O presbytério da montanha

António Feliciano de Castilho · Capítulo 22 de 78

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O presbytério da montanha

Capítulo XIX

—Ó ia, eu te digo ó Maria,

Ó iga, que se tu és minha amiga,

Ó á, botes as cabras para cá,

Ó enda para me ajudares a comer a merenda, Ó eijo, que tenho aqui brôa e queijo,

Ó ôas, e umas maçans muito bôas.

 

E remata-se com um repenicado, que serve de ponto final, com que a outra interlocutora fica advertida, de que pode tomar a mão no colloquio por ter chegado a sua vez.

 

XIX

 

Mas assaz e de sobejo nos temos demorado sobre a Poesia e Musica. Retomemos o fio que traziamos, que eram as festas.

 

*

As geraes mais notaveis (pois até agora só vimos as de cada familia e as de cada aldeia) são: o Anno-bom, o Carnaval, a Paschoa, Maio, S. João, e o Natal.

 

*

O Anno-bom não é ao presente senão um rebate para comesaina rasgada, e se deitar uma can fora.

As pagans Janeiras, que ainda alguns se lembram de ter cantado, já lá vão.

Consistiam (archivemos, archivemos, pois que até as serras ao cabo se desmemoríam) consistiam em sahirem, logo ao romper do primeiro sol do anno os cachopinhos de cada povoação, todos em bando, o mais bem arreados que podiam, com suas sacólas, ou alcôfas, ás costas, a cantarem de porta em porta, e, percorrido o logar, de aldeia em aldeia, até se lhes acabar o dia, umas trovas de parabens e boa estreia, atuchadas de campanudos louvores á bizarria do pae ou mãe de familias, e desfechando sempre em requerer alguma chouriça, gallinha, ou pão branco, para a ajuda do refestêllo; contribuição com força de Lei, mas de que todos se desempenhavam á boa-mente.

 

*

O Carnaval, é como ainda nós por aqui o conhecemos nos seus dias aureos, tríduo de folia desatada, guerra porfiada e bem rida de todos contra cada um, e de cada um contra todos.

São as pulhas, as peças, os esguichos, os pós, a laranja

 

.....que derruba o chapeo,

 

de que o bom Filinto com tanta saudade se lembrava lá em París, o rabo-leva de tripas entufadas, a mão de ferrugem da chaminé com azeite pelos fucinhos, as estôpas apegadas ás costas e incendidas, o vinho com sal, as filhós com trapos, e todos os mais adminiculos, que no ritual classico se conteem.

Por qualquer parte que então se caminhe, ainda que se não veja povoa nem viva alma, duas coisas se hão-de ouvir infallivelmente: uma é rir e apupar; toda a serra parece estar florejando gargalhadas; a outra são descargas de espingardaria. Ninguem tem caçadeira velha em termos de dar fogo, que não saia com ella a salvar.

N'esta occasião (não sei por quê) o rio de S. Mamede parece marcar fronteira entre duas nações inimigas; a metade cíterior, e a metade ulterior da freguesia, formam dois exercitos, que, disposto cada um na sua banda pelos altos mais patentes e convisinhos aos seus adversarios, para lá lhe atira por cima da torrente, sem folga nem misericordia, turbilhões de chascos, de apupos, de rugidos de buzinas, de buxas accezas, e fumarada. Estremece a terra sob os pés; retumbam pelo ouco dos valles, pelas refolhadas e sinuosas lapas das ribanceiras, os rolantes trovões centuplicados...

O Entrudo ébrio, que vai, titubante cavalleiro em derreado asninho, visitando as povoações, com barbas brancas em faces avinhadas, e canna em punho para se abordoar, facil, prasenteiro, com séquito de rapazía a abuzinar, e de mascarados saltões, satyricos, e brutescos, bem poderá ser o próprio Sileno das bacchanaes, metamorphoseado pelo tempo, constante parodiador das suas mesmas obras, pois não é necessaria grande perspicácia para reconhecer como, n'uma boa entrudada, se conciliaram diversas reliquias herdadas do paganismo: por fundo, as saturnaes; por embutidos e matiz, as bacchanaes, as floraes, e quejandas (o numero era folgado).

As pastoras, que não podem deixar por tres dias o gado nos redís e apriscos, para se estarem regalando ao banquete da familia, teem um Carnaval particular, um Carnaval nómada e silvestre, cosinhado e comido ao ar livre, e a que ellas chamam «o seu gôrdo».

O gôrdo, para o qual de tempos se andam aparelhando, é feito por varias d'ellas em commum, convidadas e admittidas outras amigas, e algumas vezes tambem alguns moços seus parentes.

Sem o ser de nenhuma d'ellas, consegui eu assistir a um gôrdo; e ainda agora me está sabendo.

Estava um dia Real. A sala do festim era n'uma gruta, ou amplo recesso de penedia, com uma alpendrada de arbustos silvestres, e um vestíbulo de areia parda e fina, á borda da agua.

 

Nympharum domus.....

 

não lhes faltando os competentes

.....vivo sedilia saxo.

 

O matto deu a lenha para a cosinha; o rio deu a agua; os vasos e os comestiveis, traziam-n-os ellas, e por mustarda e salsas a sua alegria folgasan, a lida, e as cantigas. Nada faltou; nem o arroz doce, de leite recem-mugido.

Terminaram com uma dança no areal, por não haver melhor, e debandaram, cada uma atraz do seu gado, quando já lá por cima branquejavam estrellas. A fogueira serviçal lá ficou sosinha, remirando-se ainda na corrente soturna, e olhando com saudades a quem d'ella egualmente as levaria.

Innocentes leviandades são todas estas, e, mais ou menos, parecidas com o que por toda a parte vai n'esse praso do anno. Mas, travada com ellas, uma usança ha ali, que só ali ha, e que eu aponto, não só porque me ajuda no retrato d'aquella gente optima, se não porque dará luz para se entender o poema que a diante vai, com o titulo de Domingo gordo dos montanhezes.

N'este dia, pois, logo de manhan, acodem á matta de S. Sebastião, que já sabeis orla o passal pela banda do poente, todos os moços solteiros da freguesia, a plantar cada um um sovereiro, ou carvalho novo; findo o quê, e bebida sua malga de uma talha de vinho verde, que já para isso a Confraria do mesmo Santo ali lhes tem prevenida, se tornam para suas terras a folgar.

Nem o introductor, nem o tempo da introducção d'esta pratica, são já hoje conhecidos. É uma tradição piedosa, uma lei moral, sem nenhum genero de comminação, mas tão á risca obedecida, como se as tivera.

É, mormente em tal dia, e para gente em flor de annos, um bello exemplo de desinteresse; pois na plantação quem só ganha é a selva, que se dilata, e o Santo, a quem se engrossam os rendimentos.

Se de S. Gonçalo ou Santo Antonio fôra a capellinha, ou de algum outro Bemaventurado, com fama de boa-mão para casamentos, ainda se aventaria um motivo pessoal para o obsequio; ¡mas S. Sebastião, que só da peste é advogado!...

Seja o que fôr: o amavel instituto persevéra, ¡e oxalá dure sempre! ¡e oxalá por muitas partes o imitassem!

 

*

Para que a Paschoa dos montanhezes deixe a perder de vista a de nós outros, bastam duas considerações: a d'elles é festa do espirito, e mais do corpo; a nossa nem do corpo o é, nem do espirito.

Digo que é do espirito a sua, porque a Fé viva lhes faz estar vendo ressurgido do sepulcro o Divino Amigo da especie humana; e do corpo tambem, porque o brodio paschal, opíparo, rescendente, de viandas succulentas e escolhidas, lhes dá mate á longa e bem jejuada quarentena.

Move suavemente os corações acompanhar a procissão, que da egreja sai depois da Missa cantada, com os seus cirios accezos, cantando as aleluias, atravessa o amplo adro alcatifado de bordada relva, sombreado das suas cerejeiras já revestidas, atravessa o passal por entre as alas das pacificas oliveiras, vai pela matta de S. Sebastião, e se espairece ao longe, como uma piedosa exultação, por entre os mattos rejuvenescentes.

O aroma do incenso ama casar-se com a fragrancia agreste das moitas. As arvores figuram ensoberbecer-se de estender o seu pallio verde recamado de sol por cima do Filho de David. Cada hervinha pôz por fora todas suas galas para ver passar o seu Creador. Como elle, toda a Natureza parece ressuscitada, vivaz, e gloriosa. Os passaros lhe entôam canticos, como os homens, as mulheres, e as creanças. A aleluia ressôa em toda a parte; lagrimas involuntarias aljofram todos os rostos; em todos os corações ferve o amor de Deus, o amor da Natureza, e o amor mutuo.

¡Oh! ¡que bem que se chegam ali a entender os arroubados requebros do Esposo e da Esposa dos Cantares! ¡Oh! ¡que permutar de boas-festas! Mal o presumem, os que todas as cifram em cinco ou seis letras gothicas n'um cartão alvibrunido, com uma das quatro pontas bem dobrada.

Recolhida a procissão, tornam-se todos correndo a suas casas, a acabar de as pôr prestes para a proxima visita do seu Parocho. Atapetam-se de ramos os pavimentos; guarnecem-se as mezas com as melhores baixellas; crepíta o lume na cosinha revôlta; idéia-se um simulacro de altar, ou se enroupa uma cama de lavado para aposentar o Santo Christo, emquanto o senhor Prior, com a sua pequena comitiva, lhes der o gosto de provar (quando mais não seja) dos seus guizados e do seu vinho. Ninguem da familia falta á porta para receber a aspersão de agua benta, que elle ao entrar lhes liberalisa risonho, com as palavras rituaes da benção: «Paz a esta casa, e a todos que n'ella moram.»

Tal visitação, que (já se vê) se não conclue no primeiro, nem muitas vezes, no segundo dia, paga bem o seu pequeno custo; não pela moeda de prata, de meio tostão ou seis vintens, recebida em cada fogo; não pelos saccos de folares que se ajuntam; mas pelo muito que assim de novo se apertam os vinculos mutuos do Pastor e do rebanho.

 

*

No 1.º de Maio põem, á entrada das habitações, maias, que são ramos de sabugueiro e giestas florídas; e nos linhares, rocas com seus fuzos, carregadas de linho e enramalhetadas de flores. Com aquillo se fadam a terra e a casa: a terra, para que dê linho comprido e sedoso; a casa, para que se guarde e mantenha próspera.

¿Quem não vê n'estas maias outra degenerada herança dos nossos antigos senhoreadores?

No principio de Maio, faziam os Romanos o festejo domestico dos seus Lares, deuses protectores da poisada, e cujos idolos se tinham junto ao fogo da cosinha, ou em nichos por de traz da porta principal. Revestiam-n-os de pelle canina; e em monumentos antigos se vê ao pé d'estes deuses representado o animal symbolo da fidelidade, e guarda nocturno do domicilio, pelo mesmo modo como Ovidio nos seus Fastos nol-o descreve. Brindavam-n-os com libações de bom comer e beber, e tambem com ramilhetes e grinaldas, já de flores, e já de lan.

Deveu ser entre elles o culto dos Lares o mais querido, pois acreditavam que eram os espiritos dos bons mortos da familia, que se compraziam de habitar e proteger os logares onde foram vivos, e onde vivia gente do seu sangue.

Por isso tambem a pouco e pouco chegaram a dar zeladores divinos do mesmo nome a todas quantas coisas lhes requeriam, e mereciam amparadas. Vieram Lares viaes (dos caminhos), compitaes (das encruzilhadas), urbanos (os padroeiros de cada cidade), publicos (os mantenedores dos publicos edificios), rusticos (os custodios do campo), hostis (os amparadores contra inimigos), marinhos (os guardiães dos navios).

É portanto evidente, que, onde quer que se estabelecesem Romanos, se haviam os Lares de estabelecer; e tenho, que nenhuma de suas religiosas praticas pegaria melhor, nem mais depressa, entre estrangeiros; e bem boa, bem moral que ella era, no meio d'aquelle cahos de poeticissimos desatinos e devassidões. Fazia venerar e amar a casa; com a casa, a familia; com a familia, os sãos costumes da creação. Ainda por cima, fazia resplandecer luzeiros de esperança na cerração das adversidades; o que dá coração e brios para as resistir.

Pressupponhâmos como verisimillimo, e certo, que na romana provincia Lusitania se veneravam os Lares como na Italia; do que, aliás, podem ser documentos, além de outros, o nome de lareira, geralmente conservado ao lastro da chaminé, e o proprio de lar, com que em Traz-os-Montes se chama a corrente de ferro, de que pende na cosinha o caldeirão sobre a fogueira.

Já cada um inferirá que as maias dos meus serranos, festejo que só á casa se refere, coroando-lhes de flores a porta, e lustrando-lhes, como quer que seja, o seu linhar (linho por lan), teem, e não podem deixar de ter, aquella origem.

Na cola d'esta semi-gentilidade, garrida e innocente, vem o rito christão, ainda mais poetico, chamado das Rogações ou Ladainhas de Maio.

Os lavradores seguem, com as cabeças descobertas, e acompanhando em chusma as entoadas preces da Egreja, a procissão, que lá se vai, humilde, atravez dos campos desatados em flor. Imploram as bençãos do Ceo para os trabalhos da agricultura; que insectos damninhos não devorem a vinha ou seára; que intempéries do ar e trovejados granizos não derribem mortas as benevolas esperanças dos pomares.

 

*

O S. João por larga vespera de semanas se annuncia: cantado de dia pelos oiteiros, de noite pelos serões.

Nada ha mais affectivo, que a toada, entre melancolica e leda, com que se vão lentamente deduzindo as trovas (sem arte, embora, não sem graça), que por ali em louvor do Baptista se exhalaram outr'ora do seio de poetas desconhecidos.

A medo me rendo á tentação urgente de as mostrar; que, despojadas da sua melodia, desquitadas das vozes tão frescas e juvenís das suas cantoras, e nuas dos seus accessorios de silencio e ruido selvatico, de calma e sombras em pino de verão, trovas taes aqui mal poderão parecer-se comsigo mesmas.

Do que ides ler, ao que eu ouvi, posto não haja differença na substancia, vai tanto, como de uma formosa donzella podéra differir o seu cadaver.

Sem mais precauções, eis aqui alguns trechos, que no fundo da alma se me estão ainda cantando, por entre simulacros de figueiras, que entretecem sobreceo verde á fonte crystallina do passal. As syllabas dos metros, não as contem; basta que todos elles acertem na cantoria ás mil maravilhas. Tão pouco embiquem na confiança, com que umas rusticasinhas de roca á cinta tratam o Santo Precursor. São amores velhos; não ha que lhes dizer.

 

—¿San-João das barbas doiradas,

onde foste ter as orvalhadas?

—Fui as ter áquellas hortas,

recordar aquellas cachopas.

Recordae, recordae, perguiçosas,

que da fonte já veem as formosas,

com as talhas cheias de cravos,

que lh'os deram os seus namorados,

com as talhas cheias de flores,

que lh'as deram os seus amores.

San-João, rico cavalleiro,

companheiro de Nosso Senhor,

acompanhae a minha alma

quando d'este mundo fôr.

—¿Por que tendes, San-João,

esses sapatinhos brancos?

—Para passear ás moças

domingos e dias santos.

—¿D'onde vindes, San-João,

que assim cheirais á macella?

—Venho da serra da Estrella,

de fazer uma capella.

—¿D'onde vindes, San-João,

pela calma sem chapeo?

—Venho beber agua fresca,

que faz calor lá no ceo.

 

Basta, basta, que já pressinto ali á esquina os aferidores e malsins da Literatura, que, se me tomam, com isto nas mãos, dão comigo do avêsso.

Na vespera do Santo, pela tarde, hasteiam bandeirolas nas fontes. Á noite accendem fogueiras, dançam, cantam, namoram, e galhofeiam em de redor d'ellas.

Á meia noite, quebram ovos para os expôrem ao sereno, que lhes ha-de n'elles estampar a jerogliphica prophecia do seu futuro, e chamuscam as hervas e flores, que sabem de constancias e inconstancias.

Vão nadar nos rios, que todos n'esta noite encerram grandes virtudes e preservativos; mas especialmente o de S. João do Monte, á conta do seu nome bento.

Sobre a madrugada vão lavar seus gados, e á volta colhem ramos orvalhados, os quaes, se nas trovoadas os queimam, livram de raio; trazidos no seio, defendem de mau olhado; e facilitam os partos, apertando-se nas mãos.

A agua da fonte da manhan de S. João é como a primeira que chove em Maio: torna o carão formoso.

 

*

Nos Santos, fazem o seu magusto de tarde, no aido ou em campo descoberto, não correndo o tempo de invernia. São rebordans a granel, entre grande larada de brazido, a estoirarem e a acerejar-se, em quanto um farto lombo de cevado rechína e fumega em vergante espeto de pau, a pingar n'uma telha ou frigideira.

É dia já de longe apetecido pelos velhos, pelos rapazitos, e pelos visinhos menos folgados, que todos então se convidam.

Bebe-se, como requer a quadra, que assaz é já então arripiada. Mas... quanto mais se vai o repasto allongando dia em fora para o crepusculo, e para a noite, mais se vão pendendo com scismadora tristeza os animos dos convivas.

Á fé que lhes não falta por quê. O dia que apóz vem, é o dos finados; dia de saudades e receios, de desconforto e arrependimentos, para todos quantos, com Fé ou sem ella, possuem um entendimento, e meditam.

¡E que mais meditabundo que as montanhas! ¡E quem mais devaneador e recolhido, que homens acostumados a solidão, curtidos nas duras realidades da vida, remotos do cortesão bulicio, embotador pessimo de toda a sensibilidade!

 

*

Mal soaram as Ave-Marias, começa dobre funebre, que toda a noite não quieta.

Pela escuridão pasmada se devolvem, a longe, a longe, até se esvaecerem, os tons afflictos, que a nenhuma de tantas poisadas deixam de dizer algum segredo de dor, e de encommendar algum suffragio. ¡Oh! ¡se não se elevarão elles, e bem ferventes, exhalados pela voz do sangue, pelo amor, pela amisade, pela caridade!

Quando tudo jaz, a deshoras, no silencio mais fundo, nenhuma luz bruxuleia de nenhuma fresta, e já nenhuns olhos por ventura se descerram, acorda a subitas uma sepulcral melodia, que dissereis côro de Anjos desterrados e saudosos. Vagarosa se adianta, pelo meio da povoação, a supplicar em nome dos penados de alem mundo, que para si não podem requerer, esmola de orações, refrigerio para os ardores que lá padecem.

Não ha seio tão escudado, que um santo horror o não estremeça; egoismo tão empedrenido, que sustenha as lagrimas.

...Até que o solemne pregão transpõe e se esvai; e na calada se torna a perceber o dobre longinquo da egreja.

Quanto a mim, confesso que nunca ouvi coisa, que assim me abalasse o interior.

Estes devotos cantores, que ninguem vê, mas que vão de aldeia em aldeia amentando as almas, arrastavam d'antes grilhões aos pés, o que ainda augmentava o pavor do seu pregão.

Com grilhões ou sem elles, ¿despertadores taes quem entre nós os soffreria? Por lá querem-se, quer-se-lhes, escutam se, e obedecem-se, como exactores que são de um tributo da outra vida.

Desde o romper d'alva não descança a egreja de absorver povo. Todos os caminhos, todas as asinhagas, todos os bosques, todas as ladeiras, todos os valles, todos os oiteiros, o brotam e expedem á porfia.

Vem o ancião alquebrado, atido ao bordão; o moço em flor de annos; a donzella; os irmãos, pequeninos e já orphãos, pela mão de sua mãe; todos graves, cuidosos, taciturnos; todos lá por dentro orando; todos anhelando irem-se ajoelhar sobre uma sepultura bem estremada, para d'ali assistirem ao incruento Sacrificio.

Todos os confessionarios n'este dia estão apinhados, e o semi-festim da vespera é quasi geralmente descontado pelo jejum mais rigoroso.

 

*

Emfim vem o Natal.

Essa festa, a fundamental, a maxima, a ridentissima, a de todas christianissima (quizera eu dizer) do Christianismo, nenhures cabe tão em cheio, nem tanto com os animos e corações se coaduna, de veras crida e com veras amada, como nos descampados bravos e alpestres.

Víreis o Presépio de Belem, não já por caprichosas artes remedado, mas em tão cabal transumpto, que pelo proprio e verdadeiro vos invidaria a adoral o.

Disséreis que ao soar da ave da meia-noite, desferiu vôo d'entre as estrellas, de que se corôa a montanha, côro de Anjos a dar rebate aos pegureiros com o pregão de «Gloria e Paz», com a nova de ser nascido o Desejado das gentes.

¡Tanto é o ruido de alegres passos e falas, que de toda a parte confluem pelo escuro em demanda do Menino!

Cada qual lhe traz nas mãos o seu presente, e o mais valioso dentro n'alma.

O templo enramalhetado, oloroso, esplendido de luzes, par em par aberto, é a santa Gruta.

Lá no tôpo, sobre a pedra bemdita, jaz a rir o Divino Infante.

O adro vê dançar as rondas de camponezes á roda de um monte de arvores accezas, ao som da gaita e do tamboril.

Os sinos doidejam de alvoroço na torre illuminada.

Sob o tecto religioso se alternam em dois córos feminis as cantigas da benta noite. Cada um d'estes córos é exclusivamente composto das moradoras de cada margem do rio que biparte a freguesia. Vai entre ellas a mesma rivalidade, que já descobrimos entre os homens, quando no Carnaval travam com as suas espingardas innocentes um estrepitoso arremêdo de combate.

É a qual dos bandos trará mais formosas quadras para entretecer com as antigas, mais argentinas falas e melhores requebros para as gargantear. Cuida-se ouvir musica de Seraphins; exulta o coração; e, sem vergonha, se estão sentindo as faces humedecer-se.

Por meio d'estes córos, cujos enthusiasmos devotos como que se estão vendo lutar nos ares estrugidos, passeia em braços do Parocho o Menino, a fazer colheita de beijos e louvores, de supplicas e offertas. Então é que surdem vangloriosos de baixo de cada capa os mimos, que de longe e á porfia se lhe andaram apercebendo; sobre-sahindo de ordinario, a todos, os mui primorosos artefactos de pinhões e frutos sêccos.

¡Oh! ¡que invejas para as creanças, que ali pendem ao collo de suas mães! vão-se-lhes os olhos, e os sorrisos, e as mãosinhas, apóz lindezas tão guapas; mas, vendo chegar o Menino a quem se destinam, com os seus olhos tão azues, a bocca tão amorosa, as faces tão coradas como as maçans que se lhe offerecem, é já a Elle

que só cubiçam; e só choram, porque o não deixam acompanhal-o.