O presbytério da montanha

António Feliciano de Castilho · Capítulo 37 de 78

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O presbytério da montanha

Introducção (que É Melhor Dormir, que Ler)

INTRODUCÇÃO

(QUE É MELHOR DORMIR, QUE LER)

 

(Ermo alpestre entre cabeços de rocha e pinheiros, na serra do Caramulo. É noite escura como breu. O autor e um arrieiro, ambos a cavallo, transviados na montanha.)

 

I

 

—Bem lh'o disse eu, perdemos o caminho; a velha era por força alguma bruxa.

Logo eu zanguei co'a cara e mais co'a touca! —Bom; a pobre mulher (¿que mais querias?) tres vezes t'o ensinou.

—Nem trinta vezes

que eu passasse por elle, o aprenderia;

a não ser pelo rasto que deixasse

esmurrando o nariz por essas lapas.

Já levo sem ferrage ambas as mulas;

perdeu-se o norte; não descubro casa,

nem gente, nem caminho, e é quasi noite. Patrão, por meia legua mais ou menos,

não se deixa uma estrada como aquella,

que costeava o monte á beira da agua.

A velha era uma bruxa, e nós dois asnos. —Dize um que vale dois, mas dois não digas. Se tomámos o atalho em vez da estrada, toda a culpa foi tua; eu não queria,

porem teimaste; e eu não me opponho a teimas. —Mas eu ¿por que teimei? ¡pois se a maldita, com ar de santa, e palavrinhas manças,

nos rabiscou co'o pau no pó da estrada

tão claramente as idas, as venidas

d'esta serra sem fim, não lhe escapando

lomba, moiteira, torcicólo ou brenha,

que a mula mesma entenderia o mappa!

¿Quem não cahia em tal? cahiam todos.

E de mais ¿quem nos diz que aquelles riscos não tinham diabrura ou nigromancia

capazes de encarchar um Santo em carne? ¿E quem me diz a mim que a grenha russa não vai ao pé de nós? ¡talvez sentada

na anca da mula!... ¡fúgite, demonios!

Meu Doutor, pelo mundo ha muita coisa;

quem mais anda, mais sabe; e eu não sou tolo, nem creancinha de honte. ¡Olha o diabo! bem digo eu; a azinhaga aqui poz ponto;

caminho... ¡era uma vez! ¡Má raio a parta! ¿que havemos de fazer nestas alturas?

—Tornarmos para traz.

—¿Por este escuro?

¿quer dar cabo das mulas, e estoirar-me? ¡co'um milhão de diabos!!...

—Pois fiquemos.

—E as mulas comam terra, como os sapos, e nós carqueja.

—As noites são bem curtas.

—Se ao menos se avistasse alguma venda... —Em rompendo a manhan teremos tudo. Por agora apeemo-nos.

(Apeiam-se.)

*

—No inferno

estoire entre um milhão de Satanazes

o que inventou primeiro andar de noite;

era o maior ladrão... ¿Que bulha é essa?

—Não é nada; uma pedra que rebola.

—¡Que rebola!? ¡e sem mão! será bonito, mas nem por isso engraço. ¿E aquelle bruto lá em cima no pinhal, que guincha tanto!

—Algum mocho.

—Más balas o atravessem,

e lhe acabem co'a casta antes de um'hora; cuidei que era outra coisa. Eu na taverna valho por cinco ou seis; mas cá perdido,

e então de noite, um pisco me põe medo. —Pois dorme.

—¿O quê? ¡dormir! ¡co'a bruxa ás barbas!

só se eu fôsse algum bêbado. Esta noite

nem pregar olho, nem largar das unhas

dois penedos; e ao pé já está reforço.

—Golgan, já que não foi por nossa escolha, busquemos contentar-nos co'a poisada,

que inda não é tão má como o parece.

¡Quantos ha menos bem acomodados

por esse mundo agora! uns em cadeias,

outros entre ladrões, náufragos outros,

estes em luto, aquelles em doença.

Bastantes em colxões de plumas fôfas

revolvem entre hollanda, e sedas, e oiro,

cuidados tristes, asperos remorsos.

¡Quantos até nas salas mais alegres,

entre as luzes, e as muzicas, e as danças, mas em face de um sôffrego banqueiro,

padecem mais que um reo chegando á fôrca Não ha mal sem peor; qualquer estado

se se compara, é bom; com cara alegre

suavisam-se os incommodos; um fardo

n'um hombro impaciente é fardo e meio.

Quem não soffre um descommodo pequeno nos grandes morre; um leve desagrado

dá realce ao prazer quando nos volta.

Qualquer estado, e pessimo que seja,

tem seu lado risonho; e é da prudencia

d'entre os picos da silva achar a amora.

Amen.—Brava o latim; dá ceia e cama. —A falta d'esta ceia é novo adubo

do almoço de amanhan; e emquanto á cama, ¿que outra melhor do que esta em mez de Junho? Nem paredes nem tectos, que nos roubem a viração da noite apoz a calma;

por entre essa quebrada dos penhascos

lá em baixo o mar co'os seus murmurios frescos; sobre nós, e por baixo das estrellas,

pendendo como um lustre, este carvalho

cravejado de insectos que entre-luzem;

dois rouxinoes ao longe; as lageas, mornas. Vê; que soberba camara!; que leitos

desde a origem dos seculos nos guarda

no seio d'esta brenha a Natureza!

—Ao menos não tem pulgas. ¡Xó, canalha! ¡leva rumor! é bom pregar de coices.

Não durma, Sôr Doutor.

—Não tarda muito

que eu não entre a sonhar ¡Que bellos sonhos não devem ser os de uma noite d'estas!

—Tenha lá mão com isso; o que eu prometto, para espalhar-lhe o somno, é uma enfiada de casos que eu passei na minha vida;

tão rara, que podia ir á Gazeta!

 

*

Uma vez ia eu só; era em Novembro;

chuviscava e fazia um tal escuro

que era metter os dedos pelos olhos.

(Lembrou-me esta a proposito da mula

escoicinhar sem causa.) E era bom tempo aquelle; andava Christo pelo mundo;

tinha eu mais duros, que patacos hoje,

e andava o oiro aos pontapés da gente;

tambem... ¡já cá não torna! O grande caso é que n'aquelle tempo era eu solteiro,

e rapaz bonitote; e havia muitas

que me fizessem fogo; eu cuido, e é certo, que não pelos vintens; nem pela cara;

mas isto de casar co'um almocreve,

seja elle o diabo dos infernos,

parece a todas bem: é uma delicia

ter o seu homem só de vez em quando,

em logar do espião de um pegamaço

com residencia fixa em ar de abbade.

Mas... não é bom falar na vida alheia.

*

Como lhe ia contando, era almocreve;

chamavam-me o Chupista. ¡Oh! que bolaxa que eu pespeguei na cara do coécas

que me inventou a alcunha em certa venda! qualquer creança lhe moia os queixos;

já lá está onde o pague ¿Onde ia o ponto? ¡ah! sim; era almocreve e recoveiro;

e andava com dez machos todo o anno

a correr quanto valle e monte havia

para cobrar o fôro aos Frades Cruzios.

Que isto do fôro é bom, nem que pareça;

uns pagam-lhe borel, outros centeio,

queijos, presuntos, lan, cevada, vinho,

gallinhame por arte do diabo,

ovos, e até o musgo onde se empalham.[1] Não ha n'um pardieiro um desgraçado

que não deva pagar alguma nica.

Já vê donde me vinha a minha alcunha;

mas sem rasão; é porque andava ás ordens. Tambem já tenho ouvido alguns autores,

tal como o meu cunhado, e mais uns certos, que é coisa bem mal feita a tal derriça;

Mas bem feito ou mal feito, eu não sou Papa. Vamos cá co'o meu conto.

*

Era uma noite,

cuido que já lh'o disse, ali por Maio,

e fazia um luar... que era um consolo.

Eu saio a meu avô; se é boa a estrada,

gósto de andar de noite havendo lua;

cá pelas brenhas não, que não sou lobo.

Vinha eu mui fresco em mangas de camisa, em cima de uma carga de presuntos,

pela estrada real, co'os sete machos

a dormitar ao som da chocalhada.

Vinhamos caminhando em certo passo

de quem gosta da noite, ou vem sem pressa, ou de quem traz comida a gente farta.

*

Que lhe digo, em abono da verdade,

que servir Santa-Cruz não dá desgosto:

pagam bem, fazem festa ao gallinheiro,

vendo os machos no pateo é uma alegria!... ¡aquillo até os olhos se lhes riem!

dão pinga, e de cear, e muitas vezes

vi eu estar vai não vai a dar-me um beijo

o Frade gordo que recebe o saque.

¡Bom tempo! ¡bom de lei! já cá não torna. Não durma Sôr Doutor.

—Não durmo; acaba.

—¡Acabar! não acabo em toda a noite,

nem que estoire a barriga do diabo.

Inda eu não comecei. Lembra-me um Frade que havia em Santarem; tinha um cachaço,... por tal signal que até revia enxundia;

¡e era um demo, o maldito, a beber vinho!... ¡Mas aquillo! a prégar era uma joia;

um sermãosinho d'elle atarantava

e punha tudo azul. Tinha a constancia

de arrumar prègações de duas horas.

N'um que eu lhe ouvi, depois de falar muito... (e olhe, foi tanto, que eu, e muita gente,

já tinhamos dormido á regalada)

disse muito pausado: «Eu principio.»

Assim faço eu tambem. Todos devemos

tirar das prègações algum proveito.

Ora pois, não me durma, e ahi vai a historia; porém tenha lá mão, que a levo errada.

 

*

Nesse dia á tardinha, na estalage

tinha entrado uma velha; era um diabo,

que isso... só visto! pequenina, magra,

muito preta; era um bilro de pau santo.

Tinha pela cabeça um lenço pardo

atado pela barba, um manteo ruço,

e uma mantinha exotica e de agoiro.

Tinha então uma cara não sei como;

nem parecia cara; era um nó cego

que fazia azoar a toda a gente;

mas muito experta; e uns olhos como um bixo. ¡Tambem aquella rez tinha no corpo

muita pipa de sangue de creanças!

*

Cheguei eu á estalage, e ia com fome;

vou-me á carga do fôro, agarro uns ovos, mando os frigir com mel, que é papa fina; e então para quem tem de andar de noite dizem que é bom, que livra do catarro,

já se sabe com quatro pingarolas.

Ia se preparando o meu guizado,

e era um cheiro tão bom pela cosinha,

que isso não ha dizer. Já dois gallegos,

e mais, tinham ceado; andavam tolos

a cochichar, e ás voltas pela casa,

um olho em mim, outro olho na tigella,

e eu muito concho a rir, e a pescar tudo.

Basta dizer que me pediram ambos

que vendesse um quinhão; ¡e isto em gallegos!

 

*

Emfim, cheirava bem, e estava d'alma.

Mas o monstro da velha era uma estaca

ali muito direita ao pé dos ovos,

com cada olho aberto, ¡que te parto!

Era mesmo um olhar de inveja e zanga.

Logo eu tive má fé co'a tal menina

quando ella perguntou quem era o dono.

Porém quem mal não usa mal não cuida; sentei-me á meza a codear nos ovos.

Ora agora o vereis: a minha amiga

amúa-se n'um canto, mais vermelha

que um pimentão, e eu sempre a observar n'ella. Ferra os olhos em mim com tal quezilia,

que a não ser por temer a Deus e a ella,

batia-lhe co'o prato pelas trombas.

Botava cada lagrima... ¡de punho!

dava cada suspiro, a excommungada,

¡que punha medo! accendo o meu cigarro, pago, monto a cavallo, e sigo a estrada.

Era já noite escura, e um vento frio

como o gran Satanaz.

 

*

¿Que diabo é isso?

ressona?; ou já na costa anda algum moiro? —Avante; são as ramas que sussurram.

—Pois deixe-as sussurrar. Vinha eu picando pela estrada real por ser já tarde,

e a assobiar sósinho o tiroliro. Vai senão quando, estacam-se-me as bestas. Á esquerda, como ahi, ficava um monte;

d'esta banda um pinhal muito fechado;

de sorte que o caminho (e então mui longe de todo o povoado) era um soturno,

que nem Roldão o andava áquellas horas. Entrei logo a suar e a arripiar-me;

e as mulas n'um inferno de pinotes

sem quê nem para quê; davam taes rinchos, que se fundia o chão; pregavam coices,

que assoviavam no ar; ¡que contradança! era uma groza de diabos doidos,

e eu mais doido, no meio, á bordoada.[2] Aqui digo eu como dizia o Frade

n'outro sermão de um Santo; não lh'o pinto por não ter um pincel. Mas faça ideia que tal eu ficaria lobrigando

(¡eu te arrenego diabo!) uma luzerna

a ir e a vir, á roda, e acima e abaixo,

lá longe no pinhal. Que era bruxedo

tive eu logo de fé; muitos que m'o ouvem riem-se, e tal; deixal-os rir; ha bruxas;

que isso sei eu; ¡e então ali! ¡tão tarde!

Por força era algum sabbado lá d'ellas,

que as taes amigas juntam-se de noite

a fazer os seus sabbados, o mesmo

como nós no Natal á meia noite...

Ha muita comezana de creanças,

sarrabulhos de sangue, cambalhotas,

e umas rizadas..... que até Deus se admira. No meio anda um pretinho muito gordo,

que é o proprio diabo em carne e osso.

Diz então muita coisa a todas ellas,

dá-lhe lá seus conselhos, toma contas

do que teem feito, e..... acaba a tal comedia. Untam-se co'uma untura que lá sabem,

transformam-se em corujas e mosquitos, o diabo e o lume sorvem-se na terra

dizendo boa noite até tal dia,

e ellas voltam-se a casa a armar já outras. Isto sabia-o eu como os meus dedos.

Lembrou-me a tal gulosa da estalage,

e então é que dei tudo por perdido.

Deitei fóra o cigarro, e entro em voz baixa (¡sempre isto do pavor faz muita asneira!) entrei eu co'as mãos postas para as mulas a pedir-lhes co'as lagrimas nos olhos,

pelas Almas Bemditas, que deixassem

todo aquelle motim, que me perdiam;

que fugissem d'ali, que andavam bruxas, e que pé ante pé viessem vindo;

que eu promettia uma ração dobrada.

Partimos. De repente desembésta

d'ao-pé da tal luzerna um certo vulto

direito para nós como uma xára.

Com seis milhões de grozas de diabos!

¿quem havia de ser, senão a velha?

Salta n'um pulo a estrada, atrepa ao monte, chega ao cimo, e de lá muito sizuda

entra a dizer-me adeus, e (¡t'arrenego!)

a fazer-me uma cara dos infernos...

—¿E tu viste-lhe a cara em tanto escuro? —Certo é que lembrou bem; tambem agora lá me faz confusão ter visto a cara.

¿Escuro? isso era escuro como um prego; não sei como isso foi, mas vi-lh'a, e vi-lh'a; ¡assim eu visse Deus! trago-a ainda hoje tão bem encasquetada no juizo,

que a podia pintar, e era pintura,

que urrariam os bois se lh'a mostrassem. Quer escuro quer não, vi-a, e está dito.

 

*

Mas o bom não foi isso; o mais bonito

foi entrar de repente o gallinhaço

nas canastras da carga em cantarolas,

a romper, a fugir, e eu pila pila

para aqui, para ali, correndo ás cegas

sem as poder juntar. Foi se-me a noite

n'esta labutação; de cada canto

sentia um cacarejo, ia ás carreiras,

gallinha... por um oculo. Já rouco,

moido e desesp'rado, ao romper d'alva

vejo as minhas senhoras mui contentes

todas juntas n'um bando ao pé das mulas.

 

*

Mas alto; esta é peor. ¿Não vê? repare:

¡um clarão para ali!! d'esta nos trincam;