O presbytério da montanha

António Feliciano de Castilho · Capítulo 39 de 78

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O presbytério da montanha

Capítulo III

*

Mas o melhor (se queres um conselho)

é fazer-me um favor, ao qual protesto

ser toda a vida grato: anda comnosco;

a noite está bellissima; podemos

ir co'o nosso vagar pataratando,

e conduzindo as mulas pela redea.

Mas tens medo ao Golgan; pois boas noites; fica-te em paz, regala te, que eu juro

que estando em teu logar fazia o mesmo. Se queres, faze ás paginas seguintes

onde vai mais Golgan (porque já agora

hei-de contar a historia por miudo)

faze, digo, a taes paginas o mesmo

que eu, tu, e elle, e nós, e vós, e elles,

fazemos ás dos Martyres do Padre, que são apezar d'isso uma obra prima.

Passa-as em claro, e dize que já leste.

Quem fala assim não quer suor alheio.

E adeus; até mais ver que vou com pressa. ............................................................

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III

 

—Olhe lá, Sôr Doutor; diz um livrito,

que a gente sem falar é como os burros;

e eu digo que diz bem. Quero contar-lhe, para ver se se encurta este caminho,

o mais que se passou depois da historia. Mas vá picando a mula; ¡olhe a fogueira!

*

Com que, como eu já disse, ao outro dia

vi as gallinhas ao redor das bestas;

torno-as a pôr na carga, e digo logo:

A Santa-Cruz não vão vocês de certo;

nem vocês, nem a carga dos presuntos,

nem nada que aqui vai, ¡com trinta infernos! Servos de Deus tão bons, tão meus amigos, ¡haviam comer tal! ¡metter no corpo

talvez quanto bruxedo ha neste mundo!

Deus me livre do mais, que de encarrêgos posso-me eu bem livrar. Corto co'as mulas direito á Hespanha, e vendo-as a uns ciganos, com carga e tudo.

—¿As mulas!

—Pois as mulas

tinham tantos diabos na muchilla

como as gallinhas, os boreis, e os ovos.

Mas eu era rapaz; se fosse agora,

não digo que o fizesse. O divertido

foi andar eu trez annos para quatro

a correr Portugal e Hespanha toda

a buscar confessor; ¡tudo ignorante!

Padre douto, nem um que me absolvesse. Por fim achei o filho de um cigano,

dei-lhe trez duros, e botou-m'a logo.

Mas então penitencia não falemos;

se a quizesse rezar, ¡nem toda a vida!

Tudo se arranjou bem; dei-lhe outro duro, e elle por ter vagar, se incumbiu d'ella;

mas disse-me que havia até ser velho

mortificar o corpo co'um vergalho,

e com muitos jejuns. ¡Se eu fôra pato!

Sabe então o que fiz inda algum tempo?

era correr de chôto os meus pedaços,

e depois descançar.

 

*

Deixemos isto,

que não lhe importa muito, e a mim nem nada; vim para a minha terra apenas pude,

muito pimpão, e cheio como um ovo.

Namorei, namoraram-me bastantes;

por encurtar rasões, casei com uma

que era filha do irmão de um primo ou tio de um meu compadre Abreu, que era cunhado da sogra d'esta mesma rapariga,

e enteado do irmão do Cura velho;

tudo gente limpinha, muito boa,

e temente ao Senhor, que é todo o caso.

Gastei para impôr Bulla os meus tanturrios, ¡e não foi lá tão pouco! ¡Veja agora:

¡para a gente casar largar dinheiro!

É como ir para a India ou para a fôrca,

e pagar inda em cima aos da sentença.

Perguntei ao Banqueiro a causa d'isto,

disse me elle que a causa era nós termos quatro humores no corpo, e d'aqui vinha

haver os quatro grãos na parentela;

que ella era minha prima, e que entre primos havia os quatro grãos todos inteiros.

Não se riu, nem me eu ri; paguei-lhe em peças não só os quatro grãos que se não viam, mas ainda mais cá certa brincadeira.

 

*

Deixar; fosse o que fosse; emfim, casei me. Aquelle mez primeiro é uma delicia;

foi todo elle um cantate; muito amigos, muito beijo, e comer; muita broega,

muita romage, e tudo muito e muito.

Nunca houve um par assim tão contentinho; nanja na aldeia e na comarca em roda;

era até amizade escandalosa.

Tanto assim, que o Prior, mais era amigo de fazer a vontade a toda a gente,

n'um dia santo á pratica da Missa

deu-me um foguete ¡caspite! Disse elle

que marido e mulher com tal namoro

era coisa mais vil que mil diabos.

Fizemos-lhe a vontade antes de muito;

ella entrou-me a azoar com trinta coisas,

e eu a dar-lhe a matar. Por fim de contas, o asneirão do Juiz, que era vizinho,

tomou isto em trambolho, e ameaçou-me de me encaixar no fundo dos infernos.

 

*

¿E então que lhe parece a entaladella?

Vivia em paz, ralha o Prior; dezanco-a,

vem o Juiz, promette-me a enxovia.

É como o conto de um palerma velho

que ia a pé co'um rapaz e mais um burro. —Bem sei.

—Pois sim senhor. Com que, tivemos,

não digo bem; teve ella oito ou dez filhos; e sempre a dois e dois; forte coelha!

Entrei a dar á bruta; acudiu povo,

ella fugiu, mas eu fugi sem ella.

E d'então para cá desandou tudo.

E hoje ando aqui por moço de arrieiro,