O Assunto é Vinho

Carlos Alberto Sardenberg e Renato Machado · Capítulo 3 de 53

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O Assunto é Vinho

SARDENBERG: Você entrevistou o Jonathan Nossiter, diretor do

 

filme Mondovino. O que acha do filme?

RENATO MACHADO: O filme é altamente polêmico, destinado a

causar polêmica, porque o diretor é uma pessoa que tem uma

visão muito definida, romântica, lírica, não só do mundo do

vinho como do mundo em geral. É uma pessoa que valoriza a

simplicidade, as relações pessoais, a honestidade a toda

prova, é síntese de um pensamento inglês e americano

também: “Small is beautiful”. Ou seja, o que é pequeno é

bonito, é bom. O que faz, muitas vezes, você pensar que o que

é grande será necessariamente mau e destruidor. O filme

opõe essas duas verdades, o pequeno produtor diante da

onda dominadora da globalização, seja lá o que isso queira

dizer. E os personagens confirmam essas duas vertentes, sem

que o diretor os tenha induzido a isso, o que dá uma visão

muito dividida do mundo do vinho.

SARDENBERG: É uma visão antiglobalização?

RENATO MACHADO: Totalmente, o que às vezes pode até parecer um

pouco simplista afinal o acesso de largas camadas da

população ao vinho, antes voltadas para as bebidas destiladas

e cerveja, só foi possível graças a esforços de investimento,

industriais etc. Agora, o filme não contempla isso dessa

forma, de maneira que está destinado a causar muita

polêmica, como já causou nos Estados Unidos.

SARDENBERG: Você acha que essa globalização é realmente

negativa?

RENATO MACHADO: Não, não acho que seja negativa. A globalização

tem efeitos muito positivos na conquista de novos espaços. É

evidente que ela não pode ser deletéria nem destruidora. Ela

está aí para permitir que as pessoas possam ter o direito de

escolha. É claro que a globalização não pode significar a

concorrência desleal, a ação devastadora, nem a cartelização,

o monopólio. Enfim, há vários efeitos que necessitam de

regulação. Agora, não se pode dizer que há 20 ou 30 anos o

que se fazia de vinho no mundo talvez desse para o consumo

de hoje.

SARDENBERG: Há vinhos melhores hoje?

RENATO MACHADO: Sem dúvida. O nível de produção, até mesmo

um dos demônios do filme, o Robert Parker, depois que ele

entrou em cena, o nível de qualidade dos vinhos europeus

aumentou muito, na Itália, na Espanha, em Portugal e,

sobretudo, em Bordeaux, que foi o primeiro alvo de Parker.

Agora, dizer que todos os vinhos tenham de estar ao gosto do

crítico Robert Parker, isso não se pode admitir. De fato, aí o

filme tem até razão, ao afirmar que a uniformização leva a um

outro tipo de ditadura do gosto.