O presbytério da montanha

António Feliciano de Castilho · Capítulo 10 de 78

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O presbytério da montanha

Capítulo VII

dispenseiro, no centro da abundancia das messes, e saudal a com a invocação de um Pastorinho santo?

O caminho publico atravessa desde o sobreiral de S. Sebastião, por entre duas grinaldas de oliveiras e vinha, o meu passal até ao adro; costeia a egreja e a casa pela direita, e, em demanda da serra alta, lá se vai mergulhando para a ponte, deixando n'uma de suas orlas a frescura sombria da fonte sobre as hortas, na outra os remanescentes da egreja antiga, um altar de pedra n'uma capella, meia de pedra meia de silvas, assoberbada com um S. Jorge de marmore, a cavallo, a brandir ainda um troço de lança enferrujado de musgo.

 

VII

 

Detenhâmo-nos poucos minutos, se vos apraz, ao-pé d'este altar, onde já ninguem ajoelha, sobre sepulturas que hoje são tremoços, e recordemos a obscura historia d'este sitio.

¿Por que razão só as grandes ruinas se hão-de haver por merecedoras de attenção? Todo o passado é poetico; todo o evocar imagens humanas de sob a terra que pisamos, é proveitoso para alguma coisa. Nas solidões, mormente como esta, consola o saber que nem sempre a brenha foi brenha, e que onde hoje, por entre o rugir das folhas, só algum pipilar de ninho quebra a mudez da Natureza, houve outr'ora actividade, affectos bons, e até festas.

Cabe pois saber, que, em tempos mui afastados, viveu na povoasinha da Talhada, logar emboscado, de pouco sol, pouca terra, e achegado pela margem de cá ás aguas do S. João do Monte, que logo a diante troca o nome no de S. Mamede, um moço por nome Jorge, humilde de geração como tudo quanto por ali nasce e se cria, mas de coração alto e espiritos levantados.

Namorára-se Jorge (me contou n'um serão do Natal uma velha, que o ouvira em pequenina a seus paes, que o tinham recebido não sabia de quem)... mas emfim, namorára-se, que o sabia ella, de certa moça de alem-rio, guardadora de cabras, mas filha de um Capitão, e sobrinha em primeiro grau de um snr. Vigario. Lá de baixo, perto da sua vivenda entre penedos, levava, os dias com os olhos sempre içados aos cabeços de Falgozelhe, na outra banda, á caça da sua saia de serguilha, ou do seu sombreiro preto; e ainda não de todo malcontente, quando, por entre os penedos pardos e as urzes côr de fogo, a enxergava, pendurada á borda do precipicio, e pascendo descançadamente uma das cabrinhas que obedeciam á sua voz melodiosa.

A voz da serrana era em verdade um dos seus dotes. Quando a esperdiçava cantando n'aquellas solidões, parecia-lhe a elle, que lá de baixo lh'a estava captando com ambas as mãos, escutar um Anjo de amor escondido entre as nuvens; e quereria mal até ao rouxinol que lh'a interrompesse, porque não sabia de coisa mais de molde para o seu coração.

Vel-a á sua vontade, não a via se não aos domingos na egreja; e nem então, que para esses dias tinha ella umas roupinhas muito sécias, meias muito alvas, e tamancos de galão de oiro, que o aterravam, mostrando-lhe que maiores obstaculos ainda haviam posto entre os seus affectos a fortuna e o nascimento, do que entre as suas vivendas a corrente das aguas. Fazem-se pontes para os rios; não se fazem que prestem para communicar dois estados tão diversos.

 

*

Amor verdadeiro pode ser platonico algum tempo; mas é poesia; e poesia não é vida. Ousou, e declarou-se a medo á sua formosa; não foi repellido. Affoitou-se a mais: ao impossivel. Abriu-se com o tio Vigario em confissão. O que entre elles se passou, não se sabe; taboas de confessionario não são carvalhos dodónios que chocalhem tudo. O que se sabe, é que a moça não tornou a apascentar para aquella banda, e que elle, pouco depois, deixou a terra, onde tinha mãe e irmãos pequenos, sem dizer nada a ninguem, e não levando senão o fatinho que tinha no corpo, o seu cajado, o seu espirito, que segundo dizem, era grande, e o seu amor, que não era pequeno.

Constou, ao cabo de annos, que se tinha ido embarcar em um navio d'el Rei, e que se abalára por esses mares de Christo, sabe Deus para onde, e para quê.....

No meio de uma furiosa tormenta, correndo grande perigo de perdimento, assim a fazenda que andára moirejando, como a propria vida, apegou-se com o Santo do seu nome, e lhe prometteu que, se o levasse com tudo seu a terra de salvamento, lhe mandaria fundar, e lhe dotaria, uma capella da sua invocação com duas Missas por semana, defronte de Falgozelhe, onde vivia a noiva do seu coração, por cima da Talhada, onde tinha os irmãos e a mãe, e pegada com a egreja onde o baptisaram a elle, e onde a avistava todos os domingos.....

Mas de crer é que n'essa imagem se não demoraria muito em semelhante lance, em que as ondas formavam, por instantes montanhas tão altas e escarpadas, porém mais temerosas e feias que ess'outras, entre cujas quebradas, e por cujos visos, elle variára a sua infancia.

Acudiu-lhe o Santo; e Jorge cumpriu o promettido.

Tornou á Talhada, erigiu a capella, comprou fazendas em Angeja, que em boa e devida forma lhe adscreveu para o seu culto, e nunca mais tornou a aventurar-se sobre aguas do mar.

Reliquias são pois da sua obra a Imagem e as pedras que ainda ali se divisam. O de mais, já desgastado do tempo, foi demolido, para ir servir como materiaes na edificação de parte da residencia, e da egreja nova, que já sabeis lhe estão visinhas.

 

*

—¿Mas o fim de seus amores?—me perguntareis vós.

Memoria é essa que eu tambem procurei, porém não consegui desencantal-a.

O que só pude desenterrar da tradição, foi: que este mesmo Jorge viera a casar-se na freguezia; que tivera um filho nascido na póvoa da Talhada; que este se ordenára de Clérigo, fôra a Roma, e arribára a Cardeal; em memoria do que, ainda na actual egreja se conserva, herdada da antiga, e mandada por elle de Roma para aquellas suas brenhas muito amadas, uma Cruz de quatro palmos de altura e um de largura, com braços em baixo e em cima, oleada de verde, doirada nas pontas, e n'ella pintados tres cravos, duas chagas, e uma corôa de espinhos.

Vê se, venera-se, e commenta-se, como o acabamos de dizer, pendente na parede do arco cruzeiro da banda direita; e affirma-se, que na capella de S. Jorge permanecêra com egual honra em quanto ella durou.

Agora, se este em Roma purpurado, filho da rustica humildade de uma póvoa, em que o maior personagem que descobri foi um fuzeiro velho, e onde o que só fazia bulha no meu tempo era um pequeno moinho, rôto por todos os lados aos ventos e chuvas, foi, ou não, nascido do consorcio a que o Padre Vigario e seu irmão se tinham opposto, eis ahi o que eu não alcancei; e não quero invental-o. Provavel me parece que sim, quando me lembro do que a minha velha me contava d'aquelles amores, e o combino com a ideia que formei da constancia no bem querer dos moradores da minha serra.

A moça deveu de conservar-se donzella, e fiel. Quanto a Jorge, qualquer apostaria que o foi sempre. A fortuna entulhára com riqueza o abysmo que os separava; e S. Jorge, que não é Santo para meias victorias, havia forçosamente de pagar com bizarria o obsequio do seu devoto.