O Assunto é Vinho

Carlos Alberto Sardenberg e Renato Machado · Capítulo 6 de 53

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O Assunto é Vinho

SARDENBERG: Renato, vamos falar sobre rolhas que às vezes estão

 

estragadas.

RENATO MACHADO: Muitas vezes.

SARDENBERG: E aí, o vinho dançou?

RENATO MACHADO: Completamente. É uma vulnerabilidade, que

aqui no Brasil chega a ser um risco, com uma incidência

grande, pois é uma constante. Dos vinhos de 2000 para trás,

a média é de uma garrafa em cada 12 estar estragada por

problemas de rolha.

SARDENBERG: E por quê?

RENATO MACHADO: Desenvolve-se na cortiça uma bactéria. Às vezes

no ar ou em garagens, galpões, portos ou até em residências,

a rolha desenvolve uma bactéria que provoca um ácido

chamado tricloroanisol, o TCA. Essa substância faz a rolha

apodrecer e lhe confere um odor repulsivo. Quando você tira a

rolha, sente imediatamente. Daí vem a tradição de cheirar o

vinho e examinar a rolha cada vez que se abre uma garrafa.

SARDENBERG: Agora, a regra é: quando a rolha está muito molhada

é sinal de que o vinho não está bom?

RENATO MACHADO: Não, é sinal de que o vinho amadureceu além

da conta, ou seja, acelerou-se o processo de evolução. Não

quer dizer que esteja estragado. Se a rolha ficou umedecida No frio, vale tudo

na parte de fora significa que o vinho correu até ali, e a via

contrária está aberta — ou seja, o oxigênio entrou na garrafa

—, o que pode ter apenas acelerado a maturação do vinho,

mas não quer dizer que esteja estragado. Não é das melhores

indicações. Em geral, a rolha está muito úmida quando o

vinho já está evoluído demais, mas não quer dizer que esteja

com TCA.

 

SARDENBERG: Existe alguma coisa especial para os períodos de

frio?

RENATO MACHADO: Olha, qualquer vinho vai combinar com o

inverno. Não podemos nos esquecer que os vinhos servidos

frios também são uma marca do inverno, como os

espumantes em todas as ocasiões, por exemplo. Mas é

evidente que o aconchego do vinho é associado ao tinto, à

lareira, ao fondue de queijo, aos molhos muito espessos, aos

jantares mais opulentos. Claro que um vinho tinto com uma

gradação alcoólica um pouco maior (pelos 14 graus), grandes

vinhos que eu chamo de mais carnudos, do Chile, da

Califórnia, de Portugal, sem esquecer que Itália e Espanha

têm contribuições a fazer. Qualquer vinho bem-estruturado,

com gradação alcoólica de 14 graus, é indicado para o

inverno.

SARDENBERG: Mas se quiser pode tomar os outros vinhos também?

RENATO MACHADO: Sem dúvida. O vinho é associado ao inverno

porque você dissipa melhor as calorias. O vinho ajuda a

enfrentar o frio.

SARDENBERG: A gente tem sempre um motivo para tomar um

vinho, não é, Renato?

RENATO MACHADO: Ah, claro, Sardenberg. Sobretudo você, que todo

dia tem uma sugestão e um pretexto.