O presbytério da montanha
Capítulo XV
Á noite ha saráu rasgado, com concerto de violas, rabecas, e ferrinhos, dando se a rôdo comer e beber aos tangedores.
Em quanto dançam, algumas moças donzellas se furtam subtilmente á companhia, para irem enfeitar de flores o leito nupcial, desfolhar entre os lençoes rosas de cheiro (se a estação as dá), e guarnecer a roca e fuzo symbolicos de amores perfeitos.
Tudo isto vai ligeiro; e quando o gallo, unico relogio da terra, grita da quinta que é meia-noite, ha já muito que os obsequiadores bondosos teem deixado a casa em socego e liberdade. Horas de calmaria de certo suavissimas, apóz um dia todo por fora e por dentro tão festejado e tão revôlto.....
XV
O nascer de cada filho é uma festa.
Como teem robusta fé na Providencia, crêem (e mostra a experiencia que se não enganam), crêem e repetem, que filhos ainda em casa pobre são riqueza; que por taes penhores se obriga Deus, que é o Pae commum, a lhes acudir com mais larga mão; e que a meza, por ter mais Anjinhos ao pé de si, se não ha-de fazer mais escaça, se não medrar á proporção de tão bons hóspedes.
E em verdade: se a descendencia nas cidades é tantas vezes um onus, um sorvedoiro, e um terror; se tão commummente se ouvem mães e paes deploral-a como castigo e praga; lá na serra, onde ha trabalho proporcionado a cada edade, lá na serra, onde, como em enxame bem regido, todos os consumidores são productores; lá, onde só são necessidades as necessidades, e onde, em fim, os paes são os mestres, o exemplo lição, a laboriosidade e sobriedade herança; ninguem se atormenta sorteando na phantasia empregos ou futuros novos para a sua progénie. Lá os filhos são rebentões, que alegram, remoçam, e espécarão a seu tempo a velhice decadente de quem lhes deu o ser, seiba, e sombra.
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Vinda a lume a creanca, entre um côro de mulheres experimentadas em taes lances, que supprem a falta de parteiras e doutores, tem-se já prompta a canastra que lhe ha-de servir de berço.
Por todos os oito dias e noites que precedem ao Baptismo, é escrupulosamente velada, para que não venham bruxas malfazejas a chuchal-a. Para esse fim se mantém de sol a sol candeia bem experta; e ao clarão d'ella, com os olhos fitos no innocente, e quasi sempre em pé para que as não tome o somno, se revezam a uma e uma, fiando na roca, as amigas da casa.
Algumas sabem versos muitos bons contra maleficios, que vão entoando com a sua cantilena propria, em quanto com a ponta do pé embalam brandamente o bercinho. Algumas folhas de oliveira ou palma, que figuraram no altar em Domingo de Ramos, queimadas n'esta occasião, diz-se que tambem provam muito bem, assim como seus borrifos de agua benta pelas portas e janellas.
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Não sei eu, se todos acham n'estas reliquias vivas de romanas crenças a graça, a fragrancia poetica, o saudoso de innocente boa-fé, que lhes eu sinto.
¡Cuidar que ainda agora as mulherinhas de uma serra nossa, e tão christan como ella é, praticam o mesmo que os legionários romanos provavelmente ensinaram a nossas avós ha mil annos, e mais, pelo terem visto fazer nas aldeias da sua terra a suas mães e mulheres! ¡Cuidar que estamos vendo, com pequena degeneração, o que o mais rico poeta da Antiguidade se deliciou em cantar das crenças da sua gente! E se não, oiçâmol-o, e julgareis:
Negreja ao réz do Tibre annoso Helerno,
santo bosque, onde levam sacrificios
inda agora os Pontífices romanos.
Ali nasceu outr'ora, ali vivia
a que nossos avós chamavam Grane,
casta Nympha, de excelsos pretensores
pedida vezes mil e em vão pedida.
Era seu exercicio errar nos campos,
as feras perseguir com dardo agudo,
e as redes emboscar nos fundos valles.
Inda que aljava ao lado não trouxesse,
criam-n-a irman de Phebo; o parentesco
não poderia, ó Phebo, envergonhar-te.
Quando algum namorado a requestava,
tinha prompta a resposta.—«Aqui,—dizia— ha nímia luz, e a luz dobra a vergonha...
Se preferes entrar n'aquella gruta,
sigo-te.»—Á gruta o crédulo voava;
ella torcia o passo, ia á carreira
das moitas na espessura homisiar-se;
d'ali desencantal-a era impossivel.
Viu-a Jano, e de a ver ficou perdido;
combateu lhe o rigor com brandos rogos, e a sólita resposta obteve em prémio:
que entrasse além na gruta. Obedeceu-lhe; segue-o a principio a Nympha... eis pára... eis foge. O que lhe fica apóz vê Jano. Ó louca,
no usado esconderijo em vão confias;
olha como t'o observa, e t'o devassa.
Não ha que resistir-lhe... eis-te em seus braços; eil-o comtigo a sós na cava penha,
onde havias buscado o teu refugio.
Saciados os sôffregos desejos,
—«Em paga d'este goso—exclama o Nume— dos quícios a tutella eu te confio;
pela honra perdida esta conserva.»
Assim falando, candida varinha
lhe entrega, com que os tétricos asares
das protegidas portas afugente.
Existem de brutal voracidade
umas infames aves; não já essas
que de Phineu a meza espoliavam,
mas da mesma relé: cabeça grande,
fito olhar, bico audaz, grizalhas plumas,
garra adunca; esvoaçam pela noite;
onde encontram creança ao desamparo,
que a ama deixou só, prestes a empólgam, arrancam-n-a do berço, e a dilaceram.
Diz que as lactentes vísceras co'os róstros lhes picam, lhes devoram; teem as fauces sempre repletas de sorvido sangue.
Do estridor com que as trevas alvorótam, lhes vem o nome: estriges se nomeiam.
Estas pois, quer de si nascessem aves,
quer em aves, de velhas que antes foram, fatal conjuro marso as encantasse,
penetraram de Proca no aposento.
Com cinco soes de edade, o innocentinho
era ao bando ferino egregio pasto.
Já co'as gulosas linguas ferem, sugam
o tenro peito nu; sôam do infante
os consternados trémulos vagidos,
com que, á falta de voz, auxilio pede.
Corre a ama assustada; acha nas faces
do caro alumno seu lavado em sangue
das brutas garras os crueis vestigios.
¿Que fará? vê-lhe o rosto exangue, murcho, que na côr arremeda as tardas folhas
já do rígido inverno bafejadas.
Corre a Grane; o successo lhe relata.
—«Cobra valor—a Nympha lhe responde;— viverá teu alumno.»
Entrada ao berço,
acha a mãe, acha o pae, sôltos em pranto.
—«Eis-me; enxugae as lágrimas—exclama;—
vou tornar-vol-o são.» Diz, e tres vezes
de medronheiro com frondosa vara
fere da estancia as portas; outras tantas
co'a mesma vara o limiar sinála;
rega o ádito; as aguas com que o rega
encerram salutifera mistura.
Entranhas cruas de bimestre porca
toma nas mãos, e diz:
—«Aves da noite,
í-vos, deixae as puerís entranhas.
N'esta pequena victima tenrinha
o tenro pequenino aqui resgato;
é coração por coração; tomae-o;
por visceras são visceras; redima
esta existencia immunda outra mais nobre.»
Finda a sacra oblação, corta o deventre,
e esmiunçado o vai pôr aos ares livres,
prohibindo do rito ás testemunhas
olhal-a então ninguem; por fim colloca