O Assunto é Vinho
O sucesso dos vinhos verdes
SARDENBERG: O que são vinhos verdes?
RENATO MACHADO: São vinhos de baixa maturação, não são
amadurecidos e a primeira fermentação é logo engarrafada.
Tradicionalmente, é consumido em Portugal, e é levemente
alcoólico, com 9 graus. Hoje mudou tudo: já se fazem vinhos
verdes com 12,5% de álcool, que é o que o mercado
internacional exige. Os vinhos têm a pretensão de ser
aromáticos. Jovens, mas aromáticos. Nada a ver com os
vinhos verdes de antigamente.
SARDENBERG: O que é maceração carbônica?
RENATO MACHADO: É um tipo de primeira fermentação junto com
as cascas de uva, o que dá algum açúcar ao primeiro caldo
que se forma. E esses vinhos verdes de antigamente tinham
muito açúcar residual na uva e baixa gradação alcoólica, que
era do gosto dos portugueses da época — e não é do gosto do
mercado internacional de agora. Mas os vinhos verdes atuais
ganharam denominação de origem e hoje em dia se fazem
vinhos aromáticos.
SARDENBERG: E nós gostamos?
RENATO MACHADO: Nós gostamos do vinho verde atual, e achamos
que o vinho verde tradicional tem apenas a poesia da
tradição, e mais nada.
Vinho de uma uva
só ou misturado?
SARDENBERG: O que dá mais certo, o vinho de uma uva só ou essas
misturas?
RENATO MACHADO: Esta é uma resposta que não pode ser absoluta,
ela é relativa. Depende da região, depende do que se pretende
fazer com o vinho, porque o vinicultor parte já com uma idéia
definida se ele vai fazer uma mistura. A questão é fazer isso se
for possível. Na Borgonha, por exemplo, não se pode fazer
vinho de mistura. Tem de ser de varietal, de uma uva só, no
caso a pinot noir para os tintos e a chardonnay para os
brancos. Em outros locais, quando sai fora de uma
denominação — por exemplo, na Toscana, quando não se
chama uma denominação toscana, é permitido. Então, os
vinicultores tentam modificar um pouco o terreno ou a
natureza para obter um resultado com assinatura própria. A
mistura mais famosa é a de Bordeaux, é claro, que varia ano
a ano.
SARDENBERG: É uma mistura do quê?
RENATO MACHADO: Na região de Pauillac, na margem esquerda do
rio, predominância de Cabernet sauvignon com um pouco de
merlot, um pouco de petit verdot e, às vezes, de cabernet franc.
Na margem direita do rio, predominância de merlot e Cabernet
franc. E no sul de Bordeaux varia, é meio a meio. Agora,
nunca se sabe exatamente o que foi acrescentado, às vezes Vinho fantasia
5% de um determinado tipo para dar aquele traço que
caracteriza uma safra especial.
SARDENBERG: E isso é mantido em segredo?
RENATO MACHADO: Sim, e se você for perguntar nas vinícolas eles
dizem que é tantos por cento disso e daquilo, mas exatamente
nunca se saberá. Como no vinho do Porto, aliás.
SARDENBERG: Que é para ninguém ficar copiando.
RENATO MACHADO: Exatamente. Como as casas de champanhe, que
fazem vinhos de mistura.