O Assunto é Vinho

Carlos Alberto Sardenberg e Renato Machado · Capítulo 11 de 53

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O Assunto é Vinho

Sardenberg: A adega do ex-presidente francês François

O presidente francês

que tomava refrigerante

 

SARDENBERG: A adega do ex-presidente francês François

Mitterrand foi a leilão e venderam tudo por 14.683 euros —

46 lotes. Disseram que o pessoal comprou mais pelo valor

sentimental do que pela qualidade dos vinhos.

RENATO MACHADO: Parece que sim, porque ele não era um

apreciador de vinhos. Era muito austero nos seus costumes e

frugal até.

SARDENBERG: Dizem que nas refeições ele disfarçava para tomar

refrigerante.

RENATO MACHADO: Exatamente. Curioso como havia franceses da

época da Segunda Guerra, como ele que foi um resistente,

que mantiveram os hábitos simples de escassez daquele

período e sobretudo do tempo do pós-guerra, que foi um

período muito duro. Naquela época, não era só vinho que eles

não tinham. Eles não tinham o que comer, e a principal

atividade deles era garantir o chamado pão de cada dia. Esses

hábitos se refletiram talvez nos gostos do ex-presidente, e a

adega dele não era nada de sensacional, embora ela tenha

recebido muitos presentes.

SARDENBERG: Dizem que o lote mais precioso continha seis

garrafas de Château Mouton-Rothschild.

RENATO MACHADO: Sim. O Mouton anterior a 1973 não era um Robert Parker não fala

primeiro grand cru, era um segundo. Só a partir de 1973,

quando o ministro da Agricultura era Jacques Chirac,

justamente no governo Pompidou, é que o Mouton se

transformou em primeiro grand cru. Mas todos os châteaux de

Bordeaux muito antigos, anteriores aos anos 70, com

algumas exceções, são vinhos que nem sempre são muito

bons.

SARDENBERG: E, por falar em consumo, o pessoal da redação me

passou uma pesquisa da Target Group Index, do Ibope Mídia,

que diz o seguinte: dois em cada cinco entrevistados

responderam sim quando perguntados se pagariam mais por

uma boa bebida. E, nessa pesquisa feita em São Paulo, 48%

se declararam consumidores de vinho, 23% de uísque, 22%

de vodca e 16% de cachaça.

RENATO MACHADO: O que me chama a atenção é como é elevado o

numero de pessoas que consomem bebidas destiladas. O

vinho é majoritário, mas não muito.

SARDENBERG: Pois é. Dá 23%, 22% e 16% na cachaça. É muito,

não é?

RENATO MACHADO: É muito. Eu acho que o vinho ainda tem um

longo caminho a percorrer, embora ainda precise consolidar

essa liderança.