O Assunto é Vinho

Carlos Alberto Sardenberg e Renato Machado · Capítulo 16 de 53

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O Assunto é Vinho

O sucesso dos vinhos verdes

 

SARDENBERG: O que são vinhos verdes?

RENATO MACHADO: São vinhos de baixa maturação, não são

amadurecidos e a primeira fermentação é logo engarrafada.

Tradicionalmente, é consumido em Portugal, e é levemente

alcoólico, com 9 graus. Hoje mudou tudo: já se fazem vinhos

verdes com 12,5% de álcool, que é o que o mercado

internacional exige. Os vinhos têm a pretensão de ser

aromáticos. Jovens, mas aromáticos. Nada a ver com os

vinhos verdes de antigamente.

SARDENBERG: O que é maceração carbônica?

RENATO MACHADO: É um tipo de primeira fermentação junto com

as cascas de uva, o que dá algum açúcar ao primeiro caldo

que se forma. E esses vinhos verdes de antigamente tinham

muito açúcar residual na uva e baixa gradação alcoólica, que

era do gosto dos portugueses da época — e não é do gosto do

mercado internacional de agora. Mas os vinhos verdes atuais

ganharam denominação de origem e hoje em dia se fazem

vinhos aromáticos.

SARDENBERG: E nós gostamos?

RENATO MACHADO: Nós gostamos do vinho verde atual, e achamos

que o vinho verde tradicional tem apenas a poesia da

tradição, e mais nada.

Vinho de uma uva

só ou misturado?

 

SARDENBERG: O que dá mais certo, o vinho de uma uva só ou essas

misturas?

RENATO MACHADO: Esta é uma resposta que não pode ser absoluta,

ela é relativa. Depende da região, depende do que se pretende

fazer com o vinho, porque o vinicultor parte já com uma idéia

definida se ele vai fazer uma mistura. A questão é fazer isso se

for possível. Na Borgonha, por exemplo, não se pode fazer

vinho de mistura. Tem de ser de varietal, de uma uva só, no

caso a pinot noir para os tintos e a chardonnay para os

brancos. Em outros locais, quando sai fora de uma

denominação — por exemplo, na Toscana, quando não se

chama uma denominação toscana, é permitido. Então, os

vinicultores tentam modificar um pouco o terreno ou a

natureza para obter um resultado com assinatura própria. A

mistura mais famosa é a de Bordeaux, é claro, que varia ano

a ano.

SARDENBERG: É uma mistura do quê?

RENATO MACHADO: Na região de Pauillac, na margem esquerda do

rio, predominância de Cabernet sauvignon com um pouco de

merlot, um pouco de petit verdot e, às vezes, de cabernet franc.

Na margem direita do rio, predominância de merlot e Cabernet

franc. E no sul de Bordeaux varia, é meio a meio. Agora,

nunca se sabe exatamente o que foi acrescentado, às vezes Vinho fantasia

5% de um determinado tipo para dar aquele traço que

caracteriza uma safra especial.

SARDENBERG: E isso é mantido em segredo?

RENATO MACHADO: Sim, e se você for perguntar nas vinícolas eles

dizem que é tantos por cento disso e daquilo, mas exatamente

nunca se saberá. Como no vinho do Porto, aliás.

SARDENBERG: Que é para ninguém ficar copiando.

RENATO MACHADO: Exatamente. Como as casas de champanhe, que

fazem vinhos de mistura.