O presbytério da montanha

António Feliciano de Castilho · Capítulo 58 de 78

Páginas do PDF

O presbytério da montanha

Capítulo X

Muita virgem no monte solitario

tentada pelo amor e pelo amante,

só com ver a capella ha-de livrar-se,

e pela salva flor dar lhe-ha mil flores.

E quando aqui errantes missionarios

vierem dar, e á sombra dos carvalhos,

as turbas apinhadas instruirem,

¡que persuasões, que lagrimas, que exemplos hão-de tirar da veneranda Imagem!....

 

*

¡Qual me ri já na mente o grão projecto!

Eu serei pois o fundador de um culto

que aos frutos da moral reuna flores.

im; ¿quem tolhe o prazer puro e innocente? .............................................................

 

X

 

Partiram. E eis-me só. Todos partiram.

O alvoroço do entrudo os chama aos lares. ¡Oh! ¡Bemdita a ignorancia d'estas serras! O rustico inda ri na Patria em luto,

e eu finjo o riso por dobrar-lhe o erro.

¡Bem sabe elle que lagrimas aos mares

d'este horizonte em roda estão correndo! ¿Sabe elle que o atro dia é menos atro?

A paz, a confiança, as alegrias,

a abundancia, a união de antigos Lusos,

não deixaram, fugindo, um só vestigio.

No vaivem das facções, que se entrevencem,

tudo se perde e esquece, afora a raiva.

Os bons usos, as festas populares,

a romaria alegre, as patrias danças,

vão-se apagando... Aqui, mesmo na brenha, a pastora, esquecendo os seus amores,

canta a questão dos Reis, o hymno da guerra, sons novos, que o seu gado e o ecco extranham.

 

*

Ó Patria, bella Italia do Occidente,

tu que egual a Parthénope repoisas

debaixo da invejada laranjeira

e do mirto florido, ao deleitoso

ruido de aguas limpidas, no abri

de um ceo inspirador tão proprio ao genio, ó bella Italia do Occidente, ó Patria,

¿era pois fado teu lidar sem fruto

para seres a inveja, a flor das gentes?....

A guerra, sim, te coroou co'as palmas

das quatro partes do orbe, e as naus do mundo trouxeram a teus pés thesoiros, sceptros. Mas as flores das artes, mas os frutos

das sciencias, no chão dos outros povos

com tanto custo e com suor medrados,

¿espontâneos no teu medraram nunca?... ¿Tiveste nunca os dons, que em paz florentes ornam e absolvem da conquista os loiros? ¡Que imperios teem cahido! e tu, tu ousas, hoje ainda, aspirar á eternidade!!...

Talvez bem perto os seculos se cheguem, que hão-de ver cego arado andar lavrando tuas cidades de esquecido nome,

e o rebanho indiff'rente apascentar-se

sobre os teus tribunaes, theatros, praças.