O presbytério da montanha

António Feliciano de Castilho · Capítulo 61 de 78

Páginas do PDF

O presbytério da montanha

O Mosteiro

¡e esse olhar falador! ¡e essas virtudes

da meia-noite em ponto! ¡e a flor crestada! ¡e as sortes que a fortuna extrai ás vezes, e muitas mais a próvida malicia!

¡e a fonte que amanhece entre descantes, e pasma rindo de se ver coroada

de festões verdes e entrançadas flores!

¡Que noites, que alegrias, que triumphos,

te aguardam no porvir, me estão na mente![9] ...............................................................

 

X

 

O MOSTEIRO

Vós, que sois do amavel sexo

ardentes adoradores,

que girais de bella em bella,

qual leve abelha entre as flores,

que sabeis n'um só momento

a mil deusas incensar,

e pareceis de ternura

não poder-vos saciar,

mancebos, o mundo é vosso;

mil bellas o mundo tem;

mas não choreis as que á sombra

repoisar das aras veem.

Se um jardim, florído, immenso,

encontrais na sociedade,

¿que importa que poucas rosas

lhe furte a mão da piedade?

poucas rosas, que dispostas

vão depois na solidão

lançar mais doces perfumes,

seguras de extranha mão.

Vagae, vagae livremente

nos jardins da Idália Venus;

segui as Nymphas e as Graças

pelos seus bosques amenos;

os prazeres vos rodeiem,

os jogos em torno vôem;

a mocidade vos ria;

espêssas rosas vos c'rôem;

¿que falta aos desejos vossos?

¡ah! soffrei, sem murmurar,

ver d'entre os vergéis florídos

poucas pombas desertar,

poucas pombas, que innocentes,

e temendo o caçador,

vão nos ermos solitarios

buscar um fado melhor.

Do Libano opacos cedros,

de Sião bosque tranquillo,

vós, palmeiras de Idumêa,

prestae-lhes seguro asylo.

Estranhas vistas não turbem

os seus piedosos segredos;

contentes á sombra vivam

dos sagrados arvoredos.

Silencio, paz, e ternura,

alva estrella de innocencia,

e a vista de um ceo risonho,

lhes doirem toda a existencia.

Murmúrio de castas fontes,

perfume de simples flores,

lhes paguem jardins que infestam

os abutres e os açores.

Eu vos lamento e vos chóro,

insensiveis corações,

que de um mosteiro entre os muros

não vêdes senão prisões.

Córae da vossa loucura.

Correi a ver de mais perto

o Eden recatado ao mundo

no seio d'este deserto.

Modestas virgens o habitam,

que só não teem liberdade

de colher em frutos de oiro

as festas da sociedade.

Segui-me, segui-me affoitos,

entremos. Abriu-se o templo.

Seus ermos, ao mundo ignotos,

inteiros d'aqui contemplo.

¿Não vêdes sobre os altares

com graça engrupadas flores

lançar torrentes de aromas,

brilhar co'as mais vivas cores?

N'esses prados invisiveis

tambem pois se eleva a aurora;

sol, e zephyros, e fontes,

lhes dão sorrisos de Flora.

Essas pois, que vós julgaveis

desgraçadas prisioneiras,

teem praseres, teem delicias,

teem jardins, são jardineiras.

Vêde ornar formosa Imagem

rico manto que fulgura,

de oiro e sedas matizado

com vistosa bordadura.

Vêde a grinalda florida;

vêde o ramo; estes jasmins,

estes lirios, estas rosas,

não são já de seus jardins.

Não devem sua existencia

nem á terra nem ao Ceo,

e nem zephyros nem fontes

serviram no augmento seu.

Formou-as arte engenhosa;

poude mais que a Natureza;

deu mais vida ás suas flores;

prestou-lhes egual belleza.

¿Sabeis, que mãos feiticeiras

obraram prodigios taes?

eis o trabalho e os recreios

d'essas piedosas Vestaes.

Ellas no côro apparecem;

e, ao som dos orgãos divinos,

de sua alma aos Ceos se elevam

devotos brilhantes hymnos.

Innocentes e macias,

d'estas vozes a mistura

sem perturbar os sentidos

infunde n'alma ternura.

Em seus canticos não reina

terreno vulgar affecto;

é mais puro, é mais sublime

de seus amores o objecto.

O pensamento que as ouve,

sai da térrea habitação,

deixa os ares, das esphéras

atravessa o turbilhão,

vê do Empyrio as portas de oiro

abertas á humanidade,

rompe audaz, vai submergir-se

no fulgor da Divindade.

Cessa a musica, e de novo

volve a mente ao patrio mundo;

mas dos virgineos desertos

primeiro se arroja ao fundo.

Lá divisa, em liberdade,

nas livres tranquillas horas,

dadas a cantos diversos

estas formosas cantoras.

Na sombra d'aquelles bosques,

n'aquelles molles passeios,

tambem pois das Musas entram

os aprasiveis recreios.

Olhae por fim seus aspectos,

¿Não vedes vós a bondade,

a alegria da innocencia,

as virtudes da piedade?

Eis os Genios que lhes tornam

encantadora a existencia:

as virtudes da piedade,

os praseres da innocencia.

A amisade entre ellas reina;

¿os encantos da amisade

não prestarão, por ventura,

delicias á soledade?

Mas basta, insensatos, basta;

á scena se corra o veo;

não profanem vossos olhos

mais tempo os átrios do Ceo.

Ide no mundo esquecel-as,

em vez de as irdes chorar;

e o vosso mundo vos baste,

como lhes basta um altar.

Mas esperae; respondei-me;

consultae vosso interior:

¿sois ditosos co'os sorrisos

de um falso inconstante amor?

¿Sabeis vós o que amor seja?

¿Satisfaz-se o coração

com esses fogos incertos,

e essa eterna agitação?

¿Não virá talvez um dia,

em que, mais sabios, queirais

unir os vossos destinos

á melhor d'entre as mortaes?

¿Como a haveis de achar no mundo,

no mundo, cujos enganos

vós conheceis, ajudastes,

seguistes, por tantos annos?

Tremereis de um laço eterno.

A vossa pena consiste

em pensardes que a virtude

que não tendes, não existe.

Então aqui vos espero,

n'estes quietos retiros.

Estes muros que insultaveis,

ouvirão vossos suspiros.

Entre estas virgens mimosas,

que severa educação

forma, longe dos humanos,

á sombra da solidão,

viréis procurar o objecto,

cuja ternura innocente

vos deve tornar a vida

risonha, pura, e contente.

Não detesteis um recinto,

onde Amor, onde Hymeneu,

onde um Genio, amigo vosso,

vosso thesoiro escondeu.

Pensae, pensae que ali vive,

cresce em virtude e talentos,

e em graças, aquella que ha-de

doirar os vossos momentos.

Qual arbusto delicado,

que a viçosa louçania

mostrar em seu proprio clima,

em seu proprio ceo, devia,

mas foi por mão inimiga

trazido a estranhos logares,

onde murcho cederia

a influxos de infestos ares,

se da estufa compassiva

lhe não fosse aberto o seio,

onde vegeta e floresce

de arbustos eguaes no meio;

ali não receia as neves;

não treme da tempestade;

gosa o sol; vive no mundo,

vivendo na soledade;