O Assunto é Vinho
Sardenberg: A adega do ex-presidente francês François
O presidente francês
que tomava refrigerante
SARDENBERG: A adega do ex-presidente francês François
Mitterrand foi a leilão e venderam tudo por 14.683 euros —
46 lotes. Disseram que o pessoal comprou mais pelo valor
sentimental do que pela qualidade dos vinhos.
RENATO MACHADO: Parece que sim, porque ele não era um
apreciador de vinhos. Era muito austero nos seus costumes e
frugal até.
SARDENBERG: Dizem que nas refeições ele disfarçava para tomar
refrigerante.
RENATO MACHADO: Exatamente. Curioso como havia franceses da
época da Segunda Guerra, como ele que foi um resistente,
que mantiveram os hábitos simples de escassez daquele
período e sobretudo do tempo do pós-guerra, que foi um
período muito duro. Naquela época, não era só vinho que eles
não tinham. Eles não tinham o que comer, e a principal
atividade deles era garantir o chamado pão de cada dia. Esses
hábitos se refletiram talvez nos gostos do ex-presidente, e a
adega dele não era nada de sensacional, embora ela tenha
recebido muitos presentes.
SARDENBERG: Dizem que o lote mais precioso continha seis
garrafas de Château Mouton-Rothschild.
RENATO MACHADO: Sim. O Mouton anterior a 1973 não era um Robert Parker não fala
primeiro grand cru, era um segundo. Só a partir de 1973,
quando o ministro da Agricultura era Jacques Chirac,
justamente no governo Pompidou, é que o Mouton se
transformou em primeiro grand cru. Mas todos os châteaux de
Bordeaux muito antigos, anteriores aos anos 70, com
algumas exceções, são vinhos que nem sempre são muito
bons.
SARDENBERG: E, por falar em consumo, o pessoal da redação me
passou uma pesquisa da Target Group Index, do Ibope Mídia,
que diz o seguinte: dois em cada cinco entrevistados
responderam sim quando perguntados se pagariam mais por
uma boa bebida. E, nessa pesquisa feita em São Paulo, 48%
se declararam consumidores de vinho, 23% de uísque, 22%
de vodca e 16% de cachaça.
RENATO MACHADO: O que me chama a atenção é como é elevado o
numero de pessoas que consomem bebidas destiladas. O
vinho é majoritário, mas não muito.
SARDENBERG: Pois é. Dá 23%, 22% e 16% na cachaça. É muito,
não é?
RENATO MACHADO: É muito. Eu acho que o vinho ainda tem um
longo caminho a percorrer, embora ainda precise consolidar
essa liderança.