O presbytério da montanha

António Feliciano de Castilho · Capítulo 14 de 78

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O presbytério da montanha

Capítulo XI

Este ponto, porém, outros mais sabedores que o investiguem, se vale a pena, como cuido; que eu me torno do Caramulo para o centro dos meus affectos.

 

XI

 

Nada concita aos logares veneração, como a antiguidade.

Bem quizera eu poder historiar d'estes meus sitios para além de Moiros, Normandos, e Romanos; mas, por mais que a procure, não rastejo noticia d'essas edades, com que fazer obra.

Se por ahi passaram em algum tempo successos grandes, se houve memoraveis edificios, se varões insignes pisaram aquellas terras, nem ruinas o attestam, nem documentos o declaram, nem tradições o denunciam. O solo enguliu tudo; e nenhum acaso lhe fez ainda restituir uma pedra ou letra para enigmas.

Só ao sudoeste de Falgozelhe, já fóra da sua lavoira, na primeira valleira que se encontra á direita do caminho indo para Agueda, se vê uma fiada de umas como torrinhas, que se estende por mil e quarenta palmos; das quaes torrinhas, só duram hoje em dia os alicerces, e algumas porções deseguaes de muros esboroados a delir-se.

E descendo esta valleira duzentos e vinte e cincos palmos, se dá em uma furna chamada «a buraca da cerejeirinha», aberta a picão em rocha viva; a qual tem na bocca oito palmos e meio de altura, quatro e meio de largura, e cento e vinte e cinco de comprimento. Da furna é geral fama que fôra aberta pelos Moiros.

 

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Em tempos de mais abusão do que estes nossos, acreditou se, dizem os netos, que morava ali Moira encantada, que, todas as madrugadas de S. João, sahia muito pontual e ritualmente, a assoalhar os seus thesoiros por cima dos penedos, entre os mattos orvalhados.

N'esses seculos, entendido está que o terror lhe velava a estancia, e que ninguem se affoitou nunca a ir lá dentro.

Algum Principe afortunado deveu de desencantar a Moira, que actualmente já não ha novas d'ella. As pastoras levam sem medo os rebanhos para a sua visinhança; cantam aos seus hombraes trovas muito christans; e quem quer, lhe devassa (como eu fiz) o seu palacio subterraneo.

A opinião dos modernos tem, que fôra aquella mina aberta, pelos Moiros sim, mas não para tirar oiro, que é sempre a primeira conjectura, nem para serventia militar, que é sempre a segunda, se não só, e prosaicamente, á busca de agua, que em verdade de lá mana, muito fresca e saborosa, mas em pequena copia.

 

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Sobre as fortificações engenha cada um a sua hypóthese.

Ha quem as supponha posteriores á invenção da artilharia, por se lhe figurar que só a taes armas podiam ser apropriadas; e ha quem aos Moiros as attribua, fundado em que, posto não ficassem d'elles por ali outros vestigios, o arabigo de alguns e muitos nomes de logares demonstra, que elles por lá viveram. E se por lá nasceram e se crearam, não podiam deixar de fortificar-se e defender-se contra commettimentos de inimigos, que é esse um instinto natural a todos os homens, mas nos homens das montanhas mais energico.

 

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Falgozelhe, em verdade se crê ter sido d'elles povoada, posto que o seu nome, se christão não é (como de certo não é), tambem por arabe se não reconhece. ¿Ser-lhe-hia imposto por gente ainda mais antiga?

Mas, sem nos extraviarmos para essas novas brenhas de fabulas, o em que podemos ficar por mais que verosimil é que, por toda aquella serrana região, estanciaram Moiros em seu tempo; e, se ahi deixaram menos rasto que em muitas das terras visinhas, seria porque a bruteza do monte era já então como hoje, que não dava meios nem licença para grandes obras. Pequenas póvoas, que eram o mais a que podiam chegar, muito faziam em tirar da terra pão com que se manterem; ¡quanto mais, erigirem castellos, pontes, ou mesquitas, de que se podessem admirar fragmentos depois de sete seculos!

Rebanhos moiriscos pasceram portanto por aquellas encostas. Por baixo de outros tectos rusticos semelhantes a estes, e por ventura no logar d'estes, se acalentaram creanças com versos do Alcorão. Outras arvores, de que estas são remota descendencia, viram passar á sombra das suas copas esvoaçadas da ventania albornozes de lan grosseira e parda, e turbantes retintos; e bois, que sulcaram com o arado o que hoje é talvez poisio, entendiam as vozes do lavrador arabe, e ficariam confusos e immoveis se revivessem para ouvir as da nossa lingua.

Eis aqui o unico perfume antigo que podemos dar a estes povoados ermos, que eu desejaria fazer tão amados de meus leitores, como de mim o são e serão sempre.

 

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Não digo bem. O falar, e os pensamentos, e os costumes, manteem-se ainda antigos. As novidades das civilisações são como a escravidão, e os diluvios: tarde chegam a engulir as serras.

A Linguagem é ali, como os ares, de uma admiravel pureza e lucidez. Se os diccionarios e livros mestres da nossa Lingua se perdessem, pela conversação corrente d'aquellas aldeias e póvoas se poderia restaurar.

Troca-se mais portuguez de lei, mais riqueza de vocábulos, phraseado, e construcção, n'uma seroada de inverno, ou n'um palrar de sésta de segadores entre carvalheiras rusticas, ao estridor das cigarras amadas de Anacreonte, do que entre o ranger dos prelos e o resfolegar das balas, n'um anno inteiro da melhor typographia de Lisboa.

Muitos dizeres classicos, de que por ahi chacoteiam por affonsinos, como o nanja o bofé, o canté, o quiçá, e mil outros, sôam por lá sem extranheza em boccas de mocinhos de doze annos nos seus folguedos, ou de namoradas de dezoito nos seus desabafos mutuos em vespera de romaria.

Com a honesta herança da Linguagem, veio dos avós aos netos a das crenças e praticas piedosas, e com esta a de muitos seus erros e abusões. São os insectos e musgos parasitas da arvore robustissima da Fé. Abençoada a Philosophia quando acode a limpal-a sem lhe esgalhar os ramos ou cerceal-a pelo pé.

O tempo vai fazendo a pouco e pouco o seu officio. Não ha curas nem reformações mais prudentes e certas do que as suas, quando á força lh'as não ajudam ou contrariam.

Era por essas terras, poucos annos ha, geral e profunda a credulidade de apparições, phantasmas de almas do outro-mundo, Moiras encantadas, thesoiros escondidos e lobis-homens; e ainda hoje a mór parte dos moradores acredita nos esconjuros, feitiços, bruxarias, adivinhações, e virtudes de certas praticas e fórmulas, para curar ou empecer.

Estas abusões, sem deixarem de ser males muilo innegaveis, dão comtudo sua côr poetica muito particular ao Povo, cuja simplicidade primitiva no viver e trajar harmonisam com taes simplezas da intelligencia.

 

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Os figurins parisienses, esses idolosinhos multiformes, a cujo culto vivem adstrictas as gentes das cidades, e muitissima dos campos, são por ora totalmente incognitos na serra. A moda não exerce por lá as suas costumadas devastações de cabedaes, bons costumes, e saude. Os vestuarios e galas de ambos os sexos reproduzem-se com a mesma uniformidade, com que nas suas moitas e arvoredos cada especie vegetal renova as suas folhas e flores.

Os homens vestem de burel, ou saragoça caseira, creada ás costas das suas ovelhas, tosquiada por elles, fiada e tecida por suas mães, mulheres, e filhas, apizoada e tinta (quando o é) sem sahir da freguesia. Trazem grandes chapeos pretos desabados, grande bordão ferrado, menos para defensa, que para arrimo pelo resvaladio das ladeiras, e tamancos cravejados.

As mulheres trajam, sobre camisa de linho ou estopa da terra, sáia de burel de meio pizão, côr de pinhão ou preta, collete comprido justo, sem apêrto, e mandil; isto é, obra de vara e meia de burel mais apertado no tear, e sem pizão, que lhes serve de capa, lançado ao desgarre por sobre os hombros. A cabeça, cobrem-n-a, ou com o mesmo mandil, ou com um chapeo como o dos homens. As suas tamancas são menos grosseiras. O lenço de seda ao pescoço é, como as arrecadas e o cordão de oiro, o ultimo da magnificencia, e as flores da urze ou da carqueja o mais galante enfeite dos seus sombreiros.