O presbytério da montanha
Capítulo XXII
Então sim, que haveria que se lhes invejar.
Dôr d'alma é, na verdade, não poder homem na solidão pagar por estes, e por si mesmo, dividas grandes e urgentes da Humanidade. Entretanto, lá estende os braços valedores até onde lhe é dado. Onde não chega a remediar com obras, ajuda com o bom conselho, com as recommendacões poderosas, com as esperanças, com a presença, com a uncção da palavra amigavel, com o deixar correr sobre a ferida o balsamico das lagrimas. Assim, se terá sempre que dar; sempre, em quanto houver no proximo trabalhos, e no seio coração.
XXII
Isto presenciei eu:
O espiritual Pastor do rebanho de S. Mamede do Monte, de quem natural pejo me veda transladar louvores, que por lá se lêem em todos os peitos, contava entre as primeiras de suas ditas a beneficencia, que não pára onde se lhe exhauriu a bolsa; que, depois de dar a capa, como o Santo Bispo Martinho, e a coberta, como Frei Bartholomeu dos Martyres, tem ainda para dar a pessoa, como S. Vicente de Paulo.
Era para ver (se elle não poséra tanto em recatal-a) a alacridade, a sôffrega alacridade, com que ia levar aqui um pão, que se devorava como vida que em realidade era, ali o remedio para a doença; aos mal avindos, a reconciliação; ao ocioso, o convite para trabalho; ao orphanado, a paciencia; ao errado, a luz para atinar com a senda, e o bordão para a seguir; ao moribundo, o conforto e a alegria; a todos a moeda aurea, cunhada de uma banda com a effigie do coração, da outra com a da Cruz florida; a moeda riquissima, que por nenhuma outra se cambía; o affecto fraternal.
Ali, sim, que é o ser Parocho.
¡Oh officio divinamente instituido, como te hão degenerado annos frios de descrença e desamor! ¡Com que maravilhoso laço não cifravas o que de mais nobre, o que de mais amavel, se abrange nas ideias da eternidade e nas do mundo!
O rei dos sacrificios era ao mesmo tempo o servo dos indigentes. Vaso de eleição, elle diffundia ao povo ajoelhado os mysterios, os preceitos, os exemplos, as ameaças, os anáthemas, as absolvições, os confortos, e os jubilos. Todos os destinos terrestres se formavam, ou passavam, á sombra d'elle.
Entrados á vida, encontravamol-o, resplandecente de Fé, á nossa espera diante da fonte da Graça, para n'ella, com a bocca cheia de riso, nos purificar.
Arribados á edade da rasão e dos delirios, tornavamol-o a achar na piscina da penitencia para nos restituir, com eloquencia affectiva de Apóstolo, a foragida paz do interior.
No consorcio, eram as suas mãos castas as que nos entregavam, com bençãos d'alma e sincera prophecia, a mão tremente da futura mãe de nossos filhos.
Nas calamidades publicas, era a sua voz supplice e crente, e afogada em lagrimas, a que levava, como guia segura, o côro de todas as nossas á presença do Senhor da Natureza.
Em nossas dissensões domesticas, elle o Anjo da concordancia, que primeiro apparecia.
Nas nossas quédas, elle o primeiro braço que nos alçava.
Nas tribulações, elle o nosso mais previsto conselheiro.
Na enfermidade, elle o medico gratuito e não chamado.
Na agra hora da partida, elle o que nos apercebia para a alma confusa e aterrada o pão, o oleo, e o fardel das esperanças para o caminho.
Elle o que ainda nos seguia, depois que já todos os outros medicos iam longe, e até nossos paes e nossos filhos nos deixavam sós. Com preces fervorosas nos acompanhava, até que a terra nos submergisse; e ainda então nos não largava, senão para ir instaurar novas preces por nós sobre os altares.
Solitario na sua vivenda, elle tinha por familia o seu rebanho, com quem, por quem, e para quem, vivia; sempre lhano, sempre dadivoso da sua pobreza, sempre paschoas-florídas para grandes e pequenos, só temido dos maus, ainda que tambem d'esses respeitado.
Se carecia de progénie, se não tinha uma esposa, elle, que tão amenos quadros do casamento sabia apresentar aos noivos ao recebel-os, contava por irmãos e filhos todos os seus parochianos; tinha o seu thálamo de oiro a aguardal-o no paraizo, região que todos os dias entrevia atravéz das folhas do seu breviário; e, se ainda no coração lhe podia alguma ternura sobejar, tinha a sua egreja, que elle amava como esposa; em quem se revía; que se recreava em ataviar, em enriquecer, em lhe adquirir galas de roupas, de sedas, de joias, de flores, de perfumes; em cujas festas se remoçava; em cujos canticos se desvanecia de misturar a sua voz.
No seu sacerdocio se acreditava a pleno, porque elle mesmo acreditava tambem. Se, perante a ara santa a Fé via n'elle um representante da Divindade, nenhum lance da sua vida desdizia esse caracter augusto e sobrehumano.
A hora em que elle expirava, hora de consternação e alaridos para todo um povo, era a unica, talvez, em que pelos espiritos fuzilavam alguns relampagos de duvidas sobre a justiça e a misericordia do ENTE SUPREMO; duvidas, que a bocca do velho emmudecida, que a reprehensão dos seus olhos fechados, já não podia fulminar, mas que a sua presença, mal chegavam a beijar-lhe os pés como a bemaventurado, promptamente desvanecìa. Bem se adivinhava, ao olhal-o, que a sua morte não era mais que somno; e bem se entendia como, ao cabo de tão prolixo, de tão zeloso trabalhar, era rasão colher descanço e premio, como só lá em cima os pode haver.
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Taes eram, pelo commum, pastor e grei, nas eras cheias e prospérrimas da Christandade.
De taes greis, e taes pastores, ainda hoje ha, mas raro; mas tão raro, que a dedo se apontam; e ainda se não hão-de crer, se não fôrem vistos bem por miudo, e contrasteados bem de espaço.
De ninguem é a culpa, sendo de todos a desgraça.
Não; de ninguem é a culpa. O genero humano curte sempre algum achaque principal; e quasi sempre maleitas. Passou-lhe a febre da superstição; está agora no frio da incredulidade ¿Que lhe ha-de fazer? jazer-se com elle, até que do alto lhe venha o remedio.
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Existe um phantasma de altar, um phantasma de sacerdocio, um phantasma de vulgo fiel, um phantasma de culto; mas de Fé intrinzeca, nem um phantasma.
A pseudo-philosophia, de que a mean classe engafecêra, pegou-se d'ella, pelo contacto, primeiro á superior, depois á infima.
Ha doenças que teem os seus periodos determinados; esta entra na conta.
A classe que primeira a padeceu, por primeira e por mais illustrada já quer ir convalescendo; já convalesce em muitas partes, se em nenhuma se acha ainda san; mas a que mais tarde cahiu, por isso mesmo, e por ser a mais rude e numerosa, labora no auge da enfermidade, e ainda muito longe (segundo todos os symptômas) de se restaurar.
Hoje o materialismo é especialmente plebeu.
Dos cumes da ordem social podia-se ir desferindo a raio e raio, e descendo manso e manso, a luz, que adelgaçasse, que por derradeiro desfizesse, essas trevas humidas e frias, que nada criam, e afogam tudo.
Mas nem de lá baixa, porque por lá faz ainda noite, nem se derrama da Imprensa, de que a mean classe é representante.
O Poder, fingindo proteger, apenas tolera os escassos restos da crença. Se alguma vez lhes dá consideração, é quando se lhe antólha que os poderá empregar, por material, para obras politicas a seu modo.
A Literatura, ou por especulação de popularidade, ou por extravagancia de muito joven, ou porque o seculo XVIII do «Paiz modelo» só poude chegar cá no XIX; a Literatura, figurando tributar a sua homenagem á unica Religião civilisadora, tão decepada e desgeitosa se avém, que, por entre as suas expremidas lagrimas de compuncção, se lhe está vendo voltear por dentro dos labios o seu lembrado sorriso de septicismo.
A sua religiosidade é um cálculo; ¡grande mal! é um cálculo transparente; ¡mal ainda muito mais funesto!
Reconhece-se que, se de alguma coisa está convencida, não é da verdade real e absoluta que diz, mas da utilidade (ou necessidade) de que seus ouvintes a acreditem.
Forceja para reaccender na ara um pouco de lume santo, que allumie e aqueça; aconselha que se lhe cheguem; mas ella fica fria e ás escuras por de traz da nave, olhando com ar sobranceiro para a turba.
Nunca dobra tanto o joelho e a cerviz perante «o Christo» (como lhe ella sempre chama), que a sua cabeça ennastrada de loiros não fique, mais ou menos, sobre-sahindo á pendida fronte coroada de espinhos.
¿Que poderá jamais conseguir para verdadeiras aleluias da Fé e da Moral, este vaidoso e vanissimo apostolado da eloquencia e poesia, que de baixo do falso nome de Christianismo pregôa d'elle uma, ou outra, ou muitas, paginas desconnexas, reformadas, e adulteradas?
Quanto entre si concordavam as inspirações dos quatro Evangelistas, tanto discrepam uns dos outros (e não raro de si mesmos) os novos evangelhos d'estes missionarios sem missão. Á prima-vista se averigua que lhes fallece a convicção, a coherencia, a logica, e a unidade. ¿Quem se irá apóz taes innovadores? Ninguem.
Pelo contrario: as suas diligencias para reedificar só valeriam para acabar de destruir, se podesse ser destruida a Religião de Jesu-Christo.
A Fé é uma obra celeste, que nem a sciencia, nem a força, nem o poder da terra tem a minima jurisdicção para alterar.
Ou a Fé toda completa, cabal, absoluta, sem um átomo de menos, sem um átomo de mais... ou nenhuma Fé. Fraccional-a, decompôl-a, temperal-a cada um para o seu paladar, é pregar-se o homem estupidamente n'uma cruz desbenzida, revirado com a cabeça para a terra, e os calcanhares contra o Ceo. Em tal caso o indifferentismo, e até o atheismo, seria menos descommodo e mais logico dobradamente.
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Em quanto a Literatura assim acode á obra de Christo, como o poderia fazer n'uma hora de ebriedade o proprio anti-Christo, ¿como é que a trata a autoridade mundana?
Como se fôra obra sua, ou sua propriedade: estende-lhe, protectora desdenhosa, a barra do seu terrestre manto sobre a cabeça despojada do diadema luminoso, diz-lhe que se apegue, para não cahir, ao sceptro que a diante lhe caminha. ¡Elle, o Christianismo, elle, que ainda ha pouco roborava os thronos com a sua benção, permitte, quasi, que os seus inimigos o ludibriem!
A blasphemia, que vai picar, verme peçonhento, a raiz da arvore da vida, d'onde se colhe a moral, a blasphemia pode qualquer derramal-a sobre as multidões pelo crivo immenso da Imprensa, e ficar impune; ou o seu castigo, se por erro lhe cahir o da Lei, orçará apenas pelo dos crimes leves, e indifferentes ao Estado.
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Não é ainda tudo.
Aos ministros do culto, já de si por ventura tibios, como filhos e herdeiros de uma edade desfervorosa, sal da terra já meio derretido, luz do mundo já mortiça, deixam-n-os, ou fazem-n-os enfraquecer-se e relaxar-se ainda mais, desautorisando-os, dessangrando-os, infundindo os nas temporalidades odiosas.
Repitâmol o: não é isto culpa de ninguem, sendo de todos desaventura. É uma calamidade providencial, que lá se encaminha para fins certamente gloriosos, que não podemos enxergar.
Em Religião, como em Politica, somos nós, enfatuada geração de hoje, mesquinho adubío n'um chão semeado, que outros hão-de ceifar em vindo a quadra.
Chegarão tempos (dil-o o instincto da rasão) em que os direitos e os deveres tenham egual pezo; em que o bom e merecido nome não seja, como pomba timida, empolgado por abutres ferozes logo ao abrir o primeiro vôo; em que todas as causas santas e uteis se conheçam e respeitem; em que nem a régia tribu de Judá seja, como outr'ora, apesinhada pela de Levi, nem a tribu sacerdotal de Levi, como hoje, mercenária, captiva, e escrava da de Judá.
Então quando o lenho sêcco da Cruz, reflorir, e frutear (como a vara do Propheta) frutos de suavidade, de concordia, de alimento, de forças, de esperança, e de felicidade, de felicidade para abarcar dois mundos, então os pastores, quasi espancados agora pelos seus rebanhos, quasi mendigos, e cuja fronte perdeu o sello da eleição, tornarão a assentar ao-pé da arca santa a sua tenda humilde e venerada, não opulenta mas dadivosa, tenda pobre e rôta, para que pelas aberturas penetrem melhor até ao velho os gemidos do mais necessitado que elle, e para que os olhos d'elle entrevejam as estrellas.
¡Oh! ¡como volverão a ser bellos os dias da Egreja acrisolada pelo fogo! Mal venha por quem, de imprudente, pretendesse retardal os.
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O autor d'este livrinho (que ainda, apesar de tudo, não acredita em malignidades gratuitas) apressa-se de inculcar, de recommendar aqui, uma verdade, que a sua posição d'elles lhes não deixou talvez ainda perceber; verdade importante para applicações, verdade a cujo escurecimento se pode imputar já muito e muito damno:
O officio pastoral tem, ou pode ter, especialmente fora das cidades, uma importancia para a felicidade das familias, para o bom regimento e prosperidade do Estado, a que nenhuma instituição humana poderia confrontar a sua.
Nas cidades é talvez licito o ignoral-o. O Parocho urbano é quasi um pastor sem rebanho; não conhece as ovelhas, nem as ovelhas o conhecem. A ellas, falta-lhes o tempo e a vontade para o rodearem; a elle, se para o officio entrou com zelo e propositos magnanimos, tudo se lhe veio a acabar com a esperança, e logo a caridade tambem; e a final talvez tambem a fé, mal se inteirou de que todos seus esforços se haviam sempre de quebrar no indifferentismo publico, e de que a sua voz, se lograsse vencer o estrépito circumfuso, só serviria para lhe atrahir escárneos e motejos, ou de fanatico, ou de tartufo.
Nas freguesias ruraes, nas mais remotas, nas serranas e abscônditas sobre tudo, ainda não é totalmente assim. Á entidade abstracta Parocho se conserva, no respeito e benevolencia dos subdítos, um resto da sua antiga majestade, da sua benéfica influencia, das suas altissimas prerogativas.
Ainda é um parente proximo e autorisado de todas as casas, uma especie de maioral de tribu (como entre os Hebreus do tempo dos Patriarchas, e os Arabes do deserto); um juiz de paz insuspeito; um magistrado sem appellação para as consciencias; um censor, não em nome da Lei (como os de Roma), porém em nome, e com delegação, e por inspiração, do Espirito de Verdade, com quem se crê ter commercio no fundo do santuario. Qualquer que seja a sua sciencia, é a ella que se recorre como á principal.