O Assunto é Vinho
SARDENBERG: Você entrevistou o Jonathan Nossiter, diretor do
filme Mondovino. O que acha do filme?
RENATO MACHADO: O filme é altamente polêmico, destinado a
causar polêmica, porque o diretor é uma pessoa que tem uma
visão muito definida, romântica, lírica, não só do mundo do
vinho como do mundo em geral. É uma pessoa que valoriza a
simplicidade, as relações pessoais, a honestidade a toda
prova, é síntese de um pensamento inglês e americano
também: “Small is beautiful”. Ou seja, o que é pequeno é
bonito, é bom. O que faz, muitas vezes, você pensar que o que
é grande será necessariamente mau e destruidor. O filme
opõe essas duas verdades, o pequeno produtor diante da
onda dominadora da globalização, seja lá o que isso queira
dizer. E os personagens confirmam essas duas vertentes, sem
que o diretor os tenha induzido a isso, o que dá uma visão
muito dividida do mundo do vinho.
SARDENBERG: É uma visão antiglobalização?
RENATO MACHADO: Totalmente, o que às vezes pode até parecer um
pouco simplista afinal o acesso de largas camadas da
população ao vinho, antes voltadas para as bebidas destiladas
e cerveja, só foi possível graças a esforços de investimento,
industriais etc. Agora, o filme não contempla isso dessa
forma, de maneira que está destinado a causar muita
polêmica, como já causou nos Estados Unidos.
SARDENBERG: Você acha que essa globalização é realmente
negativa?
RENATO MACHADO: Não, não acho que seja negativa. A globalização
tem efeitos muito positivos na conquista de novos espaços. É
evidente que ela não pode ser deletéria nem destruidora. Ela
está aí para permitir que as pessoas possam ter o direito de
escolha. É claro que a globalização não pode significar a
concorrência desleal, a ação devastadora, nem a cartelização,
o monopólio. Enfim, há vários efeitos que necessitam de
regulação. Agora, não se pode dizer que há 20 ou 30 anos o
que se fazia de vinho no mundo talvez desse para o consumo
de hoje.
SARDENBERG: Há vinhos melhores hoje?
RENATO MACHADO: Sem dúvida. O nível de produção, até mesmo
um dos demônios do filme, o Robert Parker, depois que ele
entrou em cena, o nível de qualidade dos vinhos europeus
aumentou muito, na Itália, na Espanha, em Portugal e,
sobretudo, em Bordeaux, que foi o primeiro alvo de Parker.
Agora, dizer que todos os vinhos tenham de estar ao gosto do
crítico Robert Parker, isso não se pode admitir. De fato, aí o
filme tem até razão, ao afirmar que a uniformização leva a um
outro tipo de ditadura do gosto.