O Assunto é Vinho
SARDENBERG: Pergunta de Nilson Cunha, de Brasília: o vinho tinto
Tinto ou branco?
SARDENBERG: Pergunta de Nilson Cunha, de Brasília: o vinho tinto
pode ser considerado, do ponto de vista de suas qualidades
físico-químicas e nutricionais, superior ao vinho branco?
RENATO MACHADO: Essa é uma boa pergunta. O vinho tinto, em
alguns aspectos, pode até ser considerado melhor que o
branco. Por exemplo, em relação à presença de taninos e
polifenóis que, como dizem os cardiologistas, combatem os
radicais livres. O tinto tem resveratrol na casca da uva, essa
substância que a maioria dos médicos diz que pode combater
os radicais livres, e o vinho branco já não teria tanto. E do
ponto de vista de conservação também, porque o tinto
suporta mais o tempo e as mudanças de temperatura e
geográficas. O vinho branco é mais frágil. Agora, em relação à
elegância, a discussão pode se eternizar.
SARDENBERG: É uma questão de opinião?
RENATO MACHADO: Sim, e vai depender do que se pretende com o
vinho. Se é fazer um vinho aromático, ou encantador, ou se é
fazer um vinho para ficar antigo, para ser comemorado dali
20 anos. Ou seja, há variáveis que vão determinar o gosto do
consumidor. Não se pode dizer que um seja melhor que o
outro, mas o vinho tinto talvez tenha mais qualidades de
permanência, de coleção, do que o branco. O vinho branco,
com dois, três anos, já deu o que tinha de dar.
SARDENBERG: O vinho sofre muito quando a garrafa passa por A socialite e o decantador
intensa movimentação?
RENATO MACHADO: Sem dúvida. Há, inclusive, algumas teorias que
dizem que o vinho feito no Hemisfério Norte sofre muito
quando cruza o Equador para o Hemisfério Sul. Não sei se
isso pode ser comprovado cientificamente, mas outro dia eu
estava falando com o diretor Jonathan Nossiter, do filme
Mondovino, e ele contou que os vinhos dele que vieram para
cá tiveram um ritmo de envelhecimento muito mais rápido do
que tinham no Hemisfério Norte. Ou seja, no momento em
que estão em contato com o clima tropical, seu
amadurecimento é muito mais veloz.
SARDENBERG: Tiago Costa quer saber se o decantador é mesmo
eficaz.
RENATO MACHADO: O decantador é aquela garrafa de cristal ou
transparente na qual se verte o vinho da garrafa original para
que respire. Isso se faz com vinhos com um pouco mais de
idade, quando se cria um depósito na garrafa e, para filtrar
isso, passa-se no decantador. Agora, o decantador é um
objeto bonito, que impressiona na coleção do enófilo, mas não
era muito usado na França para vinhos jovens, tampouco na
Itália ou na Espanha. Evidentemente, ele melhora muito os
vinhos tintos, inclusive os novos. Para o vinho branco não
acho necessário, porque em geral ele é fresco e não precisa
amadurecer. É utensílio que se pode passar sem ele, mas
passa-se melhor com ele.
SARDENBERG: Você conhece a história daquela socialite que ficava
chateada com o uso do decantador porque não dava para os
participantes do jantar saberem qual era o vinho que estava
sendo servido? Sabe o que ela fazia? Ela retirava o rótulo da
garrafa e colava no decantador.
RENATO MACHADO: Essa é uma das histórias que se contam do
decantador. É claro que quando se usa o decantador se põe a
garrafa original ao lado para o convidado saber o que está
tomando. Isso é mais fácil do que toda a operação da socialite. O bacalhau em
boa companhia
SARDENBERG: Ronaldo Vilela, do Rio de Janeiro, vai preparar um
bacalhau à moda portuguesa, com postas altas, batatas,
cebola. Ele tem três opções de vinhos portugueses e pede para
você escolher: um branco Pêra Manca 2002 ou os tintos
Quinta do Meandro 2001 ou Quinta do Crato Reserva 2000.
RENATO MACHADO: Difícil a escolha, pois os três vinhos são
excelentes. O Pêra Manca branco é um vinho mais fresco e
talvez não seja indicado para esse bacalhau, com todos esses
molhos e farturas. Acho que o mais indicado é o Meandro
2001, embora o Quinta do Crato seja um excelente vinho — e
poderia ser a segunda garrafa a ser aberta.