O presbytério da montanha

António Feliciano de Castilho · Capítulo 17 de 78

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O presbytério da montanha

Capítulo XIV

Por isso tambem, a saude, o vigor, e a energia, se manteem, e se transmittem de paes a filhos, juntamente com a harmonia e serenidade dos casaes.

 

XIV

 

Dos amores vinhamos falando; falemos do que em outros sitios lhes serve de sepulcro, mas não lá; falemos do casamento.

 

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Os casamentos não são nunca determinados por considerações de haveres ou de jerarchia. O cálculo rala pouco os pensamentos d'estas gentes, acostumadas a viver com pouco, e a confiar muito na Providencia. As palavras dote e escrituras apenas seriam entendidas.

Como um dos dois namorados chega, a poder de fortuna, ou de trabalho e economia, a ajuntar para uma cama de roupa, uma teia de estôpa, outra de linho, uma peça de burel, dois escabellos e uma banca de pinho, uma panella e dois pratos, uma candeia de folha, um bácoro, seis alqueires de milho, e outros tantos de centeio, tem agarrado as melenas da fortuna, e trata logo de a jungir com o hymeneu ao carro do Amor.

O noivo dá á sua futura um presente, o qual, pelo commum, consta de um anel, meias, e sapatos; e a noiva ao seu futuro uma camisa para o dia grande.

Mal que este desponta, vê já de pé os dois afortunados, garridos e bizarros com o seu aceio dos domingos: ella, sobretudo, flammante como uma Imagem, com arrecadas, cordões, e alfinetes sobre lenço de seda, mantilha lustrosa, ou chapeo de feltro novo com enfeites.

As que para tanto não teem guarda-roupa, teem amigas e visinhas,

que de boa-mente lhes acodem, cada uma com o seu melhorado, convencidas como estão (especialmente as solteiras) de que alguma coisa da benção matrimonial poderá vir apegada aos diches e galas que figuraram no apertar das mãos.

Muitas noivas, crentes na sabedoria de suas avós, se preparam de vespera para este acto, banhando-se em agua de alecrim, que sendo florído tem mais efficácia, e mettendo antes de adormecer debaixo do travesseiro (suppondo que em tal noite se possa adormecer) uma roca e um fuzo bem liados entre si, e recobertos com alguns arméos de linho e lan; no que, vai grande condão de conformidade de animos, perfeição de ajuntamento, e dura do bem-querer; com tanto que o mesmo fuzo e roca, assim maridados, não faltem debaixo do mesmo travesseiro na primeira noite do consorcio.

O pretendente, com os seus apaniguados, espera já á porta da noiva a sua sahida. Esta apparece emfim, como uma aurora da serra, incendida de pejo, e orvalhada com as lagrimas da mãe; e segue com o rancho, a pé, caminho da egreja, levando ás costas as bençãos do pae, em que ainda por lá se crê, a turbação no seio, e nos ouvidos os votos e resas de bom agoiro, recitadas com fé por alguma velha mais sabida.

A egreja está já á sua espera aberta, juncada de espadana, com o altar enflorado de fresco, e a alampada atiçada.

A ceremonia tem ali o que quer que seja de tocante, de mais bom que nas cidades. Em quanto o Pastor, a quem todas suas ovelhas amam, e que a todas as sauda por seus nomes, profere as palavras rituaes do sacramento, ou improvisa apóz ellas um affectuoso discurso sobre os deveres mutuos e a felicidade dos casados, o silencio profundo do templo não é interrompido com pregões de vendedores, rodar de seges, marchas de tropa, brados de mendigos, assobios de rapazes, martellar de artifices, zabumbas de arlequins.

Nenhum d'esses disparatados sons, discorde symphonia das cidades, vai profanar a mystica poesia d'aquellas reminiscencias patriarchaes, e afugentar as evocadas memorias de Lia, de Rachel, e de Rebecca.

O que unicamente chega lá de fóra, é o chilrar de algum passaro sobre alguma cerejeira do adro, o amoroso carpir de alguma rôla na matta de S. Sebastião, ou a voz de algum lavrador estimulando os bois perguiçosos no trabalho do passal; tudo fragmentos e despertadores das alegrias da Natureza, ou dos innocentes e primitivos exercicios da progénie de Adão.

Não sei como isto diga: mas parece-me que assim se casa com mais clara e muito mais formosa benção.

 

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É um dia solemne da vida aquelle, em que duas almas votam a Deus não ser mais que uma, fazer de duas vidas uma vida, de dois nomes um só nome, como de duas metades distinctas se forma um todo inseparavel.

É um dia, sem duvida, para quem bem o pondéra, solemnissimo, e que, por isso mesmo, se deveria por todos os modos pintar com indeléveis e suaves tintas na memoria, para que a sua imagem no meio das tentações podesse acudir como Santelmo resplandecente no meio das tempestades.

Quem se recordar de que proferiu o seu voto, e escutou com jubilo outro egual, onde tudo era pacifico e risonho, onde nenhumas congéries de obras humanas encobriam as maravilhas da Mão Divina, onde com o sol entravam sombras de arvores, e descantes de aves livres, e fragrancias naturaes com as virações, quem, repito, de tudo isto se recordar, ha-de-lhe parecer que Deus percebeu melhor as suas palavras; ha-de alguma vez devanear em si (mas que o não diga) que bem poderia ser que alguns Anjos estivessem ali, em tão donoso tabernáculo, a bafejar a prisão de seda e oiro, que para sempre unia o homem e a mulher...

 

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Desde que saem da egreja, por baixo de um repique de sinos alvoroçados, e por entre os parabens e vivas dos assistentes, encontram, começando logo no adro, de praso a praso, por toda a extensão do caminho até á casa, arcos, engenhados á pressa, de loiro, ramos de pinheiro, oliveira, roble, canas verdes, e quantas hervas e plantas bravas menos espinhosas ou mais floridas brota o monte.

Ao-pé de cada arco, sobre um tamborete coberto com a sua toalha, e ladeado de duas cadeiras para a heroina e heroe da festa, estão, postos de antemão pelos muchachinhos que formam a primeira frente do préstito triumphal, um prato de bolos, e frutos verdes ou sêccos para quem os quizer tomar; outro vazio, para a gratificação voluntaria, que ninguem deixa de lhe lançar.

Entre estes arcos alguns ha, de maior pompa, e industria mais esmerada; foram esses prevenidos pelos padrinhos, ou pelas proprias familias de seus afilhados. Nos primeiros rescendem sobre urna meza dois ramalhetes naturaes, que enchem uma salva ou prato grande, e que os mesmos padrinhos offerecem, com palavras de sincero affecto o mais bem concertadas que podem, um á moça, outro ao mancebo; os quaes, logo a diante, de ordinario entre si os trocam; e junto á salva dos ramalhetes se vê um abundante refresco de bebida e comida para todo o acompanhamento, sendo o acepipe obrigado ás filhós de mel.

Em cada uma d'estas estações chove de todas as partes a saraivada dos confeitos; bebe-se á saúde dos «bem empregados» e «de quem d'ahi a nove mezes ha-de vir.»

 

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O jantar d'este dia é copioso e demorado, com tantos convivas quantos admitte a sala; e as portas abertas; e os copos e as boas vontades prestes para quem se quizer apresentar.

Entre a madrinha e o padrinho ficam assentados, na cabeceira da meza, e o mais proximo que se pode, o desposado e a desposada. Primeiro disse «o desposado» (contra a regra do nosso falar galanteador), porque o logar da direita se lhe dá a elle. A dignidade varonil em nenhum lance esquece entre aquellas gentes primitivas.

N'um d'estes banquetes, a que assisti, comiam ambos no mesmo prato, e com um só talher, e bebiam pelo mesmo copo; o que, não obstante fazer durar a refeição dobrado tempo, não deixava de ter graça pelo seu bonissimo sentido, que não podia ser outro senão representar a communidade e harmonia intima, em que esperavam e professavam de viver.

 

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