O presbytério da montanha

António Feliciano de Castilho · Capítulo 23 de 78

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O presbytério da montanha

Capítulo XX

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Taes são as mais notaveis festas d'esta singela gente.

¿Que inventariam philosophos para lhe dar, quando chegassem a destruir-lh'as com lhe tirarem a Fé?

É uma pergunta simples, mas vale a pena pensar longo na resposta.

 

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Assim crêem, assim folgam, assim vivem, ricos de desavareza, nobres de humildade, e pela rudez ainda sãos, os moradores de S. Mamede da Castanheira do Vouga.

 

XX

 

Que eu por lá versejasse, já a ninguem ficará sendo maravilha; antes, sim, a podéra ser, que de tal assumpto só tal volume se estillasse; mas as rasões d'isso de si mesmas se confessam.

Já eu disse, que os annos que por lá sumi, me foram totalmente desprophetisados; e que nunca esperei, nem cri possivel, que houvessemos jámais, eu nem coisa minha, de reparecer no mundo.

Assim, só por desabhorrimento é que poetava de longe em longe; isto é: poetava por fóra, e no papel, que no coração e no animo estava eu comigo a fazel-o a toda a hora; e a melhor poesia (de leve me acreditarão os que d'isto sabem) não foi a que se escreveu, se não a que deslizou suave, entre sonhada e sentida, na profundez dos ermos, onde tudo canta, suspira e medita.

Escrever só para si, não sei que ninguem escreva; é trabalho supérfluo, e que, se dá fruto, o dá ruim, que de pêco e descorado nos desconsola.

¿Pois qual é, em boa verdade, o pensamento, ou affecto, que no trabalho de se corporificar para sahir a lume e correr por mãos e olhos, não perde muito do seu primitivo ser, ou da sua energia, ou da sua graça, ou do seu calor, ou do seu brilho, ou do seu aroma, ou do que quer que seja que era seu, e que era elle mesmo em grande parte?

Isto dos livros não são senão uns retratos mortos, umas toadas, reflexos, e sombras, de festas que se fazem n'um interior, e de que os passageiros, por mais que se lhes abram as janellas, e que elles appliquem os olhos e ouvidos, só podem perceber a totalidade, e conjecturar as circumstancias.

O escrever, o material, sujo, e ronceiro escrever, cede tanto em foros de expressivo ao falar precipitado e caudaloso, como a palavra (ainda para os maiores mestres e senhores d'ella) cede, e ha de sempre ceder, ás concepções e aos affectos.

 

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Outra explicação da exiguidade, e tenuidade (que peor é) do livrinho, está em que a maior e melhor parte dos condões e feitiços da montanha, que ora cá ao longe me apparecem tão inteiros e gentis, então que eu os tratava e d'elles vivia colmado, me não faziam os effeitos, que atravéz dos vidros da saudade me produzem.

Para bem apreciar aquillo (como tudo) foi mistér havel-o perdido; que já por isso dizia Rousseau, que nunca tão bem falaria da liberdade, como entre ferros da Bastilha.

¿Onde é que nos ri a imagem da primavera a abrolhar? é no meio do outono a desvestir-se. ¿A do verão, que tressúa afogueado? no inverno, que tirita e se encanece de geada.

¿A meninez, com todas suas lagrimas e captiveiros, não é paraiso, para onde todos, todos, nos quizéramos tornar?

¡Que bem que o Poeta cantava: «Aventurados em summo extremo os camponezes, se acabassem de entender os bens que logram!»

Quanta poesia eu aspirei, e para mim vivi, sem me sentir nem o cuidar, é este prosaico e glacial viver, quem agora de instante a instante m'o explica.

Á saudade me acodem as delicias de jazer sobre feno, peito e collo descobertos, ao phantasioso ramalhar da nogueira velha, quando importunas obrigações me veem ripar e consumir as semanas a dia e dia, os dias a hora e hora, as horas a minuto e minuto.

Pela conversação pacifica das moitas e torrentes me definho, quando, no mais fortuito, no mais leve, tratar com homens me aguardam sempre desencantamentos, desconsolos, rasões para os desprezar, ou para fugil-os.

Lá, volta-se sempre para a poisada mais alegre, ou melhor. Aqui, pelo contrario, ou sempre peor, ou sempre mais triste.

Lá, a benevolencia é semente de benevolencia, para dar cento por um. Aqui, é grão que sempre degenéra, ou não germina, ou brota villans ingratidões, que envergonham até a quem as ouve.

Lá, o folgar é franco, e as festas são festas. Aqui, o folgar é escaço e fingido; as festas, tumulto, ou, mais de pressa, encoberto circo de gladiadores, que armados com a verdade e com a mentira se acutilam uns aos outros, e aos ausentes, e aos amigos, e aos finados.

O mais dextro no pungir e envenenar, esse se pavoneará pelo mais cortesão e de maior donaire; far-lhe-hão roda; e em vez de o esbofetearem, e de o compellirem a se enforcar como o Iscariotes por sua mão, para escarmento a sevandijas e lição a paes que estão creando feras bravas para andarem sôltas no povoado, hão-de applaudil-o por medo, apertar lhe a mão dissimulando o nojo, e recebel-o muitos em suas salas, com sabel-o expulso de muitas portas.