O presbytério da montanha

António Feliciano de Castilho · Capítulo 46 de 78

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O presbytério da montanha

(Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho)

 

Era a noite dos finados;

sombria noite de outono.

Entre sinos acordados

lá jaz Roma entregue ao sono;

seus luzeiros apagados.

Do ceo pelo rôto manto

só brilham frouxas estrellas;

sai a custo o clarão santo

dos templos pelas janellas;

e Petrarcha vela emtanto.

Véla Petrarcha, e suspira

no leito amoroso e ermo;

olhos na véla que expira;

saudades no peito enfermo;

nem gloria sonha, nem lyra.

Qual raio sôlto de lua

por móveis aguas vibrada

n'um bosque inteiro flutúa,

tal adeja no passado

a saudosa mente sua.

¿Quem dirá seus pensamentos?

a douta lingua está muda.

¡Que paixões, que sentimentos,

no rosto, que aspeitos muda,

veem transluzir por momentos!

Ora é dor, ora é sorriso,

esperança, amor, transporte;

queixas, ternuras diviso;