O Assunto é Vinho

Carlos Alberto Sardenberg e Renato Machado · Capítulo 14 de 53

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O Assunto é Vinho

SARDENBERG: Pergunta de Nilson Cunha, de Brasília: o vinho tinto

Tinto ou branco?

 

SARDENBERG: Pergunta de Nilson Cunha, de Brasília: o vinho tinto

pode ser considerado, do ponto de vista de suas qualidades

físico-químicas e nutricionais, superior ao vinho branco?

RENATO MACHADO: Essa é uma boa pergunta. O vinho tinto, em

alguns aspectos, pode até ser considerado melhor que o

branco. Por exemplo, em relação à presença de taninos e

polifenóis que, como dizem os cardiologistas, combatem os

radicais livres. O tinto tem resveratrol na casca da uva, essa

substância que a maioria dos médicos diz que pode combater

os radicais livres, e o vinho branco já não teria tanto. E do

ponto de vista de conservação também, porque o tinto

suporta mais o tempo e as mudanças de temperatura e

geográficas. O vinho branco é mais frágil. Agora, em relação à

elegância, a discussão pode se eternizar.

SARDENBERG: É uma questão de opinião?

RENATO MACHADO: Sim, e vai depender do que se pretende com o

vinho. Se é fazer um vinho aromático, ou encantador, ou se é

fazer um vinho para ficar antigo, para ser comemorado dali

20 anos. Ou seja, há variáveis que vão determinar o gosto do

consumidor. Não se pode dizer que um seja melhor que o

outro, mas o vinho tinto talvez tenha mais qualidades de

permanência, de coleção, do que o branco. O vinho branco,

com dois, três anos, já deu o que tinha de dar.

SARDENBERG: O vinho sofre muito quando a garrafa passa por A socialite e o decantador

intensa movimentação?

RENATO MACHADO: Sem dúvida. Há, inclusive, algumas teorias que

dizem que o vinho feito no Hemisfério Norte sofre muito

quando cruza o Equador para o Hemisfério Sul. Não sei se

isso pode ser comprovado cientificamente, mas outro dia eu

estava falando com o diretor Jonathan Nossiter, do filme

Mondovino, e ele contou que os vinhos dele que vieram para

cá tiveram um ritmo de envelhecimento muito mais rápido do

que tinham no Hemisfério Norte. Ou seja, no momento em

que estão em contato com o clima tropical, seu

amadurecimento é muito mais veloz.

 

SARDENBERG: Tiago Costa quer saber se o decantador é mesmo

eficaz.

RENATO MACHADO: O decantador é aquela garrafa de cristal ou

transparente na qual se verte o vinho da garrafa original para

que respire. Isso se faz com vinhos com um pouco mais de

idade, quando se cria um depósito na garrafa e, para filtrar

isso, passa-se no decantador. Agora, o decantador é um

objeto bonito, que impressiona na coleção do enófilo, mas não

era muito usado na França para vinhos jovens, tampouco na

Itália ou na Espanha. Evidentemente, ele melhora muito os

vinhos tintos, inclusive os novos. Para o vinho branco não

acho necessário, porque em geral ele é fresco e não precisa

amadurecer. É utensílio que se pode passar sem ele, mas

passa-se melhor com ele.

SARDENBERG: Você conhece a história daquela socialite que ficava

chateada com o uso do decantador porque não dava para os

participantes do jantar saberem qual era o vinho que estava

sendo servido? Sabe o que ela fazia? Ela retirava o rótulo da

garrafa e colava no decantador.

RENATO MACHADO: Essa é uma das histórias que se contam do

decantador. É claro que quando se usa o decantador se põe a

garrafa original ao lado para o convidado saber o que está

tomando. Isso é mais fácil do que toda a operação da socialite. O bacalhau em

boa companhia

 

SARDENBERG: Ronaldo Vilela, do Rio de Janeiro, vai preparar um

bacalhau à moda portuguesa, com postas altas, batatas,

cebola. Ele tem três opções de vinhos portugueses e pede para

você escolher: um branco Pêra Manca 2002 ou os tintos

Quinta do Meandro 2001 ou Quinta do Crato Reserva 2000.

RENATO MACHADO: Difícil a escolha, pois os três vinhos são

excelentes. O Pêra Manca branco é um vinho mais fresco e

talvez não seja indicado para esse bacalhau, com todos esses

molhos e farturas. Acho que o mais indicado é o Meandro

2001, embora o Quinta do Crato seja um excelente vinho — e

poderia ser a segunda garrafa a ser aberta.