gosto de banana Os vinhos mais importados no Brasil
A bebida do Czar
O limite entre o prazer e o excesso
Para os sem-adega
Copos coloridos, nem pensar
A longevidade dos vinhos
Vinhos para um jantar eclético
Vinhos para combinar com sopa
Os lucros do vinho
Dor de cabeça para viagem
Uva difícil
Chablis fora da França, nem pensar A felicidade é o limite!
Vinhos canadenses
Os românticos alemães
Comida japonesa com vinho branco?
Californianos em crise
Consumo aumenta nos EUA e diminui na França O que não combina com vinho
Vinho com moqueca
A qualidade internacional do Sauvignon Blanc Santa Rita Um chileno mais caro que um francês?
Almoço regado a champanhe
Quanto menos álcool, melhor
Casamentos múltiplos
Vinho português à vista
SARDENBERG: Vamos falar sobre os vinhos da região do Alentejo?
RENATO MACHADO: Olha, os vinhos do Alentejo já foram muito bem-
falados, depois passaram a ser mal-falados porque eram
caros. Continuavam bons, mas eram caros. Hoje o preço
continua mais ou menos salgado, porém os vinhos têm
melhorado muito de qualidade. Realmente são vinhos que
encontraram um caminho. O que houve no Alentejo, e em
Portugal, foi aquela moda de fazer as uvas internacionais, de
fazer os vinhos internacionais, de competir com o Novo
Mundo. Agora está havendo um refluxo, os portugueses
felizmente redescobriram ou se voltaram para suas uvas
nativas. Abandonaram um pouco essa globalização uniforme,
essa coisa massificante que existe no mundo do vinho — que
é fazer tudo com muita madeira, muito açucarado, com muita
baunilha —, e resolveram voltar às suas raízes. E têm tido
resultados excelentes, Sardenberg. Hoje no almoço eu provei
um vinho do Alentejo da uva touriga nacional. É preciso que o
consumidor brasileiro conheça a touriga nacional, uma uva
surpreendente, que pode dar vinhos esplêndidos.
SARDENBERG: Agora há outras uvas portuguesas, não é?
RENATO MACHADO: Sim, há outras uvas portuguesas, como a tinta
roriz, uma uva branca muito perfumada chamada arinto, há a
alvarinho, do norte de Portugal, que dá brancos ácidos mais
perfumados. E também uma uva nativa do Alentejo chamada
trincadeira, que se mistura muito bem com a touriga nacional,
dando vinhos muito interessantes. Acho que o mercado
internacional ainda vai descobrir os vinhos alentejanos, aliás,
portugueses, porque são uvas que dão vinhos esplêndidos
desde que sejam vinificadas como devem ser.
SARDENBERG: Quando você fala em internacionalização são aquelas
uvas tradicionais...
RENATO MACHADO: Sim, porque se plantaram em Portugal uvas do
tipo Cabernet Sauvignon, chardonnay, planta-se ainda
sauvignon blanc, esta, aliás, com bons resultados. Não estou
dizendo que esses vinhos sejam maus, mas está se perdendo
a capacidade, o potencial que essas duas uvas nativas têm. É
o mesmo que está acontecendo na Itália. Não se trata de uma
revolta contra a globalização, nada disso, trata-se de poder
somar, e não uniformizar.
SARDENBERG: Globalizar a uva local.
RENATO MACHADO: Exatamente. Ou seja, descobrir o que a uva
local pode dar de bom, porque é só adotar as técnicas
modernas. A globalização tem um bom efeito, que é a
modernização da viticultura e da vinicultura.
SARDENBERG: Sem contar que os nomes são melhores, né?
Trincadeira é um nome ótimo.
RENATO MACHADO: Trincadeira é uma maravilha! Touriga nacional
também, e tem ainda a tinta roriz.
Vida fácil
SARDENBERG: Renato Machado, produtores brasileiros de vinhos
estão incomodados com o crescimento da importação da
bebida da Argentina. Eles dizem que os vinhos argentinos
levam muita vantagem sobre os brasileiros. O que você sabe
sobre isso?
RENATO MACHADO: Na verdade, essa invasão é do vinho argentino
de garrafão, esse que nem vem engarrafado, mas em
contêiner. Esse vinho é, digamos, o da faixa de mercado
barata, e vem em grandes quantidades. Ele se beneficia de
favorecimento fiscal dos acordos do Mercosul. Realmente, isso
gera uma competição muito desleal em relação ao vinho de
garrafão gaúcho, que significa 70% da produção da região do
Rio Grande do Sul. São vinhos produzidos em grande volume,
que não são caros, e esses argentinos que entram aqui com
benefícios tarifários fazem um estrago na produção nacional.
O sistema fiscal brasileiro é injusto porque castiga o vinho de
qualidade, que representa muito pouco em termos de
consumo e arrecadação para o governo. Esse sistema
tributário poderia mudar se o governo, se o Ministério da
Agricultura e da Fazenda tivessem vontade política para fazer
um sistema mais justo, que punisse o vinho de má qualidade
que entra sem pagar quase nada, o chamado vinho de um
dólar, sobre o qual o imposto é muito pequeno. Agora, pune-
se o vinho acima de 18 dólares a caixa, que já é de um
segmento de qualidade, mas representa muito pouco em
consumo e arrecadação e não tem competição nacional. Esse Pizza com vinho
movimento dos produtores é mais do que justificado, existe
um acordo com os importadores e com associações de
hotelaria em defesa da qualidade e de um sistema fiscal mais
justo.