O presbytério da montanha
Capítulo XXI
Acobertam-se lá e ufanam-se as terras com os linhares, para o que Deus os fez: para vestido das familias, para faixas da infancia, para macío agazalho nas horas do somno ou da doença, para gala candida dos altares, e a final para curativo de feridas.
Ora, ¿que mulher de montanhez poria n'um linhar, ao alvorecer de Maio, a sua roca enfeitada, se adivinhasse que o pobre do seu linho, a cabo de tão bons serviços, poderia vir ainda a converter-se em papel para a nossa Imprensa, isto é, em pregoeiro e depositario de quanto erro, e absurdo, a ignorancia ou maldade podérem delirar, em ventilador de descredito e odios, em disseminador de todos os principios de dissolução, já moral, e já politica?! ¡Pôr-lhe ella a sua roca para benção! ella, a boa filha das serras, fêmea sincera e verdadeira, coração lavado, animo propenso em tudo para o bem! ¡Pôr-lhe ella encamisada e florída a sua roca, a sua casta e alegre companheira, a que tão santas maximas e tão formosos exemplos ouviu sempre!... Antes deitar á sementeira o fogo, ou amaldiçoal-a n'uma sexta feira ao meio dia, que vale o mesmo.
XXI
¡Que de vantagens para o ermo não são todas estas!
E no gosal-as, ¡que assumpto inexhaurivel para um engenho bem nascido!
Sim; mas, torno a dizel-o, é em distancia de espaço e tempo, e pela contraposição, que se conhecem. ¡E eu malbaratei quasi tudo isso!...
........ munera nondum
Intellecta deum!....
Havia de ser agora, depois de tão prolixo, de tão quebrantador martyrio da experiencia,
..... Oh ubi campi!
¡Como me não agarrára, com raizes mais fundas e tenazes que o meu cedro, ao chão da vida facil, innocente, e obscura! ¡Como não borbotára em hymnos o meu jubilo! ¡Como não saudára com lagrimas de gratidão a aurora, tornando a encontral-a! ¡Que não palrára com as torrentes! ¡Que noites desveladas sob o pavilhão estrellado e vastissimo da montanha!
Em vez de rebuscar (como agora me foi forçado) para esboçar este painel noticias de logares, e até de usos, tudo eu mesmo visitára com devoção de peregrino; tudo revolvêra; com tudo me identificára.
As saudades, que de lá para aqui me estão salteando, d'aqui para lá já não atinariam seu caminho; e se o atinassem alguma vez, na primeira sarça onde papeasse um ninho eu me soubera esconder, que me perdessem logo.
*
—O abdicar—dizia o Imperador Diocleciano tornado Diocles, fazendeiro e hortelão de Salona—o abdicar é o começo do viver.
¡Quantos dos que desaprenderam no regaço espinhoso da fortuna o rir, o dormir, e o comer, tudo isso recobrariam na primeira hora que empunhassem, com animo feito, uma rabiça ou um foicinho!
¡Se não ha-de ser inefavel o abdicar muito, e até imperios romanos, como elle, quando renunciar o pouco, o quasi nada, que se tem de cidade.... só de o cuidar, tanto namora a phantasia!
¡Se jamais virá tempo de eu poisar em torrão meu, debaixo de sombras minhas, a cabeça encanecida e regalada!
Uma barraca de poucas braças, mas revestida de rosas e limas, como o presbyterio. Á roda d'ella, tanto de fazenda, quanto o filhinho mais pequeno atravessasse correndo de um fôlego. Mas isto em solidão bem solidão, onde só os astros me enxergassem, só as estações me visitassem, e da banda do mundo nada me chegasse, senão o vento, já expurgado e esquecido de humanas vozes.
Tal casa, e tal quinta, ser-me-hiam mais que morgado, mais que palacio e reino: paraizo terreal, digno vestibulo de outro melhor.
Ahi me reverdecêram o coração e mais o espirito, que me elles por cá trazem tão lastimosamente desfloridos e murchos.
Por si se retingiriam os cabellos, com o franco sol remoçador de quanto existe.
A lyra interior volveria a cantar espontanea, como harpa eólia entre jasmineiros, pendente em hombral de gruta ás virações da primavera.
Ainda á farta me vingára dos tantos annos, que em tarefas ephémeras e sem gloria, posto que não sem consciencia e diligencia, se me desbarataram na galé da Imprensa periodica, ou (com mais propriedade) nas palhas d'essa doidinha, que a si mesma se venéra por soberana do Universo; doidinha com diadema de papel e sceptro de lapis.
Só me não rira d'ella, quando me lembrasse que me enguliu, com os annos que me tomou, outros tantos da minha existencia para diante; pois em cada tomo de periodico, sincera e honradamente redigido, se podia escrever este epitaphio: Aqui jaz um anno de fadiga e dois
de vida de.... Orae por elle [4] . Vendem-se ainda primogenituras por menos que prato de lentilhas.
Vingára-me (¡oh! ¡se me vingára!) de tão bons dias mallogrados; e ainda por ventura alguns livrinhos, menos maus que todos os meus precedentes, appareceriam de novo, mas sem mim, no povoado. Como Ovidio aviava os seus do desterro, aviaría eu os meus do meu eden.
Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in Urbem.
*
—¿A que vem tomar-nos tempo com a fabula pueril dos teus gostos e desejos?—dirá (e ha-de dizer) algum d'estes que sabemos, que nunca faltam, escoimadores ex-officio do alheio.
—Senhor meu,—lhe respondo eu já:—pois é por isso mesmo, de não passarem de fabula os meus gostos e desejos, que se me ha-de relevar o dar-lhes eu largas no papel.
Se eu vira agora cahir-me do ceo o meu tugurio e o meu quintal, coroados de ermo, como o Evangelista nas praias de Pathmos viu baixar do Empyrio a sua Jerusalem abraçada de muros de oiro, o tempo que n'estas palavras gasto aproveitara-o melhor, em correr para o meu refugio, beijal-o, replantal-o, aformosental-o. E em lá vindo o florído Maio, ride-vos de pagão que brindasse os seus lares com mais fé ou egual amor.
*
¡A liberdade!... ¿Onde ha hi liberdade, que nem por longe se pareça com a de um viver remançado, em casa sem numero, nem espias, ao som da Natureza, á lei da propria inclinação; sem ouvir horas que nos chamem, sem encontrar com glosadores que nos aboquem no ar acções e palavras, para nol-as tingirem de branco em preto; nem cahir nas garras de ociosos, que vos emprazarão para toda uma tarde de Junho, ou toda uma noite de Dezembro; isento da praga de utopistas e reformadores, que são a peor salada que o diabo temperou e mecheu em hora de abhorrimento; seguro, emfim, de ser pisado nas ruas por soberbias de quem vos não vale, tremulando-lhe, na botoeira do vestido, refulgente epigramma de esmalte contra meritos e virtudes; e de noite, interrompido na meditação, ou cortado no melhor do somno, pelo retroar de carroagens, que em fluxo e refluxo continuo levam e trazem, sempre a correrem para nada, pygmeus, histriões, da farça séria d'este mundo?
Se algures ficou sobre a terra a liberdade, que irmana, segura, ennobrece, e concilía os homens, na montanha encontrareis mais depressa coisa a ella parecida, do que não por estas almotaçadas metrópoles, onde se blasona que ella tem o seu templo, e n'elle as suas festas. Sempre são festas acompanhadas de vinte orgãos, a entoarem solfas diversas ao mesmo tempo: este, o Te Deum; aquelle, o De profundis; um, o Quomodo cecidit civitas plena populo; outro, o Cantemus Domino; qual, o Miseremini mei; qual, o Ecce sacerdos magnus.
Se alguma vez se incensou presente n'este orbe a Liberdade, derrubaram-n-a do seu pedestal as aguas do diluvio de Noé, quando arrojavam cada coisa para seu cabo. Ao que havia de ser cidades, ficou o pedestal razo, com o formoso nome d'ella em letras de oiro. Ao que tinha de ser ermo pertenceu, mas sem nome nem titulo, a figura quasi inteira. Aqui, pregôam-n-a; lá a disfrutam. Assim vai tudo.
*
E quando não, mettei bem por dentro a mão na consciencia; e, deixado o palavrório que não sôa muito senão por ser vazio (como tambor de foliões), dizei-me, ou dizei-o a vós mesmos: ¿Quem mais livre, que homem que desperta recobrado ao romper d'alva, por se lhe ter o somno acabado, e não porque ruins pesares lhe repiquem, ou o estremunhem alvoroto de praças, e reboliço de vizinhos, pois diante de suas janellas o que só se meneia e conversa são arvores, e por cima do seu tecto não moram senão hervas, que mal ciciam, e só recebem de visitas passarinhos ou borboletas?
¿Quem mais livre?
Acordado, encommenda a Deus o dia novo, veste o que na vespera despiu, sem ter de consultar a ventoinha do figurino, o camareiro, o cabelleireiro, o espelho, o gosto da namorada, o rol das visitas e dos convites. ¿Quem mais livre?
Talha para si, para sua mulher, para cada um de seus filhos, as occupações de todo o dia. ¿Quem mais livre?
Entre o trabalhar, que lhe grangeia forças, saude, bons somnos, pão, e para conduto um apetite desenganado, entre o trabalhar, repito, canta, ou traz o espirito a monte, a sabor de suas chyméras (que tambem as tem como qualquer outro); e é este o mais invejavel privilegio do trabalho corporal, sobre tudo do que tem por materia prima a terra: não captivar senão os braços; cavando, podando, ceifando, se podem, sem prejuiso da obra, estar armando doiradas torres no ar, ou conversar rasgado e rir com os companheiros, ou cevar em silencio a tristeza que se ama, ou a alegria que se esconde.
Este deus in nobis, unica das divindades campestres em que se pode crer, perguntae se não será para muitas invejas aos taciturnos enxames que pejam escritórios e secretarías; perguntae-o a quasi todos os que remam á consciencia o seu remo na galé baloiçosa do Estado. ¿Quem mais livre?
Posto o sol, pregoadas as treguas das lidas pelo sino das Ave-Marias, o meu rustico se recolhe, sem golilhas de seda no pescoço, para folgar entre eguaes, em quanto a ceia bem mercada se lhe acaba de coser ao lume que o aquece. Não tem de ir fazer sala a ninguem; respira a peito cheio; não ha que ciar se de mulher e filhas, que não dá a terra operas nem bailes; filhas e mulher á roda lhe serôam, tão satisfeitas como elle. Não se levanta ali jogo, que, por tentação ou falso pondonor, o obrigue a pôr n'uma carta o casal, a vergonha, e mais a vida. Não o compellem a ajudar com desatinos seus os alvitristas regedores do mundo em sêcco; nem mesmo a ouvir ler, n'uma coisa mal-cheirosa chamada periodico (especie de cogumellos da Imprensa, em que entre os não maléficos tantos ha de sapo), o artigo famoso, no qual, sem quê nem para quê, lhe levantam falsos testemunhos para entretenimento de vadios na hora do chylo. Quem não tem com que incite invejas, seguro está de vis praguentos. ¿Quem, finalmente, mais livre?
Deita-se em cama barata, mas de bons sonhos, com as janellas e portas destrancadas, sem medo a malfeitores, que, sobre não creal-os o sitio, nada reluz na poisada que os attráia.
Entretanto lhe vão caladamente amadurecendo os pães para a tulha, o vinho para a adega, o azeite e os frutos para a dispensa, a hortaliça para a panellinha de barro, as filhas para o casamento, os rapazes para lhe pagarem na velhice a divida da infancia, e elle e sua mulher para o Ceo, onde crêem de fé que os estão seus parentes esperando.
¿Então, será, ou não será, este um viver dez vezes mais livre e afortunado que o nosso? Pois não disse eu d'elle tudo que poderia, nem o direi, ainda que já talvez me hajam de arguir de prolixo, que não deixei na matéria udo nem miudo; ¡como se miudos houvera no que são condições de boa ventura!
Se n'isto me dilatei (e confesso que sim) um tanto fora do meu proposito, foi por ver se dava uma aldrabada de mansinho ao coração de alguns d'estes, que vivem na Côrte por fadario, por vezo, ou por inercia, sempre mal-contentes, pesarosos, abetumados; possuindo, ou podendo, se uma hora olhassem por si, adquirir, sem nenhuma difficuldade, o que eu, e outros taes, tão baldadamente supplicamos á fortuna: uma vivenda campestre, uma existencia natural, serena, commoda, florescente, risonha para a pessoa, dadivosa e exemplar para os visinhos, manancial de riqueza privada e publica, abonadora de bons costumes, e de afortunada descendencia; uma existencia, em summa, que, a de mais de retemperar corpo, animo, e coração, para se n'ella saborearem, até aos renunciados praseres da Cidade refina o gosto, quando por acaso, de longe a longe, e de passagem, se volve a elles.
*
Toda a gente, e os abhorridos mais que todos, deveriam ler e meditar o medicinalissimo Livro da Solidão do Doutor Zimmermann. Aprenderiam a perder-lhe o medo e ganhar-lhe amor, a embellezarem-se n'ella, a serem e a fazerem venturosos, quanto é dado havel-os n'este mundo tão instavel, tão fugidio, tão calabreado de bens e males.
O homem na sociedade é um instrumento, que se gasta e quebra servindo; na solidão é um homem. Na sociedade, é uma partícula irresistivelmente arrebatada n'um redemoinho; na solidão um todo quieto.
Puericia, edade de oiro da vida, não torna jamais por onde uma vez passou; mas na solidão se esconde ainda uma sombra d'ella; porque o homem, redimido dos cepos do mundo, e fôrro das humanas tirannias, se faz em algum modo semelhante á creança; readquire o que quer que seja da sua innocencia, da sua simplicidade, dos seus gostos, dos seus brincos.
¿Quem se lembraria de pôr um barco de cortiça (ainda que de seu natural tivesse o ousal-o) n'um tanque do Passeio publico, cercado dos fumantes do Marrare, e dos collaboradores dos periodicos? ¿quem o ousaria, mas que fosse para entreter a seus filhinhos? E no campo, uma pessoa, até só para si, faz d'isso; e mais se encanta em o fazer, que um ricaço em torrear palacios.
Em quanto dá tempo aos passaros para irem picar no cêvo das armadilhas que lhes andou dispondo, edifica á borda de um arroio uma azenha de dois palmos, com seu rodizio de canna a espadanar. Só no vêl-o voltear, respingando aljôfares pelos ares, tem entretenimento para horas.
Alevanta ao pé uns paços nobres, que se encheriam com a familia de um coelho, estira-se a espreitar para dentro da relva, como Werther e Hugo se embebem nas maravilhas d'aquellas selvas e reinos de animálculos, em que só o mancebinho muito pequeno, ou o muito grande homem, se poderiam enlevar.
¡A solidão! ¡a solidão!... provae-a, sequer, affligidos do mundo, e pregoareis d'ella o que eu me não affoito a encarecer-vos.
*
Um só achaque hei-de eu impôr á boa da solidão, á gentil namorada de Rousseau, de Petrarca, e de todos os espiritos grandiosos; e vem a ser: que, pois nos descalleja o coração, banhado nas suavidades da mãe Natureza, e para a sensibilidade nos ajunta o que do egoismo nos detrai, assim nos deixa mais expostos ao pungir de alheias penas, quando não as podemos extirpar. No ermo ressôam mais alto os gemidos, como na calada da noite se dão a ouvir mais claras as vozes.
Quizera-se, ao ver a penuria de muita casa, o escasso de muita colheita, o mal roupido de innocentinhos, o desagasalho de velhos enfermos, quizera-se ter mãos de Midas para acudir a tudo aquillo; e o coração, que não tem para dar senão suspiros, no fundo do peito se confrange todo, e se espedaça.
¡Cada uma d'aquellas curas dependeria de tão pouco! ¡sería tão festejada! ¡tantos effeitos afortunados produziria! ¡deixaria, por corôa de beneficios, tão sinceros, tão duradoiros agradecimentos!
*
Numerosas, numerosissimas, são as coisas das cidades, que d'aquellas alturas se não percebem; mas a que menos de todas se percebêra é o coração metallico dos Cresos, os seus olhos diamantinos sempre enxutos, os seus ouvidos que só vibram ao som do oiro. Possuem a omnipotencia terrestre, e ferrolham-n-a a sete chaves. Podiam ser adorados como deuses propicios, c Numerosas, numerosissimas, são as coisas das cidades, que d'aquellas alturas se não percebem; mas a que menos de todas se percebêra é o coração metallico dos Cresos, os seus olhos diamantinos sempre enxutos, os seus ouvidos que só vibram ao som do oiro. Possuem a omnipotencia terrestre, e ferrolham-n-a a sete chaves. Podiam ser adorados como deuses propicios, conquistar a unica invejavel gloria, emendando os erros da fortuna, espargindo felicidade, e felicidade enthesoirando.